{"id":9920,"date":"2018-12-30T17:32:49","date_gmt":"2018-12-30T19:32:49","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9920"},"modified":"2018-12-30T17:36:02","modified_gmt":"2018-12-30T19:36:02","slug":"quao-pobres-sao-os-pobres-no-estado-de-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/12\/30\/quao-pobres-sao-os-pobres-no-estado-de-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Qu\u00e3o pobres s\u00e3o os pobres no Estado de S\u00e3o Paulo?"},"content":{"rendered":"<p><strong>LUIZ SUGIMOTO<\/strong> &#8211;&nbsp;Dem\u00f3grafo analisa mudan\u00e7as nas din\u00e2micas sociodemogr\u00e1fica, espacial e migrat\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o pobre de 1991 a 2015.<\/p>\n<p>Nem todos os pobres s\u00e3o iguais \u2013 a afirma\u00e7\u00e3o, que parece senso comum, ficou demonstrada em tese de doutorado analisando as mudan\u00e7as nas din\u00e2micas sociodemogr\u00e1fica, espacial e migrat\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o pobre no Estado de S\u00e3o Paulo entre 1991 e 2015. A pesquisa do dem\u00f3grafo Pier Francesco De Maria aponta que os n\u00edveis de pobreza ca\u00edram substancialmente no per\u00edodo analisado \u2013 o que coincide com o observado na literatura nacional \u2013, mas que isso n\u00e3o implicou em redu\u00e7\u00e3o da desigualdade entre os pobres, especialmente entre aqueles em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza. Mais: que programas de transfer\u00eancia de renda como o Bolsa Fam\u00edlia e o Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada (voltado ao idoso e \u00e0 pessoa com defici\u00eancia), por mais exitosos e importantes que tenham sido e continuem sendo, n\u00e3o necessariamente identificaram ou alcan\u00e7aram os mais pobres dentre os pobres.<\/p>\n<p>\u201cA renda \u00e9 um \u00edndice unidimensional importante para avaliar a pobreza, mas insuficiente. Por isso, temos avan\u00e7ado na an\u00e1lise do que chamamos de pobreza multidimensional, envolvendo outros aspectos como qualidade da moradia, acesso a servi\u00e7os, n\u00edvel de escolaridade para concorrer no mercado de trabalho, o fato de estar trabalhando e assim por diante\u201d, explica Pier De Maria, que teve a orienta\u00e7\u00e3o da professora Rosana Baeninger, do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas (IFCH). \u201cNa tese, procuramos estudar quanto os pobres s\u00e3o diferentes entre si \u2013 e tamb\u00e9m dos n\u00e3o pobres \u2013, recorrendo a uma divis\u00e3o em quatro grupos: os n\u00e3o-pobres, os vulner\u00e1veis \u00e0 pobreza, os pobres e os extremamente-pobres.\u201d<\/p>\n<p>O autor da tese afirma que a combina\u00e7\u00e3o de metodologias e indicadores, a partir do Censo Demogr\u00e1fico (1991, 2000 e 2010) e da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios anual, 1992 a 2015), permitiu observar a trajet\u00f3ria da pobreza no Estado e a sua evolu\u00e7\u00e3o socioespacial. \u201cComo \u00edndice unidimensional seguimos o crit\u00e9rio usual no Brasil, que atribui at\u00e9 meio sal\u00e1rio m\u00ednimo de renda para o pobre e de um quarto do sal\u00e1rio para o extremamente-pobre; os vulner\u00e1veis \u00e0 pobreza s\u00e3o aqueles que ganham de meio a dois sal\u00e1rios (em torno de 1.800 reais, valor este obtido considerando que a cesta b\u00e1sica \u00e9 s\u00f3 uma por\u00e7\u00e3o da renda necess\u00e1ria) e, acima disso, est\u00e3o os n\u00e3o-pobres. Como \u00edndices multidimensionais, adotamos duas metodologias distintas, uma nacional e outra internacional, cujos resultados, numa escala que vai de zero a 1 (quanto mais pr\u00f3ximo de 1, pior a condi\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo), foram estratificados conforme sugerido na literatura.\u201d<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_DEST_demografia-pobreza_pesquisador_20180628.jpg?w=640\" alt=\"Foto: Perri\" data-entity-type=\"file\" data-entity-uuid=\"ed3847a5-360a-488d-a134-65a99ca6cdf0\"\/><\/p>\n<p><em>O dem\u00f3grafo Pier Francesco De Maria, autor da pesquisa: \u201cA renda \u00e9 um \u00edndice unidimensional importante para avaliar a pobreza, mas insuficiente\u201d<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo De Maria, a an\u00e1lise dos \u00edndices uni e multimensionais confirmou uma esperada redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de pobres no Estado de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o s\u00f3 em termos absolutos