{"id":9834,"date":"2018-12-17T12:26:30","date_gmt":"2018-12-17T14:26:30","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9834"},"modified":"2018-12-16T15:35:24","modified_gmt":"2018-12-16T17:35:24","slug":"voce-compra-remedio-ou-comida-as-escolhas-das-familias-que-vivem-com-um-salario-minimo-em-sp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/12\/17\/voce-compra-remedio-ou-comida-as-escolhas-das-familias-que-vivem-com-um-salario-minimo-em-sp\/","title":{"rendered":"&#8216;Voc\u00ea compra rem\u00e9dio ou comida&#8217;: as escolhas das fam\u00edlias que vivem com um sal\u00e1rio m\u00ednimo em SP"},"content":{"rendered":"<p><strong>Felipe Souza<\/strong> &#8211;\u00a0H\u00e1 certos meses em que Carlos e Odilene deixam de comprar sabonete. Moradores de uma ocupa\u00e7\u00e3o, eles trocam o conforto da higiene por um peda\u00e7o de carne a mais no prato. Reginaldo e Rafaela n\u00e3o t\u00eam previs\u00e3o para trocar o telhado quebrado do barraco em que vivem, na favela de Parais\u00f3polis. Melhor aguentar as goteiras a deixar de alimentar seus tr\u00eas filhos. Renata enfrenta uma maratona di\u00e1ria: percorre quil\u00f4metros em busca de feiras e sacol\u00f5es que vendam alimentos mais baratos para a produ\u00e7\u00e3o de marmitex. \u00c9 na diferen\u00e7a de centavos na batata ou no tomate que ela encontra o lucro para sustentar sozinha a fam\u00edlia, composta por mais sete crian\u00e7as, em um corti\u00e7o na regi\u00e3o da cracol\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o as escolhas di\u00e1rias feitas por fam\u00edlias que vivem com um sal\u00e1rio m\u00ednimo, R$ 937, na cidade de S\u00e3o Paulo. Chefes de fam\u00edlia contaram \u00e0 BBC Brasil como se desdobram para esticar por 30 dias os rendimentos &#8211; e evitar ter que morar na rua.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"400\" height=\"500\" frameborder=\"0\" src=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-38257945\/embed\"><\/iframe><\/p>\n<p>Uma pesquisa divulgada em julho deste ano pelo Departamento Intersindical de Estat\u00edsticas e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese) apontou que o sal\u00e1rio m\u00ednimo para sustentar uma fam\u00edlia de quatro pessoas deveria ser de R$ 3.810,36. O montante \u00e9 quatro vezes maior do que o valor atual do m\u00ednimo brasileiro.<\/p>\n<p>O levantamento considera os custos das necessidades b\u00e1sicas de uma fam\u00edlia, como moradia, alimenta\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e lazer. Para o Dieese, R$ 937 seria o valor m\u00ednimo para viver com dignidade em novembro de 1999. Logo, as tr\u00eas fam\u00edlias ouvidas pela reportagem sofrem com uma defasagem de quase 20 anos no or\u00e7amento.<\/p>\n<p>Em uma condi\u00e7\u00e3o financeira como essa, elas admitem que, por diversas vezes, n\u00e3o tiveram comida suficiente para todos na casa.<\/p>\n<p><strong>Moradia<\/strong><\/p>\n<p>Na favela de Parais\u00f3polis, na zona sul, o barro engole o par de t\u00eanis do auxiliar de limpeza Reginaldo dos Santos Santana, de 28 anos, em seu trajeto at\u00e9 o ponto de \u00f4nibus. Um forte cheiro de esgoto preenche os becos da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Em um barraco de dois andares feito com portas velhas, madeirites e restos de t\u00e1buas moram Reginaldo, a mulher, Rafaela, e os tr\u00eas filhos do casal, de 8, 5 e 2 anos. O im\u00f3vel \u00e9 alugado por R$ 250, valor que abocanha mais de um quarto do sal\u00e1rio de Reginaldo. Em dia de chuva na segunda maior favela de S\u00e3o Paulo, eles n\u00e3o dormem. O risco \u00e9 o barraco desabar.<\/p>\n<p>&#8220;Quando chove um pouco forte, fica parecendo um chuveiro. Molha logo a cama. Mas n\u00e3o tem jeito. \u00c9 morar aqui ou na rua&#8221;, diz Reginaldo.<\/p>\n<p>A falta de estrutura da casa n\u00e3o se limita aos problemas no telhado e nas paredes. Um grito agudo de Raianny, a filha de 5 anos do casal, anuncia que o banho come\u00e7ou no c\u00f4modo abaixo. O banheiro do barraco n\u00e3o tem chuveiro. Uma torneira acoplada na ponta de um cano \u00e0 meia altura faz as vezes de uma ducha.