Hugo Carcci* – Dados do IBGE mostram saldo negativo na atração populacional do Estado mais rico do País.
São Paulo registrou, pela primeira vez, um saldo migratório negativo. Entre 2017 e 2022, mais pessoas deixaram o Estado do que chegaram, algo inédito nos registros oficiais iniciados em 1991. Segundo dados do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Estado recebeu 736 mil e perdeu 826 mil migrantes nesse período. Em comparação, no Censo de 2010, São Paulo se manteve como principal destino da migração interna brasileira à época, com um ganho de 255 mil moradores. Agora, esse posto pertence a Santa Catarina.
São Paulo é o Estado mais rico e populoso do Brasil, sendo o principal centro financeiro do País. Mesmo assim, faltaram motivos para milhares de brasileiros ficarem no Estado. O professor e economista Renato Leite Marcondes, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, cita fatores que podem influenciar no descenso. “O custo de vida elevado e a queda na qualidade de vida conduzem muitas pessoas a deixarem grandes centros urbanos como a cidade de São Paulo, porém outros ainda encontram boas ocupações e oportunidades nesses mesmos lugares.”
Segundo o especialista, a qualidade dos serviços públicos, resultante dos investimentos públicos e privados, atuais ou passados, também condiciona os movimentos dos migrantes. “No contexto nacional, os diferenciais estaduais e municipais nos resultados das políticas públicas influenciam as migrações, como nas áreas da educação, saúde, transporte, justiça, segurança e transferência de renda.” Para Marcondes, há um conjunto muito amplo de determinantes que são analisados pelas pessoas na decisão de migrar, que também depende da idade e das relações familiares. Por fim, ele afirma que a violência, poluição, o trânsito e opções de lazer também são elementos que definem a moradia das pessoas.
Descenso histórico
Durante boa parte do século 20, São Paulo foi o principal destino de fluxos migratórios no Brasil, impulsionado pela industrialização e pela oferta de empregos urbanos. No entanto, a partir das décadas de 1980 e 1990, esse movimento começou a perder força, refletindo um esgotamento do modelo de atração migratória que marcou o crescimento populacional do Estado ao longo do século. Segundo o docente, atualmente a indústria não é mais tão representativa na economia brasileira e paulista, deixando de ser grande empregador em favor dos serviços. “A grande concentração da cafeicultura e depois da indústria em São Paulo atraiu esses imigrantes de diversos lugares para diferentes tipos de ocupações. No entanto, não há mais um diferencial de oportunidades para um continente tão elevado de pessoas quanto antes, reduzindo os volumes migratórios internos.” Segundo o economista, hoje o fluxo e o refluxo de imigrantes são comuns, além do crescimento dos imigrantes internacionais em novos perfis, chegando principalmente da América Latina, e saindo brasileiros, especialmente para os Estados Unidos, Europa e Japão.
Santa Catarina e Goiás no topo
Entre 2017 e 2022, Santa Catarina atraiu 503 mil pessoas vindas de outros Estados e registrou a saída de 149 mil moradores, obtendo um saldo migratório positivo de 354 mil pessoas, o maior do País tanto em números absolutos quanto proporcionais. O economista destaca as diferenças do Estado em relação a São Paulo. “Santa Catarina reúne um parque industrial expressivo, a melhor distribuição de renda do País, com uma forte presença da classe média e diversos atrativos de lazer, como praias para diferentes públicos”. Goiás, por sua vez, foi o segundo colocado: 371 mil chegaram e 184 mil saíram, totalizando um saldo positivo de 186 mil. “Goiás combina a agropecuária com a indústria, mas possui uma peculiaridade acerca da elevada migração do Distrito Federal para o seu entorno, o que contribui para receber migrantes liquidamente”, afirma o especialista.
*Estagiário sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares
Fonte da matéria: IBGE registra, pela primeira vez, que mais pessoas deixam São Paulo do que chegam – Jornal da USP – https://jornal.usp.br/campus-ribeirao-preto/pela-primeira-vez-mais-pessoas-deixam-sao-paulo-do-que-chegam/



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