{"id":9936,"date":"2019-01-03T18:33:04","date_gmt":"2019-01-03T20:33:04","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9936"},"modified":"2019-01-03T18:22:50","modified_gmt":"2019-01-03T20:22:50","slug":"a-china-dissidente-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2019\/01\/03\/a-china-dissidente-parte-1\/","title":{"rendered":"A China dissidente &#8211; parte 1"},"content":{"rendered":"<p><strong>Carlos Carujo<\/strong> &#8211; Jovens comunistas, a minoria mu\u00e7ulmana, novos pobres urbanos, LGBTQ , feministas, grevistas e sindicalistas. S\u00e3o uma China diferente, t\u00e3o longe das imagens orientalistas ocidentais quanto dos discursos oficiais.<\/p>\n<p><i>Um dos mitos persistentes sobre a China apresenta um pa\u00eds em que cada movimento \u00e9 controlado e onde, por isso, n\u00e3o h\u00e1 margem para qualquer subvers\u00e3o. Outro dos mitos insiste que a civiliza\u00e7\u00e3o oriental \u00e9 fundada no respeito para com a autoridade e as hierarquias. Tendo a revolu\u00e7\u00e3o cultural sido a exce\u00e7\u00e3o que confirmou a regra, depois dela a paz social autorit\u00e1ria teria sido um regresso \u00e0 normalidade hist\u00f3rico-cultural.<\/i><\/p>\n<p><i>S\u00e3o mitos que parecem mais preocupados em diabolizar o Partido Comunista Chin\u00eas (PCC) do que em compreender o pa\u00eds ou mais fixados numa obsess\u00e3o culturalista orientalista do que nas din\u00e2micas reais. Apagam da hist\u00f3ria quer as milenares revoltas camponesas, quer as revoltas urbanas depois da abertura da China aos mercados internacionais no s\u00e9culo XIX, quer as atuais resist\u00eancias ao poder.<\/i><\/p>\n<p><i>Para compreender a pol\u00edtica chinesa hoje \u00e9 preciso olhar tanto para os inimigos que o poder designa quanto para as resist\u00eancias que o enfrentam. \u00c9 preciso olhar para um pa\u00eds feito de micro-resist\u00eancias desconhecidas fora das suas fronteiras. O esquerda.net apresenta aqui \u00e9 um retrato muito incompleto dessa outra China: a dos dissidentes, dos inimigos p\u00fablicos e das classes perigosas.<\/i><\/p>\n<p><b>LGBTQ China<\/b><\/p>\n<p><i>Um epis\u00f3dio.<\/i>&nbsp;Em maio, duas mulheres foram agredidas na sofisticada zona 798, o bairro art\u00edstico da moda de Beijing. Traziam o s\u00edmbolo do arco-\u00edris porque iam a um evento de comemora\u00e7\u00e3o do dia internacional contra a homofobia. Em resposta, a principal rede social chinesa, a&nbsp;<i>Weibo<\/i>, foi inundada com a&nbsp;<i>hashtag<\/i>&nbsp;referente a este dia.<\/p>\n<p><i>Prequela.<\/i>&nbsp;A mesma&nbsp;<i>Weibo<\/i>&nbsp;que, em abril, tinha banido quaisquer refer\u00eancias LGBTQ . Enfrentou uma revolta. A hashtag&nbsp;<i>#IamGay<\/i>foi visualizada 300 milh\u00f5es de vezes. Depois disso, at\u00e9 o&nbsp;<i>People&#8217;s Daily<\/i>&nbsp;criticou a rede social afirmando em editorial que \u201c\u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa proteger os direitos das minorias.\u201d E a&nbsp;<i>Weibo<\/i>&nbsp;recuou.<\/p>\n<p><i>Spin offs.<\/i>&nbsp;Nas televis\u00f5es como nas redes sociais o tema n\u00e3o \u00e9 pac\u00edfico. No final de 2015, a associa\u00e7\u00e3o de produtores de fic\u00e7\u00e3o televisiva baniu qualquer conte\u00fado LGBTQ considerando-o \u201cvulgar, imoral e n\u00e3o saud\u00e1vel\u201d. Em maio deste ano, quem tenha visto o festival eurovis\u00e3o da can\u00e7\u00e3o a partir da China n\u00e3o viu o mesmo que o resto do mundo. O servi\u00e7o online que o transmitiu, a&nbsp;<i>Mango TV<\/i>, editou o evento de forma a excluir a atua\u00e7\u00e3o do cantor irland\u00eas, devido ao duo de bailarinos masculinos que constitu\u00edam um par amoroso. Tamb\u00e9m as bandeiras LGBTQ que se viram durante a atua\u00e7\u00e3o dos su\u00ed\u00e7os foram desfocadas.