Mauro Luis Iasi – No momento em que escrevo, a Espanha está na final e daqui a pouco a Argentina disputará com a Inglaterra, decidindo quem a enfrentará. Em uma Copa na qual os fatores extra-campo são uma imagem perfeita de nossos tempos marcados por guerras, racismo, xenofobia, mercantilização total da vida, prepotência e arrogância do imperialismo, formou-se uma patrulha que pretende decidir por quem se deve ou não torcer.
“Nosso país precisa de alegria. O futebol é a alegria de nosso povo.”
— João Saldanha
“O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia.”
— Millôr Fernandes
Deveríamos rejeitar a França por seu colonialismo; o Brasil, porque teve seu manto apropriado pela extrema direita e em razão de seus atletas crentes; a Alemanha, pelo nazismo; Marrocos, por sua monarquia; a Bélgica, por causa do Congo e o Congo… bom, o Congo por causa dos direitos humanos, numa lista que eliminaria quase todo mundo, menos Cabo Verde.
No caso da Argentina, tirando a saudável rivalidade futebolística com nossos vizinhos, gerou-se uma verdadeira histeria. A Argentina é racista, seu principal jogador não se posiciona politicamente, a FIFA rouba a seu favor, e Milei, bom, é o Milei. Empanada argentina não é empanada, é pastel; Gardel é uruguaio; Che fugiu de lá e virou cubano. Tudo isso para expressar um desejo: a Argentina não pode ganhar de novo.
Bom, alguém vai ganhar. Pode ser a Espanha, a Inglaterra ou a Argentina, pelo simples fato de que o que constitui a substância dessa competição é o futebol, apesar dos esforços da FIFA corporation em embrulhar tudo em um imenso e grotesco empreendimento financeiro e comercial. Devemos parar de torcer por conta disso? Porque o futebol virou mercadoria e se alienou? Acontece que isso não é privilégio deste amado esporte – tudo alienou-se na forma mercantil do capital; sua cerveja também. Alguém propõe parar de beber? Alguém propõe parar de ir ao cinema, de ouvir música em seus aparelhos celulares onde rodam suas amadas redes sociais?
Estamos diante de uma espécie de ludismo hipócrita, porque não queremos de fato quebrar a máquina, só lamentar e blasfemar contra o que nos oprime e não compreendemos. Existe uma força que domina tudo e extrai de todos nós cada gota de nossa alma, da paixão, da entrega, da emoção, do cérebro, dos nervos e músculos; se externa de nós para ser a alma das coisas, a substância da objetividade impalpável do valor. Mas nós amamos as coisas alienadas, precisamos delas, pelo simples fato de que sob o envoltório da mercadoria esconde-se o que nós somos, nossa essência alienada, nossa fome e nossa sede, nossa necessidade, nossa paixão, expropriada e aprisionada nas coisas a serviço da valorização do valor.
Toda mercadoria precisa de um valor de uso que satisfaça uma necessidade, seja do estômago ou da fantasia, do corpo ou do espírito. Por isso compramos, fruímos, consumimos, ainda que a necessidade que seja realizada seja a da valorização do valor e não a nossa, ainda que sigamos com sede, com fome e carentes de emoção, o que é essencial para beber de novo, comprar de novo, substituindo a realização do desejo pelo impulso compulsivo de comprar.
O futebol só pôde virar mercadoria, veículo de valor, porque carrega um valor de uso, uma necessidade humana, uma parte de nossa alma ali objetivada, na disputa de cada bola, na arte do drible, no lançamento perfeito, no quase gol, na tensão, no tendão, na explosão do gozo de uma pequena esfera ao tocar nas redes. Foi capturado pelo capital? Foi. Você também, pedaço de carne e sangue que acorda todo dia e se entrega à produção, à circulação e ao consumo diante do altar supremo do deus Capital. Mas, assim como em você, em qualquer mercadoria pulsa incontornável uma alma humana, pois é dela que o capital se alimenta e se reproduz; ele não pode evitar, ele não pode substituí-la por nenhum produto sintético. Terão que ser pequenos pedaços de carne, de sangue, de sangue e sonhos que entrarão no gramado, seu suor será salgado como as lágrimas da derrota ou vitória, serão ossos que se romperão, nervos e músculos e por mais que sejam ricos e, muito deles, completamente estúpidos, depois do apito, são meninos e meninas que correm atrás da bola, com arte e leveza, com força e arte, produzindo cada gota de substância humana que será drenada para a grande máquina que nos aprisiona a todos.
Então, se você é um cara de esquerda que não perde a chance de politizar e criticar tudo, faça um grande favor a si mesmo e ao mundo. Não seja um chato. Assista ao jogo e tome sua cerveja.
Mas a Argentina não pode ganhar! Por quê? Porque há racismo. Ora, também na Espanha há racismo, pergunte ao Vinicius Júnior. Mas a torcida argentina… Qual? A que vai ao estádio e paga 2.841 dólares (ou 14 mil reais, ou 4 milhões de pesos, num país onde o salário médio é de 147 mil pesos)? A torcida argentina está nos bairros pobres de Buenos Aires, em Villa Fiorito, onde nasceu Maradona, ou em La Barrada, na periferia de Rosário, onde nasceu Messi, ou em Villa 31, ou em uma periferia pobre e suja de onde brotará um novo gênio de pernas finas e estômago roncando, chutando uma bola rota e velha pela terra e pela lama. A torcida argentina é também formada pelos cabecitas negras, pelos indígenas, pelos piqueteros.
Sabe por que vocês acham que a Argentina não pode ganhar? Não é porque a FIFA a favoreça, a FIFA odeia todos por igual; não é por causa do Milei ou do Trump ou do Netanyahu; nem do racismo, nem de qualquer das chagas e pragas que nos assolam. Vocês não querem que a Argentina ganhe porque ela joga bonito, ela joga com raça, ela tem vários craques e um extraterrestre que joga melhor que todo mundo, porque ela tropeça, sofre e se levanta e ganha no último minuto, na última gota de sangue, enquanto aqueles que pareciam robôs mercantis se desfazem em lágrimas – e nada disso você viu na sua seleção. Você não quer que a Argentina ganhe por inveja.
Quando você ler esta coluna, a Argentina estará em alguma colocação entre o primeiro e o quarto lugar. A Espanha ou a Inglaterra poderão ser bicampeãs; torço pela Argentina, porque um tango argentino me cai bem melhor que um blues, mas, acima de tudo, porque gosto de futebol e por isso não vou ficar triste se o bom futebol aparecer na Fúria ou na seleção inglesa. Talvez um menino pobre, filho de imigrantes em Lavapiés ou Rocafonda seja tomado por essa paixão por conta da vitória da Espanha, ou alguém no East End, depois da vitória da Inglaterra, saia para jogar bola na rua, e eles virem atletas e mantenham viva esta paixão humana até que a máquina os exproprie de suas pequenas almas, ou até que nós destruamos a maquina para libertar o futebol, os meninos e todos nós.
Mauro Iasi professor aposentado da Escola de Serviço Social da UFRJ, professor convidado do programa de pós-graduação em Serviço Social da PUC de São Paulo, educador popular e militante do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente. Na TV Boitempo, apresenta o Café Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre a conjuntura.
Fonte: O futebol e a alma expropriada – Blog da Boitempo – Link da matéria: https://blogdaboitempo.com.br/2026/07/15/o-futebol-e-a-alma-expropriada/


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