Novas projeções dos economistas: o “pibinho 1.0”

Fernando Grossman e José Martins – O jornal Valor Econômico publicou nesta terça-feira (09) um artigo com interessante título: “Analistas já temem PIB próximo de 1%”. Estão jogando a toalha. Já confessam publicamente que, com ou sem suas famigeradas “reformas”, os capitalistas não são mais capazes de fazer a economia funcionar.

Resumo geral da situação. Em queda livre há seis semanas no boletim Focus, do Banco Central, com a mediana das previsões para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 1,97%, os principais economistas do mercado financeiro já temem que o avanço da economia brasileira este ano fique mais próximo de 1% que de 2%.

Um provável pibinho 1.0 neste ano repetindo o marasmo de 2017 e 2018. A economia não sai do lugar. Agora são os economistas dos capitalistas e consultorias dos banqueiros que estão dizendo.

Ao fim de março, a média de 19 estimativas de consultorias e instituições financeiras colhidas pelo Valor Data apontava para um PIB de 0,3% no primeiro trimestre, com intervalo de -0,2% a 0,6%.

Desde então, a maioria revisa para baixo sua projeção. Caso dos economistas do Bradesco, que começou o ano prevendo um PIB de 0,7% no primeiro trimestre, em janeiro reduziu para 0,3%, ao fim de março para estabilidade e agora vê ligeira queda de 0,1%.

Nada mais do que a aceitação de uma tendência de queda livre das previsões anteriores. E da economia real, por supuesto.

O cenário para mais um ano de pibinho 1.0 – mesmo desconsiderando, sem muito realismo, qualquer explosão cíclica global até dezembro 2019 – torna-se o mais provável à medida que são publicados os dados reais da economia.

As vendas no varejo, por exemplo, ficaram estagnadas em fevereiro, registrando 0% na comparação com o volume de mercadorias comercializadas em janeiro, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), divulgada nesta terça-feira (09) pelo IBGE.

O comércio varejista ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, recuou 0,8% nessa mesma comparação. Com o resultado, o total de vendas no varejo permanece 6,6% abaixo do nível recorde alcançado em outubro de 2014.

A coisa não para por aí. O Setor de Serviços também mergulha no mesmo marasmo do comércio varejista.Em fevereiro de 2019, o volume de serviços no Brasil caiu abaixo de zero (-0,4%) frente ao mês anterior.

É o que informa a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgada pelo IBGE nesta sexta-feira (12). Com isso, o setor acumula nos dois primeiros meses do ano uma queda de 0,9% e elimina a expansão observada em dezembro de 2018 (0,8%).

O mais importante desta evolução da conjuntura é que a média móvel trimestral do volume de serviços não variou (0,0%) no trimestre encerrado em fevereiro de 2019, após apresentar duas taxas positivas seguidas em dezembro de 2018 (0,3%) e janeiro de 2019 (0,1%).

A retração mais relevante veio do setor de transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio (-1,3%), que permaneceu assinalando taxas negativas desde novembro último. Os serviços prestados às famílias, ao registrarem ligeira variação negativa em fevereiro (-0,1%), devolveram parte do que havia subido em janeiro (0,4%).

Por que estes dados do comércio interno e dos setor de serviços são muito importantes? Simplesmente porque eles representam em conjunto o emprego da metade da população trabalhadora no país.

Considerando os assalariados da Administração Pública, estes dois setores representam 70% do emprego no país.

São empregos improdutivos de valor e de mais-valia, mas têm uma decisiva importância estratégica na expansão do emprego e desemprego até nos mais ermos cantos do território nacional.

Por seu lado, os setores produtivos de valor e mais-valia – indústria de manufaturas, minas, energia, construção civil, transporte de carga, etc. – são mais importantes para antecipar a evolução da economia como um todo, incluindo a daqueles setores improdutivos do comércio, serviços e governo.

É por isso que, segundo a equipe de economistas do Bradesco, a revisão do PIB para baixo foi feita após a decepcionante alta de 0,7% da Produção Industrial em fevereiro. E também diante dos dados já conhecidos de março que sugerem que o fraco desempenho da atividade não é algo apenas pontual. Correto.

Como na opinião deles poderia haver uma reversão desta queda livre? Na visão do chefe dos economistas do Bradesco, falta um “vetor autônomo de demanda agregada” que lidere a retomada da economia.

Corretíssimo. Ele mesmo enumera alguns destes “vetores autônomos de demanda” que se caracterizam por não dependerem da atividade econômica corrente. Por exemplo. o consumo de bens duráveis, as exportações, os investimento em construção civil e gastos do governo.

