Primeiro debate presidencial de 2018: se até o mediador parecia perdido, que dirá o eleitor

VICTOR PICCHI GANDIN – Ontem à noite (09/08/2018), foi ao ar o primeiro debate eleitoral entre os candidatos à Presidência da República das Eleições 2018. O encontro foi realizado pela Band, que tem a tradição de promover o primeiro debate presidencial de cada eleição desde o início da redemocratização.

Participaram Álvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Ciro Gomes (PDT), Henrique Meirelles (MDB), Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Guilherme Boulos (PSOL) e Marina Silva (Rede). Lula (PT) foi impedido de participar por estar preso na sede da Polícia Federal desde o dia 07/04/2018. Por isso, o PT sugeriu a participação de outro nome do partido representando o ex-presidente no debate, o que não pode concretizar-se, levando sua campanha a realizar uma transmissão paralela nas redes sociais, com participação de Fernando Haddad (PT) e Manuela D’Ávila (PCdoB), que poderão vir a ser candidatos a presidente e vice caso a candidatura de Lula seja indeferida pela Justiça Eleitoral.

Como geralmente ocorre em debates, no primeiro bloco todos os participantes começaram respondendo a uma mesma questão. A Band recorreu aos leitores do Metro Jornal para defini-la. A questão do emprego foi o tema predominante enviado como sugestão dos leitores do jornal. Os presidenciáveis foram perguntados de forma completa sobre qual medida tomariam para estimular a contratação de trabalhadores, a partir de quando e com quais recursos. O mediador Ricardo Boechat destacou que os leitores queriam “respostas objetivas”. O senador e ex-governador do Paraná Álvaro Dias (Podemos), o primeiro a responder, porém, nem tocou no assunto. Preferiu se apresentar pessoalmente ao eleitorado.

Apesar da fuga, considero um erro a tradição dos debates eleitorais em insistir em um tema específico a ser respondido já na primeira fala dos candidatos. Em um debate presidencial, ainda mais no primeiro de uma campanha, é natural que os candidatos, principalmente os mais desconhecidos, queiram antes de tudo se apresentar aos eleitores e cumprimentar a emissora que está promovendo tal debate. Neste sentido, seria mais adequado que a primeira pergunta permitisse uma espécie de “considerações iniciais”, com tema a ser escolhido pelos próprios candidatos, que poderiam se apresentar e nisto já mostrar quais seriam suas linhas de atuação e suas prioridades no encontro que se inicia.

Durante o debate, Álvaro Dias (Podemos) insistiu em se apresentar como defensor da Operação Lava-Jato (disse até que a transformaria em “política de Estado permanente”) e ressaltou várias vezes que em um eventual mandato convidaria o juiz Sérgio Moro para assumir o Ministério da Justiça. Foi uma nítida tentativa de colar sua imagem à do juiz, surfando em sua popularidade. Tal posicionamento, porém, afasta o candidato de parcela do eleitorado que questiona a imparcialidade de Moro e a publicização de suas ações. Álvaro também não levou a conta pesquisa contratada pelo jornal O Estado de São Paulo à Ipsos, que mostra que a partir de julho de 2017 o percentual de desaprovação popular ao juiz vem aumentando. Em junho de 2018, o último mês retratado pela pesquisa, o percentual daqueles que disseram “desaprovar totalmente” Moro era de 40%, valor próximo da rejeição ao ex-presidente Lula, de 43%.

Com esta insistência, Álvaro Dias atrai atenções do eleitorado anti-PT, mas ao mesmo tempo ignora parcela considerável de eleitores críticos ao juiz, apostando naqueles que personificam a atuação de Moro vendo-o como uma figura heroica e salvacionista. Não é sabido se o juiz gostou de tais citações e se considerou positivo ser forçadamente associado a um candidato específico. Além disso, os poderes da República – Executivo, Legislativo e Judiciário devem trabalhar com independência. Outro aceno de Álvaro Dias foi Renata Abreu. O candidato perguntou sobre a participação de mulheres na política para que pudesse mencionar a presidente nacional de seu partido, o Podemos (ex-PTN).

