A abordagem da corrupção e da política brasileira nas duas temporadas de “O mecanismo”

VICTOR PICCHI GANDIN – Estreou neste mês a segunda temporada da produção original da Netflix “O mecanismo”, série livremente inspirada nas investigações da Operação Lava-Jato e em acontecimentos recentes da política brasileira.

A série se notabilizou por mencionar instituições, políticos e empresas brasileiras com nomes trocados, de maneira que tais referências continuassem nítidas. Por outro lado, os partidos PT, PMDB e PSDB, protagonistas da política brasileira desde a redemocratização, ficam de fora dos “trocadilhos” e foram mencionados diretamente ao longo do roteiro.

No total, foram gravados oito episódios na primeira temporada e outros oito na segunda. Uma característica que agregou na segunda temporada foi sua abertura. Em vez de uma trilha instrumental de suspense, a regravação da música “Reunião de Bacana” (“se gritar pega ladrão“) (Ary do Cavaco / Bebeto Di São João) trouxe para a série ares bem mais peculiares, encaixando bem em seu contexto. No vídeo da abertura são mostradas imagens de políticos de vários partidos, com rostos censurados (por razões óbvias), mostrando que a corrupção no Brasil “não tem cara”.

A segunda temporada também parece ter englobado mais “sub-tramas” ficionais, que se juntam ao roteiro principal. Foram explorados romances entre personagens, a morte de um deles (Guilhome, no momento mais trágico da segunda temporada), e até mesmo o contrabando de cigarros no Paraguai. Apesar de não comporem o enredo principal, tais cenas deram ação e agilidade à série. Enrique Díaz, no papel de Roberto Ibrahim, sem dúvida foi um dos atores que mais se destacaram por sua interpretação.

Há pouco mais de um ano, a primeira temporada causou polêmica quando a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) afirmou que um dos criadores e diretores da série, José Padilha, seria um “criador de notícias falsas“. Segundo Dilma, “O mecanismo” teria fugido de seu “propósito de contar a história da Lava Jato numa série baseada em fatos reais“.

Através do Twitter, Dilma publicou uma montagem com o logotipo da série adicionado da frase “O Mecanismo [de Fake News]”. Na legenda, a ex-presidente dizia que “agora a mentira ganha as telinhas de tevê“. Dilma defendeu que a série teria propagado “uma visão distorcida da história“, com intenção de atacar políticos como ela e Lula (PT).

A principal reclamação de Dilma foi sobre a frase “estancar a sangria” (expressão utilizada em 2016 por Romero Jucá, quando sugeriu que uma “mudança” no governo federal resultaria num “grande acordo nacional” que permitiria barrar investigações em curso). Na série, a fase foi pronunciada por Gino (alusão ao ex-presidente Lula), numa clara distorção de autorias. Desde o início da primeira temporada, porém, há o alerta de que a produção mistura elementos da realidade com outros ficcionais. No começo de cada episódio, há o aviso “Este programa é uma obra de ficção inspirada livremente em eventos reais. Personagens, situações e outros elementos foram adaptados para efeito dramático”.

Padilha chegou a afirmar que “os fatos estão dramatizados” e “se a Dilma soubesse ler, não estaríamos com esse problema“. O cineasta ainda provocou: “se a principal reclamação é o uso desta expressão, pode-se imaginar que o público petista está achando difícil negar todo o resto. Nada a dizer quanto aos roubos e desvios de verba públicas praticados por Higino e Thames com os empreiteiros? Hummm… Interessante“.

Tais acontecimentos originaram uma campanha de boicote à Netflix, devido à abordagem que “O mecanismo” fez sobre eventos da Operação Lava Jato. Comentaristas de filmes e séries chegaram a cessar comentários sobre qualquer produção da plataforma e alguns assinantes cancelaram o serviço.

