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O X da questão: quanto custa um trilionário?

Susana Prizendt – Sob o véu de fantasias tecnológicas, magnatas das Big Techs desviam recursos públicos e exigem prioridade no uso de recursos naturais como a água. E, em vez de empregarem suas fortunas na preservação do planeta em que vivem, preferem expandir a destruição até em Marte

Em seu programa semanal, Domingo no Parque, Sílvio Santos costumava perguntar à plateia ruidosa: “Quem quer um milhão?”. Logo na sequência da gritaria desencadeada, ele mostrava um objeto representando um milho enorme e soltava o tradicional “ráráraeee” que ficou gravado na mente de gerações de brasileiros e brasileiras.

O apresentador, considerado um dos homens mais bem sucedidos do país, era admirado por, supostamente, ser de origem simples e ter feito sua fortuna com muito esforço pessoal, chegando a ser camelô. Inspiração perfeita para uma população com menos dinheiro na carteira do que o necessário e com uma vontade (insuflada 24 horas ao dia pelos meios de comunicação) de ter acesso ao estilo de vida de gente rica. Tudo muito apropriado para que o mito do “self-made man” criasse raízes profundas na mente do povão e permitisse que a farsa da meritocracia seguisse iludindo homens e mulheres que ralam na ingratidão da labuta diária. Ideologia meritocrática à parte, contar com um pouco de sorte sempre esteve nos planos do povão.

Naquele tempo, o sonho de se tornar milionário fazia com que boa parte das pessoas reservasse um tantinho do que conseguia receber, através de seu trabalho suado, para apostar na loteria. Por menor que fossem as chances de ter êxito, a abertura de um pequeno espaço imaginário, em que haveria fartura financeira, já trazia boas doses de emoção e algum alento à rotina. E Sílvio soube explorar ambos, ao criar um programa de entretenimento baseado em torneios dos mais variados e em sorteios de prêmios. Uma sacada importante para fidelizar o público foi a vinculação de algumas dessas premiações ao inesquecível Carnê do Baú da Felicidade, um sistema em que as pessoas pagavam uma mensalidade relativamente modesta.

De grão em grão, ou melhor, de carnê em carnê, o papo pode ficar cheio, não é? A fortuna do apresentador foi crescendo com essa espécie de dízimo que seus seguidores e, sobretudo, suas seguidoras, destinavam religiosamente, mês sim e mês também, a ele. Quem não honrasse com o compromisso não teria direito a participar dos torneios ou receber prêmios, caso fosse sorteado/a pelo programa. E lá se foram 60 anos desde que o Baú da Felicidade deu o ar da graça. E ele segue vivo até hoje, agora com o nome acrescido da palavra Jequiti, marca de cosméticos criada por Sílvio, em 2006, que funciona de modo semelhante ao da Natura, uma empresa que opera, desde 1974, com vendedoras/consultoras sem vínculos trabalhistas. É… dá para ver que a chamada uberização vem de longe.

Mas voltemos aos velhos tempos do Baú. A fama de Sílvio como homem de negócios e como uma figura paterna, já que ele “distribuía” eletrodomésticos, bicicletas, videogames e outros objetos do desejo, o cacifou para ser candidato a presidente da República. O ano era 1989, o primeiro em que nossa população poderia votar diretamente, após décadas de regime ditatorial. Ele só entrou na reta final da campanha, faltando duas semanas para o primeiro turno, e atingiu rapidamente 30% das intenções de voto, tendo boas chances de ser eleito. Mas a candidatura foi impugnada por irregularidades em seu partido, o PMN. E, ao menos em relação à presidência, “Sílvio Santos não veio aí”.

Da TV para a Casa Branca 

Se aqui na Terra Brasilis não tivemos um apresentador de programa de televisão despachando do Palácio da Alvorada, os EUA não escaparam dessa sina. Donald Trump, famoso por apresentar o programa The Apprentice, ganhou o posto em 2017, após se colocar, ao mesmo tempo (algo sabidamente impossível), como a opção anti-sistema e o empresário bem sucedido que ia botar a casa em ordem. Foi substituído por John Biden nas eleições seguintes, mas voltou ao cargo em 2025, bradando o slogan “Make América Great Again”, conhecido como MAGA. Seu discurso exaltava os feitos estadunidenses, assumindo enfaticamente uma suposta superioridade do país frente às outras nações. Ou seja, para os cidadãos de bem dos EUA, a glória. Para a rapa, dentro e fora do país, porrada sem dó nem piedade.