Cabo Daciolo (Patriota) foi lançado candidato a presidente pelo Patriota após Bolsonaro findar seu acordo com a legenda e lançar-se candidato por outro partido. Para evitar a descaracterização do PEN, que a esta altura já havia até mudado de nome para Patriota visando o lançamento de Bolsonaro, a saída encontrada pela legenda foi o lançamento de um candidato parecido com ele. Bombeiro militar, religioso e deputado federal pelo Rio de Janeiro, o cabo chegou a equiparar-se com o candidato do PSL em um dos questionamentos. Tal candidatura pode dividir o voto de alguns eleitores bolsonaristas, contudo, ao fim e ao cabo (com o perdão do trocadilho), deverá ter um resultado eleitoral inexpressivo. A postura indignada, falatória e confusa (chegando a misturar voto impresso, coligações e bancos na mesma pergunta), com olhares que não miravam a câmera e não se sabia a quem eram dirigidos, assustou telespectadores. Por outro lado, bem ou mal o candidato foi apresentado a uma multidão que não o conhecia, entrando de fato na campanha pela primeira vez.

Cabo Daciolo apelou para uma espécie de teoria conspiratória e acusou Ciro Gomes (PDT) de ser “um dos fundadores do Foro de São Paulo”, questionando-o sobre o “Plano URSAL – União das Repúblicas Socialistas Latinoamericanas”. Ciro, surpreso, respondeu em segundos: “Meu estimado cabo, eu tive muito prazer de conhecê-lo hoje e pelo visto o amigo também não me conhece. Eu não sei o que é isso, não fui fundador e acho que tá respondido”. Na tréplica, Ciro pensou rápido e respondeu que a democracia, apesar de ser a melhor forma de governo, “tem certos custos”. Esta foi uma forma respeitosa e indireta de dizer que figuras como a de Cabo Daciolo e suas acusações infundadas ganham espaço e têm o direito de se manifestar justamente por vivermos um regime democrático. Quem assistiu ao debate nem imagina que há quatro anos atrás o mesmo Cabo Daciolo, apesar de sua pergunta e de afirmar que em seu governo “o comunismo não vai ter vez”, foi eleito pelo PSOL, partido de esquerda e socialista.

Geraldo Alckmin (PSDB) beneficiou-se de sua experiência em debates eleitorais. Por exemplo, na primeira pergunta, ao ver que seus colegas não responderam sobre a questão do emprego, abriu mão de se apresentar (até por já ser conhecido) e respondeu concretamente sobre o tema. Apesar disso, suas respostas não empolgaram. Aliado a partidos considerados fisiológicos, representando legenda que integrou o impopular governo Temer e defendendo temas como a Reforma Trabalhista, Alckmin ainda não conseguiu se conectar ao grande contingente de eleitores que pretende conquistar. Em alguns momentos, o candidato pareceu disputar eleitores com Marina Silva (Rede).

Marina, por sua vez, também não empolgou muito. Seu discurso fazia mais sentido na lógica de bipolarização entre PT e PSDB concretizado nas eleições anteriores e até o momento posto em xeque nesta. Após ser a novidade das eleições 2010 e representar uma terceira via em 2014, quando assumiu-se candidata após o falecimento de Eduardo Campos (PSB), Marina Silva, agora na Rede Sustentabilidade, parece chegar mais fraca nesta campanha, ainda que esteja em segundo lugar em pesquisas nas quais o ex-presidente Lula (PT) não é testado. Vale lembrar que, no pleito anterior, a candidata chegou até mesmo a figurar na liderança, porém, ao final nem chegou ao segundo turno. Sua desidratação ao longo da campanha de 2018 tende a ser ainda maior. Apesar disto, Marina Silva continuou respondendo com seriedade e sempre com postura respeitosa a seus concorrentes. Com boas intenções, tem o desafio de encontrar um discurso que a posicione melhor perante o eleitorado deste pleito, apresentando propostas concretas.

Ciro Gomes (PDT) parece ter reproduzido em alguns pontos do debate seu isolamento na corrida presidencial (na qual o PT negociou a neutralidade do PSB, o que impediu a realização de uma coligação com Ciro, que acabou ganhando o apoio apenas do AVANTE, ex-PTdoB). Quando teve oportunidade, Ciro até concedeu algumas boas respostas, sem, contudo, explicar como seria realizável sua proposta bilionária de “tirar as pessoas do SPC”, o Serviço de Proteção ao Crédito. O candidato afirmou que irá explicar a proposta durante a campanha eleitoral. Aguardemos.