como relativos. \u201cIsso \u00e9 fato. Ocorre que esta redu\u00e7\u00e3o n\u00e3o veio acompanhada de uma redu\u00e7\u00e3o das desigualdades entre os pobres, especialmente entre os de extrema pobreza. A composi\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o pobre \u00e9 cada vez mais heterog\u00eanea, n\u00e3o podemos dizer que os pobres s\u00e3o todos iguais: os que eram pobres ascendem para o grupo de n\u00e3o pobres e os extremamente-pobres para o de pobres \u2013 \u00e9 uma troca de patamar, que chamamos de mobilidade ascendente. Mas h\u00e1 um grupo entre os mais pobres que n\u00e3o consegue dar esse salto e fica para tr\u00e1s \u2013 isto \u00e9, dentro desse grupo, h\u00e1 os que se encontram nos limiares da pobreza e um contingente maior estacionado mais distante, na borda.\u201d<\/p>\n<p>Para o autor da tese, a desigualdade de renda entre os extremamente pobres tem aumentado com o passar do tempo, refletindo uma combina\u00e7\u00e3o da heterogeneiza\u00e7\u00e3o da pobreza com a desigualdade no acesso \u00e0s pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda. \u201cEssas pessoas n\u00e3o v\u00eam tendo acesso a pol\u00edticas sociais ou n\u00e3o foram identificadas pelo Estado; sabemos ainda de indiv\u00edduos sem registro de nascimento e, consequentemente, sem carteira de identidade para obter os benef\u00edcios. Outra possibilidade \u00e9 de o governo n\u00e3o ter chegado at\u00e9 elas por problemas na gest\u00e3o dessas pol\u00edticas. Programas como o Brasil sem Mis\u00e9ria [lan\u00e7ado em junho de 2011, no governo Dilma Rousseff] vieram, de certa forma, identificar e atender esse grupo que ficou esquecido.\u201d<\/p>\n<p><strong>Desigualdade espacial<\/strong><\/p>\n<p>Pier De Maria atenta que a desigualdade foi igualmente observada em n\u00edvel espacial, por meio da an\u00e1lise dos 645 munic\u00edpios do Estado, que \u00e9 formado por regi\u00f5es com perfis, din\u00e2micas e desigualdades distintas. \u201cConstatamos que, al\u00e9m do aumento da desigualdade entre pobres e extremamente pobres, e mesmo com a redu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de pobreza, a forma como esta desigualdade est\u00e1 se distribuindo pelo territ\u00f3rio \u00e9 diferente. A diminui\u00e7\u00e3o da pobreza come\u00e7ou no final da d\u00e9cada de 1980 por S\u00e3o Paulo e Campinas, espalhando-se pelas regi\u00f5es metropolitanas desses grandes centros, avan\u00e7ando em seguida para as principais cidades do interior, como Piracicaba, Ribeir\u00e3o Preto e S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, e depois para o interior dessas regi\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Com isso, conforme o autor da tese, algumas bordas do Estado ficaram para tr\u00e1s. \u201cEsta distribui\u00e7\u00e3o desigual da pobreza pode ser explicada, em parte, pela maior efic\u00e1cia das secretarias das grandes cidades no gerenciamento de pol\u00edticas sociais, mas tamb\u00e9m pela hip\u00f3tese que seguimos na tese: que uma din\u00e2mica econ\u00f4mica local permitiu que a pobreza fosse reduzida mais cedo (e que a desigualdade entre os pobres aumentasse tamb\u00e9m mais cedo). O que colocamos como bordas do Estado \u2013 Vale do Para\u00edba at\u00e9 o limite com o Rio de Janeiro e nas fronteiras com o Paran\u00e1 e com o Mato Grosso do Sul \u2013 ainda possuem n\u00edveis de pobreza mais elevados que o restante do territ\u00f3rio, devido \u00e0 demora na chegada dos benef\u00edcios e de melhorias econ\u00f4micas e sociais.\u201d<\/p>\n<p><strong>Din\u00e2mica migrat\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Analisando a din\u00e2mica migrat\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o por grupo socioecon\u00f4mico, o dem\u00f3grafo p\u00f4de constatar que os destinos dos pobres s\u00e3o bem diferentes daqueles almejados pelos mais abastados; que os pobres s\u00e3o os que mais migram e v\u00eam de origens mais distantes; e que entre os extremamente pobres \u00e9 mais intensa a migra\u00e7\u00e3o intraestadual. \u201cUma frase que me incomoda bastante \u00e9: \u2018n\u00e3o migra porque \u00e9 pobre\u2019. Na separa\u00e7\u00e3o por grupos, vemos que os pobres migram muito no Estado de S\u00e3o Paulo e, quando s\u00e3o de fora, v\u00eam de locais t\u00e3o distantes quanto os n\u00e3o-pobres \u2013 do litoral e interior do Nordeste, do Norte (Bel\u00e9m, Manaus, Porto Velho). J\u00e1 o fluxo migrat\u00f3rio dos extremamente-pobres \u00e9 muito mais reduzido, o que pode ter v\u00ednculo com a falta de oportunidades e de acesso a renda.