Contra Márcio França, João Doria tenta reproduzir em São Paulo a polarização da política nacional

VICTOR PICCHI GANDIN – O candidato a governador João Doria (PSDB) recebeu 31,77% dos votos válidos no primeiro turno da eleição para governador em São Paulo. A segunda vaga foi disputada voto-a-voto entre Márcio França (PSB) e Paulo Skaf (MDB). Com pequena vantagem sobre o terceiro colocado, França passou para o segundo turno ao obter 21,53% dos votos válidos. Antes mesmo do final da apuração, Doria deu o tom de qual seria a direção de sua campanha no segundo turno. Em discurso, chamou Márcio França de “Márcio Cuba”, “genérico do PT” e disse que sua motivação para ter saído do setor privado foi “combater o PT, o esquerdismo”. Na ocasião, afirmou também seu desejo de ter o apoio de Paulo Skaf (MDB), que optou por apoiar França, retribuindo o suporte dado pelo PSB à sua primeira candidatura a governador, ocorrida em 2010.

Ao mesmo tempo em que se colocava contra o “petismo” em São Paulo, João Doria procurou de todas as maneiras associar sua imagem à de Jair Bolsonaro (PSL). Gestos nesta direção foram feitos ainda no final do primeiro turno, quando o PSDB teve Geraldo Alckmin como candidato a presidente. Observando o fraco desempenho de seu correligionário e o maior sucesso eleitoral do militar, Doria novamente se afastou daquele que o fez entrar para a vida pública, sendo posteriormente chamado por ele de “traidor”. O apoio de Doria a Bolsonaro, como bem notou Major Olímpio (PSL/SP), é mero “oportunismo”. Um dos principais representantes de Bolsonaro, o senador eleito declarou apoio a Márcio França no segundo turno. No começo do mês, já havia afirmado que “bolsonaristas não votam em Doria”. Doria chegou a viajar para coletar um depoimento ao lado do presidenciável e foi ignorado.

As mesmas razões que fizeram João Doria sair da Prefeitura de São Paulo após pouco mais de um ano de mandato se fazem presentes no segundo turno desta disputa para o Governo. O candidato quer se eleger a postos maiores a qualquer custo, ainda que para isto tenha que desrespeitar aliados e abraçar adversários que possam lhe trazer maiores chances eleitorais. Visando incrementos mais rápidos em seus percentuais de votos, Doria calculou que deve seguir o desejo da maioria do eleitorado. Portanto, como Bolsonaro foi o candidato mais votado no primeiro turno, mudou de opinião em relação a ele e passou a exaltá-lo para agregar votos de seus eleitores. Ao mesmo tempo, observando o forte sentimento antipetista presente no país, Doria passou a associar qualquer elemento da esquerda a este partido específico, o PT, ao qual se posiciona radicalmente contra.

Em seu primeiro programa no horário eleitoral do segundo turno, Doria afirmou: “Quando soube que ele, Márcio França, ia ser candidato a governador, eu perguntei: e o nosso Estado? Vai ficar nas mãos de quem? Do Márcio França? Aí eu vi que as coisas não poderiam ficar assim”. Em uma inserção de 30 segundos, resumiu: “Quero ser governador para junto com você defender o nosso Estado da esquerda”. O candidato colocou o Estado de São Paulo num campo de batalha, afirmando que “o que está em jogo agora são duas formas de pensar e agir completamente diferentes”. Isso justificaria sua saída da prefeitura: Doria precisou se candidatar a outra coisa para evitar que a esquerda saísse vitoriosa em algo. Como se estivéssemos nos anos 1950 ou 1960, recorreu a uma inexistente “ameaça comunista”, da qual somente ele pode superar, e adotou o slogan “Defenda São Paulo”.

