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China explica como os EUA colonizam nossas mentes

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Iara Vidal – Relatório divulgado pelo Instituto Xinhua faz duras críticas às estratégias de Washington na comunicação, cultura e tecnologia.

Os Estados Unidos colonizam mentes em escala global. Para sustentar sua influência, a superpotência mobiliza uma ampla caixa de ferramentas: da força simbólica de Hollywood e da cultura pop ao prestígio de universidades e bolsas de estudo; do poder da mídia corporativa e das redes sociais ao uso de tecnologias de ponta, como inteligência artificial e biotecnologia.

Essa é a principal conclusão do white paper “Colonização da Mente — Meios, Raízes e Perigos Globais da Guerra Cognitiva dos EUA”, divulgado em 7 de setembro pelo Instituto Xinhua, think tank estatal chinês, durante o Fórum de Mídia e Think Tanks do Sul Global 2025, realizado em Kunming, no sudoeste da China.

O relatório critica as estratégias de Washington no campo da comunicação, da cultura e da tecnologia, alerta para os riscos da chamada “guerra cognitiva” e conclama países — sobretudo do Sul Global — a romperem com essa dependência cultural e ideológica.

Como os EUA exportam sua visão de mundo

Desde a Segunda Guerra Mundial, e principalmente após o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos vêm usando sua posição de superpotência política, econômica, militar e tecnológica para difundir valores e ideologias. O objetivo é moldar percepções, influenciar culturas e criar dependência de uma visão de mundo centrada em Washington.

O relatório explica que o “poder duro” — dominação militar, controle econômico e pressão política — não bastava para sustentar essa hegemonia. Por isso, os EUA passaram a apostar no “poder brando”: narrativas culturais e simbólicas apresentadas como universais, mas que, na prática, servem a seus interesses estratégicos.

As Quatro Liberdades e o início da estratégia

Um dos exemplos históricos é o discurso de Franklin D. Roosevelt durante a Segunda Guerra, quando apresentou as chamadas “Quatro Liberdades” — liberdade de expressão, liberdade de culto, liberdade contra a necessidade e liberdade contra o medo.

Esses princípios foram incorporados ao sistema internacional de direitos humanos, mas também funcionaram como alicerce para a colonização da mente, permitindo que os EUA se apresentassem como guardiões de valores globais enquanto moldavam a ordem internacional de acordo com seus objetivos.

O resultado, segundo o relatório, foi a criação de um mecanismo de dependência cultural e filosófica, em que outras nações passaram a interpretar suas trajetórias políticas e sociais segundo padrões estadunidenses, enquanto valores e instituições locais eram deslegitimados.

Propaganda em três níveis

O estudo identifica três modalidades de propaganda usadas pelos EUA para sustentar sua influência global.

  1. Branca: pública e oficial, como comunicados do Departamento de Estado, a Voice of America ou programas acadêmicos como o Fulbright, que já levou mais de 250 mil estudantes estrangeiros para universidades dos EUA.
  2. Preta: oculta e agressiva, conduzida por agências de inteligência, com campanhas de desinformação, espionagem digital e ataques cibernéticos. Durante a Guerra Fria, rádios como a Radio Free Europe foram usadas para enfraquecer o bloco socialista.
  3. Cinza: indireta, realizada por meio de empresas privadas e ONGs que parecem independentes, mas seguem interesses de Washington. Em 2019, por exemplo, ONGs financiadas pelos EUA apoiaram protestos contra o governo de Evo Morales, na Bolívia, país com as maiores reservas de lítio do mundo.

A caixa de ferramentas da colonização de mentes

O inglês consolidou-se como língua franca global depois da Segunda Guerra Mundial, impulsionado não apenas pela comunicação, mas pelo peso econômico, militar e cultural dos Estados Unidos. Ao se tornar o idioma dominante em universidades, organismos internacionais e negócios, passou a funcionar como instrumento de poder, garantindo a centralidade americana nos espaços de decisão globais.

Esse domínio se amplia no campo da informação. Washington exerce forte influência sobre a mídia internacional e sobre as principais plataformas digitais. Agências de notícias, conglomerados midiáticos e redes sociais como Facebook, X (antigo Twitter) e YouTube ajudam a ditar agendas e moldar percepções em escala planetária, em grande parte controladas por algoritmos que priorizam interesses norte-americanos.

