Após “enganar vocês”, Tiririca busca terceiro mandato como deputado federal

VICTOR PICCHI GANDIN – Em 2010, ano de estreia de Tiririca nas urnas, o PR (Partido da República) formou coligação proporcional com outros quatro partidos: PRB, PT, PCdoB e PTdoB. Tamanha coligação resultou num total de 6.909.406 votos, o recorde daquela eleição para deputado federal em São Paulo, o que garantiu 21 vagas aos candidatos mais votados destas legendas. 107 candidatos fizeram parte da coligação e, portanto, somaram votos ao quociente partidário, porém, 1.353.820 dos votos alcançados pela coligação “Juntos por São Paulo” vieram apenas de Tiririca.

Para termos uma ideia da magnitude desta votação, o segundo candidato mais votado da coligação de Tiririca, João Paulo Cunha (PT), famoso por sua condenação no Mensalão, obteve 255.497 votos, mais de um milhão a menos que o palhaço. Outro nome conhecido no Mensalão, Valdemar Costa Neto (PR), então comandante do partido de Tiririca, também se elegeu. Estes parlamentares figuraram entre os mais votados daquela eleição e teriam sido eleitos mesmo se Tiririca não fosse candidato. Por outro lado, três deputados foram “puxados” pela votação que obteve Tiririca, este filiado a um partido político que fez parte de uma coligação.

Pelas regras eleitorais brasileiras, o quociente eleitoral, que resulta da divisão do total de votos válidos de cada eleição pela quantidade de vagas em disputa foi de 314.909 votos na eleição para deputado federal em São Paulo em 2010. Os partidos e coligações que obtiveram menos que esta quantidade total de votos não tiveram direito a eleger nenhum deputado. A partir de 314.909 votos, um partido/coligação teve direito a eleger um deputado. Se alcançou este resultado duas vezes, elegeu dois parlamentares na primeira distribuição. Se alcançou três vezes, três foram os eleitos do partido/coligação, e assim por diante. Apenas com sua votação, Tiririca alcançou esta “barreira de entrada” quatro vezes, ou seja, teve votação suficiente para se eleger e garantir outras três vagas aos partidos de sua coligação. Uma votação tão expressiva quanto a de Tiririca acaba por produzir distorções no resultado final deste cálculo, ajudando na eleição de candidatos que individualmente poderiam não ser eleitos.

O sistema proporcional se propõe a dar a cada corrente política, não somente às majoritariamente mais votadas, uma expressão no parlamento que corresponda aos votos que receberam nas urnas. Ele promove maior diversidade na composição das Câmaras e impede que um único partido alcance sozinho a grande maioria das cadeiras. Todas as legendas que alcançam um número mínimo de votos (que varia dependendo da quantidade de vagas em disputa e do total de votos válidos recebidos em cada circunscrição eleitoral) têm direito a ter representantes eleitos, de modo proporcional à votação que o partido como um todo recebeu nas urnas.

As legendas que recebem menos votos também se fazem representadas, desde que ultrapassem o limite inicial do quociente eleitoral. Os partidos que recebem mais votos, por sua vez, têm direito a ter mais representantes eleitos. A princípio, este sistema não é algo negativo. Há uma correspondência, uma distribuição de cadeiras que é proporcional à votação dos partidos. Porém, os resultados da eleição costumam apresentar algumas distorções (algo que, aliás, surge em qualquer sistema eleitoral que possa ser adotado; podemos mudar as distorções, mas elas continuarão existindo). Em nosso caso, estas geralmente acontecem quando um candidato tem uma votação muito acima das demais, sendo seus votos em “excesso” transferidos a outros candidatos escassamente votados de seu partido, o que ficou notoriamente conhecido nos tempos de Enéas.

Pelo fato de o PR ter composto uma coligação proporcional, a transferência de votos “excedidos” por Tiririca acabou beneficiando não apenas seu próprio partido, mas candidatos de outras agremiações. Por exemplo, sua votação veio por eleger um dos candidatos menos votados de sua coligação, Delegado Protógenes (PCdoB), que obteve 94.906 votos. O delegado ficou conhecido por sua atuação na Operação Satiagraha, mas foi condenado por vazamento de informações e violação de sigilo funcional. Segundo o site de notícias G1, foi autorizada a substituição de sua pena de prisão pelo pagamento de valores em espécie. Hoje, ainda segundo o G1, o ex-deputado recebeu asilo político e mora em Genebra, na Suíça. Protógenes chegou a ser candidato a reeleição em 2014, não mais na coligação de Tiririca, e não foi reeleito.

