EUA se move perigosamente da guerra comercial para a guerra das moedas

José Martins – Todo mundo sabe que Donald Trump, presidente dos EUA, não para de pressionar o mundo com seguidas ameaças de guerras comerciais. Tarifas e outras formas protecionistas na mão. Agora, ele emite sinais muito claros de que os EUA podem estar se preparando para outra guerra muito mais letal para o funcionamento dos principais mercados mundiais: uma impensável guerra cambial. Uma guerra de moedas nacionais.

Isso é bom ou ruim para a economia mundial? Depende. Para a economia talvez seja ruim, mas, para o capital, nem um pouco. Para as bolsas de valores do mundo e ao mercado financeiro em geral, por exemplo, parece que não existe nada melhor que este crescente belicismo econômico estadunidense sobre o resto do mundo.

Os fatos falam mais alto. O mercado continua empilhando montanhas de capital. Em Wall Street, centro do capital financeiro mundial, o capital festeja níveis de valorização nunca dantes alcançados. Na abertura dos mercados nesta quinta-feira (20 de junho), o índice S&P 500, que engloba as 500 maiores empresas dos EUA, havia superado seu recorde histórico de 2,954.33 pontos, com as empresas tecnológicas e de energia sendo as mais valorizadas.

Na esteira de Wall Street, bolsas de todo o mundo seguem batendo recordes. Até as de maltrapilhas economias dominadas, como a do Brasil, que nem moeda conversível tem, o índice Bovespa da sua bolsa de valores ultrapassou pela primeira vez, nesta semana, os 100 mil pontos. E a economia? Próxima de zero. A bolsa sobe e a economia desce.

Não é só no Brasil. Em algumas outras nações a economia vai mal, mas o capital nem tanto. Esse fenômeno depende da dinâmica global da economia, quer dizer, de qual fase do ciclo se encontra a economia mundial.

Neste final do 3º trimestre/2019, por exemplo, a economia está mal em muitas partes do sistema, mas mesmo nestas últimas os capitalistas continuam aumentando e acumulando mais capital do que nunca. Quando a franco-maçonaria capitalista ganha na totalidade do sistema, todos os capitalistas ganham também nas suas partes.

A euforia desenfreada dos mercados nesta semana foi estimulada por um fato econômico concreto: os capitalistas do mundo todo receberam a garantia que o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) diminuirá ainda mais sua taxa básica de juros, para algo em torno de 2% ao ano.

Em termos reais, a taxa de juros do planeta deve cair para zero. Foi o que Gerome Powel, presidente do Fed, prometeu de pés juntos, nesta quarta-feira, na reunião mensal do comitê monetário do banco central do planeta, quer dizer, dos EUA.

Entretanto, ninguém se lembrava mais que na véspera desta reunião, a mais ansiosamente aguardada no mercado mundial, Donald Trump ameaçou publicamente Powel de destituição da presidência do Fed caso ele ousasse indicar elevação ou, a ordem era essa, não reduzisse ainda mais a taxa básica de juros.

Os dirigentes do Fed encenaram certo constrangimento com essa autoritária intervenção do presidente dos EUA na fantasiosa “independência do banco central”. Sem muita convicção. Soltaram apenas um burocrático comunicado lembrando que, legalmente, o presidente dos EUA não tem esse poder de destituir o presidente do Fed. E continuaram calados.

Para os políticos, mais do que uma ilegalidade, trata-se de um problema moral. Para Mrs. Nancy Pelosi, da maioria democrata e presidente da Câmara dos EUA, por exemplo, que no mesmo dia declarou timidamente: “A última coisa que precisamos é de um presidente ameaçando o presidente do Fed para obter as taxas de juros onde ele quiser. Isso é muito, muito errado.”

Bullshit! Só conversa mole! No dia seguinte à ameaça de seu patrão de fato, Powel anuncia urbi et orbi, (para Roma, a cidade e o mundo) que manteria provisoriamente a taxa básica de juros do universo no atual intervalo 2.15 a 2.50% ao ano, com perspectiva de corte na reunião do próximo mês.

Moral da história: quem pode manda, quem não pode obedece! De todo modo, os dirigentes do Fed acabaram fazendo corretamente a única coisa que eles poderiam fazer. Depois da reunião de quarta-feira justificaram sua decisão de manter a taxa de juros dizendo que “o Fed está pronto para combater os riscos econômicos globais e domésticos”. Correto.

