Sociedade

“Jedi” virou “Kane”: a infantilização da cultura chega ao auge

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André Barcinski – O tempo conseguiu o que nem um acidente de avião foi capaz: parou o Lynyrd Skynyrd.

Em outubro de 1977, o avião fretado que levava a banda caiu no Mississipi. Seis pessoas, incluindo os integrantes Ronnie Van Zant e Steve Gaines, morreram na hora. Os outros passageiros sofreram ferimentos graves.

Mas o Lynyrd Skynyrd continuou. Por 40 anos. Até que, no fim de janeiro, a banda anunciou que fará sua última turnê, que começa em maio nos Estados Unidos.

E os integrantes do Lynyrd Skynyrd nem são tão velhos. O guitarrista Gary Rossington, único remanescente da formação original, tem 66 anos.

O anúncio veio em meio a uma enxurrada de despedidas: o Slayer, rei do thrash metal, anunciou a turnê derradeira (o líder Tom Araya diz que sente falta da família e que não consegue mais bater cabeça como outrora por causa de uma cirurgia no pescoço); Elton John vai largar os shows para se dedicar aos filhos e ao marido; o Rush se despede (o guitarista Alex Lifeson disse, em 2015, que não suportava mais a artrite e que o batera Neil Peart estava sofrendo de tendinite); o Manowar, lenda do metal viking, que em 40 anos de carreira assinou contratos com sangue e bateu recordes mundiais de shows mais longos de heavy metal (cinco horas e um minuto!) e volume (cerca de 130 dB!), pediu arrego.

Manowar venceu dragões, exércitos e maldições, mas sucumbiu ao inimigo mais implacável: o tempo

E isso sem contar Deep Purple, AC/DC, Black Sabbath e Aerosmith, que também penduraram ou estão em vias de pendurar as guitarras, e Motorhead, David Bowie, Tom Petty e The Fall, que estavam em plena atividade quando o Ceifador chegou com o pé na porta.

Elton John vai largar a estrada para ficar com a família

As razões para esse tsunami de cantos do cisne são as mais variadas, mas em comum têm um único ingrediente: o cansaço com a vida na estrada. Tanto que alguns desses artistas, como Elton John e Alex Lifeson, dizem que vão continuar tocando, compondo e gravando, mas sem a obrigação de fazer shows.

Para quem nunca esteve numa turnê, é difícil explicar o desgaste físico e emocional que ocorre na estrada. Participei de algumas excursões como jornalista e outras como produtor. Foram viagens pequenas, de no máximo 15 dias, e posso garantir que, lá pelo quarto ou quinto show, seu relógio interno está completamente desregulado. Não dá nem pra imaginar a confusão mental depois de um tempão na estrada.

Fiz uma viagem de ônibus com uma banda pelos Estados Unidos, nos anos 90, e lembro acordar um dia e não ter a menor ideia de onde estava.

Na estrada, perde-se a noção do tempo, dia e noite se fundem, e o tédio é avassalador. Trancado por dias e dias num ônibus, viajando de cidade em cidade, é preciso muita concentração e autocontrole para não enlouquecer.

Dá para entender perfeitamente por que bandas saem na porrada por qualquer besteira, e porque artistas com tendências autodestrutivas, como Ozzy Osbourne, pediam para o motorista parar o ônibus para que ele pudesse fazer uma competição de quem cheirava mais formigas na calçada. Vale qualquer coisa para manter aquilo interessante.

Na autobiografia de John Taylor, do Duran Duran (o livro saiu no Brasil e é ótimo), ele conta que a função mais importante de seu tour manager era deixar um bilhete por baixo de sua porta no hotel com algumas informações básicas: o dia da semana e do mês; o nome da cidade onde eles estavam, e o que eles tinham de fazer naquele dia. “Sem aquilo, eu nem lembrava direito quem eu era”, diz Taylor.

https://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2018/01/15/jedi-virou-kane-a-infantilizacao-da-cultura-chega-ao-auge/

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