Política

Ultradireita: as raízes da sedução

Fabrício Maciel – Novo livro analisa as ambivalências no coração do autoritarismo. Frente a um sistema que corroi laços solidários e descarta vidas, emergem rancores, até contra a democracia. Mas há outra face: o anseio da população por alternativas políticas.

O autoritarismo é, sem dúvida, um dos grandes temas da atualidade. Ao lado de outras formas de opressão como a classe, a raça e o gênero, com as quais se articula diretamente, o autoritarismo se tornou uma das principais bases de conformação econômica, política, cultural, moral e simbólica das sociedades contemporâneas. Não por acaso, ele se encontra na agenda tanto de acadêmicos das ciências sociais e humanas como um todo, como da esfera pública e das discussões dos movimentos sociais. Sendo assim, o tema do autoritarismo não é, em princípio, nenhuma novidade.

Como se sabe, uma ampla literatura sobre o tema já foi produzida, tanto no cenário internacional quanto no brasileiro, o que exige do pesquisador um foco acurado, de modo a identificar as principais obras publicadas e discussões realizadas sobre o autoritarismo contemporâneo. A propósito, escrever mais um livro sobre o tema corre o sério risco de “chover no molhado”, para dizer o mínimo. Outra dificuldade é a enxurrada de informações falsas que se produz diariamente no mundo virtual sobre os grandes temas da vida política.

Mesmo assim, a ciência social de qualidade não pode fugir do desafio de reconstruir constantemente as grandes questões da atualidade, de modo a tentar dar conta de sua dinâmica cada vez mais acelerada. Assim, o propósito central deste livro é realizar uma reconstrução teórica sobre o tema do autoritarismo em suas conformações atuais, buscando dar conta de alguns de seus aspectos centrais e, a partir disso, contribuir para a tentativa de encontrar uma luz no fim do túnel. Trata-se, obviamente, de tarefa nada fácil.

Minha tese central é que o autoritarismo contemporâneo se conforma como um fenômeno ambivalente, na medida em que desafia e ameaça seriamente os valores e as instituições centrais da democracia liberal, ao mesmo tempo em que representa algumas das necessidades e anseios mais legítimos de grande parte da população global. Na primeira dimensão, a própria ideia de liberdade, enquanto valor central da modernidade, tem sido talvez a mais distorcida de todas, sacrificada no altar da loucura autoritária. Como veremos, alguns autores atuais oferecem elementos teóricos importantes para a compreensão desta distorção. Não por acaso, a ideia de liberdade surge tanto na literatura quanto no senso comum como uma das mais ambivalentes de toda a modernidade.

Na segunda dimensão, o que boa parte da literatura atualizada tem mostrado é que uma grande fração da população global simplesmente não se identifica com as elites políticas de seu tempo, não se sentindo representada por elas. Esta pode ser uma afirmação muito ampla e vaga, se não buscarmos aqui algumas precisões. Existem pessoas que simplesmente falam mal da política por falar. Outras expressam seus sentimentos sem estarem devidamente informadas sobre os fatos políticos de seu tempo. Mas a questão que parece mais relevante é a de que as elites políticas perderam a capacidade de representação e conexão com a massa da população como um todo, e isso independente de partido ou orientação ideológica. Podemos dizer, assim, que existe hoje uma dissonância estrutural entre o campo político e a sociedade em sua totalidade.

De modo a pavimentar um caminho teórico plausível para esta discussão, compreendo o autoritarismo contemporâneo como formas de pensar, agir e sentir, inspirado na clássica definição de Durkheim sobre os fatos sociaisi. Além de pensar em contradições de regimes políticos ou governos específicos, a ciência social precisa tematizar as formas de autoritarismo mais básicas, que se conformam no dia a dia de pessoas comuns, cujas histórias de vida são escritas exatamente sob o signo da ambivalência. Esta me parece ser a tradição de pensamento iniciada por Adorno e levada a cabo por várias autoras e autores atuais, como veremos.