Mas nem tudo que é correto é suficiente. O governo dos EUA vai mais longe que o Fed. A preocupação de Trump com as decisões de Powel e sua equipe vai além da atual conjuntura doméstica de emprego, inflação, etc. Estão pensando para depois da gigantesca crise global que se aproxima. Que, aliás, com Fed ou sem Fed, ninguém será capaz de evitar.

Pensamento estratégico é o que não falta na potência dominante do mercado mundial. Enquanto se aguardava a reunião do Fed, a preocupação de Washington era, em primeiro lugar, como a variação da taxa de juros impacta no preço de mercado (câmbio) de sua moeda nacional. Quer dizer, quando impõe ao Fed a tendência de redução da taxa básica de juros, o governo dos EUA está muito mais preocupado com as movimentações monetárias dos seus principais concorrentes externos.

Os EUA estão preocupados com os efeitos dessas movimentações externas sobre o dólar no mercado mundial – as do Banco Central Europeu, principalmente. É por isso que ocorreu um fato inusitado que ampliou aqueles sinais de que os EUA já se preparam para uma guerra internacional de moedas.

E ocorreu o inusitado: depois de ameaçar o presidente do seu próprio banco central, Jerome Powel, Trump partiu para o ataque (com o máximo de publicidade, como de costume) sobre o presidente do Banco Central Europeu, Signori Mario Draghi. Ataque simultâneo sobre os dois principais bancos centrais do mundo e seus trêmulos dirigentes.

Por que este enorme protagonismo dos bancos centrais? Acontece que, além da estabilização das economias domésticas, as políticas monetárias dos bancos centrais são organicamente ligadas ao câmbio, à cotação real da moeda nacional no comércio internacional.

Mas aqui aparece o fato que a guerra cambial de desvalorizações competitivas da moeda nacional para arruinar o vizinho é uma forma mais explosiva do que a própria guerra comercial. Se aproxima perigosamente de uma guerra mundial propriamente dita.

As guerras reais têm armas e as guerras comerciais são combatidas com armas como as tarifas e outras formas burocráticas de protecionismo do mercado interno. Claramente. As guerras das moedas, ao contrário, são batalhas secretas, camufladas – nenhum país admite que está travando uma.

As guerras cambiais surgem quando os bancos centrais, formuladores de políticas monetárias, são acusados ​​de derrubarem deliberadamente as taxas de câmbio – ou de fixá-las muito baixas – para obter uma vantagem competitiva no comércio internacional ou no mercado financeiro global.

Ora, até o Paulo Guedes sabe que uma moeda tornada artificialmente mais fraca significa que as exportações de um país podem ser vendidas mais baratas no exterior, proporcionando um estímulo para sua economia interna. Dane-se o vizinho! O problema é o que este último vai pensar dessa malandragem.

Donald Trump dispara: com uma série de tweets na terça-feira (18) – dirigidos ao anúncio de Mario Draghi de que a Eurozona se prepara para reduzir as taxas de juros abaixo de zero, em resposta à desaceleração do crescimento no velho continente – os EUA fizeram uma rara intervenção presidencial estadunidense na política monetária de outra potência econômica.

Artilharia pesada. Pior do ele já havia feito no mesmo dia com Jerome Powel e o Fed, Trump tratou a capenga União Europeia como os EUA tratam quotidianamente as nações dominadas no sistema global, aquelas citadas acima, sem moeda conversível no mercado internacional de câmbio, etc. – Brasil, Argentina, Turquia, México, Venezuela, Haiti…

“Mario Draghi acaba de anunciar mais estímulos monetários, o que imediatamente desvalorizou o euro em relação ao dólar, tornando injustamente mais fácil eles competirem contra os EUA. Eles estão fazendo isso há anos, junto com a China e outros ” – twittou o intempestivo presidente da maior potência econômica e militar do planeta.

Mais tarde, ele ainda acrescentou: “ O DAX (principal índice da bolsa de valores alemã) está subindo devido às estimulantes notícias anunciadas por Mario Draghi sobre sua política monetária de taxas de juros abaixo de zero.. Isso é muito injusto para os Estados Unidos!”

Não foi a primeira vez que os EUA culpa a manipulação das moedas conversíveis no exterior pela existência de um “dólar forte” – quer dizer, supervalorizado frente às demais divisas internacionais, o que aumenta o preço de mercado e a competitividade das mercadorias exportadas pelos EUA.