Apesar dos alertas feitos na época, milhões de eleitores optaram por votar em Tiririca. Não há nenhum problema nesta tomada de decisão, uma vez que cada um tem seu direito de escolha e deve votar no candidato de sua preferência. A grande questão foi a “justificativa” do voto dado a Tiririca. O palhaço recebeu expressiva votação como “voto de protesto”. O que mais se ouvia falar era que o eleitor “preferia votar no Tiririca do que num ladrão”. Conhecendo as regras do sistema eleitoral brasileiro, as fórmulas que são adotadas na transformação de votos em cadeiras (que já existiam bem antes de Tiririca chegar nas urnas) e sabendo quais são seus colegas de partido, este argumento cai por terra.

A expressiva votação de Tiririca certamente era esperada por seu partido, que por isto insistiu em sua candidatura. É comum o lançamento de personalidades da televisão, cantores e famosos por parte dos partidos políticos. Por serem muitos conhecidos, estes podem acabar tendo uma votação tão grande que acabam elegendo também um ou outro político que poderia estar fora da disputa se não existissem “puxadores” de votos. Todo candidato é filiado a um partido político, e, ao votarmos nele estamos escolhendo um nome e ao mesmo tempo dando um voto em seu partido ou coligação, o que o/a ajudará a alcançar uma ou várias vezes o quociente eleitoral.

Apesar de escolhermos um nome quando votamos, as fórmulas eleitorais brasileiras (como as de diversos outros países) são regidas por um princípio que é partidário e não individual. Ao votar em eleições regidas pelo sistema proporcional, o eleitor brasileiro vê-se diante de uma grande liberdade de escolha, podendo optar por um nome da lista, escolhendo um candidato que por sua vez é filiado a um partido, ou votar na própria legenda, voto que também é levado em consideração nos cálculos que futuramente irão definir quantas vagas cada partido terá o direito de ocupar.

Até 2018, nosso sistema permite a celebração de coligações proporcionais, formadas por partidos que disputam cargos de deputado e vereador. Após os cálculos indicarem quantas cadeiras cada partido/coligação terá o direito de ocupar, os candidatos mais bem posicionados no interior de cada lista partidária (partido/coligação) são eleitos. No caso da estratégia do PR, ao contrário do desejo do eleitorado, uma votação muito alta dada a um único candidato acabou favorecendo candidatos de uma coligação que tem entre seus filiados diversos políticos e candidatos investigados e condenados.

Na eleição seguinte, em 2014, o Partido da República, com a constatação do “sucesso” da estratégia de lançamento de Tiririca como candidato, optou por uma estratégia ainda mais racional do ponto de vista de uma busca desta legenda por ganhos eleitorais. Como em 2010 Tiririca foi expressamente votado mas sua votação veio a garantir cadeiras para outros partidos membros de sua coligação, em 2014 o PR resolveu não realizar coligação proporcional. Resultado: todos os votos “excedidos” por Tiririca, que em 2014 virou novamente a casa do milhão (1.016.796 votos), foram transferidos a outros candidatos de seu próprio partido, que aumentou sua bancada.

O quociente eleitoral para deputado federal em São Paulo em 2014 foi de 303.803 votos. Isso significa que Tiririca se reelegeu e pode beneficiar mais dois candidatos, desta vez do próprio PR. Seu partido, no total (incluindo a votação de Tiririca), recebeu 1.701.667 votos e garantiu seis vagas. Note que a votação de Tiririca foi tão expressiva que todos os outros 35 candidatos do PR somados obtiveram menos de 700 mil votos, enquanto apenas Tiririca recebeu mais de um milhão. O sexto candidato eleito pelo PR (que pela votação de todos tinha direito a 6 cadeiras), Miguel Lombardi, obteve 32.080 votos. Diversos candidatos de outros partidos tiveram votações maiores e não foram eleitos, pois vieram de legendas que alcançaram menos vezes o quociente eleitoral. Tiririca somou muitos votos ao PR, que sem sua candidatura e com as demais mantidas teria conquistado apenas metade das vagas que conquistou.