Como pano de fundo geral, considero que o aprofundamento do autoritarismo contemporâneo, em toda a sua ambivalência, se deve ao surgimento, desde a década de 1970, em escala global, de um tipo novo de capitalismo, que tenho definido como “indigno”ii. Com este conceito, procuro ressaltar que o principal produto deste tipo de capitalismo é a naturalização do desvalor da vida humana em sua totalidade, o que afeta especialmente as classes populares. Com o fracasso do Welfare State no Atlântico Norte como um todo, o qual não conseguiu, ao longo da história, cumprir com suas promessas de inclusão, igualdade e justiça social, ou seja, a promessa de um capitalismo “digno”, ficou claro que o sistema capitalista nunca vai alcançar tais metas de maneira significativa em nenhum lugar do mundo. Antes disso, achávamos tratar-se de um problema específico de sociedades periféricas como a brasileira, as quais deveriam apenas seguir o caminho das sociedades bem-sucedidas do Atlântico Norte, no sentido de construir um capitalismo social e justo. Agora, através do processo histórico definido por Ulrich Beck como “brasilização do Ocidente” e por Robert Castel como o “fim da sociedade salarial”iii, não resta dúvidas de que o capitalismo indigno é uma realidade global incontornável e a raiz de todos os nossos problemas sociais e políticos.

Neste livro, entretanto, eu gostaria de voltar atrás na história, retomando, como dito acima, as discussões clássicas sobre o Fascismo e a sociedade totalitária no século XX como ponto de partida. Tais discussões não ignoram, naturalmente, as contradições políticas, econômicas e culturais do capitalismo avançado já na primeira metade do século XX enquanto pano de fundo para o florescimento de formas de pensar, agir e sentir autoritárias. Não por acaso, a famosa frase de Horkheimer “Quem não quer falar de capitalismo deveria calar-se sobre o fascismo”iv, sintetiza perfeitamente todo o movimento intelectual da primeira geração de frankfurtianos. Não poderíamos ter outro ponto de partida mais produtivo para esta discussão.

Assim, inicio minha reconstrução teórica a partir de alguns autores e obras clássicos da primeira geração de frankfurtianos. Como se sabe, a Escola de Frankfurt nos lega o que há de melhor no que diz respeito a análises sobre o fascismo clássico e a sociedade totalitária. A primeira parte do livro, intitulada “Interpretações clássicas sobre o Fascismo e a sociedade totalitária” é composta por uma revisão de algumas das principais obras de Theodor Adorno, Erich Fromm e Herbert Marcuse, além da incontornável discussão de Hannah Arendt sobre o tema.

No caso de Adorno, sua análise sobre a personalidade autoritária, escrita com colaboradores, continua sendo a principal referência para boa parte dos pesquisadores que estudei até aqui. vAs festividades e críticas em torno do centenário da Escola de Frankfurt, em 2023, chamaram a atenção para a atualidade e vitalidade da teoria crítica no cenário global recente. No que diz respeito a este clássico estudo, seu aspecto mais fundamental é que a personalidade autoritária pode se conformar em níveis distintos, de acordo com a história de vida de cada indivíduo, o que sugere uma grande complexidade em suas investigações. Para meus objetivos aqui, é de fundamental importância compreender, sobretudo, que a personalidade autoritária tem raízes propriamente sociais, o que contraria qualquer crítica a um suposto subjetivismo ou psicologismo do estudo. Também é central entender que tal tipo de personalidade é gestado, ao longo do século XX, de dentro das sociedades democráticas ocidentais, fazendo parte de sua formação cultural mais profunda.

O segundo autor analisado aqui será Erich Fromm. Resgatar sua obra é de sua importância, considerando que ele saiu do cardápio nos Estados Unidos e no Brasil, bem como em outros países, nas últimas décadas. Veremos como, para o autor, a questão da liberdade surge de maneira central, quando ele vai mostrar que o principal problema dos modernos é exatamente não saber lidar com sua liberdade conquistada, após se virem livres das amarras sociais que os mantinham atados a elos fortes nas sociedades tradicionais. A partir disso, reconstruiremos sua belíssima análise sobre o que ele chamou de “psicologia do nazismo”, de modo a buscar seus paralelos com a atualidade.vi