Quando Silvio Santos foi candidato no Brasil, as pessoas sonhavam em ser milionárias, mas em reais. Hoje, com o bilionário – em dólares – Trump ditando regras mundiais de seu trono, a casa dos milhões ficou para trás. Seguindo a postura do presidente do país mais imperialista da história, outras personalidades começaram a assumir orgulhosamente suas riquezas – e até mesmo os meios controversos para conquistá-las. Utilizar o poder do Estado, enfraquecendo seus mecanismos de controle, para obter vantagens e aumentar patrimônios privados, algo que está na base do neoliberalismo, deixou de ser uma ação a ser disfarçada.

A cerimônia de posse de Trump 2 foi uma demonstração incontestável dessa postura. Em posição de destaque, estavam vários dos homens mais ricos do mundo, a maior parte oriunda do universo das Big Techs. Esses senhores brancos engravatados – que sorriram sem o menor constrangimento nas fotos – detém muito mais do que grana para torrar por gerações. Eles possuem uma influência acachapante sobre a sociedade global, já que suas empresas controlam ao menos dois elementos fundamentais: a coleta e o gerenciamento de dados de pessoas, instituições e países, e a circulação dos conteúdos que chegam a maior parte dos habitantes do planeta.

Tamanha simbiose entre um governo assumidamente ultra imperialista e essas gigantes tecnológicas demonstra que entramos em um período em que o poder militar detido pela elite de uma nação belicista, como os EUA, foi fundido com uma capacidade jamais vista de obter acesso às informações mais sensíveis na esfera mundial. A invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada estadual Cilia Flores só foram possíveis com o uso de tecnologias de ponta em geolocalização, fornecidas pelas empresas de Inteligência Artificial do momento.

Se alguém duvida da relação umbilical entre o Estado e as Big Techs, veja o que diz Alex Henthorn-Iwane, em um artigo na Wire: “As leis de vigilância dos EUA — incluindo a Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira (FISA), a Lei CLOUD e a Ordem Executiva 12333 — criam obrigações abrangentes para as empresas de tecnologia americanas, independentemente de onde sua infraestrutura ou seus clientes estejam localizados. Essas leis permitem que as autoridades americanas exijam acesso a dados, mesmo quando esses dados estão armazenados fora dos Estados Unidos ou pertencem a pessoas não americanas.” Precisa dizer mais alguma coisa?

Passa pra cá

Observando novamente os magnatas sorridentes na posse trumpista, não temos como não olhar especificamente para uma das figuras mais icônicas do mundo High Tech: Elon Musk. O empresário doou rios de dinheiro para a campanha do atual presidente e, logo que este se acomodou na Casa Branca, o convidou a atuar formalmente no governo por um período temporário de 3 meses. Sua missão: reduzir o custo estatal em 2 trilhões de dólares, algo que, segundo análises posteriores, passou longe de ser atingido.

Mesmo assim, no curto período em que exerceu a função de liderança do recém-criado Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), Musk foi ágil em desmontar várias das estruturas reguladoras do país, cortar gastos de programas sociais e botar na rua mais de 260 mil funcionários/as públicos/as sem o menor critério técnico.

Segundo a analista Elaine Kamarck, o DOGE cortou “tão profundamente e de forma tão aleatória que, quando os secretários de gabinete assumiram e Elon Musk já não estava mais lá, perceberam que precisavam trazer algumas dessas pessoas de volta”. Algumas? Bem, foi assim que 25 mil delas acabaram sendo recontratadas – e tiveram que rebolar para tentar botar alguma ordem na bagunça que encontraram. Bagunça que, não por acaso, implica na alteração das condições de vida de multidões, dentro e fora das fronteiras nacionais, e na oportunidade de ganhos ainda mais polpudos para as corporações.

É isso, quando recursos financeiros de um governo deixam de ir para setores fundamentais da sociedade pela qual é responsável, e regras que impõem limites ao avanço da iniciativa privada são destruídas, já sabemos onde o dinheiro vai parar. No caso das Big Techs, onipresentes tanto no cenário político como econômico, ele vai engordar os bolsos de seus sócios majoritários. Hoje, no mundo, existem 86 bilionários apenas no setor de Inteligência Artificial, sendo que 45 deles adquiriram esse status apenas no último ano. Segundo a revista Forbes, eles possuem um patrimônio coletivo de quase três trilhões de dólares, o equivalente à riqueza detida pelas 4 bilhões de pessoas mais pobres do globo terrestre – metade da população.

As consequências dessa  forma de (des)governar e da crescente concentração de renda estão aí. Se pensarmos só no território estadunidense, dá para ter noção do grau de desmantelamento socioeconômico do país pela quantidade de gente que hoje depende do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP). São 42 milhões de pessoas, 1 em cada 8 habitantes. O valor mensal recebido é de 190 dólares, muito inferior ao que atenderia suas necessidades alimentares. E mesmo essa graninha tão básica, que poderia proteger crianças e idosos da fome, chegou a ser congelada por Trump, na ocasião da paralisia orçamentária enfrentada no Congresso.