Veja que não estou criticando a índole, a honestidade, a capacidade de Tiririca. Ele tem todo o direito de ser candidato e receber votos. O que não se pode negar é que desde o início a finalidade de sua candidatura foi potencializar a eleição de outras figuras partindo-se de uma antecipação de que sua votação geraria uma distorção no sistema proporcional brasileiro. O eleitor acreditou estar dando um voto de protesto e Tiririca foi tão bem votado (em 2010 e 2014) que acabou garantindo a eleição de cinco parlamentares que certamente os eleitores do palhaço nem conhecem. Entre uma eleição e outra, Tiririca perdeu cerca de 300.000 votos, mas foi reeleito. O argumento de seus eleitores desta vez foi em torno de sua presença cativa no plenário, ainda que o político seja presente mas não costume se pronunciar sobre nenhum tema.

No final de 2017, Tiririca surpreendeu a todos. Em seu primeiro discurso em dois mandatos (segundo ele, também o último), subiu à tribuna para fazer um relato sincero. Disse estar “totalmente com vergonha” da política e “abandonando a vida pública“. A assessoria do candidato informou que ele não iria mais se candidatar. À Folha de São Paulo, o candidato também confirmou: “Não volto“. O programa “Conexão Repórter”, apresentado por Roberto Cabrini no SBT, realizou a reportagem “O palhaço que chegou a Brasília”, exibida no dia 03/12/2017. “Pronto para as confissões de sua alma“, Tiririca relatou que esperou o momento certo para contar tudo. Afirmou que na votação do impeachment de Dilma tentaram indiretamente comprar seu voto, oferecendo “grana” suficiente “para ficar milionário”. Afirmou que recebeu pressões de seu partido e disse estar “super decepcionado com a política brasileira“.

Na entrevista, Tiririca afirmou que “pouquíssimos lá [na Câmara dos Deputados] pensam no país“, sendo que a maioria “quer que o povo se lasque” e “só precisa do povo na votação, quando é pra votar“. Meses depois, em convenção nacional do Partido da República, declarou que queria ser o deputado “mais votado na história do país”. Tiririca estava oficializando a desistência de sua desistência. Novamente, ele é candidato a deputado federal. Pelo mesmo partido, que está adotando a mesma estratégia para ampliar sua bancada às suas custas. Ele ainda aparece no horário eleitoral dizendo que “enganou” o eleitor. Voltando atrás depois de tudo que relatou e sendo candidato novamente, este comentário não soou tão irônico.

Acredito que Tiririca não terá desta vez uma votação na casa do milhão, de modo que não irá “puxar” tantos correligionários de seu partido. Ainda assim, deve ser eleito novamente e contribuir para o quociente partidário do PR, que novamente não fez coligação proporcional. Corroborando esta previsão, há uma pesquisa do Ibope divulgada pelo jornalista Lauro Jardim (O Globo), na qual Tiririca já aparece entre os cinco candidatos a deputado federal mais citados por eleitores paulistas (ao lado de Celso Russomanno, Eduardo Bolsonaro, Marco Feliciano e Kim Kataguiri).

Tiririca não é uma má pessoa e tem todo o direito de se candidatar novamente. Tem direito até mesmo de usar recursos públicos do fundo partidário e eleitoral para fazer sua campanha da forma que se sente mais à vontade no horário eleitoral, ainda que para isto use este espaço sério para fazer piadas e paródias de Jojo Toddynho e Neymar. Por outro lado, o candidato está contribuindo para a manutenção do sistema que ele mesmo criticou. Este comportamento não é estranho por parte de seu partido, acostumado com uma atuação mais fisiológica e voltado à busca constante maximização de seus ganhos eleitorais. Neste sentido, o convite do partido para Tiririca ser candidato novamente era algo esperado. O que chamou mesmo a atenção foi o fato de o humorista aceitar novamente este papel após todas as suas percepções e confissões.

VICTOR PICCHI GANDIN é formado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista – UNESP e Mestrando em Ciência Política pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Autor dos artigos acadêmicos “Coligações eleitorais em Matão: efeitos da alteração do número de cadeiras sobre o comportamento partidário” (com Maria Teresa Miceli Kerbauy) e “Eleições, partidos e coligações: Uma análise da consistência ideológica e das alianças no município de Matão” (com Thais Cavalcanti Martins). Pesquisa sobre coligações, partidos políticos e eleições.

Responda