O terceiro frankfurtiano clássico revisitado será Herbert Marcuse. O autor lança as bases para a compreensão de uma sociedade tecnocrática totalizante, que sufoca não apenas os indivíduos, mas também poda na base a capacidade de crítica e autocrítica da sociedade moderna como um todo. Com isso, fica clara a grande contradição de tais sociedades, que prometem realização e bem-estar, na medida em que destroem a possibilidade de se vislumbrar um outro mundo realizável (daí o sentido do unidimensional), fazendo com que se aceite como única possível a liberdade limitada imposta pelo sistema tecnocrático.vii

Fechando a primeira parte do livro, recorro à também clássica reflexão de Hannah Arendt. A autora vai concordar com os frankfurtianos em vários aspectos como, por exemplo, a importância da propaganda na construção do totalitarismoviii, o que nos remete a aspectos atuais desta discussão. Além disso, a perspectiva de que as sociedades ocidentais no século XX não conseguem ver saídas para seus principais dilemas (o que seria, no limite o sentido da utopia), o que será decisivo para a gestação de movimentos e governos autoritários, também é uma preocupação compartilhada, por exemplo, por Fromm e Marcuse.

Na segunda parte, entraremos em alguns dos principais debates sobre o autoritarismo contemporâneo no plano internacional. Começaremos pela análise de Carolin Amlinger e Oliver Nachtwey realizada no contexto alemão atual. Baseados em uma pesquisa com indivíduos que se percebem como “alternativos” e simpatizantes do AfD, os autores mostraram como uma noção distorcida de liberdade é mobilizada pelo que definem como autoritarismo libertário. Sua compreensão central no livro é a de que a grande contradição de certos movimentos de direita é que eles realizam protestos que se dizem contra os fundamentos da sociedade moderna tardia, mas que se fundamentam exatamente em nome de alguns de seus valores centrais como a soberania individual e a autodeterminação.ix

Além deles, a socióloga israelense Eva Illouz realizou recentemente um estudo no qual procura compreender a especificidade da escalada autoritária em Israel. Sobre este tema obviamente polêmico, uma das percepções centrais da autora é que existe um acúmulo profundo de ressentimento naquele contexto, que será manipulado pela escalada populista de Netanyahu. Além disso, a autora dedica no livro boa parte de seu repertório acumulado de uma sociologia das emoções para explicar as contradições do cenário político contemporâneo.x

Outro sociólogo alemão, Wilhelm Heitmeyer, um dos maiores analistas do autoritarismo em seu país e autor de vasta obra pouco conhecida no Brasil, também apresenta uma contribuição de grande valia para este debate. O autor vai mostrar como um novo tipo de capitalismo autoritário se conforma na Alemanha desde a década de 2000, se tornando a base para a fratura dos elos sociais sustentados pela democracia.

Este será o pano de fundo central do que o autor vem chamando de tentações autoritárias.xi

No cenário inglês, os cientistas políticos Roger Eatwell e Matthew Goodwin vão mostrar que os fundamentos do que definem como “nacional populismo” atual não são novos, nos remetendo há décadas de contradições do Ocidente. Um dos movimentos centrais de sua análise consiste em perceber que a atual extrema direita procura dar voz a pessoas que se sentem excluídas do sistema político como um todo, o que complica a leitura de uma extrema direita perversa, como se fosse apenas o outro negativo de grupos políticos progressistas ou de esquerda.xii

No cenário francês, o historiador Enzo Traverso procurou ressaltar a importância do recorte histórico para a compreensão dos movimentos autoritários contemporâneos. Uma de suas contribuições centrais para o debate é mostrar a diferença entre neofascismo e pós-fascismo. Enquanto o primeiro termo se refere a grupos muito específicos que evocam para si algum tipo de linhagem com o fascismo clássico, o pós-fascismo caracterizaria melhor os movimentos atuais da extrema direita, considerando suas diferenças essenciais em relação ao fascismo clássico.xiii