Por estas razões, a primeira temporada da série passou a ser acompanhada de perto por admiradores da Operação Lava Jato e constantemente recebeu críticas de eleitores que se situam à esquerda do espectro político e elogios daqueles situados à direita.

Até mesmo o presidente Jair Bolsonaro (PSL), quando em campanha eleitoral em 2018, aproveitou-se da repercussão desta produção para criar uma inserção (propaganda eleitoral gratuita de um minuto divulgada durante intervalos comerciais na televisão). A peça endossou as críticas feitas pela série e manteve Bolsonaro de fora, apresentado como aquele que romperia o “mecanismo” e daria “um fim nisso” (assista): “O mecanismo corrupto que comanda o país há 30 anos nunca esteve tão perto de ser derrubado. E quanto mais perto chegamos, mais eles ficam desesperados“.

Na segunda temporada, porém, Padilha parece tentar se reconciliar com Dilma e com a parcela de espectadores que não endossou a abordagem anterior. Os novos episódios expõem abusos da investigação como coletas de provas sem autorização e divulgação irregular de grampo quando da tentativa de nomeação do ex-presidente “Gino” como ministro. Desta vez, o resultado do roteiro deve ter agradado Dilma, que é retratada na série, talvez com certo exagero, como se fosse ingênua e não soubesse dos esquemas de corrupção realmente grandes ocorridos em seu entorno e durante seu governo.

O processo de impeachment de Dilma foi retratado na segunda temporada como uma articulação entre políticos que ainda estavam na base do governo e políticos da oposição. Personagens em alusão a Michel Temer (MDB), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Cunha (MDB) organizam constantes reuniões na tentativa de definir uma estratégia para derrubar a presidente eleita, inclusive combinando a portas fechadas, antes de qualquer julgamento, qual seria o motivo que permitiria seu afastamento. Segundo o personagem Ruffo, durante uma narração, “a justificativa do pedido de impeachment era absurda, mas o motivo era claro: o PT e o PMDB tinham roubado juntos; agora estavam em guerra“.

Penha, o presidente da Câmara dos Deputados do seriado, afirma que “não dá pra pedir impeachment embasado em corrupção, esse argumento é muito fraco. Corrupto não condena corrupto por corrução“.  Os políticos então se articulam tentando descobrir “o que é que ela faz que a gente não faz“. Thames (Temer), então vice, chega com a resposta: “pedaladas fiscais”, e o processo definido entre eles começa.

Gino (Lula) é retratado na série com uma imagem muito boa, vítima de investigações em curso que viriam por favorecer aqueles que desejavam a queda de Janete (Dilma). Vander, em conversa particular e não durante seu trabalho, afirma que “o que o Gino fez por esse país ninguém nunca tinha feito“. É visível que Vander e Verena, apesar de cumprirem o trabalho que lhes foi ordenado, realizaram a condução coercitiva de Gino a contragosto, sentindo-se até culpados e arrependidos pela ação.

Segundo análise de Ruffo sobre o que estava acontecendo, “não adiantava derrubar a Janete e deixar o Gino livre, então atacaram o Gino e Janete ao mesmo tempo“. Conforme Penha, com a imagem negativa do PT seria mais fácil trocar o comando do Governo Federal. Porém, tal queda de popularidade não se estenderia a Lula, que “parece fermento“. Lúcio (Aécio) sugere “transformar o Gino em vilão“, tarefa que para ser concluída necessitaria “de um super-herói”. “Está na hora do juiz sair na capa da revista“, conclui o ex-presidenciável.

Esta visão de Rigo (Moro) como “super-herói” por parte de uma parcela da população parece ter sido exatamente a imagem que a primeira temporada da série quis passar. Porém, isso mudou na segunda temporada. Este personagem deixou de ser tratado como “herói” e “O mecanismo” passou a criticar alguns de seus procedimentos, destacando que Rigo conheceu a fama, passou a pautar seu comportamento pela opinião pública e se interessou em adentrar na política, apesar de negar isto (na série, o juiz diz à sua filha que nunca gostaria de ser um político).