A cultura e o entretenimento também são peças estratégicas. Hollywood sempre foi uma das armas ideológicas mais eficazes de Washington, projetando os EUA como defensores da ordem mundial. Após os atentados de 11 de Setembro, essa aliança entre cinema e Exército se formalizou no chamado complexo militar-entretenimento, que passou a produzir narrativas alinhadas à “guerra ao terror”. Até os videogames se tornaram ferramentas de propaganda: a série America’s Army, financiada pelo Pentágono, já atraiu milhões de jovens para simulações de combate com forte apelo patriótico.

No campo acadêmico, a estratégia é igualmente robusta. Desde 1948, o programa Fulbright levou mais de 250 mil estudantes e intelectuais de 140 países a universidades nos EUA. O que é apresentado como cooperação cultural é, na prática, um sofisticado instrumento de soft power, responsável por formar elites alinhadas a Washington e capazes de reproduzir essa visão em seus países de origem.

A manipulação de narrativas, no entanto, não é novidade. No fim do século XIX, o grupo de mídia Hearst inflou relatos sobre supostas atrocidades espanholas em Cuba, ajudando a justificar a Guerra Hispano-Americana. Nos anos 1970, a retórica da “ameaça do petróleo árabe” sustentou a criação do sistema do petrodólar, que consolidou o dólar como referência no comércio global de energia. Em 2019, ONGs financiadas por Washington foram acusadas de fomentar protestos na Bolívia, país detentor das maiores reservas de lítio do mundo. Hoje, a mesma lógica se repete no bloqueio e na perseguição a empresas chinesas como Huawei e TikTok.

A tecnologia é outra frente dessa disputa. Iniciativas como a Chip Alliance e o Clean Network Program criam clubes exclusivos que restringem o acesso de países rivais a cadeias de suprimentos críticas. Na prática, reforçam a hegemonia digital dos EUA e limitam a emergência de alternativas independentes, perpetuando um sistema global centrado em Washington.

Valores universais ou apropriação estratégica?

O relatório diferencia entre valores universais legítimos — como liberdade, igualdade e dignidade humana — e a forma seletiva como os EUA os utilizam. Para os acadêmicos chineses, esses princípios fazem parte do patrimônio comum da humanidade. No entanto, Washington os instrumentaliza como ferramentas de pressão política e cultural, aplicando-os apenas quando servem a seus interesses geopolíticos.

Isso cria uma “universalidade condicionada”: aliados estratégicos são poupados de críticas mesmo diante de violações, enquanto rivais são atacados em nome da defesa da democracia. Ao repaginar seus interesses nacionais como se fossem “moralidade internacional”, os EUA consolidam sua hegemonia e induzem outros países a medir sua legitimidade segundo parâmetros definidos em Washington.

O preço da colonização mental

Segundo o relatório, a colonização das mentes não é apenas uma estratégia política dos Estados Unidos, mas um processo que gera efeitos profundos e duradouros. Ao impor valores e narrativas de forma unilateral, ela enfraquece culturas locais, corrói tradições, reduz a diversidade civilizacional e amplia divisões políticas e sociais entre os povos.

Como alternativa, o texto aponta três caminhos: fortalecer a independência de pensamento, recuperar a confiança cultural e incentivar intercâmbios entre civilizações. A ideia central é que nenhuma sociedade deve se submeter a padrões externos de forma acrítica, mas buscar um desenvolvimento plural e autônomo.

“O choque de civilizações deve dar lugar à integração; o gelo dos confrontos precisa ser derretido por meio do diálogo e da compreensão mútua”, conclui o documento, defendendo que a verdadeira paz mundial depende da diversidade e do respeito entre culturas, e não da uniformização imposta por uma única potência.

Confira aqui o relatório na íntegra em inglês.

China explica como os EUA colonizam nossas mentes | Revista Fórum Publicado em: https://revistaforum.com.br/global/chinaemfoco/2025/9/16/china-explica-como-os-eua-colonizam-nossas-mentes-187818.html

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