Eleições presidenciais de 2018: coligações, disputas isoladas e os partidos que não apoiam ninguém

VICTOR PICCHI GANDIN – De todos os 35 partidos políticos registrados atualmente no Brasil, 13 lançaram candidatos à Presidência da República. Cinco se lançaram nesta disputa isoladamente, ou seja, não realizaram coligações (PATRI, DC, NOVO, PPL e PSTU). Outros oito partidos realizaram alianças para sustentar seus candidatos (PODE, PDT, PSDB, PSOL, MDB, PSL, PT e REDE).

Resumi em uma tabela (ver abaixo) todas as candidaturas presidenciais, quantos e quais partidos compõem cada coligação, o tempo de televisão destinado a cada uma delas (devido aos cálculos explicados em coluna anterior) e também a consistência ideológica de cada coligação. Para a classificação ideológica, temos como referencial os estudos de Krause e Schmitt (2005), atualizados em Krause, Dantas e Miguel (2010) e Krause, Machado e Miguel (2017). Estes autores alocaram cada partido político brasileiro dentro de uma faixa do espectro ideológico (esquerda, centro ou direita), de maneira que podemos classificar a partir disso qualquer coligação formada em qualquer eleição brasileira.

Considera-se “ideologicamente consistente” uma coligação composta por partidos situados no mesmo campo do espectro político (ou seja, entre partidos de esquerda ou entre partidos de centro ou entre partidos de direita). Uma coligação “ideologicamente inconsistente”, portanto, envolve partido(s) de esquerda e direita na mesma composição. Quando há um encontro de um partido de centro com uma legenda de esquerda, ou quando um partido de centro coliga-se com um partido de direita, fala-se em coligação “semiconsistente”.

Todas estas formatações podem ser observadas nas coligações presidenciais de 2018. Algumas críticas costumam ser feitas a esta metodologia, por exemplo, devido à sua grande rigidez. Se um único partido de campo ideológico diverso faz parte de uma grande coligação cujos demais partidos coligaram-se de forma consistente, esta passa a ser considerada inconsistente. Apesar disso, a classificação traz inúmeras vantagens aos estudos sobre coligações, sendo possível verificarmos o comportamento de todos os partidos em todas as eleições. Ela permite ainda comparações e cruzamentos com outras variáveis, além de trazer importante padronização metodológica a pesquisas da área. Após a tabela, farei alguns comentários práticos sobre as coligações de 2018:

Com a fragmentação de candidaturas de 2018, esta eleição presidencial é a maior em número de candidatos desde 1989, que foi marcada historicamente por ser a primeira eleição direta para presidente desde 1960. A formalização de 22 candidaturas naquela disputa pode ser explicada pelo contexto da época e também pela possibilidade então existente de partidos com registro provisório disputarem o pleito.

Com um alto número de candidaturas, as coligações tendem a ser menores, uma vez que os partidos que decidem entrar em coligação se dispersam entre várias composições diferentes. Devido a isto, o número médio de partidos por coligação diminui. Em 2018, a maioria das coligações presidenciais formadas contam com apenas dois partidos. São as alianças de Ciro Gomes (PDT / AVANTE), Guilherme Boulos (PSOL / PCB), Henrique Meirelles (MDB / PHS), Jair Bolsonaro (PSL / PRTB) e Marina Silva (REDE / PV).

Em seguida, a coligação de Fernando Haddad (PT) aparece com três integrantes. Após acordo com o PSB, que optou pela neutralidade na disputa, não apoiando nem Ciro Gomes (PDT) nem Haddad (PT), o PT formalizou oficialmente sua coligação com PCdoB e PROS. A entrada do PROS na coligação petista chama a atenção por alguns fatores. Apesar de o partido ter integrado a chapa que elegeu Dilma Rousseff (PT) em 2014, quatro de seus seis deputados votaram a favor do impeachment. Em 2018 as divergências continuam, principalmente no nível estadual, no qual o PROS concorre contra o PT em mais de 20 estados, conforme mostrou levantamento do site Poder360.