No âmbito das discussões latino-americanas, o jornalista e historiador argentino Pablo Stefanoni vem realizando análises bastantes contundentes. Para ele, a esquerda nas últimas décadas teria se tornado defensiva, escondida na normatividade do politicamente correto, se deslocando assim gradativamente de sua tradicional imagem de rebeldia, desobediência e transgressão. Com isso, ele alerta para a necessidade de se prestar mais atenção às direitas, em suas diferentes versões, considerando como elas influenciam as novas gerações e, o mais importante, levando suas ideias a sério.xiv

De volta ao contexto alemão, os sociólogos Steffen Mau, Thomas Lux e Linus Westheuser desenvolveram recentemente uma forte crítica a tese dominante da polarização social. Para os autores, as sociedades contemporâneas são atravessadas por distintas formas de desigualdade, que determinam diversos pontos de dissenso e conflito entre as diversas classes e grupos sociais, o que embaralha a imagem de uma sociedade dividida em dois grupos bem claros que discordem entre si sobre uma série de questões de maneira totalmente nítida (como se o Brasil fosse claramente dividido entre bolsonaristas e lulistas com opiniões claras e inconciliáveis sobre os principais assuntos da sociedade brasileira atual, por exemplo).xv

Por fim, Ruy Braga situa-se nesta discussão internacional, por ter realizado uma pesquisa nos Estados Unidos, na região dos Montes Apalaches. Ali o autor procurou entender o atual cenário de precariedade, bem como a reação da classe trabalhadora oferecendo muito mais solidariedade a seus membros do que ódio e desesperança. Assim, Braga tem criticado a tese dominante do “ódio branco”. Com isso, ele contribui para a análise do elo entre precariedade, autoritarismo e racismo.xviEsta análise é importante para compreendermos a base material de transformação do capitalismo atual, sendo o ocaso da sociedade do trabalho um elemento central para o advento do autoritarismo contemporâneo.

Na terceira e última parte do livro, entraremos em algumas das principais discussões sobre o autoritarismo no Brasil de hoje. Nosso objetivo será tentar mapear em que medida nossos principais autores tem conseguido dar conta de algumas das principais questões sobre o tema e em que medida ainda se encontram presos em nosso “nacionalismo metodológico”.

O primeiro autor a ser analisado aqui será João Cezar de Castro Rocha. Ele é hoje sem dúvida um dos maiores analistas da dinâmica do bolsonarismo, tendo acertado em muitas questões, mas também deixado algumas lacunas interessantes. A principal delas diz respeito ao seu uso do conceito de “dissonância cognitiva”.xviiPara o autor, este fenômeno diz respeito exclusivamente aos círculos bolsonaristas e suas táticas de guerra no mundo virtual. A questão que de imediato pode ser levantada é se tal lógica de ação não se aplicaria também a alguns grupos de esquerda, igualmente agressivos e desrespeitosos diante de qualquer discordância teórica e política. Outro questionamento importante aqui é se a dissonância cognitiva não se aplica de alguma forma a toda a sociedade contemporânea. Um dos principais pontos de discussão para boa parte da literatura sobre autoritarismo hoje aponta, por exemplo, para um distanciamento entre as elites políticas e a população como um todo, o que poderíamos considerar também como uma forma de dissonância.

O segundo autor analisado será Jessé Souza. Assim como Rocha, Souza é hoje um dos principais autores a praticar uma sociologia pública no Brasil. Com o provocativo conceito de “pobre de direita”, ele chamou a atenção para dois tipos ideais da sociedade brasileira, o branco pobre do sul do país e o negro evangélico, enquanto suportes sociais indispensáveis ao fortalecimento recente da extrema direita no Brasil. Para o autor, uma questão central consiste em compreender por que tais perfis de pessoas oprimidas se identificaram fortemente com seu opressor explícito, o que teria fundamentos em sua condição de não reconhecimento e humilhação cotidianas.xviii

Na sequência, reconstruo uma análise dos cientistas políticos Christian Lynch e Paulo Henrique Cassimiro, que buscam utilizar o polêmico e ambivalente conceito de populismo de modo objetivo. Para eles, pode-se utilizar o conceito para qualificar uma dimensão de um ciclo político aberto desde a crise do liberalismo democrático, ocasionada pela ressaca da globalização iniciada na década de 1980. Com isso, os autores designam como “populismo” um estilo de fazer política típico de ambientes democráticos ou de massa, que seria praticado por alguma liderança carismática e reivindicaria a representação de uma maioria contra o restante da sociedade.xix

