Meio ambiente

O Brasil e o colapso anunciado da água

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Carlos Bocuhy – O agravamento do desequilíbrio climático, na realidade, intensifica um problema estrutural já existente: a deterioração progressiva dos ecossistemas responsáveis pela manutenção do ciclo hidrológico.

O Brasil costuma ser apresentado como potência hídrica mundial. Concentra 12% da água doce superficial do planeta, abriga uma das maiores redes hidrográficas globais e possui reservatórios subterrâneos estratégicos, como o Aquífero Guarani[1]. Apesar disso, crises de abastecimento, racionamentos e reservatórios em níveis críticos tornaram-se episódios recorrentes em diversas regiões.

A contradição revela um problema que vai além das variações climáticas. A escassez de água no Brasil resulta, sobretudo, de falhas políticas e estruturais acumuladas ao longo de décadas.

A explicação mais comum para as crises é atribuir o problema à irregularidade das chuvas. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas confirma que eventos extremos, como secas prolongadas, tendem a se intensificar na América do Sul[2]. No entanto, a crise hídrica brasileira não pode ser tratada apenas como consequência do clima. Os alertas sobre a vulnerabilidade hídrica nacional remontam ao século passado, muito antes de o debate sobre mudanças climáticas ocupar o centro das agendas políticas e científicas[3]. O agravamento do desequilíbrio climático, na realidade, intensifica um problema estrutural já existente: a deterioração progressiva dos ecossistemas responsáveis pela manutenção do ciclo hidrológico.

Países com menor disponibilidade natural de água conseguem manter estabilidade no abastecimento graças ao planejamento e à gestão eficiente[4]. No Brasil, o desafio central ainda não é propriamente a falta de água, mas a ausência de governança integrada. Um exemplo emblemático encontra-se na macrometrópole paulista, marcada pela profunda degradação dos rios que cortam o Planalto de Piratininga: Tamanduateí, Tietê e o antigo Jurubatuba, posteriormente transformado em canal do rio Pinheiros, após retificação e reversão hidráulica para geração de energia na usina Henry Borden, em Cubatão[5].

A prioridade do século XX para São Paulo foi estruturar um modelo energético e de drenagem urbana baseado na reversão dos rios metropolitanos. Esse sistema permanece operando como um grande canal de escoamento das águas pluviais da extensa e impermeabilizada mancha urbana para a vertente oceânica, comprometendo o equilíbrio hidrológico regional[6].

O modelo de expansão urbana brasileiro historicamente avançou sobre áreas de mananciais, impermeabilizou solos e comprometeu a qualidade de rios essenciais ao abastecimento público. Atualmente, cerca de 35 milhões de brasileiros ainda não possuem acesso à água tratada, enquanto aproximadamente 100 milhões vivem sem coleta e tratamento adequado de esgoto[7].

Ao mesmo tempo, o desmatamento avança sobre biomas fundamentais para o equilíbrio do ciclo hidrológico nacional. Estudos científicos demonstram que a Amazônia exerce papel decisivo na formação dos chamados “rios voadores”, responsáveis pela redistribuição de umidade para regiões como Sudeste e Centro-Oeste[8].

Florestas protegem nascentes, regulam chuvas e mantêm o equilíbrio climático. A perda dessa cobertura vegetal reduz diretamente a estabilidade do abastecimento hídrico regional e compromete o transporte atmosférico de umidade para outras regiões do país.

As mudanças climáticas e o desmatamento formam um ciclo de retroalimentação. A redução da cobertura florestal diminui a regulação hídrica e aumenta a vulnerabilidade a extremos climáticos, exigindo políticas públicas mais robustas – justamente um dos maiores desafios institucionais brasileiros[9].

Mesmo diante de evidências científicas consolidadas, políticas ambientais têm sido frequentemente flexibilizadas sob o argumento de estimular o crescimento econômico. O avanço de interesses setoriais sobre a legislação ambiental, protagonizado por setores do agronegócio e mineração, tem fragilizado instrumentos de proteção ecológica[10].

Nos últimos anos, o desmatamento na Amazônia registra dezenas de milhares de km² anuais, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais[11]. Embora tenha ocorrido redução recente desses índices, deve-se considerar a degradação florestal que permanece em ritmo acelerado. O desmatamento atinge perda de cobertura vegetal de aproximadamente um campo de futebol por minuto. Paralelamente, o Cerrado apresenta atualmente uma das maiores taxas de conversão de vegetação nativa do planeta[12].

