Emir Sader – A Guerra Fria terminou com uma vitória radical do campo liderado pelos EUA, impondo um mundo unipolar, submetido à sua própria hegemonia imperial em todos os campos.
No início da crise contemporânea do capitalismo, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, declarou que havia que salvar os bancos, senão as telhas cairiam sobre as cabeças de todos. Porque todos depende, de uma forma ou de outra, do sistema bancário. A crise havia iniciado nos bancos, que tiveram critério muito frouxos para conceder empréstimos e preencher da economia travada pelo lado do consumo, porque o capitalismo neoliberal não distribui rendam, ao contrário, a concentra.
Os bancos foram salvos, se fortaleceram e aumentaram seus lucros de maneira exponencial em plena crise. Os que quebraram em seguida foram os países, enquanto os bancos se fortaleceram ainda mais, alimentados pelas dívidas dos governos, das empresas e das famílias. Dessa forma, os balanços dos bancos passaram a contrastar fortemente em relação às economias em recessão.
A hegemonia do sistema financeiro, por sua vez, é responsável direta pela passagem de um ciclo longo expansivo do capitalismo a um ciclo longo recessivo. No período anterior, a dinâmica imposta pelas grandes corporações industriais multinacionais requeria a formação de mão de obra, certo nível de garantia dos direitos dos trabalhadores – em termos de saúde, educação, transporte, habitação, entre outros – formas de distribuição de renda e de políticas sociais.
O capital financeiro, ao contrário, tem um caráter parasitário, vive do endividamento alheio, por isso não está comprometido com o crescimento econômico, mas se fortalece com a recessão. Seus requerimentos impõem políticas de ajuste fiscal, que se contrapõem à expansão da economia e à ampliação do mercado de consumo. De forma que os bancos privados enriquecem cada vez mais, quanto maiores a recessão, os endividamentos e o próprio desemprego.
Entre as características desse novo período histórico, estão a passagem de um ciclo longo expansivo a um ciclo longo recessivo do capitalismo, que não tem prazo para terminar, nem perspectiva de sua superação por outro ciclo. A hegemonia mundial do neoliberalismo e do capital especulativo não apontam para um ciclo distinto do atual, superador deste modelo.
A Guerra Fria terminou não apenas com a vitória de um dos campos, mas com a desaparição do outro. Nunca na história uma grande potência desapareceu sem ter sido derrotada militarmente e sem apresentar praticamente nenhuma reação. A Guerra Fria terminou com uma vitória radical do campo liderado pelos Estados Unidos, que impôs um mundo unipolar, submetido à sua própria hegemonia imperial em todos os campos: político, militar, tecnológico, ideológico e econômico.
Politicamente, os EUA passaram a ser a única superpotência com interesses em todos os lugares do mundo. A única superpotência que tem interesses em todos os lugares do mundo. A única superpotência que tem uma estratégia relativamente coerente para consolidar sua hegemonia, que lidera um amplo bloco de forças aliadas e que reúne grande parte do poderio econômico do mundo. Uma potência que controla organismos internacionais de forma direta ou indireta – do Banco Mundial ao FMI e à Organização Mundial do Comércio, passando pela OTAN e pela ONU.
É essa hegemonia que entrou em declínio a partir deste século e do surgimento dos Brics. Um declínio que pode derivar em decadência, conforme o desenrolar dos enfrentamentos desta primeira metade do século XXI.
Fonte da matéria: Declínio ou decadência da hegemonia norte-americana? – Por Emir Sader – Revista Fórum – https://revistaforum.com.br/opiniao/2025/9/15/declinio-ou-decadncia-da-hegemonia-norte-americana-por-emir-sader-187763.html



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