Evidentemente, divergências e disparidades regionais acontecem em praticamente todos os partidos que compõem coligações, não apenas com o PROS em relação ao PT. Como a “verticalização das coligações” já há algum tempo não é mais obrigatória, coligações locais diferentes da nacional são a coisa mais comum. Por outro lado, o PROS foi enfático ao dizer que apoia Haddad por convicção, mobilizando seus filiados de todos os estados para apoiá-lo, uma vez que está “100% empenhado na eleição de Fernando Haddad”, que representa para esta legenda “o campo progressista e apresenta o melhor programa de governo para o Brasil”.

Não é o que pensa um de seus filiados, Oscar Maroni, que há não muito tempo prometeu dar cerveja de graça em sua boate “se matarem Lula na prisão”. Maroni é candidato a deputado federal e faz parte de um partido da base de apoio do candidato que substituiu Lula nas urnas após o indeferimento de sua candidatura. Com tais quadros, o apoio do PROS ao PT não parece tão sólido, apesar do entusiasmo expresso em notas que a legenda enviou à imprensa.

O candidato Álvaro Dias surpreendeu ao realizar a segunda maior coligação desta eleição em termos de número de partidos, com quatro legendas: PODE, PRP, PSC e PTC. A aliança lhe garantiu tempo de televisão pouco maior que o do candidato Ciro Gomes (PDT). Por fim, é conhecida a aliança de Geraldo Alckmin (PSDB) com os partidos do chamado “Centrão”, que lhe garantiram a maior coligação e o maior tempo de televisão desta eleição. Para o terror do locutor de propagandas no rádio, a coligação é composta por PSDB, PTB, PP, PR, DEM, Solidariedade, PPS, PRB e PSD.

Com isto, vemos que 31 partidos entraram de alguma maneira na disputa presidencial, lançando ou apoiando candidatos. Outros quatro optaram pela neutralidade, como é o caso do PSB, ou ficaram de fora, sem lançar nem apoiar candidato algum a presidente. Um caso marcante foi o do PMN, que rejeitou em convenção nacional o lançamento da candidatura de Valéria Monteiro.

Os partidos que não se lançam na disputa majoritária (presidente e/ou governador) podem ser beneficiados em outras disputas, uma vez que diversas coligações proporcionais (formadas para a eleição de deputados) podem ser celebradas dentre os partidos que compõem uma coligação majoritária ou entre estes e partidos que não estejam apoiando nenhum candidato ao Executivo no mesmo nível eleitoral. Ao se ausentar da disputa presidencial, o PMN ficou mais livre para realizar outras coligações e buscar sua sobrevivência neste ano em que se inicia uma cláusula de desempenho gradual exigida aos partidos políticos.

O PCO, que chegou a ser apontado durante a pré-campanha como possível membro da coligação de Lula, que na época pleiteava sua candidatura, não foi oficializado na aliança. O partido preferiu defender a candidatura de Lula sem entrar oficialmente na coligação encabeçada pelo PT. No horário eleitoral em São Paulo, a legenda usa todo seu espaço de propaganda em todos os cargos para veicular um slide com o texto “Eleição sem Lula é fraude”. Por fim, o quarto partido que não participa da eleição presidencial deste ano é o PMB.

A partir de 2020 não será mais permitida a realização de coligações proporcionais, formadas para a eleição de deputados e vereadores. As coligações majoritárias, formadas para o alcance do Poder Executivo (cargos de prefeito, governador e presidente), contudo, continuarão sendo possíveis. Em 2018, os partidos organizaram-se para a disputa presidencial da maneira que acabamos de abordar. Qual foi a melhor estratégia? Apenas o resultado da eleição, que inclui também diversas outras variáveis, poderá dizer.

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