Jorge Elbaum – Com segunda maior taxa da América do Sul, Argentina vive surto de suicídios. Por trás dos dados, o desmonte das políticas sociais, a cultura do isolamento e a austeridade econômica.
A Argentina atravessa outra pandemia: ela não envolve febre, não é combatida com vacinas nem se protege com máscaras. Ela avança em ambientes fechados, com sensações de vazio e uma letargia que não encontra saída. Se a COVID exigiu distância, essa realidade clama por proximidade e por uma mão estendida. O mapa emocional dessa epidemia tende a situar quem carrega essa tristeza ardente como o intérprete solitário de uma angústia que tem ramificações anteriores, causalidades coletivas e imaginários desolados.
A cada duas horas, alguém se suicida no país. Os dados dessa realidade superam a média mundial e nos interpelam como sociedade para alertar que “a macroeconomia” — tão idolatrada e aparentemente neutra — também cumpre seu papel de horror nas estatísticas da devastação dolosa. Parece inquestionável que as políticas econômicas, o discurso da crueldade, a doutrina liberticida de “chutar quem já está caído” e o desprezo pelos mais vulneráveis também têm consequências devastadoras na pele da subjetividade.
Talvez não consigamos perceber, além disso, que o utilitarismo e a ausência de esperança vêm acompanhados da reverberação da verborragia distópica. E esta última, pela naturalização da crueldade que desdobra sua geografia de abismo e sua certeza de extinção humana. Não havia algum indicador que ligasse a queda da natalidade a essa escuridão com a qual nos martirizam, apelando para os cantos de sereias taciturnas que apenas entoam más notícias?
À medida que a curva de suicídios aumenta, não conseguimos perceber a íntima conexão que existe entre a retração do Estado, o isolamento, a prevalência de uma imaginação distópica, a conectividade digital (desencarnada) e a deterioração dos laços sociais. Quando te desarmam, te excluem do cuidado mútuo — que proporciona um colchão emocional — e te privam do apoio comunitário, você fica mais vulnerável.
É preciso dizer isso. O suicídio mantém uma relação particularmente tensa com o futuro. O presente perde seu encanto e sua beleza porque está pendurado em um futuro que só augura mais do mesmo, um quarto sem janelas no qual não se consegue ver a brasa sob a cinza. O suicídio cresce como uma calamidade silenciosa. Sobretudo entre adolescentes e jovens. Exige que reconheçamos sua presença sem simplificações, reducionismos nem estigma.
Há mais de um século, o sociólogo francês Émile Durkheim estudou as causalidades sociais que contribuem para que determinadas pessoas tomem decisões desesperadas. Ele expôs as razões transversais que contribuem para essas decisões trágicas, sem que as próprias vítimas tenham consciência delas. Além disso, demonstrou que as taxas de suicídio variam de acordo com os níveis de integração ou anomia social. E, por sua vez, com a capacidade que as sociedades têm de proporcionar um sentido vital poderoso aos seus membros.
Durkheim revelou que existiam grupos sociais mais propensos a tais predisposições. Entre eles, os homens. Essa última tendência continua se manifestando na Argentina atual de forma semelhante ao que ocorria na França, no final do século 19. Que concepção continua atuando na masculinidade contemporânea para que quase 80% das pessoas que cometeram suicídio em nosso país, em 2025, sejam homens? Quando o sociólogo francês publicou seu trabalho estatístico-demográfico, em 1897, ficou claro que a faixa etária mais exposta era a dos idosos. E que a taxa diminuía com a idade: quanto mais jovens, menor a proporção de suicídios.
Esses dados são inversos na Argentina atual. Por que os jovens entre 15 e 34 anos são os mais expostos à automutilação? O fato de existirem padrões demográficos nos alerta de que também coexistem causalidades sociais associadas às subjetivas.
Essa busca por um fim não nasce exclusivamente de uma experiência biográfica particular. Também existem os outros. Aqueles que internalizamos e aqueles que interagem diariamente conosco nas famílias, nas instituições, na (in)comunicação digital. Eles nos fizeram acreditar que somos autossuficientes e que todo o caos e a ordem do mundo cabem dentro de nós. Isso é falso. Não nascemos nem crescemos isolados. Alguém nos ajudou nos primeiros anos. Alguém cuidou de nós ou nos protegeu.
