Permanência ou saída de Bolsonaro do PSL: o que está em jogo?

VICTOR PICCHI GANDIN – Em 2018, na esteira do movimento que permitiu a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República, o PSL – Partido Social Liberal destacou-se devido ao seu crescimento expressivo. A legenda teve seu ápice exatos 20 anos após seu registro no Tribunal Superior Eleitoral, vindo a eleger 52 deputados federais e obtendo a maioria em número de representantes nas Assembleias Legislativas estaduais de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Espírito Santo. Um fenômeno, porém, calcado no poder de atração de uma única liderança, recém-filiada à legenda.

Em entrevista ao Broadcast, sistema de notícias ligado ao jornal Estadão, o senador paulista Major Olímpio praticamente admitiu a tese que afirma que o PSL foi utilizado como “legenda de aluguel”, ou seja, serviu unicamente para viabilizar e permitir a candidatura de Bolsonaro e seus apoiadores. Quando perguntado sobre a possível saída de Jair Bolsonaro do PSL, o major-senador respondeu mobilizando aspectos que há não muito tempo eram apresentados de forma negativa por seus correligionários como sendo da “velha política”, como tamanho de bancada e tempo de televisão: “Ele é o dono da casa. Vai sair de um partido que está bem estruturado? Vai começar do zero onde? Em uma sigla em que ele não vai ter o espaço e credibilidade que ele tem com a gente?“.

Quem ganhou a eleição com oito segundos de televisão e praticamente sem uso de recursos do fundo partidário não deveria ter em mente tamanha preocupação com a estruturação partidária, afinal, políticos do PSL “ganharam do zero”, minimizando a importância de se ter um partido forte e bem estruturado para a consolidação de um bom governo. A mudança de discurso significa que os tempos mudaram. Passada a eleição, o PSL passou a ser, ainda que temporária e numericamente, um grande partido. Grande em número de parlamentares e em recursos públicos que, em decorrência do primeiro motivo, lhe serão repassados. Segundo o site InfoMoney, a sigla deve receber cerca de R$ 103 milhões neste ano, com expectativa de alcançar R$ 360 milhões no ano que vem, quando também terá à sua disposição o Fundo Eleitoral.

Os dirigentes partidários do PSL têm hoje um ativo importante em mãos, o qual já está sendo planejado para as eleições municipais de 2020. Não obstante a popularidade regular de Jair Bolsonaro na presidência do Brasil, tal partido, que cresceu após sua entrada, poderia ter algum potencial expressivo nas eleições municipais, principalmente em pequenas cidades do interior, grande em quantidade de municípios. A campanha já vinha se desenhando, com candidatos tendo a mesma estratégia testada nacionalmente (ou seja, se filiar ao PSL e escorar na figura de Bolsonaro). Foi quando um jovem de Recife, pré-candidato a prefeito, foi garantir sua propaganda para o ano que vem, em vídeo onde se associaria ao “mito”. Ganhou um “não divulga isso não, cara” e um conselho que abalou Brasília: “O cara [Bivar] está queimado para caramba lá. Vai queimar o meu filme também, entendeu? Esquece esse cara, esquece o partido [PSL]”.

Tão logo a gravação começou a repercutir, surgiu a tese de que Bolsonaro pode deixar o PSL, ideia que ele viria amadurecendo há alguns meses. Caso tome mesmo esta iniciativa, o presidente estará fazendo algo muito arriscado, que mostra falta de compromisso e deturpa de forma geral a política partidária, necessária para a condução do processo legislativo no Brasil. Nossas instituições estão desenhadas de tal maneira e funcionariam melhor se houvessem partidos fortes. Caso Bolsonaro discorde disso e realmente estivesse interessado em mudar alguma coisa, proporia reformas no próprio desenho institucional. Em vez disso, pensa em integrar sua décima legenda apenas para salvaguardar seus próprios interesses mais imediatos, um comportamento típico da “velha política”, política esta que surpreendentemente alguns ainda acreditam que ele irá combater.

