100 dias de Bolsonaro: o desgoverno como técnica autoritária

Diego Tavares – Bolsonaro completou 100 dias de governo oscilando entre a mais pura idiotia e a transformação da estupidez em uma forma de criar o caos e assim tentar se impor como a única saída para a bagunça que ele mesmo cria.

Bolsonaro completou 100 dias de governo sem esconder tudo o que tinha pra mostrar. Montou governo articulando um núcleo ideológico costurado pela insanidade de seus seguidores mais fanáticos, um núcleo liberal e policial-judicial – dos hipócritas oportunistas Guedes e Moro – que embala os sonhos da elite econômica e da classe média e, por fim, o núcleo militar, usado para emprestar sua pretensa autoridade moral ao governo. Passada a eleição, esperava-se o início do governo.

O governo Bolsonaro tem apenas duas formas de se viabilizar: pela via “normal” – que acusa de “velha política” – ou pela “via autoritária”, sonhando com uma ascensão popular que daria sustentação de massas para seus intentos mais inconfessáveis. A via normal é jogada por meio das instituições, negociando e dividindo o poder com setores da direita e da sociedade, traço comum em governos democráticos. O custo sabido da via institucional brasileira tem sido o fisiologismo e a corrupção, caminhos conhecidos da família Bolsonaro e seu laranjal. O dilema é que ele não tem condições de fazer nada disso. Elegeu-se com bravatas de que praticaria uma “nova política”, demonizando a negociação com partidos, prometendo inventar a roda da negociação com bancadas temáticas. Deste modo enredou-se numa teia discursiva que não pode sair a não ser desmascarando a própria hipocrisia. Ademais, a “normalidade” exige capacidades que Bolsonaro não tem. Inábil, tosco, fanfarrão, irresponsável, desarticulado e destemperado, não tem nenhum traquejo para coordenar o complexo trabalho de gerência política da máquina do governo federal e sua relação com o parlamento. Além disso – e o que é mais importante – Bolsonaro tem mentalidade autoritária. Mesmo ensaiando a via normal, é exatamente essa dimensão que o leva à opção de tentar se viabilizar pelo autoritarismo, seu habitat natural.

Bolsonaro é literalmente chucro. Mas a estupidez é simultaneamente causa importante de seu embaraço institucional e motor de seu autoritarismo. Suas idas e vindas, a permissão para os filhos causarem problemas, a desautorização pública de ministros, a criação de constrangimento nacional e internacional, a obscenidade, a tensão criada com o parlamento, tudo isso, olhando do ângulo da normalidade institucional, é expressão da mais pura estupidez. Mas, simultaneamente, essas ações podem ser vistas como táticas de sua tentativa semi consciente de criar o caos, de impor a anormalidade política crônica, terreno em que sua inabilidade se oculta na insanidade generalizada. Assim ganha tempo para se manter no poder esperando oportunidade para uma aventura autoritária. Alimentando a discórdia, até o momento Bolsonaro se tornou presidente e agente principal da desestabilização de seu governo.

Bolsonaro divide seu próprio governo, jogando uns contra os outros, aparentemente para tentar se viabilizar sem ter que negociar. Isso está assentado em sua visão maniqueísta de que, sendo ele sinônimo de “bem”, toda e qualquer negociação – em que ambos os lados cedem – é compreendida como “ceder ao mal”. Traços de mentalidade autoritária, não resta dúvida. Partindo do pressuposto de que o núcleo bolsonarista é único “bem” mesmo entre os grupos que sustentam o governo, Bolsonaro decide jogar gasolina na fogueira porque o caos o ajuda a se viabilizar sem negociar sequer com a direita, tentando neste ínterim mobilizar sua base mais fanática de seguidores por meio das insanidades do núcleo olavista do governo. Nessa guerra, usa a informação e a desinformação, constrange todos os envolvidos e, mobilizando sua tropa na internet e na sociedade, tenta pautar o debate em torno de ações que na prática inviabilizam o debate. A insensata discussão em torno da afirmação presidencial de que o “nazismo é de esquerda” é um sinal deste “estado de não-debate” que, sem deixar de ser idiotia, é praticado por Bolsonaro como técnica autoritária. Assim tenta convencer a sociedade que precisa se impor por inteiro, sem negociar, pois seria o único capaz de arrumar a bagunça que ele mesmo cria. Ele governa como um agente externo a normalidade que age para ampliar o colapso da democracia e assim tentar se impor. Com Bolsonaro o desgoverno torna-se tática.

O único dilema da técnica é que o bolsonarismo precisa se haver com a realidade econômica. Bolsonaro pode ser hábil para criar a discórdia e isso até pode lhe dar alguma sobrevida política. Todavia, sem apoio das elites políticas, não terá vida longa no governo se não garantir apoio popular. E ele só conseguirá fazer isso com melhoras econômicas. O problema é que sua técnica incendiária atrapalha o avanço da pauta econômica que, ademais, tem ampla desaprovação popular. Deste modo, não bastará excitar o conservadorismo popular com mentiras e escatologia. Como Bolsonaro será capaz de conduzir o povo a apoiá-lo mesmo diante da paralisia econômica? A queda da popularidade é o dado mais relevante que indica que as expectativas bolsonaristas de bombardear as instituições e apoiar-se nas massas tende a ser uma espécie de personalismo autoritário em missão suicida. Agrava o quadro o fato de que a tática do bolsonarismo já começa a sofrer resistência de seus potenciais aliados, como evidenciam as recentes ações do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e de ministros do STF. Considerando tudo o que houve até aqui, em busca de tudo ou nada, parece que Bolsonaro não terá nada, o que não significa que não esteja causando estragos. Ao contrário, eles já são inúmeros. Após 100 dias, o desgoverno parece ser a “tática” principal de Bolsonaro, elemento que condiciona a democracia brasileira as aventuras de um presidente que transforma a política em um jogo de azar.

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