Geografia

Olho por olho, dente por dente?

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Samuel Kilsztajn – Vulgarmente, “olho por olho, dente por dente” é citado como um direito à vingança. Contudo, o objetivo da Lei de Talião era restringir a vingança, impondo um limite à punição, que deveria corresponder ao crime cometido, ser proporcional ao dano causado.

O Evangelho de Mateus, escrito após a destruição do Segundo Templo de Jerusalém, no seio da comunidade judaico-cristã que deu origem ao cristianismo primitivo, por sua vez, nos ensina que violência gera violência, sem fim: “se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mateus 5:39).

Em meio à insana violência durante a Segunda Guerra Mundial, em que as nações envolvidas se bombardearam mutuamente, destruindo cidades e habitantes, meus avós caminharam para o matadouro, tal qual ovelhas, e meus pais se submeteram e sobreviveram a trabalho escravo e deportação à Sibéria. Há relatos que descrevem vítimas, frente à morte iminente por fuzilamento em massa, distraindo e confortando seus filhos e as demais pessoas ao redor.

Os sionistas começaram a invadir a Palestina em 1933, com a ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha, e, principalmente, em 1935, em decorrência das Leis de Nuremberg – Juden raus! Auf nach Palastina!, Judeus Fora! Fora para a Palestina! A partir de 1947, com a aprovação do Plano de Partição da Palestina pelas Nações Unidas, os sobreviventes do Holocausto, expulsos da Europa, acossaram a população nativa da Palestina e se apossaram de suas terras.

Pessoas lutando em prol da causa Palestina, usando a bandeira palestina e sionistas defendendo o Estado de Israel, usando a bandeira de Israel e dos Estados Unidos

Crédito: Ted Eytan/Creative Commons License

Frantz Fanon é reconhecido como o crítico por excelência da ideologia racista. Descendente de africanos subsaarianos, nascido na Martinica caribenha, doutorou-se na França, voltou para a África, para o Magrebe, e se transformou em um militante da Frente de Libertação Nacional da Argélia. Só mesmo um império colonialista como o francês poderia ter produzido um intelectual orgânico com essa trajetória transnacional.

Fanon nos ensinou que o inconsciente coletivo é cultural, ou seja, adquirido – é simplesmente o conjunto de preconceitos, mitos e atitudes coletivas de um grupo determinado. Sartre escreveu que a brandura dos judeus frente às injustiças e à violência era a verdadeira marca da grandeza do povo judeu. Porém, em Pele negra, máscaras brancas, publicado em 1952, poucos anos após a catástrofe palestina, al-Nakba, e a criação do lar judeu, Fanon escreveu, profeticamente, “que os judeus que se instalaram em Israel criarão em menos de cem anos um inconsciente coletivo diferente daquele que possuíam em 1945, nos países de onde foram expulsos” – e, aqui, poderíamos elucidar, um inconsciente coletivo violento-militarista em substituição ao brando-pacifista.

Além de Fanon, na mesma época, dezenas de milhares de sobreviventes do Holocausto, que haviam imigrado para Israel, anteviram o desastre iminente e, carregando seus filhos no colo, abandonaram a Terra Prometida. Milhares de israelenses “traidores da pátria” ancoraram no Brasil na primeira metade dos anos 1950.

A violência dos sionistas abriu um novo capítulo em 1967, com a ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. A investida a partir de 7 de outubro de 2023 é justificada pelo Estado de Israel como uma represália ao ataque do Hamas nesta data. Os sionistas insistem em uma narrativa distorcida sobre a ação que exterminou 1.200 israelenses, como se ela justificasse o massacre de milhares de palestinos de Gaza e da Cisjordânia: “4.200 olhos por olho, 4.200 dentes por dente”.

A narrativa distorcida sobre o ataque do Hamas é necessária e essencial para caracterizar todos os palestinos como animais; e a sua caracterização como animais é necessária e essencial para desumanizá-los e exterminá-los. Não há guerra na Palestina, o que estamos assistindo é ao massacre de um povo inteiro vítima da invasão sionista. Eu não chamaria de animal a ofensiva israelense em curso, porque acho que seria indecoroso atribuir aos animais uma atitude tão vil como a empreendida pelo Estado de Israel. Chamá-la de barbárie também não faria jus às sociedades primitivas.

Escrevi vários livros e artigos sobre a violência israelense na Palestina, mas, frente aos crimes em curso, confesso que não sei o que ainda vale ser dito. Só me aventurei a redigir o presente texto para servir de moldura à profecia de Fanon.

Edward Said, em palestra proferida em 2003, afirmou que “o humanismo é a única – e eu até diria a última – resistência que temos contra as práticas desumanas e as injustiças que desfiguram a história humana”. No decorrer da história, várias atrocidades foram empreendidas, mas os responsáveis pelos crimes faziam questão de acobertar os seus atos – muitas vezes sem êxito – e se empenhavam em negar extermínios promovidos em escala industrial, porque os consideravam vergonhosos. O que estamos presenciando neste momento são povos, que se acreditam civilizados, apoiando ou se abstendo de boicotar uma nação que está promovendo uma carnificina em massa veiculada em tempo real, em que os algozes se orgulham por seus crimes cometidos contra a humanidade, inclusive bloqueando a ajuda humanitária às suas vítimas.

Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de Salaam Aleikum, Palestina!

Fonte da matéria: Olho por olho, dente por dente? – Le Monde Diplomatique – https://diplomatique.org.br/olho-por-olho-dente-por-dente/

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