Não deixam de ter razão. Mas esta é outra história que não pode ser detalhada neste boletim. Apenas relembrando de passagem que isso tem a ver com a determinação da produtividade sobre o valor da moeda nacional e outras coisas muito importantes da teoria do desenvolvimento econômico. Os economistas deveriam estudar e considerar melhor a teoria do valor-trabalho para saber pelo menos do que estamos falando.

Agora, repetindo, a determinação dos EUA é diferente. Eles afastam-se efetivamente da política de “dólar forte” do período pós-guerra, mostrando ao mundo que doravante agirão agressivamente por um “dólar fraco” visando aumentar suas exportações, diminuir o déficit comercial e garantir os lucros das suas empresas.

Isso é nitroglicerina pura. Observe-se que não se está a tratar o dólar apenas como uma importante moeda mundial. Como são o euro, iene japonês, libra inglesa, franco suíço e outras poucas moedas conversíveis (ou de reserva) do mercado cambial internacional. O dólar não é apenas conversível como as moedas das demais economias dominantes. É mais do que isso.

Trata-se aqui da moeda padrão de reserva internacional. Esta função foi exercida até as primeiras décadas do século passado pelo ouro. A partir do Acordo de Bretton Woods, em 1945, o dólar destitui aquilo que especialista em finanças internacionais John Keynes chamava de “relíquia histórica”. Como bom e declarado malthusiano, o farsante lorde deve ter plagiado (mais uma vez) essa expressão de algum bom economista

O dólar destitui o ouro e assume a função de ouro abstrato. Forma valor totalizante. Torna-se a primeira moeda nacional na história econômica mundial a assumir essa função de moeda universal. Como forma mais adequada do valor internacional.

Abriu-se assim o caminho para a onipresente lei do valor (em sua forma capital mais desenvolvida) se realizar em toda sua plenitude. Plenamente. Isso só poderia ocorrer no mercado mundial, como ensina Marx. E o mundo nunca mais foi o mesmo.

Em termos práticos: segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), 82% de todas as transações comerciais e financeiras realizadas a cada segundo no planeta são feitas em dólar. E quase dois terços (63%) das reservas internacionais estocadas em todos os bancos centrais do mundo são nomeadas em dólar. Apenas 20% das reservas internacionais são nomeadas em euro. Os 15% restantes são distribuídas em libras, ienes, francos franceses, francos suíços, etc.

As coisas realmente esquentam quando os governos nacionais imperialistas da economia mundial decidem retaliar uns aos outros. Por isso é tão importante não subestimar este fato: depois de anos de tensões deliberadamente abafadas, o governo dos EUA, agora representado pelo seu espalhafatoso relações-públicas Donald Trump, trouxe as hostilidades à tona.

Aumenta a preocupação de capitalistas bem informados das economias dominantes com o desmoronamento de décadas de compromissos globais para evitar uma guerra cambial. Sentem que a nova estratégia estadunidense do “dólar fraco” não é acidental. E nem foi concebida pelo anão Donald Trump. É uma política de Estado. Irreversível.

As escaramuças aumentaram, nesta semana, com aqueles torpedos disparados por Trump nas direções do Fed e do BCE. Para Cesar Rojas, economista global do Citigroup Global Markets Inc., “ainda não estamos em uma guerra cambial, mas os EUA estão preparando o terreno, estão apresentando as armas potenciais que podem ter à sua disposição”.

De fato, essa temida guerra cambial, que derreteria imediatamente as transações internacionais de mercadorias e de capitais, só deve ser detonada efetivamente com o gatilho da próxima crise econômica global. Não é preciso esperar muito tempo.

Por enquanto, as guerras comerciais e cambiais apresentadas pelos EUA são apenas manobras estratégicas. O importante é que com elas o governo estadunidense se antecipa e se prepara para salvar o que puder da sua própria economia na eclosão da iminente crise global. Esta última baliza todas as manobras econômicas dos EUA.

Mas o caráter de todas essas manobras é necessariamente econômico e militar. E imediatamente mundial. A maior potência econômica e militar do planeta sabe que para salvar sua própria pele terá arruinar catastroficamente seus queridos vizinhos europeus e asiáticos. Com tarifas, moedas ou canhões.

Duas almas fundidas graniticamente em um mesmo processo. Por outros meios e outras armas, a nova guerra mundial imperialista será uma continuação das guerras comerciais e das moedas. Hic Rhodus, hic salta!

EUA se move perigosamente da guerra comercial para a guerra das moedas

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