Sobre o uso da internet e da televisão na campanha eleitoral de 2018: vale a pena ignorar a importância de um meio em detrimento de outro?

VICTOR PICCHI GANDIN – A internet e as redes sociais estão cada vez mais presentes na vida dos brasileiros e, consequentemente, dos nossos eleitores. Segundo levantamento do instituto Paraná Pesquisas realizado entre 25 e 30 de julho de 2018 (registro no TSE: BR-00884/2018), 42,5% dos eleitores brasileiros usam a internet e as mídias sociais como o principal meio para se informar sobre as eleições 2018. O percentual que afirma se informar principalmente pela televisão é de 36,7%. Ainda na carência de outras pesquisas que deverão ser realizadas no período em que o horário eleitoral tiver começado, o que já está claro para todos é que as redes sociais e a internet em geral se mostram mídias que serão visadas pelas campanhas políticas (inclusive, será permitido o pagamento de impulsionamento para publicações online) e também um espaço de discussão que será amplamente utilizado pelos eleitores.

Entre os dias 31 de agosto e 04 de outubro, será veiculado no rádio e na televisão o horário eleitoral. Nas últimas eleições, constatou-se um forte impacto exercido pela propaganda eleitoral na televisão. Por exemplo, o longo programa de Dilma Rousseff, tanto em sua primeira eleição como em sua reeleição, quando teve quase 12 minutos de exposição em cada bloco do horário eleitoral, pode ser aventado como um dos fatores que ajudam a explicar sua vitória nas urnas. Para o pleito que se aproxima, contudo, ainda não é nítido qual será o peso desta ferramenta de campanha, nem é claro se ela exercerá a mesma influência que outrora exerceu. Muito provavelmente, o peso da internet será maior agora. Todavia, ainda seria prematuro fazer análises deslegitimando a importância da televisão e do horário eleitoral na decisão de voto dos eleitores.

No horário eleitoral, a distribuição do tempo é calculada, em sua maior parte, de forma proporcional à bancada de deputados federais eleita pelos partidos que concorrem isoladamente e pelos partidos que compõem cada coligação. De forma muito simplificada, isso significa que, quanto mais deputados um partido elegeu na última eleição, mais tempo este partido tem na televisão. Da mesma forma, quanto mais partidos coligados, maior será o tempo do candidato que encabeça uma coligação para o Executivo. Uma das motivações da realização de coligações, portanto, tem sido o potencial aumento do tempo de propaganda na televisão. Todos os presidenciáveis distribuirão entre si 12 minutos e 30 segundos do bloco fixo do horário eleitoral (um minuto a mais do que foi apenas o programa de Dilma em 2014). Já na internet, saem na frente os candidatos que ao longo do tempo agregaram mais curtidores no Facebook, seguidores no Twitter e no Instagram, inscritos no Youtube e assim por diante. Um lado positivo da internet é que os candidatos podem se manifestar a qualquer momento, no formato e duração que desejarem (foto, vídeo, transmissão ao vivo, etc).

O candidato Geraldo Alckmin (PSDB), que ainda não decolou nas pesquisas, é o sexto presidenciável com maior número de curtidas no Facebook. No momento da escrita deste texto, ele contava com 934.527 curtidores em sua página, atrás de Jair Bolsonaro (PSL), Lula (PT), Marina Silva (Rede), João Amoêdo (NOVO) e Álvaro Dias (PODE). Ainda sem atingir o milhão, o tucano aliou-se aos partidos do Centrão. Realizou a maior coligação destas eleições (composta por 9 partidos) e resolveu apostar suas fichas num formato tradicionalmente já testado, o horário eleitoral, onde domina com 05:32, quase metade do tempo do bloco destinado a todos os candidatos a presidente. Somente durante a campanha o tucano saberá se sua estratégia funcionou, se o horário eleitoral impactará a corrida eleitoral como nos pleitos anteriores. O que Alckmin parece ignorar é que neste ano teremos uma campanha mais curta, que pode não ser suficiente para ocasionar uma grande virada em suas colocações nas pesquisas de intenção de voto. Se o tempo de TV ajuda Alckmin, o tempo do calendário eleitoral não lhe é um aliado, antes na verdade é um fator que aumenta ainda mais a imprevisibilidade desta eleição.