Por mais sofrida que possa ser a situação desses 12% da população dos EUA, as consequências das medidas adotadas pela atual administração, a partir do estreitamento de suas relações com donos de corporações do setor tecnológico, vão incalculavelmente além disso. Elas atingem de modo dramático outros povos (já historicamente super explorados e massacrados), dizem respeito a todo o planeta e, se não reagirmos, ao que está fora dele também.

Do fundo do solo à estratosfera

Você se lembra daquela pessoa que começou a inventar traquitanas na garagem de alguma casa da sua vizinhança, acreditou no potencial da própria ideia, trabalhou duro honestamente por alguns anos e acabou virando bilionária? Não lembra? Pois é, nem eu. Mas essa é a lorota que muita gente acredita quando fala de quem conseguiu acumular fortunas monumentais. Sílvio era um simples camelô e criou um império do nada só porque se esforçou. Nenhuma palavra em relação a ele ser branco, homem, de família de classe média e ter usado de métodos para lá de duvidosos e relações questionáveis, como as estabelecidas com o governo ditatorial do país, é pronunciada.

Dando um salto para os dias de hoje, exemplos não faltam da complacência (para dizer o mínimo) da sociedade e do poder público com figuras como Edir Macedo, controlador de uma rede corporativa nada “cristã”, cujo banco adotou práticas caloteiras semelhantes às do Banco Master de Vorcaro. Ou mesmo com os donos das Americanas, responsáveis por uma falcatrua bilionária que quebrou fornecedores em 2023 e segue impune até hoje, mesmo envolvendo sujeitos que já estão entre os mais ricos do Brasil e poderiam muito bem ressarcir aqueles/as que prejudicaram. E o discurso do empreendedorismo meritocrático segue zunindo 24 horas ao dia nos nossos ouvidos.

Segundo a ladainha corrente, os bam-bam-bans das megaempresas High Tech são exemplos de cidadãos de bem que enriqueceram devido aos próprios talentos e esforços. Elon Musk, o indivíduo que (até onde sabemos, já que o índice da Forbes não inclui famílias reais) tem o maior patrimônio privado do universo, teria obtido esse troféu por ser alguém brilhante no mundo dos negócios, agindo de forma independente das benesses do Estado. Mas é só olhar para a enormidade de políticas públicas dos EUA que impulsionaram suas empresas que essa lenda vai por água abaixo.

De acordo com uma investigação do Washington Post, elas receberam, ao longo de 20 anos, “pelo menos 38 bilhões de dólares em contratos governamentais, empréstimos, subsídios e créditos fiscais, muitas vezes em momentos críticos”, sendo que a “análise inclui apenas contratos disponíveis publicamente, omitindo trabalhos confidenciais de defesa e inteligência para o governo federal”; e que há “quase uma dúzia de outras subvenções, reembolsos e créditos fiscais locais cujo valor específico não é público”.

Além disso, existem mais de 50 contratos em andamento com agências do país, como a Administração de Serviços Gerais, a NASA e o Departamento de Defesa. Eles devem reforçar o cofrinho do empresário anti-gastos governamentais – que saiu cortando verbas de programas essenciais do governo como um louco, quando teve a caneta para isso na mão. O desvio do dinheiro público, arrecadado através dos benditos impostos pagos pela população (e que deveria ir para os serviços básicos dos quais ela necessita), para os bolsos das empresas de magnatas, retira de quem tem pouco para estimular quem já tem sobrando a ter ainda mais.

Foi com o empréstimo de cerca de meio bilhão de dólares do Departamento de Energia, em 2010, que a Tesla teve uma ascensão fulminante, adquiriu sua fábrica em Fremont, na Califórnia e criou e fabricou um sedã elétrico de luxo, vendido para uma elite que está terrivelmente preocupada com suas emissões de carbono e quer contribuir para adiar o fim do mundo. O que parece não ser da conta dessa gente endinheirada são os impactos da cadeia internacional de extração mineral que fornece os elementos para a fabricação desses veículos amigos da natureza.

Na América do Sul (e aqui no Brasil mesmo), há regiões em que mineradoras exploram trabalhadores e devastam a natureza sem dó alguma, para enviar lítio e outros minérios a preço de casca de banana para as empresas chinesas que fazem baterias para fábricas de Musk. Se arrancar ininterruptamente o que está no ventre da terra faz parte das negociatas dos CEOs das Big Techs, há os que ainda querem levar os elementos extraídos nesse processo agressivo, agora materializados em formato de traquitanas espaciais, para ambientes fora do planeta Terra.