\u201d<\/p>\n<p>O pesquisador acrescenta que, focando a mobilidade apenas dentro do Estado de S\u00e3o Paulo, os extremamente pobres v\u00eam de mais longe, percorrendo uma m\u00e9dia de 150km, contra 130km dos n\u00e3o pobres. \u201cPor pequena que pare\u00e7a a diferen\u00e7a, o que muda \u00e9 o destino: se os n\u00e3o pobres ainda buscam o ABC atr\u00e1s de uma boa oportunidade de emprego, os mais pobres evitam essa regi\u00e3o porque estariam mais pr\u00f3ximos da informalidade e com maior custo de vida, em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 regi\u00e3o de Campinas, por exemplo, que ainda \u00e9 um polo de crescimento \u2013 em seguida aparecem Limeira, Piracicaba, Ribeir\u00e3o Preto e S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, que s\u00e3o regi\u00f5es em expans\u00e3o. O destino \u00e9 escolhido a dedo, o que refor\u00e7a a no\u00e7\u00e3o de que a migra\u00e7\u00e3o atrai a migra\u00e7\u00e3o: ter algu\u00e9m conhecido em determinada localidade faz com que a inclus\u00e3o seja facilitada.\u201d<\/p>\n<p><strong>O peso de Campinas<\/strong><\/p>\n<p>Outro resultado obtido por Pier De Maria \u00e9 que o n\u00edvel de desigualdade no Estado n\u00e3o caiu o quanto poderia, por dois motivos, independentes e combinados entre si: primeiro, que a desigualdade entre os extremamente-pobres triplicou de 1992 a 2015; segundo, que os n\u00edveis de pobreza e a din\u00e2mica da desigualdade onde o IBGE define como regi\u00e3o intermedi\u00e1ria (RI) de Campinas, destoam do restante do territ\u00f3rio paulista. \u201cSe retir\u00e1ssemos essa RI, a desigualdade no Estado seria em torno de dez por cento menor, com \u00edndice de 0.54 contra o registrado de 0.6. Isso significa que nessa regi\u00e3o talvez tenhamos maior n\u00famero de pessoas de mais alta renda ou muito pr\u00f3ximas de um \u00edndice multidimensional de pobreza igual a zero; ou, ainda, uma concentra\u00e7\u00e3o de pessoas nem t\u00e3o grande, mas ricas, em meio a um contingente maior de pessoas de baixa renda e n\u00edveis altos de pobreza.\u201d<\/p>\n<p>Por fim, ao dividir os munic\u00edpios paulistas utilizando o \u00edndice de Gini (que mede a desigualdade) e os \u00edndices de pobreza multidimensional, o pesquisador chegou a uma regionaliza\u00e7\u00e3o com cinco grupos: \u00e1reas de menor pobreza e desigualdade, \u00e1reas de transi\u00e7\u00e3o da pobreza, \u00e1reas de transi\u00e7\u00e3o da desigualdade, \u00e1reas de maior pobreza e desigualdade, e \u00e1reas de contradi\u00e7\u00e3o. estas \u00e1reas, al\u00e9m de terem diferen\u00e7as nos \u00edndices de pobreza e desigualdade, guardam distin\u00e7\u00f5es em termos de participa\u00e7\u00e3o industrial, vulnerabilidade social, tamanhos de munic\u00edpios e indicadores demogr\u00e1ficos. \u201cPercebemos que a heterogeneidade entre munic\u00edpios numa mesma \u00e1rea era menor no Censo de 1991, tornou-se mais heterog\u00eaneo em 2000 e sinalizava para uma homogeneidade em 2010, o que s\u00f3 poderemos confirmar no Censo de 2020.\u201d<\/p>\n<p>Pier De Maria justifica que a din\u00e2mica de homogeneiza\u00e7\u00e3o ent\u00e3o esperada em 2010 esbarrou nos dados da PNAD de 2015 e de outras pesquisas do IBGE de 2016 em diante, mostrando um aumento nos n\u00edveis de pobreza e uma mudan\u00e7a nos n\u00edveis de desigualdade no Brasil, bem como no Estado de S\u00e3o Paulo. \u201c\u00c9 prov\u00e1vel que a din\u00e2mica imaginada para 2020 se reverta, por conta do que aconteceu nos anos mais recentes. Apenas para citar um exemplo, uma discuss\u00e3o interessante colocada pela banca durante a defesa da tese \u00e9 que problemas que julg\u00e1vamos superados no Brasil, como a fome e a mortalidade infantil, est\u00e3o voltando. Essas quest\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o preocupavam tanto o pesquisador social brasileiro, que talvez tenha que retom\u00e1-las.\u201d<\/p>\n<p>http:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/ju\/noticias\/2018\/06\/29\/quao-pobres-sao-os-pobres-no-estado-de-sao-paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LUIZ SUGIMOTO &#8211;&nbsp;Dem\u00f3grafo analisa mudan\u00e7as nas din\u00e2micas sociodemogr\u00e1fica, espacial e migrat\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o pobre de 1991 a 2015. 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