Esses fatores possuem reflexos diretos sobre a segurança hídrica nacional.

A fragilidade institucional agrava o cenário. O Brasil possui legislação considerada moderna na gestão dos recursos hídricos, especialmente após a Lei nº 9.433/1997, que instituiu o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Contudo, na prática, os comitês de bacias hidrográficas ainda apresentam baixa capacidade decisória e recursos limitados[13]. Paralelamente, políticas agrícolas, energéticas e urbanas continuam sendo formuladas de forma isolada, sem integração efetiva com o planejamento hídrico.

Crédito: Mídia Ninja

O uso intensivo e pouco eficiente da água na agricultura representa um dos maiores desafios estruturais. Estima-se que o setor agropecuário responda por cerca de 70% da retirada de água doce no país[14], muitas vezes com níveis elevados de desperdício e baixa eficiência tecnológica. O resultado é um sistema que reconhece formalmente a água como bem público, mas permite sua degradação diante de pressões econômicas e setoriais.

Outro problema estrutural é o desperdício urbano. Em média, cerca de 38% da água tratada no Brasil se perde antes de chegar às residências[15]. Em alguns Estados, esse índice ultrapassa 45%. Paralelamente, a insuficiência do saneamento básico contamina rios e reduz drasticamente a disponibilidade de água potável[16].

Forma-se, assim, um paradoxo evidente: falta água limpa porque o país permite que suas fontes sejam degradadas.

A crise hídrica também expõe desigualdades sociais profundas. Regiões economicamente mais estruturadas tendem a manter o abastecimento regular, enquanto comunidades vulneráveis enfrentam racionamentos prolongados, dependem de soluções emergenciais e ficam mais expostas a doenças relacionadas à água contaminada. A Organização Mundial da Saúde destaca que o acesso inadequado à água e ao saneamento permanece entre os principais fatores de risco à saúde pública global[17].

A dependência energética brasileira amplia ainda mais a vulnerabilidade. Aproximadamente 60% da geração elétrica nacional depende de hidrelétricas[18].  Reservatórios em níveis críticos impactam diretamente o custo da energia e a estabilidade econômica nacional. Apesar desse risco conhecido, o avanço da diversificação energética e da integração entre planejamento hídrico e energético ocorre de forma lenta[19].

No centro dessa realidade está o ciclo político-eleitoral. Obras emergenciais geram visibilidade imediata e retorno político rápido. Já investimentos estruturais – como recuperação de bacias hidrográficas, proteção de florestas, modernização de redes e expansão do saneamento – exigem continuidade administrativa e planejamento de longo prazo, frequentemente adiados. A consequência é um padrão recorrente: o país se especializou em reagir a crises, não em preveni-las.

A escassez de água revela, na prática, uma crise de visão estratégica do Estado. Segurança hídrica não é apenas questão ambiental. Trata-se de um tema central para o desenvolvimento econômico, estabilidade energética, saúde pública e justiça social.

Relatórios internacionais alertam que a escassez hídrica poderá atingir até metade da população mundial até 2050 caso padrões atuais de consumo e degradação ambiental sejam mantidos[20]. O Brasil, apesar de sua abundância natural, apresenta fragilidades estruturais que comprometem sua capacidade de enfrentar esse cenário.

Superar o problema exige mudança estrutural. É necessário integrar políticas ambientais, urbanas, energéticas e agrícolas sob uma lógica de sustentabilidade hídrica. Proteger florestas e mananciais deve ser tratado como infraestrutura estratégica nacional. Será preciso revitalizar ecossistemas, restaurar florestas e “plantar água”, conceito amplamente defendido na literatura hidrológica contemporânea[21].

Mas o Brasil apresenta potencial limitado de reflorestamento, com mais promessas do que capacidade instalada. Dos 12 milhões de hectares prometidos no Acordo de Paris, menos de 3% foram cumpridos. O desmatamento, só na Amazônia, segue na proporção atual de 570.000 hectares por ano. Dos 10 bilhões de mudas necessárias para cumprir a meta, o Brasil conta com capacidade instalada para produzir anualmente 200 milhões de mudas. Os R$ 7 bilhões de recursos do BNDES para recompor 12 bilhões de hectares são minguadíssimos. O custo real seria de aproximadamente R$ 228 bilhões[22].