Marte é aqui

O volume de resíduos não-biodegradáveis espalhados pelas sociedades humanas sobre a superfície terrestre não pára de crescer. Países da região da África Ocidental e do Sul da Ásia foram transformados em depósitos de substâncias tóxicas provenientes de produtos consumidos, em grande parte, pelo Norte Global. Somente a Nigéria, recebe cerca de 150 mil toneladas de e-lixo por ano, o que envolve 100 mil trabalhadores/as informais, diretamente impactados/as por essa exposição contínua. E a tendência é o cenário piorar. As projeções indicam que até 2030 a geração global de lixo eletrônico aumentará em 32%.

Assim, a poluição gerada pelo fluxo de produção e consumo de equipamentos tecnológicos pode ser resumida em dois tipos: a que despeja os resíduos sólidos acima mencionados no solo e nas águas; e a que entope nosso ar com gases de efeito estufa. Portanto, crosta e atmosfera terrestres abarrotadas com substâncias que alteram aceleradamente os ecossistemas (e portanto o clima), nós já temos. E estão aí, bufando gases tóxicos ininterruptamente, os data centers das Big Techs, como o Colossus, um dos complexos que mantém as empresas que usam IA de Musk funcionando.

Mas fumaça pouca é bobagem para quem é megalomaníaco, e o planeta ficou pequeno para distribuir tantos poluentes. Com o dinheiro jorrando através da especulação financeira e da abertura dos cofres de governos de certas nações, é possível ampliar os horizontes – e o céu jamais será o limite. Os senhores das Big Techs decidiram povoar de geringonças não apenas a área que forma a órbita da Terra, mas também a Lua, Marte e o que estiver pela frente.

É assim que as naves lançadas pela SpaceX de Musk e pela Blue Origin de Jeff Bezos, bem como as “constelações de satélites” que já estão em órbita, espalham resíduos em suas experiências consideradas visionárias, enquanto o setor faz lobby para desregular a política estadunidense relativa ao  lixo espacial. E dá-lhe engenhoca explodindo antes de cumprir os sonhos mirabolantes de seus padrinhos.

Um dos principais planos da SpaceX é colonizar Marte, despachando um milhão de pessoas para lá, algo que está previsto para começar a partir de 2028. É um projeto altamente especulativo que poderia, segundo a empresa, render mais bons trilhões. Mas o planeta, apesar de próximo à Terra, é bem diferente. A exposição sem proteção, em qualquer lugar de sua superfície, implicaria em receber uma carga extremamente forte de radiação.

Seu solo é rico em perclorato, uma substância tóxica que afeta o sistema hormonal e, portanto, a reprodução. Além disso, os ossos humanos se enfraquecem pelo efeito da gravidade local (que equivale a apenas 38% da nossa), o que impediria as mulheres de sustentar uma gravidez. Como se não bastasse, ele é varrido por tempestades de poeira que iriam tornar tudo um pesadelo, como diz o livro “Uma Cidade em Marte”, escrito por Kelly e Zach Weinersmith.

O fato é que, ao destruir os fatores responsáveis pelo equilíbrio no nosso próprio planeta, já estamos fazendo com que ele vire um inferno semelhante ao descrito no livro. Os poeirões vistos no interior de São Paulo e as disfunções hormonais detectadas em crianças expostas a agrotóxicos são algumas das muitas demonstrações de que Marte pode, em breve, ser aqui.

Patrimônio Gasoso

A fortuna conjunta do grupo que compõe o 1% mais rico do mundo – por volta de 60 milhões de pessoas – é estimada em torno de 200 trilhões de dólares, o equivalente ao que é possuído conjuntamente por 95% da humanidade. Com a grana acumulada por essa turma, somente entre 2015 e 2025, daria para acabar 22 vezes com a pobreza global!

Ao que parece, a tendência que se vê é oposta: estimular a miséria alheia. O Relatório Do Lucro Privado ao Poder Público: Financiando o Desenvolvimento, Não a Oligarquia revela que “os países ricos estão realizando os maiores cortes em ajuda humanitária desde 1960…. Enquanto isso, a crise da dívida está levando governos à falência: 60% dos países de baixa renda estão à beira do colapso, gastando mais com credores do que com saúde e educação”.

Mas, apesar de tamanha concentração financeira ser chocante, o topo da pirâmide dela ainda não está aí. Peneirando mais, podemos chegar aos cerca de 3.300 bilionários que estão transitando faceiramente pelo planeta hoje. A fortuna deles cresceu 6,5 trilhões de dólares no mesmo período e, sozinhos, eles detém mais de 20 trilhões de dólares, o correspondente ao PIB da China; ou aos PIBs da Alemanha, da Índia, do Japão e do Reino Unido somados; ou, ainda, a quase 15% do PIB mundial.

