Tudo está conectado

Cristiane Tavares – Fábula recupera o sentido de bem comum e faz pensar na relação perversa do homem com o meio ambiente

Caríssimo Delio,

Sinto-me um pouco cansado e não posso lhe escrever muito. Você me escreva sempre e sobretudo conte-me o que lhe interessa na escola. Penso que gosta da História, como também eu gostava quando tinha a sua idade, porque diz respeito aos homens em sua existência e tudo o que diz respeito aos homens em sua vida, quanto mais homens seja possível, todos os homens do mundo enquanto se unam entre si e trabalhem e lutem e melhorem a si mesmos, não pode senão nos agradar mais do que qualquer outra coisa. Mas, será assim?

Abraço-o.

Antonio

A carta acima foi escrita em 1937 pelo filósofo marxista Antonio Gramsci, da Penitenciária de Turim, onde permaneceu preso por onze anos sob o regime fascista de Mussolini. Redigida no ano de sua morte e dirigida ao filho Delio, expressa a preocupação com o bem comum e um ideal de educação humanista — ideias caras ao intelectual, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (pci), que durante o confinamento forçado produziu uma obra de alta relevância, manuscrita em mais de trinta cadernos, na qual se incluem as Cartas do cárcere, na maioria escritas para sua esposa, Giulia. É em uma dessas correspondências que ele narra a fábula de origem sarda que ouvira na infância, “O rato e a montanha”, pedindo à mulher que a reconte aos filhos, Delio e Giuliano. Nas linhas finais, afirma que se trata de uma “história típica de uma região devastada pelo desmatamento”.

Em 2017, a artista catalã Laia Domènech criou uma bela narrativa visual a partir do conto, publicado agora no Brasil. O enredo é simples e os fatos narrados estão todos interligados: um rato bebe um copo de leite sem perceber que era o único alimento que uma mãe tinha para dar ao filho. O menino chora de fome e a mãe chora por não ter como alimentá-lo. Arrependido, o rato parte à procura de mais leite, e o que parecia uma tarefa simples acaba por tornar-se uma longa jornada em busca de reverter os estragos da guerra e da exploração do meio ambiente e dos bens comuns. A reversão só é possível porque o rato entende a relação em cadeia que se dá entre a exploração indevida dos recursos naturais e faz acordos sustentáveis com cada um dos personagens envolvidos na produção do alimento de que necessitam.

Atemporalidade

Quase um século depois, a região devastada pelo desmatamento poderia ser a Amazônia ou a Mata Atlântica, para ficar apenas com exemplos nacionais, mas o que mais impressiona na atemporalidade do conto, como afirma o historiador e jornalista indiano Vijay Prashad, é que “o rato e a montanha nos ensinam que tudo está conectado. Há guerra aqui, mas também desmatamento por lucro, seca e ganância. A criança, quando crescida, reconhece a necessidade de um planejamento deliberado. Mas antes do plano é necessário identificar as conexões”. Mais do que uma fábula sobre as relações perversas do homem com o meio ambiente, ou das consequências devastadoras da guerra, trata-se de uma história que explicita, de modo simples, o funcionamento complexo de sistemas econômicos.

Gramsci faz essa ressalva à esposa ao pedir que transmita o conto, e a edição da Boitatá apresenta a carta na íntegra. Diz ele: “Em suma, o rato concebe uma verdadeira piatilieka”, termo explicado na nota de rodapé dessa cuidadosa edição: “Plano quinquenal, em russo, ou planos de metas econômicas do governo Stálin na União Soviética. Cada piatilieka durava cinco anos e tinha um objetivo específico, como melhorar a agricultura ou a indústria”.

A compreensão das conexões econômicas que produzem riqueza e/ou pobreza é favorecida pela narrativa visual. As guardas iniciais trazem uma paisagem hostil e dilacerada, e as finais mostram uma floresta viva. O percurso para chegar de um cenário a outro é percorrido pelo ratinho ao longo do livro, o que se faz notar, sobretudo, pelo aumento gradual no uso da cor, assim que as conexões entre a cabra, o capim, a água, a fonte, o pedreiro, as pedras e a montanha se restabelecem. O espaço antes fragmentado e estéril passa a ser fértil, habitado e diverso. Reconhecem-se, nas imagens finais, cenas isoladas apresentadas no início da história, agora compondo uma paisagem integradora.

De fato, como desejava Gramsci, no sistema econômico metonimicamente desenhado nas entrelinhas dessa fábula de tradição oral, “todos os homens do mundo enquanto se unam entre si e trabalhem e lutem e melhorem a si mesmos, não podem senão nos agradar mais do que qualquer outra coisa”. Como mostram os detalhes da imagem na contracapa do livro, a pá, as botas e a enxada simbolizam os instrumentos de trabalho coletivo com a terra em prol do bem comum. Em 2019, continua valendo a pergunta com que o filósofo encerra a carta dirigida a seu filho Delio, em 1937: “Mas, será assim?”.

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