Sociedade

Necessidade econômica é o principal motor do crime e entrada para o tráfico, revela estudo inédito

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Giovanne Ramos – Uma pesquisa inédita no Brasil, o “Raio-X da Vida Real”, conduzida pelo instituto Data Favela, ouviu 3.954 pessoas em situação de crime em atividade, com mais de 12 anos, em favelas de 23 estados. A pesquisa busca compreender a dinâmica social do crime a partir da perspectiva dos próprios envolvidos.

O estudo, realizado entre 15 de agosto e 20 de setembro de 2025, revela que o motivo central para o ingresso no crime é econômico. Para 49% dos entrevistados em nível nacional, a “falta de dinheiro/necessidade econômica” foi o principal gatilho. Em estados como o Maranhão, esse índice chega a 95%.

Outros fatores relevantes foram violência, alcoolismo ou drogas em casa (13%) e a condição de viver na rua ou em abrigos (11%). Apenas 16% citaram razões como desejo de admiração, respeito ou aquisição de bens de marca.

Um dos dados centrais do estudo é que 58% dos entrevistados afirmaram que sairiam do crime se tivessem uma oportunidade. Entre as alternativas desejadas comentadas pelos entrevistados estão: abrir o próprio negócio (22%), conseguir um emprego com carteira assinada (20%) ou um trabalho com flexibilidade de horários (15%). Os impedimentos para a saída também são de ordem econômica: 33% temem não conseguir outra fonte de renda e 17% não sustentar a família.

Perfil: jovem, negro, de baixa renda e baixa escolaridade

O retrato traçado pela pesquisa mostra que a pessoa envolvida com o tráfico no país é majoritariamente homem (79%), negro (74%), tem entre 13 e 26 anos (50%) e nasceu e foi criado na favela onde atua (80%). A baixa escolaridade é uma marca: 42% não completaram o ensino fundamental.

Financeiramente, a realidade contraria o mito da ostentação: 63% ganham até dois salários mínimos mensais (R$ 3.040,00) e a renda média é de R$ 3.536,00. A renda insuficiente leva 36% a exercer uma segunda atividade, legal ou ilegal, para complementar o sustento.

A pesquisa questiona a tese da “família desestruturada” como causa principal da entrada ao tráfico. Do total, 73% foram criados por pai e mãe juntos (35%), só pela mãe (30%) ou só pelo pai (8%). Apenas 27% reportam ausência parental.

As mulheres da família ocupam o centro das referências afetivas: 51% citam mães, avós, tias ou companheiras como as pessoas mais importantes em suas vidas. A mãe é a figura mais mencionada (43%) pelos entrevistados, seguida por filhos e filhas (22%).

Esse vínculo familiar se reflete no futuro: 84% afirmam que não deixariam um filho entrar para o crime. O maior sonho de consumo para 53% é a casa própria, para si ou para a família.

O custo da saúde e o encarceramento

A vida no crime impõe um desgaste físico e mental elevado. Problemas de saúde mental são frequentes: 39% sofrem de insônia, 33% de ansiedade, 19% de depressão e 9% de crise de pânico. Paralelamente, 63% declararam fazer uso habitual de drogas ilícitas, com predominância da maconha (58%) e da cocaína (23%). A grande maioria (89%) não possui plano de saúde e depende exclusivamente do SUS.

O estudo também revela um ciclo de encarceramento: 54% dos entrevistados já foram presos ao menos uma vez, e 57% têm algum familiar que está ou já esteve encarcerado. Para eles, o principal problema do Brasil é a pobreza e a desigualdade social (42%), seguida da corrupção (33%). Apesar do contexto, 63% se mostram otimistas em relação ao seu futuro pessoal. Contudo, 68% declararam não sentir orgulho do que fazem.

A presença do tráfico como principal motivo de prisão no país reforça esse ciclo. De acordo com dados nacionais citados pela pesquisa, o tráfico representa 31% de todas as prisões no Brasil. O estudo aponta que o encarceramento funciona como reforço das barreiras de saída, gerando dificuldade de reintegração e ampliando a dependência da atividade criminosa como fonte de renda.

A vida no crime, principais consumos e limitações

As condições de trabalho no tráfico expõem uma realidade distante das narrativas de ganho rápido. A remuneração é baixa, e o risco elevado. A instabilidade financeira é tão significativa que 36% precisam de outra fonte de renda para complementar o sustento, seja por bicos (42%) ou pequenos empreendimentos (24%).

Os padrões de consumo refletem preferências presentes na favela em geral: Apple e Samsung dividem a preferência por celulares; Shoppee é o marketplace mais citado; Heineken, Brahma e Skol são as cervejas mais consumidas; e Nike domina roupas e calçados.

A pesquisa revela que, apesar da rotina de risco, o lazer é marcado por práticas comuns nas comunidades. O futebol aparece como principal atividade de tempo livre (23%). A navegação na internet é mencionada por 19% e o convívio com amigos por 15%.

O consumo cultural segue padrões amplamente difundidos no país: pagode e samba são os gêneros mais citados (23%), seguidos por funk (21%). No audiovisual, o YouTube lidera como plataforma de música (50%), a TV Globo aparece como principal canal de TV (39%) e a Netflix é o serviço de streaming favorito (44%).

Neymar é o atleta mais admirado (20%), Taís Araújo é a atriz mais mencionada (27%) e Cauã Reymond é o ator preferido (22%). Ludmilla aparece como a cantora mais admirada (16%).

Desigualdades de gênero, raça e identidade

A desigualdade estrutural do país se reproduz no ecossistema do tráfico. Sessenta e seis por cento das pessoas pretas recebem até dois salários mínimos. Mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ são os grupos mais mal remunerados: 34,7% das mulheres e 36,6% das pessoas LGBTQIAPN+ ganham até um salário mínimo.

Entre LGBTQIAPN+, os índices de sofrimento mental são maiores: ansiedade (43%), depressão (30%) e pânico (17%).

As mulheres aparecem com presença triplicada em funções auxiliares do tráfico. Entre adolescentes, a motivação para entrada no crime inclui fatores específicos: viver na rua ou em abrigo é o segundo motivo mais citado entre jovens de 13 a 16 anos (18,4%), atrás apenas da necessidade econômica (33,4%).

A síntese do Data Favela identifica o crime como uma armadilha econômica. A entrada ocorre por necessidade imediata; a permanência é marcada por baixa remuneração e risco; o encarceramento limita opções de saída; e a falta de oportunidades formais impede transição para atividades lícitas.

A pesquisa indica que romper esse ciclo exige estratégias fundamentadas em quatro termos: trabalho, empregabilidade, empreendedorismo e renda. O estudo oferece um diagnóstico que desloca o foco do crime como decisão individual e reforça sua natureza estrutural, baseada em vulnerabilidade econômica e ausência de alternativas seguras de sobrevivência.

Necessidade econômica é o principal motor do crime e entrada para o tráfico, revela estudo inédito Publicado em: https://almapreta.com.br/sessao/cotidiano/necessidade-economica-e-o-principal-motor-do-crime-e-entrada-para-o-trafico-revela-estudo-inedito/

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