Só que o funil capetalista não descansa e, afunilando cada vez mais, vamos acabar chegando exatamente a ele, nosso camarada Elon Musk, alguém que, em junho de 2026, finalmente conseguiu acumular  seu primeiro trilhão de dólares. É uma quantidade tão estapafúrdia que, se ele torrasse um milhão por dia (valor que a maioria das pessoas jamais vai ver em toda a vida), ele levaria mais de 2700 anos para gastar tudo. O feito foi noticiado mundialmente e imagino que, como eu, milhões de pessoas devem ter se perguntado como é possível uma só pessoa concentrar tanto dinheiro. Para responder a essa questão, além de considerar tudo o que já descrevemos neste artigo relativo à influência sobre agentes do poder público, desregulação de programas sociais e favorecimentos governamentais, é preciso olhar melhor para o que compõe essa fortuna.

Há um serviço oferecido pela Forbes em que é possível consultar em tempo real as alterações no ranking dos endinheirados. No dia em que eu o consultei, o patrimônio líquido atribuído a Elon Musk era de US$938,5 bilhões e havia aumentado US$11,3 bilhões desde o dia anterior. Já o patrimônio de seu colega de podium Larry Page (da Google e o segundo da lista) era avaliado em US$288,9 bilhões e havia diminuído em US$6,3 bilhões no mesmo período. Jeff Bezos, amante como Musk do foguetório no espaço, também estava com azar porque havia perdido, na ocasião dessa consulta, US$1,7 bilhão e aparecia em quarto lugar com seus US$251.7 bilhões.

Ou seja, bilhões vêm e vão todos os dias como se fossem nuvens ao vento. Talvez seja porque a consistência dessas fortunas não deve ser muito diferente do vapor. A maior parte da riqueza dos bilionários provém de suas ações nas próprias empresas. E, se existe algo que caracteriza as ações, é sua falta de estabilidade. Um simples boato pode alterar bastante seus valores e trazer lucro ou prejuízo ao bolso. Mas existem meios mais sofisticados de inflar esse balão e o trilhão de Elon foi conquistado através de alguns deles.

A canoa vai… já virou

Pouco antes da SpaceX abrir seu capital, houve uma mudança nas regras de admissão das empresas na bolsa de valores dos EUA. A exigência da cota mínima disponibilizada de 10% das ações, um mecanismo que visa diminuir a concentração total do poder de decisão, foi uma das regras que dançou. Assim, a novata pôde colocar à venda somente 4% de suas ações, instigando uma procura mais acirrada por parte de investidores, o que estimula sua valorização. Nada como ser amigo de quem controla as regras, não é? Mas não foi apenas essa mãozinha que foi gentilmente dada à empresa, não.

A modificação no regulamento permitiu que ela entrasse no índice Nasdaq100, de modo que vários fundos de pensão fossem obrigados a comprar uma parte de suas ações, em um drible a condições que buscavam garantir uma dose de segurança ao investimento, como a que impedia a aquisição antes de 3 meses após a abertura. Trocando em miúdos, pessoas aposentadas e pensionistas tiveram uma parte de suas aplicações enfiadas nessa empreitada, apesar da fragilidade de sua consistência. E lá vai o dinheiro do povo para as contas dos especuladores financeiros.

O fato é que essas manobras contribuíram para que a SpaceX tivesse sucesso nesse início de abertura de capital. Elas garantiram uma valorização astronômica da corporação e catapultaram a fortuna de seu maior acionista, que vocês sabem bem quem é, ao trilhão que ele sempre quis possuir. O feito acabou sendo atingido antes da data prevista pelo mercado, 2027, e temos que reconhecer que a velocidade com a qual a concentração financeira está aumentando é inédita e profundamente vinculada a essa falta de lastro que rege a economia atual, permitindo transações especulativas que pareciam inimagináveis há décadas atrás.

Não importa se o valor dessas ações cair mais para frente (como realmente aconteceu com a SpaceX pouco depois), quem navega nesses mares sabe pular do barco antes que ele afunde e nadar até a ilha da abundância que criou com os tesouros acumulados nesse processo especulativo. Quem se afoga somos nós, o povão que só lida com um tipo de bolsa, a que usamos para guardar a carteira. Aliás, carteira que fica mais e mais vazia devido à drenagem massiva de grana – que a atual sociedade ultra financeirizada promove – de quem tem pouco para quem tem sobrando.

