Economia

Dez Anos Atrás

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José Martins – Está se comemorando nesta semana um interessante aniversário. Dez anos atrás, o índice S&P 500 da bolsa de valores de Nova York cravava seu último recorde de valorização no ciclo 2002/2008, anterior ao atual 2009/2017.

Exatamente no dia 09 de outubro de 2007 o S&P 500 alcançou a marca de 1549,38 pontos. A partir desta data começa a cair ininterruptamente e, finalmente, a mergulhar na mais potente crise periódica dos últimos setenta anos. Só iria recuperar essa pontuação, já em pleno período de expansão atual, em março de 2013.

Existem motivos para se rememorar essa data. Em primeiro lugar, motivos teóricos: comprova-se, praticamente, que, ao longo prazo de um ciclo econômico, as flutuações dos preços das ações, quer dizer, dos títulos de propriedade do capital, obedecem rigorosamente às flutuações do processo de valorização material do capital. A produção de lucro no chão de fábrica pela exploração da classe operária mundial – e não de juro e outras rendas, nos escaninhos dos bancos centrais e das políticas econômicas – é o que comanda o espetáculo capitalista.

Em economias dominantes do sistema, com elevadíssimas densidades de capital, como EUA, Alemanha e Japão, principalmente na primeira, as flutuações de longo prazo dos mercados de capitais – como de resto dos seus primos do mercado financeiro, marcados por instabilidades e incertezas genéticas – são rigidamente determinadas pela produção de capital, quer dizer, pela produção industrial de valor e de mais-valia (lucro).

Nota bene: essa relação não se apresenta de maneira tão “racional” nas economias dominadas do sistema, como Brasil, Rússia, Índia, China, South África, etc. Aqui os fundamentos materiais da propriedade e da circulação do valor sempre se apresentam em formas fenomenais altamente distorcidas.

Em segundo lugar, existem motivações práticas para rememorar a data do ciclo anterior em que o índice S&P 500 da bolsa de Nova York atingiu seu ponto máximo de valorização. Dado importantíssimo: observando-se rigorosamente e comparando os pontos de auge (pico) e de mínima (buraco) do S&P 500 nos três ciclos periódicos ocorridos nos últimos dezessete anos, pode-se avaliar com maior clareza o potencial de destruição de capital da nova crise que se avizinha. O gráfico abaixo oferece um panorama bastante útil para essa observação.

Prolegômenos da globalização, antes de observar mais de perto o período de trinta anos retratado no gráfico acima. Nos últimos setenta anos, aproximadamente, a trajetória das flutuações das ações na principal bolsa de valores do mundo (Nova York) obedece a uma particularidade muito importante. Desde a grande depressão de outubro de 1929, o primeiro abalo sísmico relativamente importante na bolsa de Nova York só voltou a se repetir em outubro de 1987.

Foi o primeiro sinal prodrômico de abertura de um novo e irreversível período de aprofundamento da globalização. Muito maior liberdade de circulação do capital internacional, desregulamentação dos mercados monetários, cambiais, financeiros e de capitais em todo o mundo.

Nos anos 1990, os mercados globais se reproduziram exponencialmente. De forma ininterrupta e na exata correspondência ao maior período de acumulação de capital industrial da história econômica mundial. Em nosso boletim acompanhamos semanalmente (e galhardamente) esse duro período da luta de classes internacional. O capital nunca pareceu tão natural e eterno como naqueles anos.

Nota bene: nos anos 1990 a crosta terrestre se torna um imenso parque industrial produtor de montanhas aparentemente infinitas de capital, quer dizer, de valor e de mais-valia. Mesmo naquele período, e depois também, os ideólogos marxistas do Estado e da “financeirização do capital” ainda continuavam a insistir nas tolas afirmações de crise permanente e de longa depressão do capital a partir dos anos 1970! Alguns abandonaram essas bobagens pressionados pelo próprio andar da carruagem. Sem nenhuma explicação, soi dit em passant. Mas mesmo agora, passados quase vinte anos do século 21, a maioria dos participantes daquele burocrático-marxismo ainda rumina sem nenhum prurido essas bobagens de “longa-depressão”, “crise estrutural”, etc.