<\/p>\n<p>Estes epis\u00f3dios indiciam a ambiguidade da atitude oficial sobre o tema. E a duplicidade da sociedade tamb\u00e9m: entre viol\u00eancia, preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o e uma resposta militante aberta da contra-cultura e do ativismo&nbsp;<i>queer<\/i>. A homossexualidade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ilegal desde 1997 e foi desclassificada como doen\u00e7a mental em 2001. Mas a discrimina\u00e7\u00e3o permanece por entre pol\u00edtica de \u201cn\u00e3o aprovar, n\u00e3o desaprovar, n\u00e3o promover\u201d. \u00c9 o \u201cn\u00e3o promover\u201d que deixa a porta aberta a proibi\u00e7\u00f5es indiscriminadas de eventos.<\/p>\n<p><i>Tongzhi e Lala<\/i>. Na linguagem corrente, tongzhi quer dizer camarada. Subterraneamente remete para a identidade gay. Lala s\u00f3 tem genealogia suposta: ter\u00e1 nascido a partir da protagonista da novela&nbsp;<i>L\u00e1grimas de crocodilo<\/i>&nbsp;de Qiu Miaojin. S\u00e3o c\u00f3digos e palavras-comunidade. Aponta-se para os anos 90 o momento em que come\u00e7ou a nascer algo como uma \u201ccomunidade LGBTQ \u201d.<\/p>\n<p>Entre vozes isoladas, comunidade online e ONG que se mascaram de defesa da sa\u00fade ou de combate ao HIV, s\u00e3o diversas redes. O combate ao HIV traz fundos governamentais e credibilidade mas traz tamb\u00e9m uma vigil\u00e2ncia direta sobre estas organiza\u00e7\u00f5es. A primeira Confer\u00eancia Chinesa Tongzhi, em Hong Kong, foi em 1997. O primeiro festival de cinema em 2001. A primeira revista l\u00e9sbica foi publicada em 2009. Os marcos multiplicam-se tanto que podiam ser outros.<\/p>\n<p><b>Mulheres n\u00e3o s\u00e3o sobras<\/b><\/p>\n<p>A igualdade era uma bandeira. A propaganda inicial da revolu\u00e7\u00e3o chinesa dizia que o PCC tinha libertado as mulheres da domina\u00e7\u00e3o milenar. E, j\u00e1 nesses tempos, o feminismo chin\u00eas n\u00e3o era uma novidade hist\u00f3rica. Basta lembrar He-Yin Zhen, autora feminista do in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Mas nem por isso as novas feministas deixaram de surpreender quando irromperam pelo espa\u00e7o p\u00fablico desafiando o moralismo patriarcal colado ao regime, colocando em causa a sua imagem de fam\u00edlia tradicional e o papel submisso da mulher que teria uma d\u00edvida para saldar \u00e0 sociedade, obrigada ao casamento e \u00e0 procria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2012, cerca de uma centena de mulheres participava regularmente em performances p\u00fablicas sobre discrimina\u00e7\u00e3o no lugar de trabalho e na universidade e abusos sexuais. Usaram, por exemplo, vestidos de noiva ensanguentados no dia dos namorados para chamar a aten\u00e7\u00e3o para a viol\u00eancia dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Em v\u00e9speras do 8 de mar\u00e7o de 2015, cinco mulheres foram detidas em Beijing sob a acusa\u00e7\u00e3o de atividades subversivas. Tinham planeado distribuir material de protesto contra o ass\u00e9dio sexual. Tornaram-se um s\u00edmbolo. Depois de 37 dias de deten\u00e7\u00e3o e de press\u00e3o social foram libertadas.<\/p>\n<p>Leta Hong Fincher real\u00e7a este momento como fundador do novo feminismo chin\u00eas no livro&nbsp;<i>Betraying Big Brother: The Feminist Awakening in China<\/i>&nbsp;(Verso, 2018). No seu livro anterior.&nbsp;<i>Leftover Women: The Resurgence of Gender Inequality in China<\/i>&nbsp;(Zed, 2014) denunciava que o governo empreendeu, a partir de 2007, uma campanha para estigmatizar mulheres solteiras, apostadas na sua carreira, na casa dos vinte e muitos anos. Foram classificadas como mulheres-\u201cresto\u201d e pressionadas socialmente a casar.<\/p>\n<p>As feministas enfrentam outras formas de censura e de press\u00e3o. Em maio do ano passado, o jornal oficial&nbsp;<i>People&#8217;s Daily&nbsp;<\/i>avisava sobre a interfer\u00eancia de \u201cfor\u00e7as ocidentais hostis\u201d que usavam o \u201cfeminismo ocidental\u201d para desestabilizar o pa\u00eds. E em mar\u00e7o deste ano, o site&nbsp;<i><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/feministvoices\/\">Vozes Feministas<\/a><\/i><i>,<\/i>&nbsp;o mais influente site feminista chin\u00eas, foi fechado por um m\u00eas. Marcadas como inimigas ocidentalizadas ou caricaturadas como \u201csobras\u201d, tem sobrado \u00e0s feministas chinesas coragem para enfrentar aquilo que denominam o pensamento patriarcal sustentado pelo PCC<i>.