Outra discussão importante no debate brasileiro atual foi realizada por Felipe Nunes e Thomas Traumann. Baseados em ampla pesquisa empírica os autores procuraram mapear como a polarização política, cristalizada em um fenômeno que eles definem como “calcificação”, seria profunda e perigosa para o país. Para eles, na eleição de 2022, a mais disputada de nossa história, o Brasil teria vivido a consolidação de um processo de polarização extrema.xx

Os autores consideram que tal polarização extrema é um fenômeno intimamente conectado ao retorno do populismo em escala global, levando em conta este conceito como referência ao antagonismo político enquanto confronto entre o bem, que seria o povo, e o mal, encarnado pelas elites, pondo o foco do debate na dimensão moral, em detrimento de plataformas e propostas políticas concretas. Como vimos acima com Steffen Mau e colaboradores, a tese da polarização, ainda que muito sedutora, pode ser seriamente questionada, o que faremos ao longo do livro.

Por fim, Marcos Nobre parte de uma análise das jornadas de junho de 2013, de modo a mapear a trajetória coletiva que teria nos trazido até aqui. Para o autor, a eleição de Bolsonaro teria levado o país a uma situação de emergência democrática duradoura.xxiCom isso formou-se, de maneira inédita, desde a redemocratização, um movimento cuja existência seria o desafio permanente das instituições democráticas em sentido destrutivo. Este movimento, utilizaria a institucionalidade como instrumento, e não como fim, fazendo uso da própria institucionalidade para destruir as instituições democráticas.

Segundo Nobre, apenas uma pequena parcela de nossa esquerda democrática, sem muito potencial para alterar os rumos institucionais, teria visto em junho de 2013 um potencial de transformação de nossa democracia, tendo naquela energia social dispersa um potencial de superar o fenômeno que ele tem definido como pemedebismo. Neste sentido, a crítica aos limites da esquerda, que tem sido feita também por outros autores, bem como em que sentido ela vem “perdendo a guerra” para a extrema direita e como pode reagir, será um dos pontos centrais de análise deste livro.xxii

Com isso, seguindo este movimento em três tempos, partindo dos clássicos estudos sobre o fascismo, passando por algumas das principais discussões atuais sobre o autoritarismo e, por fim, adentrando no debate brasileiro, espero poder contribuir para a compreensão dos limites e possibilidades de nosso debate interno. Assim, buscando ir além de nosso “nacionalismo metodológico”xxiii, oxigenando a análise através de diálogos com o que há de melhor na teoria social externa sobre o tema, acredito podermos pavimentar o caminho para a superação do “nós contra eles” que, em minha opinião, tem sido um dos grandes entraves teóricos e políticos para a reconstrução da democracia no Brasil. Este será meu objetivo final na conclusão do livro.

Por fim, vale ressaltar que este livro é um resultado de minha estadia como professor visitante na Universidade de Jena, em 2022, a convite do professor Klaus Dörre e com apoio do DAAD. A acolhedora estadia na agradável cidade de Jena, bem como no dinâmico grupo de estudos do professor Dörre me proporcionaram estímulo, trocas intelectuais e motivação mais do que o suficiente para a realização desta empreitada. Registro aqui também meu agradecimento ao DAAD pelo financiamento que tornou possível esta experiência tão produtiva e gratificante.

Agora, antes de entrarmos na primeira parte, apresento um breve prólogo sobre a obra de Georg Simmel, para abrir a discussão, considerando que ele talvez tenha sido o clássico da sociologia que melhor compreendeu o sentido da liberdade para os modernos, o que é de profunda importância para todas as discussões posteriores. Veremos assim que a complexidade da ideia de liberdade não é nova, o que nos ajudará bastante a compreender suas distorções atuais operadas pelos interesses autoritários mais escusos.