“O mecanismo” teve o cuidado de mostrar que, apesar de querido por grande parte da população, as atitudes de Rigo não agradavam outra parcela. Cenas da série enfatizaram que haviam manifestações favoráveis à prisão de Gino e ao impeachment de Janete, mas também aquelas contrárias a estas mesmas pautas. “O país está dividido“, resumiu Ruffo.

Também foram feitas críticas à mídia (“sempre esteve do nosso lado” / “segundo ela, todos os problemas do Brasil são culpa do Gino e do partido dele“), ao Supremo Tribunal Federal (pelo qual até o termo “quadrilha” foi indiretamente utilizado) e a outras instituições, que contribuiriam para o “mecanismo” continuar funcionando.

Na segunda temporada, as tiras de papel recortado deram lugar às cartas de baralho nas explicações figurativas (bem óbvias) sobre o funcionamento da corrupção no Brasil. “Mudava o naipe, mas o jogo era sempre o mesmo“, afirma Ruffo.

A série teve o cuidado de não reduzir o “mecanismo” e os escândalos de corrupção do Brasil à sua recente fase democrática, iniciada após o fim da ditadura militar. Para delimitar sua abordagem e ao mesmo tempo não ignorar casos do passado, a saída do roteiro foi o personagem Guilhome ter “organizado os casos de corrupção numa linha temporal, representando a nossa bandalheira do ponto de vista histórico“. Desta maneira, é afirmado que, apesar de não entrarem no escopo de investigação dos personagens atuais, também houve corrupção no regime anterior, reforçando a ideia do “mecanismo” que circunda a história política do Brasil.

Na série, o ex-presidente Temer é chamado de “vampirão” e seu partido é considerado “a base dessa porra toda desde sempre” (a partir da redemocratização). Apesar da abordagem favorável à imagem de Lula e até mesmo à de Dilma, o seriado não poupou críticas: “O PT, que tinha representado a esperança, formou quadrilha com o PMDB e traiu a população“, reflete um personagem. Fala de Ruffo ainda menciona que a esquerda “ignorava o fato de que eles haviam votado no Thames“.

Por fim, no oitavo e último episódio são feitas críticas ao atual momento político vivido pelo Brasil. Segundo Ruffo, “o povo está achando que prender só o Gino resolve a corrupção, mas o buraco é mais embaixo“. “A opção do PT matou a esquerda, e com a direita fisiológica e desonesta entrando na mira da Lava Jato formou-se um vazio bem perigoso, um vazio que poderia ser preenchido pelas forças repressivas de um passado não muito distante“, reflete.

Neste momento, aparece um deputado votando na sessão do impeachment. O deputado não foi mencionado nominalmente (nos créditos aparece como Deputado #1A votação), mas por suas falas claramente trata-se de uma referência ao atual presidente Jair Bolsonaro. Até mesmo o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” foi proferido durante seu voto na série. O ator que fez o então deputado ficou conhecido por dublar personagens como He-Man e Pica-Pau. Apesar da pequena ponta como ator, fica no ar a impressão de que Garcia Júnior, o “Bolsonaro”, pode vir a estrelar uma terceira temporada de “O Mecanismo”. Tomara.

Se por um lado a primeira temporada havia desagradado eleitores de esquerda, a segunda temporada desagradou eleitores de direita. Não se sabe se a mudança de abordagem se deu devido às críticas anteriormente recebidas, porém, uma coisa é fato: apesar de criticado por ambos os lados, o diretor José Padilha ressaltou que a corrupção é sistêmica no Brasil, não tem partido e não é restrita a um governo ou a uma instituição específica. Concordando ou não com a abordagem feita, vale a pena assistir a série e refletir sobre a política brasileira. Trata-se de um bom registro no plano ficcional de algo que infelizmente sempre ocorreu em nossa realidade, a corrupção.

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