<\/i><\/p>\n<p>J\u00e1 a 1 de janeiro deste ano, uma nova etapa come\u00e7ou: Luo Xixi, ex-estudante de doutoramento da Universidade de Beihang em Beijing, denunciou no&nbsp;<i>Weibo<\/i>&nbsp;o ass\u00e9dio do seu orientador. 3 milh\u00f5es viram a den\u00fancia nesse mesmo dia e a investiga\u00e7\u00e3o subsequente provou a veracidade do caso. Foi o come\u00e7o do movimento&nbsp;<i>#MeToo<\/i>&nbsp;\u00e0 chinesa. A&nbsp;<i>hashtag<\/i>&nbsp;bem pode ser censurada rotineiramente, como t\u00eam acusado as feministas, mas os casos n\u00e3o param de crescer.<\/p>\n<p><b>Ambiente de micro-protestos<\/b><\/p>\n<p>A cultura do protesto est\u00e1 afinal bem enraizada na sociedade chinesa. A todo o momento, conta-se uma mir\u00edade de protestos em qualquer ponto do pa\u00eds. Nomeadamente os ambientais fruto da industrializa\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e desordenada que t\u00eam sido os mais vincados e publicitados. Mas tamb\u00e9m as disputas de terras que op\u00f5em camponeses a entidades oficiais ou pais que lutam por melhores condi\u00e7\u00f5es nas escolas.<\/p>\n<p>Lu Yuyu, que foi preso h\u00e1 dois anos, dedicava-se a contabilizar e a registar no seu blogue e no Twitter estas ocorr\u00eancias. Nos tr\u00eas anos antes de ser preso contou 70 mil protestos.<\/p>\n<p>Por exemplo, em mar\u00e7o de 2017 mais de 800 grupos de chat online foram criados por residentes da cidade de Sihui em Guangdong para organizar a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma incineradora de detritos. Para al\u00e9m dos novos meios de comunica\u00e7\u00e3o, o sistema de peti\u00e7\u00e3o \u00e9 tradicionalmente um meio para canalizar den\u00fancias de abusos sobre quadros interm\u00e9dios do governo ou empresas.<\/p>\n<p>Segundo o jornal&nbsp;<i>The Economist<\/i>,<a href=\"https:\/\/www.economist.com\/china\/2018\/10\/04\/why-protests-are-so-common-in-china?fbclid=IwAR0gJ-ABVH6V0VZUp5WkDEXHS-8wsxCKrAIu5ZlBmB1L0IJQ0xC6hkIAAvY\">&nbsp;a diferen\u00e7a<\/a>&nbsp;entre o consulado de Xi Jinping e os anteriores n\u00e3o est\u00e1 na diminui\u00e7\u00e3o de protesto. Pelo contr\u00e1rio, aumentou a sua escala e intensidade. Mas agora apertam-se mais os controlos na internet e assiste-se \u00e0 pris\u00e3o de mais trabalhadores de ONGs e de ativistas pelos direitos humanos.<\/p>\n<p>O que implicaria uma altera\u00e7\u00e3o no sistema de \u201cautoritarismo regateado\u201d de que falavam Ching Kwan Lee e Yonghong Zhang num<a href=\"http:\/\/www.sscnet.ucla.edu\/soc\/faculty\/CKLee\/AJS%202013.pdf\">&nbsp;estudo<\/a>&nbsp;de 2013 sobre a forma como o Estado absorve os protestos. Neste estudo mostrava-se que pagar diretamente ou indiretamente era uma estrat\u00e9gia comum de pacifica\u00e7\u00e3o de protestos. Os munic\u00edpios dispunham mesmo de fundos de &#8220;manuten\u00e7\u00e3o da estabilidade\u201d concebidos para este efeito.<\/p>\n<p>Mas a ced\u00eancia casual ou a repress\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o a \u00fanica resposta governamental aos protestos ambientais. Foi devido \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o de protestos que o governo tem refor\u00e7ado campanhas ecol\u00f3gicas ou decidido aplicar multas a empresas poluidoras. Xi fala na cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cciviliza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d e de uma \u201ceconomia verde\u201d. A polui\u00e7\u00e3o, a crise ambiental e os protestos fazem parte decisiva deste ecossistema pol\u00edtico. A ecologia chegou para ficar na China.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Poder-e-ContraPoder\/A-China-dissidente-parte-1\/55\/42794<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Carujo &#8211; Jovens comunistas, a minoria mu\u00e7ulmana, novos pobres urbanos, LGBTQ , feministas, grevistas e sindicalistas. S\u00e3o uma China diferente, t\u00e3o longe das imagens orientalistas ocidentais quanto dos discursos oficiais. 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