Política

Apocalipse: a ideia milenar que impulsiona a extrema direita brasileira

Tempo de leitura: 10 min

Iara Vidal – Novo documentário de Petra Costa mostra como fé e política se misturam no Brasil atual.

O novo documentário da cineasta Petra CostaApocalipse nos Trópicos, estreou nesta segunda-feira (14) na Netflix. Com cerca de duas horas de duração, o filme investiga o avanço da influência evangélica na política brasileira e lança uma pergunta provocadora: quando uma democracia corre o risco de se transformar em uma teocracia?

Entre os temas centrais do longa está a evolução histórica da ideia de apocalipse — um conceito que já significou revelação, esperança de renovação, punição divina e, mais recentemente, metáfora de grandes colapsos sociais ou ambientais. Hoje, estamos cercados por visões apocalípticas: algumas religiosas, outras científicas. Todas revelam nossos medos, esperanças e os rumos possíveis da sociedade.

O que significa “apocalipse”?

A palavra vem do grego apokálypsis, que significa revelação ou desvelamento. Nos primeiros textos cristãos, especialmente no Apocalipse de João (último livro da Bíblia), a ideia não era a destruição do mundo, mas a revelação do destino da humanidade, o juízo final e a vitória do bem sobre o mal.

Na Europa medieval, o apocalipse passou a ser associado à punição divina: guerras, pestes e fome eram interpretadas como sinais do fim iminente. A Igreja explorava esse medo como instrumento de controle moral. Surgiram seitas que marcavam datas para o fim dos tempos e pregavam purificações radicais.

Joachim de Fiore e a “Era do Espírito”

Wikipedia – Registros da imagem de Joachim de Fiore

No século XII, o monge italiano Joachim de Fiore propôs uma interpretação inovadora da história humana, dividindo-a em três eras baseadas na Trindade Cristã:

  1. Era do Pai (Antigo Testamento): tempo da Lei, da disciplina e da obediência.
  2. Era do Filho (Cristo até sua época): guiada pela fé e pela Igreja, ainda presa à estrutura de poder clerical.
  3. Era do Espírito Santo (o futuro): marcada pela liberdade espiritual, amor e comunhão direta com Deus, sem mediação institucional.

Essa terceira era representava, para Joachim, uma renovação espiritual radical, com o fim das estruturas opressoras e o início de uma era de paz. Embora tenha sido acusado de heresia, sua visão milenarista influenciou movimentos religiosos e sociais por séculos.

Um apocalipse moderno

A partir do século XVIII, com o avanço da ciência, o conceito de apocalipse deslocou-se do campo religioso para o político e científico. A Revolução Francesa foi interpretada como o “fim de uma era”. No século XX, novos temores surgiram: guerra nuclear, colapso ambiental, pandemias, zumbis e inteligência artificial descontrolada.

O apocalipse tornou-se um produto da cultura pop — presente em filmes, séries e livros — e passou a representar desde o colapso climático até o fim do capitalismo globalizado.

A política apocalíptica de Malafaia

O documentário de Petra Costa destaca como grupos evangélicos neopentecostais resgataram uma visão de mundo que dialoga, ainda que indiretamente, com as ideias de Joachim de Fiore.

Líderes como Silas Malafaia incorporam elementos da “Era do Espírito” ao pregar um tempo de guerra espiritual, em que política e religião devem se unir para derrotar o mal, representado pelas elites, pela imprensa, pelo Estado laico ou por adversários políticos.

Essa lógica escatológica — termo que se refere à teologia das “últimas coisas” — constrói uma narrativa maniqueísta: o povo de Deus contra um sistema corrompido. A eleição de Jair Bolsonaro e sua aliança com líderes religiosos é retratada no filme como um marco do avanço dessa visão.

A escatologia, nesse contexto, oferece justificativa espiritual para ações radicais, criando uma sensação de urgência e convocação divina. Eleger líderes “ungidos por Deus” passa a ser visto como parte de um plano sagrado de salvação nacional.

Os Sete Montes: fé, poder e guerra cultural

Uma das chaves para compreender a atuação de líderes como Malafaia é a chamada Teologia dos Sete Montes, também conhecida como Doutrina dos Sete Montes de Influência.

Surgida nos EUA nas décadas de 1970 e 1980, no contexto do evangelicalismo conservador, a ideia foi difundida por nomes como Bill Bright (Campus Crusade for Christ), Loren Cunningham (Jovens Com Uma Missão – YWAM) e Francis Schaeffer (teólogo reformado).

Esses líderes afirmavam ter recebido de Deus a revelação de que os cristãos deveriam ocupar sete áreas estratégicas da sociedade — os chamados “montes” — para estabelecer o Reino de Deus na Terra. A proposta se conecta ao dominionismo, doutrina que prega o governo cristão baseado em princípios bíblicos.

Os sete montes de influência:

  1. Religião
  2. Família
  3. Educação
  4. Governo
  5. Mídia
  6. Artes e Entretenimento
  7. Economia (negócios e mercado)

A lógica espiritual da ocupação

A Teologia dos Sete Montes sustenta que cada esfera de influência deve ser liderada por cristãos conservadores. No Brasil, essa ideia foi absorvida por setores neopentecostais, especialmente por Malafaia, Marco Feliciano, Magno Malta e outros pastores-políticos.