Um trilhão de… litros d’água 

Estamos mundialmente em estado de falência hídrica. O alerta veio em janeiro deste ano e significa que quatro bilhões de pessoas enfrentam escassez de água grave por pelo menos um mês a cada ano. Já sentimos esses efeitos no Brasil, tanto no campo como na cidade. Muitas organizações ativistas, como o Movimento Urbano de Agroecologia (MUDA), estão se esforçando para estimular a construção de sistemas de captação de água e biofiltragem nas comunidades vulnerabilizadas, e mobilizando a sociedade para exigir políticas públicas adequadas às reais necessidades de nossa sobrevivência. Mas há vozes destoantes.

Recentemente, Jeff Bezos, o chefão da Amazon, empresa bem conhecida pelos movimentos sociais por suas práticas exploradoras e antiéticas, declarou que a IA deve ter prioridade no uso da água ainda disponível no planeta, já que privá-la disso “apenas para sustentar o conforto humano básico” atrasaria a criação da superinteligência que supostamente acabaria com todos os nossos problemas de disponibilidade de recursos. O uso da palavra “apenas” é de lascar!

Quando alguém, que tem várias piscinas olímpicas à sua disposição com um estalar de dedos, diz que o acesso da população à água não deve ser prioridade frente ao que é destinado às IAs, como devemos responder? Que a insensibilidade dele frente às mais de 9 mil pessoas que morrem por dia no planeta por falta d’água potável é inaceitável? Seria muita ingenuidade, já que ele não apenas não lamenta esse drama, como está conscientemente envolvido em sua perpetuação.

Como eu escrevi em um artigo anterior, a sede dos data centers que sustentam as Big Techs não tem limites. Eles estão deixando cidades inteiras sem acesso às águas que abastecem seus territórios ou elevando as contas pagas pelo seu consumo a alturas nunca vistas. Mesmo assim, se deixarmos, a tendência é que se multipliquem como coelhos com o aumento do uso das novas tecnologias do mundo digital. Felizmente, estão surgindo mobilizações consistentes contra esse abuso.

E aqui vale refletir novamente sobre o que significa um trilhão. É que esta é a quantidade de água que os centros de dados High Tech já consomem anualmente. Ela equivaleria ao consumo de toda a população da região metropolitana de São Paulo por um ano inteiro, se levarmos em conta o valor necessário para a sobrevivência de cada ser humano no mundo, cerca de 110 litros ao dia, segundo a ONU. De acordo com o relatório Progresso na Água Potável e Saneamento em Domicílios 2000-2024: foco especial nas desigualdades, lançado em 2025 pela OMS e UNICEF, mais de 2 bilhões de pessoas não têm acesso a água potável no planeta. E, com a crise sindêmica que enfrentamos, a tendência é o cenário se agravar.

Secas prolongadas e intensas são uma das consequências das alterações climáticas causadas pelo modelo econômico hegemônico. E esse modelo foi construído para favorecer uma porcentagem muito pequena da população global, uma elite que é responsável diretamente pelos problemas mais sérios que enfrentamos. Sendo assim, que tal levarmos Bezos para uma comunidade afetada drasticamente pela falta de água e o deixarmos lá durante um mês? Será que ele continuaria bradando que a IA deve ser priorizada no abastecimento?

Mas voltemos aos trilhões… Segundo a Oxfam, “décadas de consumo excessivo de carbono por esta elite global estão causando danos econômicos massivos, principalmente em países de baixa e média-baixa renda, que podem somar US$44 trilhões até 2050”. Se o valor desse dinheiro é algo muito abstrato, a organização estima que “as emissões geradas pelo 1% mais rico em apenas um ano causarão 1,3 milhão de mortes relacionadas ao calor até o final do século”. E aqui vale destrinchar melhor esses dados.

Nas pegadas do pé grande 

Você tem ideia de sua pegada ecológica? A média mundial é de 2,7 hectares globais por habitante, mas a biocapacidade disponível para cada ser humano é bem menor, somente de 1,8 hectare global. Se pensarmos na pegada humana total no planeta, nós estamos dispondo dos “recursos” que seriam necessários para um ano de vida em apenas 7 meses. Depois disso (a previsão de 2026 é que isso ocorra no dia 30 de julho), entramos no vermelho por usar mais do que a natureza consegue repor – e passamos a consumir a cota das gerações futuras. Só que, nesse processo, é necessário olhar com cuidado quem realmente está pisando pesadamente na Terra.

Voltando ao 1% mais rico, se analisarmos separadamente a pegada conjunta das pessoas que fazem parte dele, a data de esgotamento de suas cotas seria muito mais curta. Em apenas uma dezena de dias, elas já não teriam como se sustentar sem usar os “recursos” alheios. Sim, a partir do dia 10 de janeiro, até o dia 31 dezembro, esse sustento só seria possível fazendo empréstimos, que jamais serão pagos, junto ao resto da população de hoje e de amanhã.