Se não fosse por esses outros, não teríamos conseguido sobreviver. Pode até ser que essa tarefa tenha sido bem ou mal realizada, mas sem ela não teríamos passado do primeiro limiar. Esse empurrão inicial dá início ao que fomos construindo. Depois, cabisbaixos ou sorridentes, cruzamos com dezenas, centenas e milhares de outras pessoas que deixaram luz ou sombra em nossa maneira de estar no mundo.
Somos o que fazemos com o que fizeram de nós
Quanto menor for o cuidado e a proteção coletiva, maior será a possibilidade das pessoas perderem a motivação para viver. É verdade que o apoio emocional surge como uma condição necessária, mas não suficiente, para nos proteger diante das diversas provações pelas quais passamos na vida. Uma frase atribuída a Jean-Paul Sartre afirma que “somos o que fazemos com o que fizeram de nós”. Isso implica duas vertentes cronológicas entrelaçadas. A primeira refere-se a tudo o que recebemos sem poder escolher: o lugar onde nascemos, o capital social que herdamos, nosso ambiente familiar e a educação inicial que recebemos.
Esses são os fatores determinantes com os quais moldamos nosso presente e nosso futuro: a primeira parte da frase de Sartre “somos o que fazemos”. Essa articulação pressupõe que a argila inicial é diferente. E o que “podemos fazer” é fortemente marcado pelo que recebemos.
Naquilo que “fizeram de nós” – e até mesmo no que continuam fazendo conosco – há forças que sustentam, destroem, enfraquecem ou fortalecem nossa subjetividade: culturas familiares marcadas pelo abuso; precariedades emocionais que nos afundam no medo; marcas de violência não curadas; vulnerabilidades econômicas que transformam o presente em um pesadelo; impossibilidades de imaginar o futuro; dívidas de jogo ou empréstimos contraídos para comprar comida; vícios; problemas de saúde mental não tratados a tempo; negligências governamentais que transformam a crueldade em uma forma de orgulho.
Todos esses elementos, ou cada um separadamente, causam um impacto tão grande que muitos (e muitas) não conseguem transformar essas aflições em uma aposta pela vida. É verdade que existem outros que — por meio do trabalho, da poesia, do apoio externo, do amor ou da terapia — conseguem conter o impacto avassalador de certos golpes. Mas vamos culpar quem não consegue, quem sofre, quem não conseguiu sair do confinamento em que percebe sua própria história? Vamos abandoná-lo com uma revitimização que o torna responsável por seu sofrimento encarnado?
As dores têm origens diversas. Longas depressões não tratadas, lutos não superados, vícios que prometiam alívio e acabaram alienando, marcas antigas sem cura, famílias e escolas que dizem proteger, mas que, na verdade, destroem, sistemas de saúde mental sobrecarregados, sem financiamento ou distantes. Falar do social não apaga o íntimo: integra-o e complementa-o. Pois cada existência é uma trama de corpo, memória, laços, história, economia e comunidade.
Não sabemos ao certo se alguém está lendo estas linhas de um quarto fechado, remoendo seu martírio por não encontrar outra saída. Nesse refúgio interno, à beira de sua sombra, um nó repete em solidão seu segredo íntimo sem futuro. Em muitas ocasiões, aqueles que pensam em pôr fim à própria existência vão se desconectando progressivamente da rede afetiva. Não acreditam que alguém possa ajudá-los porque estão convencidos de que tudo se decide em seu interior. É aí que faltamos.
Onde nossa ausência se torna evidente porque não sabemos como pronunciar as sílabas de seus fantasmas. Ou porque não conseguimos unir a ética do cuidado à responsabilidade e à delicadeza que toda vida atormentada merece. Esse sufoco se aprofunda, além disso, quando se omitem — na agenda social pública — os exemplos de coragem; as histórias de amizades inabaláveis; a nobreza da dedicação militante; a beleza curativa da natureza e as múltiplas formas vivas de companheirismo e dedicação.
Lá fora caminham parentes, amigos e companheiros que percebem sua existência como uma experiência infeliz. E, além disso, vivem seu sofrimento em um clima onde não abundam relatos coletivos de esperança. O contexto entrelaça a subjetividade da dor com o abandono do cuidado social organizado. A isso se soma a propagação contínua de distopias e um murmúrio persistente que costuma celebrar a crueldade e impor o desânimo.
