{"id":9939,"date":"2019-01-03T12:27:22","date_gmt":"2019-01-03T14:27:22","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9939"},"modified":"2019-01-02T23:32:07","modified_gmt":"2019-01-03T01:32:07","slug":"a-china-dissidente-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/01\/03\/a-china-dissidente-parte-2\/","title":{"rendered":"A China dissidente &#8211; parte 2"},"content":{"rendered":"<p><strong>Carlos Carujo<\/strong> &#8211; Campos de reeduca\u00e7\u00e3o massiva para a minoria uigur, pris\u00e3o de ativistas laborais e de jovens inspirados pelo legado pol\u00edtico de Mao. Xi Jinping introduziu mudan\u00e7as na forma de lidar com a dissid\u00eancia. Esta \u00e9 a segunda parte do retrato sobre a China dissidente.<\/p>\n<p><b>Jovens comunistas educados<\/b><\/p>\n<p>Ideologicamente a \u201cnova esquerda\u201d tem desafiado o regime a partir dos anos 90. Os velhos maoistas e saudosistas de outros tempos tamb\u00e9m continuam cr\u00edticos das ced\u00eancias em toda a linha do regime ao capitalismo. Mas, recentemente, a imagem forte da dissid\u00eancia s\u00e3o os jovens comunistas.<\/p>\n<p>A foto de um grupo de jovens universit\u00e1rios cantoneses correu mundo no ver\u00e3o. Tratava-se de um movimento de solidariedade para com a luta por direitos laborais dos trabalhadores da f\u00e1brica de equipamentos de soldagem Jasic Techonology da cidade de Shenzhen. 50 destes jovens foram detidos a 24 de agosto. O movimento alastrou para al\u00e9m das fronteiras de Guangdong, envolvendo estudantes que pertencem a clubes universit\u00e1rios dedicados ao comunismo. Houve raides em v\u00e1rias universidades.<\/p>\n<p>Este m\u00eas de novembro assistiu-se a uma nova leva de deten\u00e7\u00f5es de cerca de uma d\u00fazia de estudantes. A repress\u00e3o chegou agora \u00e0 capital: a Universidade de Beijing diz ter eliminado uma \u201corganiza\u00e7\u00e3o ilegal\u201d que queria \u201csubverter o poder do estado\u201d infiltrando-se na Sociedade Marxista da universidade e anunciou a cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cunidade de controlo interno\u201d.<\/p>\n<p>Xi dizia trazer um reavivar do legado de Marx e de Mao. N\u00e3o esperaria ser levado t\u00e3o \u00e0 letra por uma gera\u00e7\u00e3o de jovens politizados provenientes das universidades mais importantes do pa\u00eds. Trazem de volta o fantasma daqueles dias do ano de 1989 de que n\u00e3o se pode falar. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o social ocidentais lembram sobretudo que havia uma est\u00e1tua da liberdade e tanques numa pra\u00e7a. Tamb\u00e9m a sua mem\u00f3ria \u00e9 seletiva. Esquecem que o que esses estudantes cantavam era a Internacional.<\/p>\n<p><b>Uigures reeducados<\/b><\/p>\n<p>Do Tibete para Xinjiang. O percurso da carreira de um dos quadros de topo do PCC, Chen Quanguo, \u00e9 simb\u00f3lico da mudan\u00e7a de foco na repress\u00e3o de minorias e nacionalidades. Chen fez o seu trabalho no Tibete e chegou para intensificar a campanha de \u201creeduca\u00e7\u00e3o\u201d dos uigures.<\/p>\n<p>Os uigures s\u00e3o a minoria mu\u00e7ulmana turca que corresponde a 45% da popula\u00e7\u00e3o de Xianjiang. O governo chin\u00eas acusa-os de terrorismo e separatismo e lan\u00e7ou, a partir de 2014, uma campanha intitulada \u201catacar duramente o extremismo violento\u201d.