<\/p>\n<p>A \u00e1gua gelada faz tremer o corpo magro da menina. &#8220;\u00c9 s\u00f3 no primeiro minuto, logo ela se acostuma&#8221;, diz Rafaela, enquanto ensaboa a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Em uma ocupa\u00e7\u00e3o a poucos quil\u00f4metros dali, o pedreiro Carlos Augusto Silva, de 43 anos, conta que ajudou a erguer 12 pr\u00e9dios de 23 andares, h\u00e1 tr\u00eas anos, em Interlagos, na zona sul. Depois de prontas, ele jamais entrou nas torres de alto padr\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6F64\/production\/_97261582_1c50a85c-f071-4af6-90e6-1e6ab1ed39e9.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Reginaldo, sua mulher e os tr\u00eas filhos em Parais\u00f3polis\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/p>\n<p><em>O sal\u00e1rio que Reginaldo dos Santos Santana recebe como auxiliar de limpeza \u00e9 a \u00fanica renda de sua fam\u00edlia<\/em><\/p>\n<p>&#8220;A gente entra com a m\u00e3o de obra, mas n\u00e3o vale a pena para a gente. \u00c9 como diz a m\u00fasica: &#8216;Est\u00e1 vendo aquele pr\u00e9dio? Eu ajudei a fazer, mas hoje n\u00e3o posso passar nem perto'&#8221;, diz Carlos.<\/p>\n<p>Cansado de viver no limite do or\u00e7amento, ele decidiu erguer um barraco com teto de lona, colocar um colch\u00e3o dentro e morar.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em um terreno na zona sul de S\u00e3o Paulo abriga 300 fam\u00edlias. O objetivo de quem vive ali \u00e9 aliviar o custo do aluguel e mostrar ao poder p\u00fablico que h\u00e1 espa\u00e7os valiosos e ociosos na cidade. Em sua vis\u00e3o, ali seria um local ideal para a constru\u00e7\u00e3o de moradias populares.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia, no entanto, n\u00e3o pode ficar reunida sob o teto de lona. O filho mais velho de Carlos e Odilene sofre de epilepsia e atraso mental, condi\u00e7\u00e3o que for\u00e7ou a mulher a largar sua ocupa\u00e7\u00e3o como empregada dom\u00e9stica para se dedicar aos cuidados dele.<\/p>\n<p>Por causa da doen\u00e7a, ele precisa de um ambiente mais adequado para viver, raz\u00e3o pela qual a fam\u00edlia paga R$ 400 pelo aluguel de uma casa de dois c\u00f4modos na regi\u00e3o, onde vivem a m\u00e3e e os dois filhos. J\u00e1 Carlos passa a maior parte das noites no barraco da ocupa\u00e7\u00e3o, algumas na companhia da mulher.<\/p>\n<p><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10050\/production\/_97261656_8c6f6d45-3d26-4fc0-8df8-3243acafbfa2.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Carols, sua esposa Odilene e um de seus filhos\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">FELIX LIMA\/BBC BRASIL<\/span><\/span><\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Carlos e Odilene torcem para que o filho de 18 anos tenha um futuro diferente do deles e tenha sucesso profissional<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>O problema de sa\u00fade do filho garante uma pens\u00e3o mensal no valor de um sal\u00e1rio m\u00ednimo &#8211; a \u00fanica renda segura com que a fam\u00edlia pode contar.<\/p>\n<p>Como complemento, o pedreiro faz bicos em troca de R$ 100 por dia. Mas, em tempos de crise, ele chega a passar semanas em branco.<\/p>\n<p>A cerca de 22 quil\u00f4metros dali, no centro de S\u00e3o Paulo, a m\u00e3o direita de Renata Moura Soares, de 34 anos, segura a m\u00e3o do filho menor enquanto a esquerda mistura os temperos na panela para fazer uma macarronada. Sozinha, ela sustenta seus sete filhos &#8211; o mais velho de 20 anos, o mais novo de 1 &#8211; vendendo marmitex na regi\u00e3o da cracol\u00e2ndia.<\/p>\n<p><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12760\/production\/_97261657_cc80a3ee-b95a-47d0-93f3-dc5ab9b7292e.