Valerio Arcary – Um reacionário é alguém que está convencido de que as pessoas são, naturalmente, desiguais e, portanto, é inevitável que haja alguns muito ricos, e uma massa de pobres. Sendo alguns mais corajosos e inteligentes do que outros, a luta contra a desigualdade social premiaria a mediocridade, sacrificaria o talento, estimularia a preguiça, alimentaria a inveja. Vivem a ilusão de que a sociedade está dilacerada entre ricos e pobres porque alguns poucos são mais capazes. Portanto a igualdade social seria impossível. Pior, seria disfuncional. Seria uma distopia monstruosa. Porque promover a igualdade social sacrificaria o progresso e a prosperidade.
Ser de esquerda não é defender que as pessoas têm capacidades iguais. Não têm. O que prevalece na condição humana é a diversidade. Temos habilidades variadas que se complementam e se compensam. Isso é enriquecedor. Mas as necessidades materiais e culturais mais intensas são comuns. As diferenças sociais que fragmentam a sociedade em classes não repousam nas diferentes capacidades dos indivíduos. Os ricos não são nem mais talentosos, nem esforçados e não são pessoas melhores. Essa idealização da meritocracia é um veneno ideológico para tentar justificar o absurdo. Os talentos estão distribuídos em todas as classes sociais. Mas como os filhos da maioria do povo têm menos oportunidades, milhares e milhares de jovens com aptidões excepcionais têm os destinos de suas vidas, tragicamente, sacrificadas. A aposta socialista é que uma sociedade socialista permitiria o pleno desenvolvimento das capacidades de todos. Nosso coletivismo se inspira na solidariedade para favorecer a autonomia dos indivíduos, não a sua anulação.
Reacionários defendem que o socialismo seria a tirania da chatice, da caretice, do tédio e, no limite, a destruição da liberdade. Para um reacionário, liberdade e igualdade são valores incompatíveis. Ou uma, ou outra. Porque o direito à liberdade seria o direito de lutar pelo enriquecimento, a propriedade privada, a herança. São entusiastas furiosos da ambição e da cobiça, são devorados pela fantasia da avidez: de sucesso, de fortuna, de glória, de poder. Estão convencidos de que a luta pela igualdade social seria incompatível com a busca da felicidade pessoal.
Nós respondemos que a luta pela felicidade pessoal é justa. Mas deve haver limites. Ninguém pode ser feliz sozinho. Ambição sem limites degenera em ganância, em abuso, em transgressão sobre os direitos dos outros. Todos temos desejos e isso é legítimo. Não é admissível, contudo, que a felicidade de um seja feita ao custo do martírio de muitos. Não é aceitável que a liberdade incondicional de poucos legitime a tirania da maioria.
Ser de esquerda significa defender que todas as pessoas devem ter direitos e deveres iguais.
Portanto, para a esquerda igualdade e liberdade são valores indivisíveis. Quanto maior for a igualdade, maior será a liberdade, e vice-versa. Não pode haver liberdade entre desiguais. Só seremos livres, quando todos forem, igualmente, livres. Poder e dinheiro é que são indivisíveis. Quando alguns poucos, ou 1%, controlam a riqueza, controlam, também, o poder. Tanta riqueza nas mãos de tão poucos não se explica pelo merecimento, aptidão, valor ou mérito, mas pela exploração da maioria.
A desigualdade social não é o motor de progresso, de inovação, de prosperidade. A ideia de que as pessoas não estariam dispostas a fazer nada, se não tivessem apavoradas pelo medo da miséria ou da repressão não tem fundamento histórico algum. As maiores mentes da história não criaram as suas obras para enriquecer. O dinheiro não é o único estímulo. Há outros incentivos, impulsos, inspirações que animam a mente e o coração das pessoas. A competição desumana, a insegurança generalizada, a injustiça absurda ameaçam a vida civilizada e são as sementes da guerra.
Reacionários são céticos sobre a condição humana. Estão convencidos de que a natureza humana é pouco animadora. Um reacionário acredita que a maioria das pessoas é, incorrigivelmente, egoísta, calculista e conflitiva. Seríamos, naturalmente, rivais uns dos outros, portanto, irremediavelmente, adversários. Observam, desenganados, como as antipatias, as invejas, os rancores, e até os ódios dilaceram as relações humanas. Em consequência, consideram razoável que cada um deva se preocupar, essencialmente, com os seus interesses, ou dos seus familiares. Ninguém mais importa. O Estado deve se dedicar a preservar a ordem. Por isso, a histeria ingênua com o papel das Forças Armadas. Querem segurança. Depois é a “luta livre” no espaço do mercado. Essas ideias simples têm muito peso na sociedade.
Argumentar que a natureza humana é, naturalmente, altruísta, gentil, solidária é um erro. Não é verdade. Não somos assim e, infelizmente, é mais complicado. Nós somos plásticos. Isso quer dizer que nos adaptamos, nos ajustamos e transformamos. Se encorajados a ser cruéis podemos agir com maldade. Se encorajados a agir com grandeza podemos ser bondosos. São as relações sociais que determinam quais são os estímulos materiais, morais e culturais dominantes. Quando os estímulos favorecem a fraternidade, a imensa maioria das pessoas age de forma decente. Por isso, é possível mudar a vida.
Junho de 2026
Enviado pelo autor


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