A narrativa legitima o engajamento político como missão religiosa, dando base espiritual à ocupação de cargos públicos, controle da mídia e influência sobre leis e costumes. É a fé convertida em estratégia de poder.

Michelle Bolsonaro escancara um projeto de poder teocrático

Reprodução YouTube

Um exemplo claro desse projeto foi o discurso de Michelle Bolsonaro durante o ato bolsonarista na Avenida Paulista, em 25 de fevereiro de 2024. Na ocasião, a ex-primeira-dama abriu o evento com uma oração e declarou: “O Brasil é do Senhor.”

Sem disfarçar a fusão entre fé e política, afirmou que houve negligência ao permitir a separação entre as duas esferas, e que isso teria aberto espaço para o “mal”. Segundo ela, era chegada a hora da “libertação”. Ela convocou os cristãos à ação: “Nós precisamos nos posicionar e exigir os nossos direitos.”

Também defendeu a atuação de mulheres na política, desde que em oposição ao feminismo — propondo uma “política feminina, não feminista” — e reforçou a retórica de guerra espiritual, dividindo o país entre o bem (povo de Deus) e o mal (sistema corrupto).

Nacionalismo cristão e erosão da laicidade

Teólogos e analistas identificaram no discurso de Michelle Bolsonaro a expressão do nacionalismo cristão — um movimento que visa transformar o Estado laico em braço de uma doutrina religiosa. É uma tentativa explícita de mobilizar o eleitorado evangélico com base em uma pauta moralista, confrontando os valores democráticos e seculares.

A Teologia dos Sete Montes funciona como a engrenagem ideológica desse projeto, em que a fé se torna não apenas guia pessoal, mas ferramenta para moldar leis, cultura e estruturas de poder.

A influência de Billy Graham

Fundação Billy Grahan
Fundação Billy Grahan – Pastor lota o Maracanã em visita ao Brasil em 1974. 225 mil pessoas participaram da Cruzada dele.

Outro elemento abordado no documentário é a influência de Billy Graham (1918–2018), evangelista estadunidense que moldou o evangelicalismo conservador global — incluindo o brasileiro.

Graham foi pioneiro no uso da mídia para promover uma fé cristã associada a valores conservadores. Inspirou diretamente líderes brasileiros como Silas Malafaia, Edir Macedo e Valdemiro Santiago, que replicaram suas estratégias midiáticas para fortalecer igrejas e influência política.

Durante a Guerra Fria, Graham articulou um cristianismo anticomunista, pró-família e pró-capitalismo, tornando-se conselheiro de presidentes como Nixon, Reagan e Bush. No Brasil, sua teologia ajudou a formar o discurso do bolsonarismo evangélico, que usa a linguagem religiosa para combater o comunismo e defender uma moral cristã como pilar da vida pública.

Promovendo cruzadas em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro nas décadas de 1960 e 1970, Graham colaborou para aproximar igrejas protestantes tradicionais e movimentos pentecostais. Sua pregação direta, focada na salvação individual e na leitura literal da Bíblia, influenciou os televangelistas brasileiros contemporâneos — tanto na forma quanto no conteúdo.

Democracia na berlinda

O apocalipse, como metáfora ou doutrina, nunca deixou de ser ferramenta política. O que Apocalipse nos Trópicos mostra é como antigas visões escatológicas e estratégias modernas de poder se encontram no Brasil contemporâneo, criando uma narrativa onde fé, medo e moralismo constroem um projeto de dominação. De Fiore a Malafaia, de Billy Graham a Michelle Bolsonaro, a história se repete — sempre com promessas de salvação, mas com consequências muito reais para a democracia.

Apocalipse nos Trópicos

Divulgação Netflix

Em seu novo documentário, Petra mescla entrevistas, registros históricos e narração pessoal. Entre os depoimentos estão figuras centrais do cenário político atual, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Bolsonaro. Um dos pontos mais marcantes do filme é a longa e desconfortável participação do pastor Silas Malafaia, retratado como símbolo do poder religioso que desafia os limites entre fé e Estado.

O documentário mostra como pastores e líderes evangélicos se tornaram protagonistas nas decisões do governo Bolsonaro e continuam influentes no atual cenário político. A pandemia de Covid-19 é tratada como um momento-chave para a ascensão desse poder: enquanto igrejas ofereciam apoio a comunidades vulneráveis, também propagavam mensagens negacionistas como “Jesus cura a Covid”.

Selecionado para festivais de prestígio como Veneza, Telluride e Nova York, Apocalipse nos Trópicos é uma coprodução entre Busca Vida Filmes e Peri Productions, com apoio de nomes como Brad Pitt (Plan B Films), Impact Partners e Luminate. Petra Costa, indicada ao Oscar por Democracia em Vertigem, afirma que trabalhou por quatro anos neste projeto porque considera a erosão democrática “a questão mais urgente do nosso tempo”.

Fonte da matéria: Apocalipse: a ideia milenar que impulsiona a extrema direita brasileira – Revista Fórum – https://revistaforum.com.br/historia/2025/7/15/apocalipse-ideia-milenar-que-impulsiona-extrema-direita-brasileira-183416.html

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