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Renata e cinco de seus sete filhos\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">FELIX LIMA\/BBC BRASIL<\/span><\/span><\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Renata com cinco de seus sete filhos, que cria vendendo marmitex na cracol\u00e2ndia<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;(Meus clientes) s\u00e3o os usu\u00e1rios e quem trabalha l\u00e1 dentro. Eu trabalho com vagabundo, com todo tipo de gente. Eu n\u00e3o escolho cliente. Eu n\u00e3o quero saber quem \u00e9. N\u00e3o quero saber o que eles est\u00e3o fazendo l\u00e1 dentro. Eu quero saber que eu tenho que vender a minha comida e receber&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Hoje, a fam\u00edlia vive em um corti\u00e7o na regi\u00e3o central da capital. A casa antiga, com fia\u00e7\u00e3o aparente, foi dividida em v\u00e1rios c\u00f4modos, dois deles ocupados pelos Soares. O banheiro, no entanto, \u00e9 compartilhado com mais tr\u00eas fam\u00edlias. Renata n\u00e3o reclama das condi\u00e7\u00f5es do im\u00f3vel: \u00e9 melhor do que dormir com as crian\u00e7as na rua, como j\u00e1 aconteceu.<\/p>\n<p>Ela conhece a dona do im\u00f3vel e consegue alguma flexibilidade na cobran\u00e7a do aluguel &#8211; que normalmente custaria R$ 400 mensais. O pre\u00e7o \u00e9 acertado a depender do desempenho de venda de suas quentinhas &#8211; em um dia bom, ela chega a vender at\u00e9 50 marmitex por R$ 15 cada.<\/p>\n<p>M\u00e3e solteira, ela sempre teme n\u00e3o dar conta de chegar ao fim do m\u00eas abrigada.<\/p>\n<p>&#8220;Quem \u00e9 m\u00e3e n\u00e3o merece pagar aluguel a vida inteira&#8221;, diz.<\/p>\n<p><strong>Alimenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Quem vive com o or\u00e7amento contado tem uma preocupa\u00e7\u00e3o urgente: garantir comida no prato por 30 dias. Para isso, as fam\u00edlias desenvolvem estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p>Reginaldo faz uma maratona semanal pelos supermercados da regi\u00e3o de Parais\u00f3polis, aproveitando as diferentes promo\u00e7\u00f5es de cada estabelecimento. Se a tarefa \u00e9 bem sucedida, ele consegue manter os potes de arroz e feij\u00e3o abastecidos. Se n\u00e3o, vai faltar.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B230\/production\/_97261654_f61132ac-ae53-4533-9750-ed270f19058b.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Favela de Parais\u00f3polis e bairro nobre do Morumbi ao fundo\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><br \/>\n<em><br \/>\nParais\u00f3polis, segunda maior favela de S\u00e3o Paulo, \u00e9 vizinha de \u00e1rea nobre<\/em><\/p>\n<p>&#8220;A\u00ed, eu pe\u00e7o (dinheiro) emprestado para uma vizinha. Se acaba de novo, eu pego com outra pessoa no m\u00eas seguinte para pagar a anterior e assim vai&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Mas a fome teima em aparecer.<\/p>\n<p>Rafaela, a mulher de Reginaldo, vai \u00e0 feira todos os s\u00e1bados para &#8220;fazer a xepa&#8221;, como \u00e9 conhecida a pr\u00e1tica de recolher e reaproveitar os alimentos descartados pelos feirantes.<\/p>\n<p>Ela espera as barracas serem desmontadas para selecionar, em meio a restos de caixotes e pilhas de frutas, verduras e legumes parcialmente estragados, o que servir\u00e1 no almo\u00e7o de sua fam\u00edlia. &#8220;D\u00e1 vergonha, \u00e9 muito ruim. Mas tem que fazer&#8221;, diz a dona de casa.<\/p>\n<p>O casal conta que fica abalado em datas comemorativas, como o Dia da Crian\u00e7a e Natal, quando seus filhos pedem presentes. Mas a no\u00e7\u00e3o de prioridade \u00e9 vital na gest\u00e3o financeira da fam\u00edlia. &#8220;Em dia de festa, a gente compra ovo, salsicha e d\u00e1 um pedacinho para cada um. \u00c0s vezes, eles comem at\u00e9 puro. N\u00e3o ligam.&#8221;<\/p>\n<p>Se o feij\u00e3o est\u00e1 escasso, Rafaela aumenta a quantidade de p\u00e3o que a fam\u00edlia come.<\/p>\n<p>Odilene, na ocupa\u00e7\u00e3o, enfrenta racionamento semelhante. &#8220;A gente s\u00f3 compra o essencial: arroz e feij\u00e3o. Mistura s\u00f3 de vez em quando&#8221;, conta, referindo-se a carnes, ovos ou legumes.<\/p>\n<p>A economista e supervisora de pre\u00e7os do Dieese Patr\u00edcia Lino Costa diz que a dificuldade que as fam\u00edlias sentem no est\u00f4mago se confirma nos n\u00fameros: S\u00e3o Paulo tem a segunda cesta b\u00e1sica mais cara do Brasil entre as capitais, perdendo apenas para Porto Alegre.<\/p>\n<p>&#8220;Com metade de um sal\u00e1rio m\u00ednimo, hoje essas fam\u00edlias compram uma cesta b\u00e1sica. Com a metade restante, tem que dar conta de todas as outras despesas&#8221;, diz Costa.