Defendendo também a “cor azul”, Doria passou a apresentar de forma dúbia posições do PSB, o “vermelho”. Em inserções, pescou elementos do partido e os apresentou como se fossem posições pessoais de Márcio França. Forçando a barra, afirmou que em 1994 o partido esteve coligado com o PT em São Paulo. Nesta época, o contexto era outro, conhecido por alianças ideologicamente mais consistentes entre partidos de esquerda, a nível nacional e estadual. Foi neste ano também que o PSDB começou seu domínio de mais de duas décadas no governo do Estado de São Paulo.

A peça de Doria também lembrou que Márcio França “coordenou a campanha do Garotinho, preso pela Polícia Federal”. Garotinho foi candidato a presidente pelo PSB em 2002, muitos anos antes de passar por outras legendas e apenas recentemente ser preso, quando não tinha mais relações com este partido. Outra coisa que teria manchado a trajetória de Márcio França, segundo a propaganda de Doria, foi o fato dele ter sido “cotado para ser Ministro da Dilma”, ao ter seu nome como parte de uma mera sugestão. A inserção também revela que França “apoiou Fernando Haddad (PT) para prefeito”. Isto ocorreu em 2012, ano da primeira eleição de Haddad. Quatro anos depois, França coordenou a campanha do próprio Doria, que rasgou elogios a ele e ao PSB. Isto, porém, foi ignorado pela campanha do tucano.

Apesar de conquistar a parte mais radicalizada do eleitorado, a estratégia de Doria não se sustenta. Em primeiro lugar, o PT não representa toda a esquerda. É apenas um partido, que não resume um campo do espectro ideológico. Políticos do PSB, do PDT, do PSOL, do PCO, e assim por diante, tem diversas diferenças entre si e não são petistas. Petistas são aqueles filiados ao Partido dos Trabalhadores. Em segundo lugar, Doria deixou claro (sobretudo no debate realizado no dia 18/10 na Band) que seu governo terá portas fechadas para qualquer político, partido ou movimento que tenha mínima associação com a esquerda. Com esta posição, Doria exclui parte considerável do eleitorado paulista e os milhões de votos a que estes têm direito. Em terceiro lugar, Márcio França se encontra na posição de governador justamente por ter sido vice de Geraldo Alckmin (PSDB). Antes de ser governador, sua trajetória foi marcada por aspectos contrários ao PT.

Em 1996, após dois mandatos como vereador, Márcio França candidatou-se a prefeito de São Vicente/SP. O município contou com cinco candidatos, sendo um do PSB, um do PTB, um do PT, um do PMDB e um do PMN. Portanto, França não apoiou nem foi apoiado pelo Partido dos Trabalhadores, que nesta eleição apresentou como adversário a Márcio França o candidato Irineu Prado Bertozzo. Em 2000, França reelegeu-se prefeito com 93,01% dos votos válidos. Seu único concorrente, Sérgio Martins de Assis, candidatou-se pelo PT, que teve apoio de outros dois partidos de esquerda (PCB e PMN). Portanto, novamente França não foi apoiado nem recebeu apoio do Partido dos Trabalhadores. O atual governador de São Paulo realizou uma grande coligação, composta por 16 partidos, localizados em campos diversos do espectro ideológico. Já nesta época contou com o PSDB em sua aliança partidária.

Em 2006, França foi eleito deputado federal pelo Estado de São Paulo. Seu partido entrou nesta disputa isoladamente, ou seja, sem realizar coligação, e apresentou como candidato a governador Professor Mario Luiz Guide. Quando o atual governador do Estado foi reeleito deputado federal, em 2010, o PSB apresentou como candidato a governador Paulo Skaf, então estreante nesta disputa. Desta maneira, novamente o PSB concorreu contra o PT em São Paulo, enfrentando Aloízio Mercadante. O partido de Márcio França realizou uma pequena coligação com um partido de direita, o PSL, repetida na disputa proporcional, para a eleição de deputados federais.