Notas


i Durkheim, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

ii Ver Maciel, Fabrício. Capitalismo indigno: do estado de bem-estar à ascensão da extrema direita. In: Estanque, Elísio; Agnaldo, Barbosa; Maciel, Fabrício. Re-trabalhando as classes no diálogo Norte-Sul: trabalho e desigualdades no capitalismo pós-covid. São Paulo: Editora da Unesp, 2024.

iii Ver Maciel, Fabrício. A nova sociedade mundial do trabalho. Para além de centro e periferia?Rio de Janeiro: Autografia, 2021.

iv Horkheimer, Max. Die Juden und Europa. In: Horkheimer, Max (Org). Zeitschrift für Sozialforschung. Studies in Philosophie and Social Sciences. München: Deutscher Taschenburch Verlag, 1980.

v Adorno, Theodor. Estudos sobre a personalidade autoritária. São Paulo: Editora da UNESP, 2019.

vi Fromm, Erich. O medo à liberdade.9ª Ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1074.

vii Marcuse, Herbert. O homem unidimensional. São Paulo: Edipro, 2015.

viii Arendt, Hannah. Origens do totalitarismo.São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

ix Amlinger, Carolin; Nachtwey, Oliver. Gekränkte Freiheit. Aspekte des libertären Autoritarismus. Berlin: Suhrkamp Verlag, 2022.

x Illouz, Eva. Un demokratische Emotionen.DasbeispielIsrael.Berlin: Suhrkamp Verlag, 2023.

xi Heitmeier, Wilhelm. Autoritäre Versuchungen.Berlin: Suhrkamp Verlag, 2018.

xii Eatwell, Roger; Goodwin, Matthew. Nacional-populismo.A revolta contra a democracia liberal.Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2020.

xiii Traverso, Enzo. As novas faces do fascismo.Populismo e a extrema direita.Belo Horizonte: Âyiné: 2023.

xiv Stefanoni, Pablo. A rebeldia tornou-se de direita? Campinas: Editora da Unicamp, 2022.

xv Mau, Steffen; Lux, Thomas; Westheuser, Linus. Triggerpunkte.KonsensundKonfliktinder Gegenwartsgesellschaft. Berlin: Suhrkamp Verlag, 2023.

xvi Braga, Ruy. A angústia do precariado.São Paulo: Boitempo, 2023.

xvii Rocha, João Cezar de Castro. Bolsonarismo. Da guerra cultural ao terrorismo doméstico. Belo Horizonte: Autêntica, 2023.

xviii Souza, Jessé. O pobre de direita:a vingança dos bastardos. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2024.

xix Lynch, Christian; Cassimiro, Paulo Henrique. O populismo reacionário. Ascensão e legadodo bolsonarismo. São Paulo: Contracorrente, 2022.

xx Nunes, Felipe; Traumann, Thomas. Biografiadoabismo.Rio de Janeiro: Harper Collins, 2024.

xxi Nobre, Marcos. Limites da democracia. De junho de 2013 ao governo Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2022.

xxii Aqui vale a pena conferir também as contribuições de Vladimir Safatle, com sua polêmica tese de que a esquerda morreu e o último livro de Jessé Souza, no qual o autor procura reconstruir o caminho para “ressuscitar” a esquerda. Ver Safatle, Vladimir. A esquerda que não teme dizer seu nome. São Paulo: Editora Planeta, 2025; Souza, Jessé. Por que a esquerda morreu? E o que fazer para ressuscitá-la. Rio de Janeiro: Civilização brasileira: 2025. Para esta discussão, ver também Domingues, José Maurício. Uma esquerda para o século XXI. Horizontes, estratégias e identidades. Rio de Janeiro: Mauad, 2021.

xxiii Com este termo, Ulrich Beck procura tematizar o reducionismo político e cognitivo das análises sobre a desigualdade ao longo do século XX ao esquadro das sociedades nacionais. Ver Beck, Ulrich. Die Neuvermessung der Ungleichheit unter den Menschen. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2008.

Fonte: Ultradireita: as raízes da sedução | Outras Palavras – Link da matéria: https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/ultradireita-as-raizes-da-seducao/

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