No outro extremo, Jair Bolsonaro (PSL), com apenas 8 segundos na televisão, terá a mesma dificuldade que um peão de rodeio. Por isso, o militar aposta suas fichas na internet, onde domina com 5.564.068 curtidas no Facebook. O vereador carioca Carlos Bolsonaro (PSC/RJ), ao compartilhar recentemente uma notícia em seu Twitter, limitou-se a dizer um palavrão em caixa alta, em tom de deboche, com o qual afirmava não se importar nem um pouco com o pequeno tempo de televisão que seu pai terá no horário eleitoral. Tratava-se de um tweet do jornal O Globo que informava que o tempo de televisão de Geraldo Alckmin (PSDB) seria quarenta vezes maior que o de Jair Bolsonaro (PSL).

A lista de representantes que serviu de base para o TSE calcular o tempo de cada candidato no horário eleitoral mostra que, para fins de cálculo, não se consideraram migrações partidárias ocorridas em meio ao mandato, e sim a bancada eleita por cada partido na última eleição. Os partidos da coligação de Bolsonaro (PSL e PRTB) elegeram apenas um deputado cada em 2014. Devido a isto, seu tempo proporcional em bloco do horário eleitoral e sua quantidade de inserções a serem veiculadas nos intervalos das emissoras será praticamente irrisório. Isso não parece ser um problema para a família Bolsonaro, que acredita poder vencer as eleições sem nenhum elemento que tradicionalmente deu a vitória a candidatos anteriores (apoio político, coligações, tempo de televisão, palanques estaduais e bancadas partidárias). Por não ter tal estrutura (o que revela mais fragilidade política do que uma inovação), tal candidato aposta todas as suas fichas em apenas duas variáveis: estar bem colocado em pesquisas de intenção de voto e ter milhares de apoiadores na internet, variáveis estas que de fato podem leva-lo à vitória nas urnas.

Por outro lado, os números comemorados por Bolsonaro podem ser enganadores. Se o candidato é recordista com mais de 5 milhões de seguidores no Facebook e mais de 1 milhão no Twitter, nas últimas eleições foram para o segundo turno candidatos com mais de 30 e 40 milhões de votos. Isso significa que, apesar da difusão da internet no Brasil crescer e do engajamento nas redes sociais ser alto, boa parte do eleitorado ainda não está usando as redes sociais para debater política e ver notificações de seus candidatos. Como bem lembrou a cientista política Silvana Krause em entrevista à Exame, “A maior parte dos eleitores é silenciosa. Quem se manifesta nas mídias é uma minoria”. A conquista de uma maioria na internet não necessariamente garante que esta reflita o mesmo estrato na população em geral. Além disso, apesar do voto ser facultativo a partir dos 70 anos, para a faixa etária de 60 anos ou mais a televisão ainda predomina como o meio mais usado na busca de informações sobre as eleições 2018, além de ainda ter um uso considerável, logo atrás da internet, em todas as demais faixas etárias, como mostra o levantamento do Paraná Pesquisas. Em resumo, a internet terá peso considerável nesta eleição, mas ainda não sabemos se isto bastará por si só.

Um outro aspecto do horário eleitoral obrigatório que ainda deverá ter relevância é a exposição de candidatos em inserções de 30 segundos veiculadas ao longo da programação televisiva, inclusive no horário nobre, no intervalo de programas. Ao contrário do bloco fixo, estes “drops” acabam chegando a todos os telespectadores, mesmo os desinteressados nas eleições. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua 2016, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que, de 69,3 milhões de domicílios particulares permanentes no Brasil, apenas 2,8% não têm televisão. A audiência da TV aberta no Brasil ainda é alta, sobretudo no horário nobre e em programas como novelas, jornais e jogos de futebol. O telespectador destes programas, ainda que não queira, irá se deparar com alguma propaganda eleitoral. Nisto, inevitavelmente aparecerão mais os candidatos de partidos/coligações que tem direito a mais inserções diárias, pois terão maior exposição longo do dia.