Henrique Meirelles (MDB), por sua vez, reforçou seu papel de “boi de piranha”, como se tivesse sido lançado candidato para as demais coligações não arcarem os custos de ter oficialmente o PMDB, partido que sofre altíssima rejeição na Presidência da República, em suas composições. Ao mesmo tempo em que dizia ter servido ao país em governos diferentes, e não a um presidente específico, Meirelles teve a função de defender o “legado” do governo Temer, apresentando os mesmos dados econômicos de sempre, que a população sente que não resultaram em melhoras práticas em suas condições de vida. Seu aspecto técnico não rendeu respostas palatáveis ao grande eleitorado, e não causará espanto se tudo isso for proposital. Comportando-se como “candidato nanico” (apesar de ter grande estrutura partidária), Meirelles atrai poucos votos ao MDB, não obriga o partido a se coligar e consequentemente levar sua rejeição a outros candidatos e ainda deixa a legenda livre para tentar entrar na próxima coalizão de governo, quem quer que seja o presidente eleito.

Guilherme Boulos (PSOL) cumpriu a função geralmente designada a candidatos do PSOL em debates. Com poucas chances de uma vitória ao mais alto cargo Executivo nacional, o partido aproveita sua participação nos debates para demarcar posições e criticar outras correntes políticas. Foi boa a sacada dos “50 tons de Temer”, referindo-se aos diferentes presidenciáveis que são candidatos de partidos que apoiam ou há pouco apoiavam o governo de Michel Temer (MDB), representando assim certa continuidade. Porém, a mesma ideia foi utilizada repetidamente e pode perder efeito ao ser reduzida a um bordão.

Por fim, Jair Bolsonaro (PSL) não recebeu tantos ataques de seus concorrentes, ao contrário do que afirmou sua colega de partido e jornalista Joice Hasselmann. Apesar da pergunta inicial de Boulos, o militar parece ter ficado meio isolado nos blocos seguintes, sendo Alckmin e sua aliança com o Centrão os alvos principais do debate. Sentado ao início do encontro, o próprio Bolsonaro também não parecia muito animado para debater, decepcionando seus seguidores que gravavam o debate na expectativa de apresentar qualquer resposta do candidato como “mitagem”. Como é de praxe, suas respostas já foram suficientes para pipocarem vídeos na internet afirmando que Bolsonaro “detonou” seus concorrentes ou algo parecido, mas isso não aconteceu, não tendo o debate “vencedor” algum a meu ver. Nas considerações finais, o candidato chegou a dizer que iria impor algumas propostas caso eleito, o que reforça sua imagem de candidato autoritário e mesmo uma ameaça à democracia, afinal este é um regime no qual um presidente não pode impor à priori suas ideias, devendo no lugar respeitar ou no máximo vetar o que for decidido no Congresso Nacional, seguir as leis e buscar consensos.

O primeiro debate presidencial de 2018 mostrou um pouco do que poderá ser visto durante a campanha eleitoral. Um grande contingente da população, por razões compreensíveis, encontra-se indeciso. Até o momento, os candidatos erram na linguagem, reforçam sua posição diante de um eleitorado restrito que já conquistaram e não conseguem se apresentar para uma parcela maior da população de modo a oferecer soluções claras aos problemas do país. Mesmo os que se mostram indignados não apresentam em contrapartida projetos exequíveis que convençam o eleitor que busca um candidato. Em meio a isto, até um experiente jornalista que conduz debates presidenciais na mesma emissora desde 2006 ficou meio perdido, errando ordens de apresentação, confundindo nomes, perguntando sobre as regras do debate e até mesmo expressando frases não condizentes com o momento (ainda que em tom descontraído e bem-humorado). Assim como Ricardo Boechat em diversos momentos de sua mediação do debate está o eleitor brasileiro: no meio de diálogos não convincentes à esquerda e à direita, confuso e preocupado diante do que poderá vir pela frente.

VICTOR PICCHI GANDIN é formado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista – UNESP e Mestrando em Ciência Política pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Autor dos artigos acadêmicos “Coligações eleitorais em Matão: efeitos da alteração do número de cadeiras sobre o comportamento partidário” (com Maria Teresa Miceli Kerbauy) e “Eleições, partidos e coligações: Uma análise da consistência ideológica e das alianças no município de Matão” (com Thais Cavalcanti Martins). Pesquisa sobre coligações, partidos políticos e eleições.

Responda