No entanto, embora seja muito voraz, essa elite como um todo não é tão gulosa assim. De fato, o 0,1% mais rico atingiria esse estado ainda mais cedo, em 3 de janeiro, data chamada pela Oxfam de Dia dos Ricos Poluidores.  Se afunilarmos mais, e pensarmos em um dos multibilionários do momento ou no nosso primeiro trilionário, veremos que esses caras não durariam horas, se mantivessem seu estilo de vida, sem surrupiar as cotas de outrem. O relatório A Desigualdade de Carbono Mata, lançado em 2024 pela organização, estimou o impacto do uso de jatos, iates e negócios envolvendo setores poluentes, feitos pelos chamados super-ricos.

A conclusão é chocante: eles emitem a quantidade de gases de efeito estufa que uma pessoa, em média, poderia emitir ao longo da vida, em apenas uma hora e meia. Se pensarmos na cota anual a qual teriam direito, e considerarmos que vão viver até os noventa anos, eles a esgotariam em apenas um minuto! Tudo o que consumiriam depois do primeiro minuto do ano seria extraído das cotas (e nas costas) da rapa.

Para ilustrar, vamos ver alguns exemplos apresentados pela Oxfam. Calcula-se que, somente no ano de 2024, as viagens de Musk em seus jatos particulares tenham presenteado nosso ar com 4 mil toneladas métricas de dióxido de carbono. Trata-se, de acordo com o relatório, de 250 vezes mais do que a quantidade média emitida por um/a estadunidense (que já tem uma pegada ecológica bem maior que a média da população mundial) durante a vida inteira. Ou, ainda, do volume que seria gerado por uma pessoa pertencente aos 50% mais pobres do mundo em 5.437 anos!

E a pisada no formigueiro humano não pára por aí. O lançamento de um dos foguetes de Musk pode cuspir toneladas de CO2 na atmosfera (o Starship, por exemplo, emite diretamente cerca de 3500). Atualmente, a indústria espacial pode não chegar perto do efeito devastador provocado pelo setor de aviação no que diz respeito à emissão total de gases de efeito estufa, mas a fuligem que ela lança chega às camadas mais altas e pode provocar um aquecimento 500 vezes maior do que todas as outras fontes de fuligem combinadas, segundo um estudo que analisa seu impacto na camada de ozônio.

Para dar uma ideia desses números, pense que a quantidade emitida equivale às emissões de 760 carros movidos a gasolina rodando sem parar durante um ano inteiro. Agora imagine para onde a frota composta de milhares de naves Starlink, que deverão ser lançadas para colonizar Marte, como anuncia o site da SpaceX, pode nos levar.

Quando o que é x vira z

É verdade que o conceito de verdade poderia ser debatido à exaustão, mas neste artigo não vamos entrar nesse labirinto. No entanto, o ditado que diz que mentira tem perna curta costuma ser acertado e provavelmente todos/as nós já fomos pegos/as na arapuca das lorotas. Mas até os ditados podem não funcionar para quem dispõe de uma grana substanciosa, e a indústria do cigarro nos mostra como milhões de mortes evitáveis podem ocorrer antes que uma falácia, como a que garante que fumar não faz mal para a saúde, seja desmontada.

Recentemente, descobriu-se que as pesquisas referentes à captura de carbono, mecanismo queridinho do capetalismo verde, foram financiadas pelas indústrias de combustíveis fósseis dos EUA. Por cerca de três décadas, “as petrolíferas patrocinavam centros, pagavam pesquisadores, mantinham escritórios no campus e até tinham poder de veto sobre os projetos”, como mostra matéria publicada pelo Climainfo. Se há muito dinheiro investido em estudos que apresentam falsas soluções para o atual colapso climático, há ainda a grana gorda que é usada para negar que ele existe.

Vimos como Elon Musk foi capaz de fazer com que uma empresa que teve mais de 4 bilhões de dólares de prejuízo somente no primeiro trimestre deste ano, tivesse suas ações disputadas à tapa na abertura de seu capital na bolsa. Anúncios mirabolantes feitos por ele sobre bilhões de robôs humanóides, passeios à Lua e data centers no espaço, ignorando a radiação ionizante que degradaria os equipamentos, “garantem” que a SpaceX vai valer quase 30 trilhões de dólares nos próximos anos. Se a mídia comercial ou as redes sociais questionarem esse tipo de promessa e ameaçarem atrapalhar a jogada, não há problema. É só, literalmente, comprá-las. Não estamos falando do que chamamos de molhar a mão de seus editores, estamos nos referindo à aquisição da posse desses veículos.

