Educação

Livro denuncia como se dá o racismo nas escolas de educação infantil

Marcelo Menna Barreto – A educadora Jussara Santos aborda um tema praticamente invisibilizado: o tratamento desigual que crianças negras recebem nas instituições de educação infantil. Seu livro Democratização do colo: Educação antirracista para e com bebês e crianças pequenas, lançado recentemente pela Papirus Editora denuncia como a ausência de afeto e cuidado direcionados às crianças negras impacta no desenvolvimento escolar e emocional.

Livro denuncia como se dá o racismo nas escolas de educação infantil

“Geralmente, ela não é introspectiva. Se ela é ouvida, se ela tem espaço para falar, se ela é acariciada, ela desabrocha, ela participa, ela fala, ela sorri”, afirma Jussara sobre as crianças negras que são frequentemente rotuladas como introspectivas nas escolas. “Elas não se tornam introspectivas, elas se tornam crianças abandonadas, crianças esquecidas, crianças silenciadas”, acrescenta ela que é doutora em Educação e relações étnico-raciais e ganhou prêmios como Mulheres Negras na Ciência (2019) e Paulo Freire (2019), na cidade de São Paulo.

A autora fundamenta seu livro na escuta realizada durante os 20 anos em que atuou na educação infantil, além  pesquisas acadêmicas já consolidadas sobre o tema. Entre suas referências, destaca-se Eliane Cavaleiro, prefaciadora do livro e uma das maiores autoridades em relações raciais na educação infantil. “Ela traz dados do silenciamento como um espaço de escolha das professoras que, diante do racismo, silenciam e deixam as crianças sem respostas”, explica Jussara.

Outra pesquisadora citada é Fabiana Oliveira, que observou  escolas de educação infantil (antigas creches) em São Carlos, SP, e documentou tratamentos diferenciados. “Ela percebe que os bebês negros são chamados por apelidos ao invés do seu próprio nome; eles não ganham um colo quando sentem medo; não ganham um colo quando caem; ficam mais com o nariz sujo; esperam mais tempo para serem alimentados”, relata a educadora.

Reconhecer o problema

Livro denuncia como se dá o racismo nas escolas de educação infantil

Jussara Santos é educadora das infâncias há 20 anos e trabalha com bebês e crianças entre 0 e 6 anos

Jussara disse ao Extra Classe, que as consequências dessa negligência são graves e refletem nos dados educacionais. “Quando a gente olha os índices de não aprendizagem, de não alfabetização relacionados a crianças mais velhas, sempre recaem nas crianças negras”, alerta . “A falta de colo talvez seja o reflexo do estudante não alfabetizado”, analisa.

Passados mais de 20 anos da Lei 10.639/2003, que estabelece o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira no currículo escolar,  acredita que é preciso ir além. “É muito massa ensinar a história e cultura afro-brasileira, mas além disso, é ser antirracista de janeiro a janeiro”, defende.

Para a educadora, o combate ao racismo na educação infantil passa pelo reconhecimento do problema. “Eu penso que é preciso reconhecer que pessoas brancas são imbuídas de racismo, sobretudo racismo estrutural. Quando eu assumo o racismo que mora em mim, eu consigo lutar para combatê-lo”, pontua.

Livro sugere práticas simples e poderosas

Entre as medidas práticas sugeridas pela autora está a representatividade. “É preciso que tenha espaços de representatividade para as crianças negras, que tenham bonecas negras, que tenham livros que tragam personagens negros, não só em situação de ‘vamos falar sobre negritude’, mas pessoas negras vivendo, consumindo, tendo família”, sugere.

Jussara finaliza com um apelo simples, mas poderoso: “Dar colo, literal mesmo, colo, colinho, afagar cabelo de criança negra, dar colo para criança negra, saber o nome da criança negra e não os chamar de apelidos geralmente ruins, eu acho que são formas de contribuir para uma sociedade inclusiva para os bebês e crianças negras.”

A pesquisa citada pela autora revela situações alarmantes, como crianças brancas sendo chamadas carinhosamente de “anjinho da proa”, enquanto meninos negros recebiam apelidos como “trovão”. “Cada sala tem um trovão”, relata a autora sobre os achados da pesquisadora Fabiana Oliveira, onde invariavelmente o “trovão” era um menino negro.​​​​​​​​​​​​​​​​

Jussara Santos é educadora das infâncias há 20 anos e trabalha com bebês e crianças entre 0 e 6 anos. Compõe a dupla autoria do documento Currículo da cidadeEducação antirracista (São Paulo, 2022). A educadora ainda integra comissões de heteroidentificação em concursos públicos no Brasil e atua no Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT). Presta assessoria para instituições públicas e privadas no país.

Fonte da matéria: Livro denuncia como se dá o racismo nas escolas de educação infantil – https://www.extraclasse.org.br/educacao/2025/04/livro-denuncia-como-se-da-o-racismo-nas-escolas-de-educacao-infantil/

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