Cronicamente Inviável

José MartinsComo a pequenina cidade de Bacurau, no sertão de Pernambuco, a indústria de manufaturas do Brasil está marcada para morrer. Para sumir do mapa. Inevitavelmente. E a totalidade da economia nacional seguirá naturalmente essa fatalidade.

Os recentes desdobramentos políticos e sociais protagonizados pelo atual governo burguês instalado em Brasília já refletem nas superestruturas do Estado nacional a aceleração deste inevitável processo material.

Mais cedo ou mais tarde a economia acaba determinando a política. Apesar da pasmaceira crítica que assola atualmente o país, alguém teria que dizer alguma coisa a respeito destas coisas precisas, materiais. Essa tarefa só poderia ser confiada aos economistas, estes bem preparados ideólogos da propriedade privada e do capital.

Primeira e importante observação empírica destes distintos cidadãos: enquanto a produção industrial no resto do mundo cresceu 10% desde 2014, a atividade nas fábricas brasileiras caiu 15% no mesmo período – e não recuperou o patamar em que estava antes da recessão. Se nada for feito, dizem eles, a indústria brasileira corre o sério risco de não figurar mais no ranking das dez maiores do mundo.

Na zona da degola do darwiniano mercado mundial. A gravidade do problema começa a ser ilustrada pela evolução recente da classificação da indústria de alguns importantes países da América Latina frente à evolução dos demais competidores mundiais.

De acordo com a economista Laura Karpuska, da BlueLine Asset, que sistematizou os dados acima sobre produção industrial no mundo, nos países dominados da periferia do sistema, excluindo a China, a atividade das fábricas cresceu 8% desde 2014, enquanto na América Latina o desempenho foi de queda de 4% – e o destaque entre os maiores países da região foi o Brasil.

Em resumo, desde 2014, enquanto a produção industrial mundial cresceu 41,8%, na América Latina permaneceu praticamente estagnada. E no Brasil ela desabou 14%! Dentre os motivos que ajudam a explicar o desempenho mais fraco do Brasil em relação aos vizinhos, a senhora Karpuska cita primeiro “os diferentes choques que vêm impactando a economia do País”.

Quais seriam estes choques? Ela lista a queda nas exportações para a Argentina, que afeta os manufaturados, pode ter tirado até 0,7 ponto porcentual do PIB em 2017 e 2018. Também pesaram para ela a tragédia do rompimento da barreira da mineradora Vale do Rio Doce, em Brumadinho (MG) e a greve dos caminhoneiros, em maio do ano passado.

Pura abobrinha! Conversa fiada! A economia vulgar não é capaz de comentar nem os números que ela mesma coleta. Afinal, mesmo concedendo grande gentileza à simpática economista que esses “choques” pudessem explicar alguma coisa da derrocada histórica da indústria brasileira, eles ocorreram de 2018 para cá. E os números observados acima se referem aos últimos cinco anos.

Esses números exigem uma análise um pouco mais séria. Como procura fazer o economista Rafael Cagnin, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). “À exceção da Argentina e dos problemas gravíssimos da Venezuela, a crise industrial do Brasil foi uma das mais profundas da América Latina, e a recuperação tem sido das mais frustrantes possíveis também”.

Vem dele e do Iedi, também, o alerta bastante óbvio de que o Brasil, que ocupa a nona posição entre os maiores países indústrias do mundo, pode deixar, em breve, de aparecer entre os dez primeiros desse ranking.

O desempenho fraco da indústria, na avaliação de Cagnin, reflete tanto a demanda fraca quanto problemas estruturais de competitividade e produtividade, como a complexa estrutura tributária, o baixo investimento e o parque produtivo obsoleto. O economista reforça que é cada vez maior o risco de a atividade fechar 2019 com queda na produção.

A análise de Cagnin coincide no principal com a do economista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em economia industrial, David Kupfer.

O distinto especialista em economia industrial avalia que não há uma solução de curto prazo para reverter o quadro atual, que classifica como “anemia industrial”. E completa. “Há uma questão estrutural, de falta de competitividade, e conjuntural, de falta de dinamismo na economia, que impede a indústria de crescer

Diagnóstico  razoável. Falta apenas esclarecer melhor a gênese desta “falta de competitividade”. Aqui encontramos os limites dos economistas. É uma pena que o distinto professor não passe de um vago diagnóstico e não tenha condições, enquanto economista, de tirar todas as consequências da situação histórica que ora explode com toda a força: a cronicamente inviável indústria da economia do imperialismo na maior economia do mundo ao sul do equador.

Ele ainda tenta alguma coisa. Para o nosso bem intencionado David Kupfer, “as políticas usadas por governos anteriores [leia-se Guido Mantega], como o fomento aos chamados campeões nacionais e a desoneração da folha de pagamento de diferentes setores produtivos, não serviram para fortalecer a indústria, mas para tentar melhorar o ambiente macroeconômico. Ainda assim, esses instrumentos não devem ser demonizados, apenas não foram bem utilizados à época.”

Um Guido Mantega mais esclarecido? Difícil. Pelo menos a intenção do professor é boa. Mas, como já se sabe a tanto tempo, o caminho do inferno é pavimentado de boas intenções.

E a roda da História não gira para trás. Agora, neste exato mês de outubro de 2019, a questão mais importante e que não pode ser equacionada pelos economistas (e muito menos pelo governo dos capitalistas) é saber se a falência da indústria e da economia do imperialismo na trôpega economia brasileira ainda suporta mais prorrogações e mais paliativos, como aqueles últimos tentados ao limite do possível (e do impossível) por Guido Mantega.

Aliás, o mesmo Mantega que agora anda ameaçado de ser julgado e trancafiado pela justiça e pela polícia dos mesmos capitalistas que ele tanto incentivou e procurou salvar enquanto esteve no comando da economia nacional.

Cronicamente inviável

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