Com 44 bilhões de dólares, Musk arrematou o Twitter, mudou seu nome para X e adequou o funcionamento da plataforma ao seu bel prazer. Desde então, pode soltar suas batatadas nela quase sem restrições. O problema é que, em meio aos seus delírios futurísticos, ele espalha, junto à uma comunidade digital de mais de meio bilhão de pessoas, falsidades sobre a realidade em que vivemos hoje. Cientistas têm vindo a público para dizer quão mais difícil está seu trabalho em informar a população corretamente sobre assuntos vitais como a crise climática.

O negacionismo insuflado por magnatas como ele está prejudicando até o financiamento das pesquisas e medidas necessárias para lidar com os problemas. Estamos falando de decisões que podem ser essenciais para que nossa espécie sobreviva, ou, ao menos, para evitar que essa sobrevivência se dê em meio ao caos global. Nesse possível cenário, o sofrimento já vivido pela maioria da população seria multiplicado incalculáveis vezes, tornando insuportável a vida de quem não possui bilhões em sua conta bancária.

Terra que te quero viva

Recentemente, um conjunto de biólogos e geólogos estimou que nosso planeta possui mais células vivas do que as estrelas existentes no universo inteiro. O valor total delas seria representado pelo número 1 seguido de trinta zeros: um milhão de trilhões de trilhões. Como diz o artigo de divulgação do estudo, “muitas delas são cianobactérias, pequenas bolhas de energia e química que trabalham nas plantas e nos mares, montando a vida como a conhecemos”.

Sabemos que as vidas humanas – e as vidas dos seres que fazem parte de uma teia ainda não totalmente conhecida de espécies – dependem de condições muito peculiares para serem viáveis. Sabemos que este planeta em que estamos, neste momento de sua história, possui (ainda) essas condições. Não conhecemos nenhum outro que atende nossas necessidades mais básicas. Caso existam, esses outros planetas estão tão longe que não temos como acessá-los. Se a distância, elemento espacial, nos mostra a materialidade dos nossos limites, o tempo, elemento imaterial, soma-se a ela, já que não temos como viajar para o passado ou para o futuro.

Quando bilionários (ou trilionários!) pretendem criar, como diz Alex Karp, CEO da Palantir, uma tecnocracia em que eles mesmos, através da Inteligência Artificial, constituem todo o poder gestor da governança do mundo, as consequências serão mais destruição ambiental e mais sofrimento humano. Até mesmo o Banco Mundial descreveu como a “mudança de paradigma de bilhões para trilhões tem sido uma bênção para investidores ricos”, gerando um desvio do que ainda temos de recursos (que deveriam ser destinados a programas humanitários) para esses mega agentes financeiros. Como conclui o relatório da Oxfam, enquanto esse pingo de gênios visionários dá vazão aos seus caprichos, ele “alimenta a desigualdade, a fome e a morte em todo o mundo”.

Comprando redes sociais, como fez Musk, ou veículos de mídia com grande alcance, como fez Bezos com o Washington Post, os magnatas podem moldar como lhes convém as informações recebidas pela população. Se Sílvio Santos acumulou uma fortuna considerável aqui no Brasil, ao mexer com a vontade das pessoas de possuir “um milhão”, os atuais donos das Big Techs extrapolam os valores de riqueza até então imaginados pelas nossas mentes. Assim, desviam o nosso foco dos trilhões de seres vivos reais que existem na Terra, para os trilhões impalpáveis de dólares que habitam um universo paralelo, criado por um sistema que ameaça nos aniquilar definitivamente num futuro próximo.

Um trilhão ou a letra X são abstrações que o cérebro humano inventou para tentar desvendar incógnitas que a realidade nos apresenta. Ao se transformarem em símbolos manipulados por pessoas super poderosas, eles nos desconectam do que é mais visceral em nossa existência. A pergunta que precisamos nos fazer, junto à que dá título a este artigo – “quanto custa um trilionário?” -, deveria ser: “quanto vale a Vida?”. Trilionários e Vida representam elementos diametralmente opostos e o futuro dependerá do modo como vamos lidar com a equação entre eles. O verdadeiro X que essa equação nos clama a encontrar jamais se reduzirá ao nome de uma rede social ou a uma letra pela qual um megalomaníaco tem uma irrefreável obsessão.

Que possamos nos unir na luta pelo direito de não ter que viver em condições semelhantes às que existem em Marte, enquanto os nossos pés estão fincados bem aqui, no planeta Terra – a única casa comum que conhecemos, em meio à imensidão enigmática do cosmos.

Fonte: O X da questão: quanto custa um trilionário?  | Outras Palavras – Link da matéria: https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/o-x-da-questao-quanto-custa-um-trilionario/

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