A correção de rumos ainda necessita incluir, prioritariamente, processos de acesso à informação e efetiva participação social. Já no texto original, o recente Acordo de Escazú[23] deixa claro que políticas públicas de proteção ambiental só serão efetivamente implementadas se houver plena participação e acompanhamento pela sociedade. Este é um enorme desafio para o Brasil, onde conselhos participativos carecem de participação social paritária, em condições de igualdade com governos e interesses econômicos para a defesa prioritária dos direitos difusos, na defesa dos bens públicos[24].

Reduzir perdas nos sistemas de abastecimento precisa tornar-se prioridade pública. Expandir o saneamento básico deve ser compreendido também como política de preservação dos recursos hídricos.

Sobretudo, o país precisa reconhecer que água não é apenas insumo econômico. Água é condição fundamental de cidadania e constitui direito humano reconhecido internacionalmente[25].

Em 20 de janeiro de 2026, a ONU apresentou prognósticos preocupantes ao afirmar que o mundo entrou oficialmente em estado de falência hídrica[26]. A caminho de 10 bilhões de habitantes para 2050, será preciso indicar claramente o caminho para a superação dessa crise e o quanto sua composição se deve à fragilidade ecossistêmica e de governança. Os impactos podem ser severos para a segurança alimentar das comunidades.

Manter o modelo atual significa aceitar crises cada vez mais frequentes. A questão que o Brasil precisa enfrentar não é se haverá escassez, mas quando ela ocorrerá – e quem será mais afetado por ela.

A água, silenciosamente, revela a qualidade da política nacional. Até agora, o diagnóstico é claro: o país não sofre, especialmente nas regiões Sudeste e Sul, por falta de água, mas de sua boa qualidade para uso social, o que decorre da baixa qualidade da governança hídrica.

Carlos Bocuhy é presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam).

[1] ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil. Brasília, 2023.

[2] IPCC – Sixth Assessment Report. 2023.

[3] TUNDISI, José Galizia. Recursos Hídricos no Século XXI. 2014.

[4] GARRIDO, Raimundo. Gestão da Água no Brasil. Brasília: ANA, 2010.

[5] EMPLASA. Macrometrópole Paulista. São Paulo, 2011.

[6] DAEE – Departamento de Águas e Energia Elétrica. Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê. São Paulo, 2013.

[7] SNIS. Diagnóstico do Saneamento. 2022.

[8] NOBRE, Antonio Donato. O Futuro Climático da Amazônia. INPE, 2014.

[9] PBMC – Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. 2021.

[10] ABRAMOVAY, Ricardo. Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza. São Paulo: Elefante, 2019.

[11] INPE – Monitoramento do Desmatamento da Amazônia. 2023.

[12] WWF Brasil. Conversão do Cerrado. 2022.

[13] JACOBI, Pedro; BARBI, Fabiana. Governança da água no Brasil. Revista Ambiente & Sociedade, 2007.

[14] FAO. The State of the World’s Land and Water Resources. 2021.

[15] SNIS. Diagnóstico do Saneamento. 2022

[16] HELLER, Léo; NASCIMENTO, Nilo. Saneamento e Saúde Pública no Brasil. 2005.

[17] OMS – Organização Mundial da Saúde. 2022.

[18] EPE – Empresa de Pesquisa Energética. Balanço Energético Nacional 2023.

[19] IEA – International Energy Agency. Hydropower and Climate Resilience. 2022.

[20] UN-WATER. Water and Sanitation Report. 2023.

[21] TUNDISI, José Galizia; MATSUMURA-TUNDISI, Takako. Limnologia. 2008.

[22] LEITÃO, Sérgio; GIOVANELLI, Rafael, JOTA. 2026.

[23] Transparência Internacional, Acordo de Escazú. 2025.

[24] LIMA, Leônidas, Paridade para as ONGs. PROAM. 2025.

[25] ONU – Resolução sobre Direito Humano à Água. 2010 e 2017.

[26] ONU News, ONU. 2026.

Título: O Brasil e o colapso anunciado da água – Le Monde Diplomatique – Fonte: https://diplomatique.org.br/o-brasil-e-o-colapso-anunciado-da-agua/

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