Voltando aos fatos cabeçudos da realidade. Só treze anos depois do grande choque de 1987, na bolsa de Nova York, manifestou-se pela segunda vez o sinal de limite do longo período prodrômico acima detectado. Como se pode observar no gráfico acima, na esteira de um período de treze anos de triunfal e ininterrupta acumulação global, o índice do S&P 500 atinge seu pico de valorização (1517,68 pontos) em agosto de 2000.

Quase sete vezes o índice de 1987! Isto é acumulação de capital. Processo de reprodução ampliada da totalidade do capital. Mas agora a crise periódica de 2000/2002 mostrava coisas importantes. A primeira é que, em setembro de 2002, já em ritmo de superação da crise, o índice S&P havia caído para o buraco de 815,28 pontos. Desvalorização de quase 50%.

Evaporava-se potencialmente a metade do capital que havia sido acumulado em treze anos. Em setembro de 2002, a metade do valor do capital expresso nos seus títulos de propriedade negociados na bolsa de Nova York havia potencialmente (apenas potencialmente) virado pó.

Ato explícito de queima de capital. Entretanto, o abortamento da crise geral e a recuperação para mais um período de expansão, a partir de 2002, reverteu essa catástrofe do capital. Salve Bush, 11 de Setembro 2001, Afeganistão, Iraque, e tantas outras providenciais medidas anticíclicas do terrorismo imperial.

No balanço do choque, outra coisa muito importante para a análise da dinâmica da acumulação e dos limites do capital global ficara irreversivelmente definida: as grandes oscilações periódicas de superprodução de capital e a aproximação cada vez maior de nova crise catastrófica do capital – abafadas, como observado acima, desde a grande depressão de 1930 – mostram novamente sua antiga cara nos anos 2000.

É com esses riquíssimos antecedentes históricos que nos aproximamos, finalmente, ao aniversário comemorado neste boletim. Depois do buraco de 2002, o S&P 500 alcança o pico de 1549,38 pontos em 09 de outubro de 2007. Há exatamente dez anos atrás.

Uma marca relativamente conservadora. Não muito acima do pico do ciclo anterior (1517,68 em agosto de 2000). Porém, 90% acima do buraco de setembro de 2002, como observado acima. O suficiente para explodir no maior choque cíclico desde a grande depressão dos anos 1930.

Mas ainda um choque periódico parcial, não catastrófico. O S&P 500 cai prostrado no buraco em fevereiro de 2009, registrando 735,09 pontos. O choque foi suficientemente pesado para derrubá-lo abaixo dos 815,28 pontos do buraco de setembro 2002.

Com esse protocolo e tendências observados nos ciclos anteriores dos últimos setenta anos, pelo menos, o que se pode vislumbrar para a situação atual, quando o S&P 500 alcançou nesta semana o pico histórico recorde de 2550,64 pontos? Uma valorização de 65% sobre o pico de dez anos atrás. Nada conservador. Muito menos conservadora a valorização de 250% sobre os 735,09 pontos do buraco de fevereiro de 2009.

O capital já acumula, em outubro de 2017, um potencial muito superior ao que ele registrava dez anos atrás, quando iniciou um mergulho que o aproximou mais do que nunca, nos últimos setenta anos, de uma nova crise global e catastrófica. Chegou a poucos metros de uma verdadeira depressão econômica, como a ocorrida pela última vez nos anos 1930.

Esperamos com otimismo que o S&P 500 continue a subir mais e mais. E junto com ele as bolsas em todo o mundo, de Londres a Johanesburgo, de Paris a Istambul, de Buenos Aires a Estocolmo, De Nova York a Shangai, de Madri a Moscou. Acumulai! Acumulai!

Já estão dadas as condições de explosão de mais uma grande interrupção de funcionamento do sistema global. Mas quanto mais acumular, maior essa explosão da superprodução que come solta em todas as economias do globo terrestre.

A única coisa que se pode antecipar no momento, teoria e prática à mão – seja baseados nestas observações da evolução do S&P 500, seja em muitas outras mais importantes do que essas que acabamos de fazer – é que a criativa explosão do próximo período de crise será muitíssimo mais destrutiva de capital do que a que se iniciou dez anos atrás. Com a devida benção do jovem Marx e do Marx barbudo!

http://criticadaeconomia.com.br/dez-anos-atras/

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