<\/p>\n<p>Ponto central na estrat\u00e9gia do PCC para quebrar os uigures s\u00e3o os campos de \u201ceduca\u00e7\u00e3o\u201d. Num painel do Conselho de Direitos Humanos avan\u00e7ou-se com a estimativa de um milh\u00e3o de detidos. Algumas ONG contam ainda mais. Seja como for, a escala \u00e9 enorme. Ali, diz-se, vai-se para aprender mandarim, para cantar can\u00e7\u00f5es patri\u00f3ticas e decorar a ideologia oficial do regime. Na linguagem burocr\u00e1tico-pol\u00edtica trata-se de \u201ceduca\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, reabilita\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e corre\u00e7\u00e3o comportamental\u201d. Mas n\u00e3o s\u00f3. Segundo a AFP, do menu fazem tamb\u00e9m parte g\u00e1s pimenta e bast\u00f5es el\u00e9tricos. A ag\u00eancia not\u00edciosa teve acesso a uma lista de compras da C\u00e2mara de Hotan de que constavam 2,768 bast\u00f5es policiais, 550 bast\u00f5es el\u00e9tricos, 1,367 pares de algemas e 2,792 latas de g\u00e1s pimenta.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos campos, as den\u00fancias de associa\u00e7\u00f5es de defesa dos direitos humanos referem deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias massivas, tortura e persegui\u00e7\u00e3o religiosa. A Human Rights Watch considera que h\u00e1 abusos numa \u201cescala sem precedentes no pa\u00eds nas \u00faltimas d\u00e9cadas\u201d.<\/p>\n<p><b>Migrantes rurais, novos pobres urbanos<\/b><\/p>\n<p>S\u00e3o 287 milh\u00f5es de pessoas. Um ter\u00e7o de toda a for\u00e7a de trabalho chinesa. Nem todos s\u00e3o rurais ou migrantes. Alguns nasceram j\u00e1 nas cidades, filhos do \u00eaxodo rural dos anos 80. Mas o r\u00edgido sistema de registo de domic\u00edlios assim os continua a considerar.<\/p>\n<p>A discrimina\u00e7\u00e3o desta condi\u00e7\u00e3o faz deles os trabalhadores que recebem os sal\u00e1rios mais baixos e t\u00eam hor\u00e1rios mais longos. T\u00eam pouca ou nenhuma seguran\u00e7a social: apenas 22% deles t\u00eam uma pens\u00e3o b\u00e1sica ou seguro de sa\u00fade, 17% t\u00eam seguro de desemprego, um ter\u00e7o n\u00e3o tem frigor\u00edfico ou m\u00e1quina de lavar, 28% n\u00e3o t\u00eam casa de banho privada. Vivem em pequenos apartamentos, com poucas condi\u00e7\u00f5es, nas zonas mais remotas das cidades. S\u00e3o vistos como cidad\u00e3os de segunda. Olhados de soslaio como intrusos. S\u00e3o a classe potencialmente perigosa que lembra que a hist\u00f3ria do desenvolvimento econ\u00f3mico chin\u00eas n\u00e3o \u00e9 um conto de fadas.<\/p>\n<p><b>Sindicalistas sem sindicato e grevistas sem medo<\/b><\/p>\n<p>Para Zeng Feiyang a intimida\u00e7\u00e3o n\u00e3o era novidade. O dirigente do Centro de Trabalhadores Panyu Dagongzu tinha sido detido in\u00fameras vezes para interrogat\u00f3rio, for\u00e7ado 13 vezes a mudar de casa porque a pol\u00edcia pressionava os senhorios, at\u00e9 agredido fisicamente no seu escrit\u00f3rio por desconhecidos que o acusavam de d\u00edvidas por pagar. Mas ainda assim o dia 3 de Dezembro de 2015 foi diferente. Esse dia marcou o in\u00edcio de uma ofensiva governamental sobre as associa\u00e7\u00f5es independentes de defesa dos direitos laborais. 21 ativistas dos direitos laborais foram presos.