Ainda que desligue a TV durante bloco fechado do horário eleitoral ou mude de canal durante os intervalos de seus programas favoritos, o telespectador acabará se deparando com outras inserções em outras emissoras, sendo impossível “fugir” de tais propagandas. Desta maneira, telespectadores que não utilizam a internet ou não se manifestam em redes sociais serão atingidos por propagandas eleitorais na televisão, que também é utilizada como fonte de informação através de jornais e debates. Ainda que a importância do horário eleitoral, veiculado na televisão e no rádio, seja menor agora em relação às campanhas passadas, ele certamente não deve ser negligenciado.

Ao priorizar a internet, a campanha de Bolsonaro (PSL) também cometeu um erro crasso ao divulgar que evitaria redes sociais tradicionais com a criação de um canal próprio para divulgar vídeos na internet. Sua campanha criou um canal 24 horas dentro do aplicativo Mano. Quem se disporia a baixar um aplicativo diferente, ceder suas informações no cadastro e acompanhar um canal próprio exclusivamente sobre a candidatura de Bolsonaro? A resposta é simples: quem fará isso serão aqueles que já são eleitores do candidato. Portanto, esta estratégia de ignorar redes sociais tradicionais (onde se concentram os milhões de usuários da internet) não é eficiente no ganho de novos eleitores. No Facebook, ainda que haja certa restrição ao “espalhamento” de postagens devido ao algoritmo da rede, estas são distribuídas a uma parcela muito maior de internautas, e não a um arco restrito formado por aqueles que já definiram seu candidato e, portanto, não necessitam ser conquistados.

No geral, quem costuma se manifestar em redes sociais geralmente já tem uma opinião definida sobre determinado candidato, enquanto o desafio maior será a conquista daqueles que ainda estão indecisos. Na internet, é comprovada ainda a existência de robôs cujo propósito é aumentar a visibilidade de determinadas postagens ou páginas (de diversos candidatos diferentes), tornando certos dados ilusórios (sem falar nas fake news). Com tudo isso, o alto engajamento a determinado candidato na internet pode ajudá-lo, mas não necessariamente redundará num sucesso automático nas urnas.

Os candidatos, em geral, precisam conquistar novos eleitores nesta eleição que tem um alto número de indecisos, e não se fechar no círculo daqueles que já tem como eleitores fiéis. Não haverá ganho numérico algum naqueles que insistirem nos eleitores que já conseguiram. A estratégia mais adequada será a realizada pelo candidato que procurar ampliar seu eleitorado, usando para tanto todas as ferramentas que tem em mãos, seja na internet, na televisão ou nas ruas. Trata-se de um erro negligenciar a importância de um meio como a televisão, negar o peso ainda remanescente do horário eleitoral e apostar que todos os eleitores estão navegando na internet. Ao mesmo tempo, também é errado analisar estas eleições com lupas fabricadas em 2010 e 2014, afirmando categoricamente que os candidatos que mais aparecerem no horário eleitoral já têm lugar na linha de chegada.

Os debates eleitorais televisivos já estão bombando na internet. Momentos da propaganda eleitoral na TV virarão memes na internet. Ao mesmo tempo, assuntos em pauta nas redes sociais serão abordados nas campanhas televisivas. Inclusive, assuntos surgidos exclusivamente nas redes acabarão exigindo mudanças em discursos apresentados na televisão. A verdade é que o que acontece em um meio repercute no outro. Terá mais êxito o candidato que utilizar de forma inteligente todas as ferramentas que lhe são disponíveis, sejam segundos ou curtidas, considerando a importância tanto da internet como da televisão.

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Por fim, preparei esta tabela (ver abaixo) que compara a distribuição do tempo em bloco do horário eleitoral dos candidatos a presidente com o número de curtidas que cada um tem no Facebook (como um dado representativo da força dos candidatos na internet). A coluna “ranking” mostra a colocação de cada um deles nestas duas variáveis. Os dados foram pesquisados no site do Tribunal Superior Eleitoral e em pesquisa realizada na rede social Facebook na manhã do dia 24/08/2018.

VICTOR PICCHI GANDIN é formado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista – UNESP e Mestrando em Ciência Política pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Autor dos artigos acadêmicos “Coligações eleitorais em Matão: efeitos da alteração do número de cadeiras sobre o comportamento partidário” (com Maria Teresa Miceli Kerbauy) e “Eleições, partidos e coligações: Uma análise da consistência ideológica e das alianças no município de Matão” (com Thais Cavalcanti Martins). Pesquisa sobre coligações, partidos políticos e eleições.

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