Como fato mais recente, é sabido que Márcio França foi eleito vice-governador na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB), em 2014. Foi justamente por causa do PSDB, e não do PT, seu adversário, que Márcio França chegou ao poder. Se qualquer associação mínima com políticos e partidos de esquerda torna alguém “petista” ou “comunista”, porque os eleitores do PSDB não classificam seu partido desta maneira? Por que quando foi prefeito Doria contou com partidos de esquerda em sua coligação? Por que o Partido Popular Socialista fez parte de seu conjunto de Secretarias Municipais? Por que Doria fez doações (em dinheiro) a candidatos do PT e PCdoB? Estes são questionamentos que podem ser feitos pelos eleitores de João Doria convencidos por seu discurso “anti-esquerda”, adjetivação que o próprio deu a si mesmo em postagem no Facebook.

Doria adora bradar que “não é político (sic)”. Talvez esteja aí seu almejado lado “não político”. Afinal, política se faz dialogando com as mais diversas correntes e opiniões. A esquerda existe, não é representada apenas pelo PT e sempre esteve presente também em governos do PSDB. A radicalização recente do discurso de Doria surgiu apenas como um oportunismo eleitoreiro, com vistas a atrair votos de eleitores de Bolsonaro. O PSB não é um partido de extrema esquerda, sendo conhecido por realizar alianças com legendas de esquerda, centro e direita. No contexto polarizado atual, esta consistência ideológica não muito rígida acaba gerando uma possibilidade mais aberta de diálogo. Desta maneira, o PSB não representa uma ameaça vermelha ao governo de São Paulo, e sim uma possibilidade de união, ainda que pragmática, que pode ser uma alternativa de governo mais viável do que uma intolerância ideologicamente consistente.

A forma como as coisas vão acontecendo na vida política é curiosa. O tabuleiro da política colocou Márcio França em posições diferentes, porém, não foi ele quem mudou de lado. Manteve-se sempre no mesmo partido, enquanto seus antigos aliados viraram seus adversários. França chegou ao poder por causa do PSDB e hoje é atacado pelo candidato do PSDB como sendo uma ameaça esquerdista. Enquanto tucanos chamam Márcio França de petista, petistas o chamam de tucano. Candidatos mais próximos da centro-esquerda e da centro-direita pagam este preço quando se destacam em tempos de polarização política e eleitoral, nos quais a habilidade de diálogo com outras correntes políticas perde valor. É função do governante, quem quer que ele seja, conciliar diferentes valores e interesses. Alguns, porém, acreditam que o mais adequado é perseguir adversários, alçados à categoria de inimigos, uma atitude que não agregará nada em termos de políticas e realizações.

Os eleitores de esquerda, ao contrário do que imagina Doria, ainda existem em São Paulo. Luiz Marinho (PT) e Professora Lisete (PSOL) obtiveram juntos mais de três milhões de votos na disputa pelo Governo. Outros eleitores optaram por Marcelo Cândido (PDT), Toninho Ferreira (PSTU) e Lilian Miranda (PCO). Na Assembleia Legislativa, o PT elegeu neste ano dez deputados estaduais em São Paulo, mais do que os oito eleitos pelo PSDB. Para o cargo de deputado federal, o partido de Doria elegeu seis nomes em São Paulo, ante nove do PT. Márcio França, por sua trajetória e jeito conciliador, tem agradado eleitores de esquerda, de centro e de direita. Ao contrário do que pensa Doria, o governo de São Paulo não terá benefício algum com uma radicalidade excessiva, fechando portas a todos aqueles que pensam diferente do governador. A política deve ser regida pela busca de consensos, diante da inevitável diversidade de posicionamentos existentes.

VICTOR PICCHI GANDIN é formado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista – UNESP e Mestrando em Ciência Política pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Autor dos artigos acadêmicos “Coligações eleitorais em Matão: efeitos da alteração do número de cadeiras sobre o comportamento partidário” (com Maria Teresa Miceli Kerbauy) e “Eleições, partidos e coligações: Uma análise da consistência ideológica e das alianças no município de Matão” (com Thais Cavalcanti Martins). Pesquisa sobre coligações, partidos políticos e eleições.

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