Um presidente trocar de partido em meio ao mandato, embora legalmente possa fazer isso, seria algo inédito na história democrática brasileira, ao menos desde a Redemocratização. Apesar de costumar tomar as atitudes mais irrealistas possíveis, aquelas menos imagináveis dentre a gama de opções que poderia adotar, Bolsonaro pode estar visando algum ganho em sua estranha estratégia. Em primeiro lugar, ao sair do PSL, pode estar querendo se desvincular dos escândalos vividos pela legenda durante seu tempo de filiado, como as polêmicas candidaturas laranjas. Ele poderá se fazer de santo, dizer que não tinha nada a ver com o que outros faziam utilizando seu nome durante a campanha (argumento não muito diferente de outro político que “não sabia de nada”) e isolar-se, acreditando que terá apoio popular para governar de uma forma institucionalmente mais solitária.

É público que Bolsonaro, além de considerar quase como inimigos todos aqueles que questionam suas ações, costuma rifar seus próprios aliados e aqueles que sustentaram e viabilizaram sua candidatura. Saindo do PSL, poderá estar apostando que a população o enxergará como “independente”, o último galardão da ética e da moral, enquanto todos os outros, inclusive de sua própria prole, teriam uma conduta inferior à do “mito”. Se tal ideia, embora falsa, repercutir bem na sociedade, isso evidenciaria um culto à personalidade, um grau muito forte de populismo, que, caso encontre respaldo popular, poderia originar até mesmo um governo autoritário. Será esta a intenção? Não sabemos. As declarações de Bolsonaro pegam de surpresa até mesmo seus correligionários mais próximos. Talvez seja apenas uma briga por controle interno dentro do PSL, e Jair Bolsonaro aceite permanecer na legenda caso tenha maior poder de decisão sobre onde serão aplicados os vultosos recursos do fundo partidário, ignorando especificidades locais e nomeando, de cima para baixo, os candidatos a prefeito que a legenda terá em 2020. Por um lado ou por outro, há interesses em jogo. Muitos deles pessoais e particularistas por parte do Presidente da República.

Após a declaração de Bolsonaro ao “jovem de Recife”, especulações de toda a ordem surgiram em diversas análises. Fica no PSL, sai do PSL, funda partido com Luciano Hang (da Havan), refunda o PRONA, refunda a UDN, vai para o PATRI… Por falar no Patriota, Adilson Barroso (preterido pelo próprio Bolsonaro em 2018, quando ingressou no PSL após ter garantido que entraria no PEN, que passou a se chamar Patriota por sua causa) foi ligeiro e afirmou que a sigla ainda está de “portas abertas”. Para atrair a atenção de Jair, o Patriota mostrou-se novamente ambientalista, ao menos no que diz respeito ao “camaleão”. Agora o partido é “Bolsonaro 100%” e o “casamento” só não foi possível em 2018 “por causa do Bebianno“.

Uma possibilidade que ninguém ventilou, e até faria mais sentido, seria a condição de Bolsonaro ficar sem partido até o registro de sua candidatura à reeleição (que ele seria contra e mudou de ideia tão logo sentou na cadeira presidencial). Afinal, mudar de partido agora traria um alto risco. Alguns parlamentares do PSL acompanhariam Bolsonaro. Outros, já estruturados na legenda e com recursos financeiros prometidos para a campanha de 2020, continuariam na legenda de Bivar. Aqueles que acompanhariam Bolsonaro esbarrariam em outro problema: vale à pena correr o risco de perder o próprio mandato por infidelidade partidária (pois esta incide ao poder legislativo) ao se ficar trocando de partido só para seguir Bolsonaro? Afinal, a “janela partidária” demorará para ser aberta. Será que governar sozinho (literalmente, embora isto só seja possível de uma maneira que sabemos qual é), no fundo, é o desejo mais intenso de Bolsonaro? Ou ele apenas quer livrar sua própria “barra” e salvar sua imagem, jogando todos os problemas que enfrenta nas costas dos demais, mesmo os mais próximos, cultivando assim sua própria personalidade perante a parcela do eleitorado que o idolatra? Conhecendo Bolsonaro, não devemos descartar ainda a tese de sua permanência no PSL. Desta forma, mais uma novela voltaria novamente para o capítulo inicial.

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