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed as coisas mudaram pessoal e coletivamente. A ag\u00eancia Xinhua divulgou um relat\u00f3rio no qual se descreviam alegados casos extraconjugais com oito mulheres, se denunciava uma suposta apet\u00eancia por participar nu em chats e por enviar v\u00eddeos e \u201cmensagens vulgares\u201d para diversas mulheres. Junto com mais dois outros ativistas, foi oficialmente acusado de envolvimento com \u201corganiza\u00e7\u00f5es estrangeiras hostis \u00e0 China\u201d, desvio de fundos da organiza\u00e7\u00e3o e de \u201cincitar multid\u00f5es para disturbar a ordem social\u201d. Em Setembro de 2016 foi condenado a tr\u00eas anos de pena suspensa durante quatro anos.<\/p>\n<p>Todos os acusados acabaram por se declarar culpados. Mas a sua verdadeira culpa era outra. Ajudaram a organizar uma s\u00e9rie de bem sucedidas greves na f\u00e1brica de sapatos Lide. Os trabalhadores queixavam-se de trabalho extra n\u00e3o pago, pens\u00f5es e f\u00e9rias inadequadas, falta de pagamentos \u00e0 seguran\u00e7a social. Ou seja, protestavam contra ilegalidades \u00e0 luz da legisla\u00e7\u00e3o chinesa cometidas pela administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das pris\u00f5es, tamb\u00e9m o cerco \u00e0s associa\u00e7\u00f5es de defesa dos direitos laborais se apertou. Estas s\u00e3o uma forma de contornar a lei que pro\u00edbe sindicatos independentes. Estas come\u00e7aram nos anos 90 por aconselhar trabalhadores, dar forma\u00e7\u00e3o sobre direitos etc. A press\u00e3o das greves que se multiplicavam transformou-os em quase-sindicatos, em grupos de organiza\u00e7\u00e3o e apoio de v\u00e1rios protestos. Antes, eram alvo de desconfian\u00e7a p\u00fablica, de auditorias fiscais, de interrogat\u00f3rios policiais e viol\u00eancia mafiosa de baixa intensidade. Um bullying que apesar de tudo lhes permitia funcionar. A partir da ofensiva de finais de 2015, passou-se a outra escala e intensidade. As autoridades tentaram impossibilitar a sua exist\u00eancia de v\u00e1rias formas, incluindo impossibilitar qualquer financiamento externo.<\/p>\n<p>Estas pris\u00f5es aconteceram num momento em que a conflitualidade escalava sem parar. Depois da crise financeira, a economia chinesa desacelerou e os problemas aumentaram. Se em 2011 se contaram 185 greves, em 2014 eram 1300 e os n\u00fameros continuavam a subir. A vaga atingia tamb\u00e9m as multinacionais quer diretamente quer atrav\u00e9s das suas fornecedoras e o seu epicentro era Guanzhou, a regi\u00e3o chamada ent\u00e3o a \u201cf\u00e1brica do mundo\u201d. A f\u00e1brica de sapatos Yue Yuen assistiu em abril de 2014 a uma greve de mais 40 mil trabalhadores durante mais de dez dias. Ganharam.<\/p>\n<p>Hoje, as greves e os conflitos continuam a ser muitos e conhecidos. Tanto que se pode encontrar o seu\u00a0<a href=\"https:\/\/maps.clb.org.hk\/strikes\/en\">mapa interativo online(link is external)<\/a>. que soma 8696 protestos entre janeiro de 2013 e 31 de dezembro de 2017. No momento em que escrevo, assinalam-se 842.<\/p>\n<p>O caso mais recente de endurecimento da resposta governativa \u00e9 o j\u00e1 aqui referido: a Jasic Technology. Para al\u00e9m dos jovens comunistas das redes universit\u00e1rias de apoio, a repress\u00e3o atingiu tamb\u00e9m os trabalhadores e outros apoiantes. No in\u00edcio deste m\u00eas de dezembro, foram presos dois representantes sindicais de base de Shenzhen, Zou Liping e Li Ao e um advogado, Huang Sha, que representava. Est\u00e3o neste momento detidas 32 pessoas no \u00e2mbito deste caso.