Política

O contraste entre a timidez do campo progressista e a ofensiva extremista

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Rudá Ricci – Ni­kolas Fer­reira ace­lerou o carro no­va­mente. É seu es­porte pre­fe­rido. Não nasceu para pro­postas con­cretas ou para a cons­trução de algo. Nasceu para ace­lerar o carro.

Na se­mana em que seu cri­ador foi con­de­nado a 27 anos de re­clusão e de­tenção, ex­plorou a ameaça que teria so­frido no Es­pí­rito Santo. Evi­den­te­mente, tentou criar um fio nar­ra­tivo su­bli­minar com o as­sas­si­nato do jovem líder da ex­trema-di­reita dos EUA, Charlie Kirk. Ainda não está claro o perfil do as­sas­sino, Tyler Ro­binson, mas há in­dí­cios que seria mais ex­tre­mista que Kirk. O que não im­porta nada para o em­pre­en­di­mento po­lí­tico de Ni­kolas.

Nesses dias de muito tu­multo e perdas para o bol­so­na­rismo, Ni­kolas de­cidiu ace­lerar e lançou um mo­vi­mento – ainda de uma única pessoa mo­vi­men­tada: ele mesmo – para de­missão de “ex­tre­mistas de es­querda”. A co­meçar, pela su­gestão de ofen­siva às uni­ver­si­dades, um dos temas mais gastos e re­pi­sados dos ex­tre­mistas do pla­neta.

Ni­kolas des­fe­chou uma série de pos­ta­gens nas suas redes so­ciais. Co­meçou com a su­gestão aos em­pre­sá­rios para de­mi­tirem os ver­da­deiros ex­tre­mistas de suas em­presas, pas­sando para a ex­plo­ração da morte de Charlie Kirk para, então, chegar ao que lhe in­te­ressa mais: a pos­tura do “Neu­ro­ci­rur­gião de Re­cife co­me­mo­rando a morte de um pai ino­cente”. Daí foi um pulo para o de­pu­tado cri­ticar as uni­ver­si­dades bra­si­leiras, ale­gando que elas es­ta­riam for­mando pes­soas que “de­sejam, con­cordam ou in­cen­tivam matar pes­soas ino­centes por de­sa­vença po­lí­tica”, e acusou o am­bi­ente aca­dê­mico de se tornar um “la­bo­ra­tório de de­ge­ne­ração moral”.

O mais im­por­tante da his­tória toda é o es­pí­rito aguer­rido dos bol­so­na­ristas. O que con­trasta com a con­fusão po­lí­tica e o es­pí­rito aca­nhado do campo pro­gres­sista.

A sequência de prisão de Lula, im­pe­a­ch­ment de Dilma Rous­seff e vi­tória de Bol­so­naro em 2018 pa­rece ter ecoado fundo na au­to­es­tima dos pro­gres­sistas bra­si­leiros. Uma de­mons­tração desta in­se­gu­rança po­lí­tica veio jus­ta­mente após o mas­sacre de bol­so­na­ristas no jul­ga­mento do STF. Ao invés da co­me­mo­ração e ofen­siva sobre o bol­so­na­rismo e ad­ja­cên­cias (pro­cu­rando de­belar as cer­tezas das áreas ad­ja­centes ao ex­tre­mismo), o tema mais co­men­tado foi a mo­ti­vação do voto de Fux. Na prá­tica, ele­varam o feito de um único mi­nistro e o pro­je­taram nas redes so­ciais como al­guém mais forte que os 4 mi­nis­tros que ne­garam sua lei­tura es­drú­xula.

Parte deste aca­nha­mento tem re­lação com a au­sência da ori­en­tação dos di­ri­gentes e li­de­ranças do campo de es­querda. É algo co­nhe­cido que a luta po­lí­tica se apoia na soma de or­ga­ni­zação com mo­bi­li­zação. A atual di­reção pe­tista de­monstra di­fi­cul­dades ní­tidas de or­ga­ni­zação da base, nem mesmo a mi­li­tante, muito menos a de sim­pa­ti­zantes.

Isto se deve à su­bor­di­nação ca­nina ao go­verno e li­de­rança de Lula – que di­minui a au­to­nomia par­ti­dária – e ao foco no mar­ke­ting po­lí­tico. O mar­ke­ting é uma ma­neira edul­co­rada de dizer o que o eleitor de­seja ouvir. Não avança o sinal, não as­sume uma pos­tura pe­da­gó­gica, não entra em bola di­vi­dida. Esta pos­tura re­cuada de­sar­ti­cula a base mi­li­tante que se vê des­pro­vida de mo­ti­vação e, no fundo, não com­pre­ende porque nunca é ori­en­tada para avançar, para estar na ofen­siva. O que resta é pos­tura de es­pec­tador de jogo: torcer e gritar. No má­ximo, xingar o juiz.

No outro polo, a mo­bi­li­zação. Já é evi­dente que o campo pro­gres­sista vem tendo uma per­for­mance para lá de ri­dí­cula neste que­sito. Sua úl­tima grande de­mons­tração foi no “Fora Bol­so­naro”. Mesmo assim, não apro­veitou para avançar, fi­cando num mo­vi­mento cir­cular de pas­se­atas nas re­giões cen­trais das ci­dades e, ter­mi­nado com o re­torno para casa. Nada de pro­nun­ci­a­mento pú­blico. Nada além de “Fora Bol­so­naro, Va­cina no Braço, Co­mida no Prato”. Nada de pro­jetar uma es­tra­tégia de país. Ficou na ne­gação do poder bol­so­na­rista.

As mo­bi­li­za­ções, para um seg­mento do campo pro­gres­sista, apa­recem como obri­gação po­lí­tica. Como, anos atrás, se pen­sava a greve geral como preâm­bulo para uma ofen­siva que apon­tava para o “poder dual”. Fica aquela exi­gência in­terna, como um grilo fa­lante ao ou­vido, de que é pre­ciso medir forças com o bol­so­na­rismo.

Assim, a cada ma­ni­fes­tação do lado de lá, apa­rece a con­vo­cação de outra do lado de cá e vice-versa. Ocorre que mo­bi­li­zação se re­la­ciona com mo­ti­vação e … or­ga­ni­zação. Sem or­ga­ni­zação mí­nima, o cha­mado das li­de­ranças apa­rece como um canto de se­reia de­sa­fi­nado. Não atrai e fica aquela sen­sação de que não está muito claro porque de­vemos sair às ruas: qual ban­deira? Qual o plano po­lí­tico em que esta ma­ni­fes­tação se en­caixa? Qual o ob­je­tivo a al­cançar? Basta nú­mero ou a ma­ni­fes­tação de hoje tem que ir além disso?

Ma­ni­fes­tação não é efe­mé­ride. Dessa forma, a com­pa­ração da ofen­siva so­li­tária de Ni­kolas com a re­ação do campo pro­gres­sista no dia se­guinte à con­de­nação de Bol­so­naro et ca­terva emerge na­tu­ral­mente.

Está na hora de virar a chave. Um trauma ma­chuca, mas existe para ser su­pe­rado ou traga a alma de todos. Como qual­quer obs­tá­culo na vida. Obs­tá­culo existe para ser su­pe­rado. Caso con­trário, nos leva ao pâ­nico e à pa­ra­lisia.

Rudá Ricci é ci­en­tista po­lí­tico.

Fonte da matéria: O contraste entre a timidez do campo progressista e a ofensiva extremista – https://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/16483-o-contraste-entre-a-timidez-do-campo-progressista-e-a-ofensiva-extremista

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