Por ora, eles reconhecem que nenhum destes estratégicos vetores de retomada apresentam qualquer dinâmica de aceleração. Totalmente inertes. “Sem estímulo, a economia não vai se recuperar”, dizem os economista.

É obvio. Mas eles não informam como ou quem vai colocar o guiso no pescoço do gato. O folclórico Paulo Guedes? Sem chance. Um economista tosco e totalmente desinteressado (ou incapaz, para ser mais preciso) para este tipo de atitude inteligente.

Chamar o Guido Mantega de volta? A história não caminha impunemente para trás.

Assim, os economistas do Bradesco acabam melancolicamente defendendo “um novo corte de juro pelo Banco Central”.

Que bobagem.  Pessoas inteligentes amarradas nas teias políticas da Economia. Estes impotentes economistas sabem que para a grave situação atual uma redução da juro seria um estímulo vazio, totalmente inócuo. Passaria longe da dinamização daqueles “vetores” corretamente apontados por eles.

Elemento importante da atual situação política nacional: vê-se que mesmo os melhores economistas do mercado estão sem discurso. Perderam o discurso para uma política econômica ativa capaz de recuperar a atividade. Não têm mais munição política para isso. Não conseguem mais fazer política econômica anticíclica. Estão proibidos pelas circunstancias da luta de classes de fazê-la.

Os economistas do Itaú Unibanco também chegaram a um modelo de correlação entre confiança do empresário, geração de empregos formais e crescimento do PIB que também traz perspectivas desastrosas para o crescimento econômico e emprego da força de trabalho neste ano.

Segundo cálculo dos seus economistas, o nível de confiança atual – 94 pontos, segundo o Índice de Confiança Empresarial (ICE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), após queda de 2,7 pontos na passagem de fevereiro a março – é suficiente para a criação de apenas 20 mil vagas por mês e um PIB de apenas 0,8% no ano.

Pelos cálculos do Itaú, se o ICE recuar ainda mais, a 90 pontos, por exemplo, o país pode passar até mesmo a destruir postos de emprego formais e o PIB pode voltar à retração. Em resumo, a opinião pública teria saudade até do pibinho 1.0 atual.

Na mesma linha, a A.C.Pastore, consultoria do ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore, avaliou em seu último relatório que “não é possível vislumbrar uma aceleração mais robusta da economia ao longo de 2019” e que “um crescimento em torno de 2% torna-se altamente improvável”.

Os economistas da consultoria destacam que a demanda doméstica segue fraca, com desemprego elevado e sem perspectiva de retomada do investimento.

Esqueceram de dizer que não existe nada neutro nos movimentos econômicos. Principalmente quando, como atualmente, se procura conservar a propriedade privada capitalista apenas aumentando a sangue frio a exploração da classe operária e a miséria da totalidade da população.

A teoria econômica não é feita só de ideias (racionais ou não) mas principalmente de receitas práticas para a ação e dominação das classes dominantes sobre os trabalhadores produtivos desprovidos de qualquer reserva ou propriedade privada. A Economia Política (ou teoria econômica) e os economistas existem para isso.

Mas o limite do capital é ele mesmo. Acontece que a economia brasileira não anda e as condições políticas e sociais sentem o baque. As consequências de uma economia em estado terminal já apareceram com mais clareza neste primeiro trimestre do ano.

A taxa de desemprego oficial da força de trabalho ficou em 12,4% no trimestre fechado em fevereiro, acima dos 11,6% registrados no período encerrado em novembro pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada em 29 de Março pelo IBGE.

O aumento representou a entrada de 892 mil pessoas na população desocupada, totalizando 13,1 milhões de trabalhadores nessa condição. Já a taxa composta de subutilização da força de trabalho ficou em 24,6%, somando 27,9 milhões de pessoas, pico da série histórica iniciada em 2012.

O grupo de trabalhadores subutilizados reúne os desocupados, os subocupados com menos de 40 horas semanais e os que estão disponíveis para trabalhar, mas não conseguem procurar emprego por motivos diversos. É a medida que mais se aproxima do desemprego real contido no exército industrial de reserva.

Governo destrambelhado, produção caindo, grandes fábricas (nacionais e estrangeiras) fechando as portas, filas quilométricas de desemprego nas grandes cidades, miséria crescente nas favelas e morros de todo o território nacional.

Apesar dos economistas e da sanguinária repressão militarizada da burguesia a História se move mais rapidamente.

Novas projeções dos economistas: o “pibinho 1.0”

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