<\/p>\n<p>Os trabalhadores desta f\u00e1brica come\u00e7aram por reivindica\u00e7\u00f5es laborais tradicionais: subs\u00eddios de alojamento baixos, um sistema arbitr\u00e1rio de multas, etc. O conselho que receberam dos representantes locais do sindicato oficial foi o fazer um \u201csindicato de empresa\u201d para melhor reivindicar, um direito concedido pela lei chinesa. Foram atacados por rufias e seis trabalhadores, pelo menos, foram despedidos em retalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o retrato das lutas laborais est\u00e1 a mudar da f\u00e1brica para o resto das empresas, acompanhando as mudan\u00e7as econ\u00f3micas do pa\u00eds com o crescimento nos servi\u00e7os e o aumento do sentido ocidental de trabalho prec\u00e1rio. Est\u00e1 a mudar de escala: envolvendo agora n\u00fameros menores de trabalhadores em cada caso, \u00e0 medida que a grande f\u00e1brica deixa de ser o motor quase exclusivo das lutas. Est\u00e1 mudar geograficamente: Guanzhou j\u00e1 n\u00e3o ocupa o centro incontestado das reivindica\u00e7\u00f5es, estas espalharam-se pelo pa\u00eds. Est\u00e1 a mudar ao n\u00edvel das reivindica\u00e7\u00f5es: das exig\u00eancias de melhores sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho para o simples cumprimento das leis laborais mais b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>O governo lida com tudo isto atrav\u00e9s de v\u00e1rias estrat\u00e9gias. Oficialmente, seguindo a sua veia neo-confucionista, Xi quer promover \u201cas rela\u00e7\u00f5es laborais harmoniosas\u201d e, como resposta ao trabalho das associa\u00e7\u00f5es de direitos laborais, empurrou at\u00e9 o sindicato do regime a ser mais interveniente nas disputas locais. Ao mesmo tempo aumentaram as interven\u00e7\u00f5es policiais que se dirigem sobretudo aos casos que ganham mais mediatismo e envolvem mais trabalhadores.<\/p>\n<p>Oficiosamente, as autoridades locais s\u00e3o conhecidas quer por recorrer a rufias contratados para agredir os dissidentes, quer por, noutros casos, fazer a media\u00e7\u00e3o entre trabalhadores e empresas nos tradicionais m\u00e9todos de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do outro lado da barricada, continuam a estar as associa\u00e7\u00f5es de direitos laborais. O seu papel n\u00e3o \u00e9 consensual para o conjunto dos grupos que contestam o regime: por um lado, acusa-se estas de procurar protagonismo ultrapassando os movimentos dos trabalhadores e de procurar minimizar os conflitos sociais, desconfia-se do seu recurso a financiamentos estrangeiros, critica-se a sua conce\u00e7\u00e3o legalista e recuada dos direitos laborais; por outro, h\u00e1 quem as veja como embri\u00f5es de um tipo de sindicalismo que n\u00e3o pode existir, catalisador de lutas, suporte essencial legal e social de ativismos isolado e, por isso, alega-se, seriam um dos principais alvos do regime.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 certa, os trabalhadores em luta n\u00e3o est\u00e3o entalados entre estas duas for\u00e7as. S\u00e3o um ator aut\u00f4nomo. Tem sido a press\u00e3o da luta de classes a fazer o regime correr atr\u00e1s do preju\u00edzo e as associa\u00e7\u00f5es alterar-se.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Poder-e-ContraPoder\/A-China-dissidente-parte-2\/55\/42795<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Carujo &#8211; Campos de reeduca\u00e7\u00e3o massiva para a minoria uigur, pris\u00e3o de ativistas laborais e de jovens inspirados pelo legado pol\u00edtico de Mao. Xi Jinping introduziu mudan\u00e7as na forma de lidar com a dissid\u00eancia. Esta \u00e9 a segunda parte do retrato sobre a China dissidente. 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