Dada a generalização dessa pandemia, é possível que, perto de nós, existam pessoas que estejam passando por esse pesadelo. Talvez tenham dificuldade para respirar. Mas, mesmo nessa sufocamento, há um fio de oxigênio que afirma que a história delas não está encerrada. Pode estar mutilada, mas ainda guarda ar suficiente para dizer que precisa de ajuda.
Há momentos em que o calendário pesa como uma pedra e o corpo se torna uma casa sem janelas. Nesses momentos, a mente repete uma sentença escrita pelo sofrimento. Nesse momento, os discursos moralistas não ajudam: é preciso um silêncio compartilhado, uma mão morna, uma voz que não profira sermões. Basta uma presença compreensiva. Uma proximidade, mesmo que silenciosa.
Henri Bergson chamou de élan vital o impulso misterioso que atravessa tudo o que respira. Esse impulso perde vigor quando uma sensação de fracasso, transformada em uma tela automática de infortúnios, começa a pesar toneladas. A vitalidade sempre precisa de um sentido. Uma ilusão poderosa que aspira e deseja. Uma força que inventa caminhos mesmo quando as trilhas estão alagadas, que funciona como um farol, mas que privilegia a jornada em detrimento do destino. Konstantin Kavafis transmitiu essa disposição em um poema escrito no final do século 19, intitulado “Ítaca”. Essa jornada, que transforma o trajeto na parte essencial da viagem, nem sempre segue em linha reta. Implica cair e não se realiza com sapatos limpos.
Baruch Spinoza sabia que a tristeza nos tira a força, diminui nosso ritmo, rouba-nos a possibilidade de agir. Jauretche, com sua sabedoria da terra e da esquina, traduziu isso para o espanhol portenho: as oligarquias preferem povos entristecidos, corpos isolados, almas exaustas. Por isso, falar de suicídio não pode se reduzir a uma cena privada: também nos obriga a nos perguntar quais formas de abandono, precariedade e brutalidade social estão erguendo muros ao redor da esperança. Devemos observar, além disso, que abundam as observações que associam a fragilidade à culpa e o cansaço à vergonha. As lições mundanas de um estoicismo — rebaixado a manual de autoajuda — que insiste em qualificar o “não aguento mais” como uma falha da matriz privada. Não é crime estar abatido.
Precisamos popularizar a possibilidade de ligar para uma linha de apoio, procurar um pronto-socorro, um centro de saúde, uma escola ou uma organização do bairro. Não são necessárias palavras perfeitas: basta dizer “não aguento mais” para que — do outro lado — surja alguma forma de apoio. A ternura pode ser uma pátria portátil. Chorar a dois dilui o desespero. Faz com que o peso da aflição seja repartido, que o sinal saia do buraco e se transforme em passagem. Não há contradição entre estar quebrado e buscar os outros. Às vezes, o fio que salva começa exatamente ali: em mostrar a rachadura e permitir que outra pessoa entre para alargá-la, para deixar entrar um pouco mais de luz.
Precisamos uns dos outros nessa tarefa porque somos necessários. Precisamos uns dos outros em dias nublados e noites desoladas. Com silêncios e talvez sem perguntas. Ninguém volta do precipício por obedecer a uma ordem de fortaleza. Volta-se com os outros: com uma amiga que escuta sem julgar, com um professor que percebe um sinal, com uma médica que coloca a mão no ombro, com um clube que acende as luzes de seu quadriculado para convidá-lo a jogar, com uma política pública sustentável, com orçamento, prevenção, tratamento e acompanhamento. Isso se constrói em comunidade. Acompanhar não é ter todas as respostas: é estar por perto; afastar perigos imediatos, insistir com delicadeza, acompanhar com a presença próxima e/ou dar apoio até que os profissionais cheguem.
O suicídio também deve ser entendido como uma interrogação coletiva. Precisamos reivindicar novamente espaços onde a existência e o cotidiano sejam invocados pelo nome e não sejam associados ao isolamento das redes sociais, ao egocentrismo, à competição ou à guerra de todos contra todos. A vida, quando dói tanto, precisa de testemunhas amorosas. Toda desolação merece e exige companhia.
(*) Jorge Elbaum é sociólogo, doutor em Ciências Econômicas, analista sênior do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE, www.estrategia.la)
Fonte: A epidemia de suicídios na Argentina – Revista Opera – Link da matéria: https://revistaopera.operamundi.uol.com.br/2026/09/28/a-epidemia-de-suicidios-na-argentina/


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