<\/p>\n<p>O pedreiro Carlos define sua vida em uma ocupa\u00e7\u00e3o na zona sul como um jogo de escolhas.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D940\/production\/_97261655_049f6eae-a43d-4515-b885-ac5df82918aa.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Carlos e sua mulher, Odilene\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/p>\n<p><em>Pedreiro diz que criar dois filhos com um sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 um jogo de escolhas: &#8220;Voc\u00ea deixa de cortar o cabelo para comer&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea compra rem\u00e9dio ou comida. \u00c0s vezes, voc\u00ea deixa de cortar o cabelo para comer, deixa de comprar um sabonete para comer. Voc\u00ea deixa de tirar barba. Voc\u00ea sempre precisa cortar uma coisa para fazer a outra&#8221;, conta ele.<\/p>\n<p>A precariedade da ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 compensada pela certeza de que n\u00e3o passar\u00e3o fome. Gra\u00e7as \u00e0s doa\u00e7\u00f5es recebidas, eles garantem tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias. &#8220;Aqui n\u00e3o acontece de ficar sem comida, mas em casa acontece. E n\u00e3o \u00e9 raro&#8221;, diz Carlos.<\/p>\n<p>Renata faz um esfor\u00e7o ainda maior para enxugar gastos com alimentos &#8211; j\u00e1 que a produ\u00e7\u00e3o de marmitas depende disso. O bairro de Campos El\u00edseos, onde ela vive com os sete filhos, tem um alto custo de vida.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea tem que pesquisar, ir mais longe mesmo. J\u00e1 chegou a faltar leite e a\u00e7\u00facar em casa. Semana passada, eu passei aperto porque n\u00e3o tinha dinheiro para comprar leite e fralda para o meu filho. Hoje, fui com R$ 200 fazer compras perto de casa e n\u00e3o consegui trazer quase nada&#8221;, contou.<\/p>\n<p>Descontando o dinheiro que usa para reabastecer seu estoque de mercadorias e embalagens para produzir marmitas, Renata conta que sobra menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>&#8220;Com esse dinheiro, ningu\u00e9m consegue ter nada. A renda que voc\u00ea tem \u00e9 o que voc\u00ea vai comendo. N\u00e3o consigo comprar roupa, material escolar, rem\u00e9dios e ainda cortaram o Bolsa Fam\u00edlia que eu recebia. Essa semana, meu beb\u00ea estava sem um sapatinho para usar e eu tive que tirar do dinheiro das mercadorias para comprar&#8221;, diz.<\/p>\n<p><strong>Futuro<\/strong><\/p>\n<p>Os pais de fam\u00edlia que vivem com um sal\u00e1rio m\u00ednimo costumam ter alguns elementos em comum: a baixa escolaridade, a inf\u00e2ncia marcada por priva\u00e7\u00f5es e pela necessidade de trabalhar. Um enredo que tentam, com diferentes n\u00edveis de sucesso, evitar repetir com seus filhos.<\/p>\n<p>Desde que se mudou de Ilh\u00e9us, na Bahia, para S\u00e3o Paulo, h\u00e1 dois anos e meio, a fam\u00edlia de Parais\u00f3polis nunca teve uma renda mensal superior a um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Rafaela, que estudou at\u00e9 a 5\u00aa s\u00e9rie e j\u00e1 trabalhou como auxiliar de limpeza, diz que sonha que o marido consiga um emprego bom e que o casal compre uma casa.<\/p>\n<p>Ela ainda espera que os filhos estudem e obtenham sucesso profissional. Aos 8 anos, no entanto, o mais velho ainda n\u00e3o come\u00e7ou a 1\u00aa s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Reginaldo gosta de sonhar no trajeto de cerca de uma hora e meia de \u00f4nibus at\u00e9 o trabalho. \u00c9 no tempo no transporte coletivo que ele se imagina em outra vida: &#8220;\u00c9 um pouco dif\u00edcil de realizar. Pelo que eu ganho n\u00e3o tem como&#8230; Mas meu sonho \u00e9 ter uma casa pr\u00f3pria e um carrinho na garagem para eu dar para a minha fam\u00edlia&#8221;, conta.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8B20\/production\/_97261653_b62ce015-f9f5-47c2-a4f4-5b88b873df28.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Raianny, de 5 anos, brinca na frente de sua casa em Parais\u00f3polis\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/p>\n<p><em>Fam\u00edlia vive na \u00e1rea mais perc\u00e1ria da favela de Parais\u00f3polis, a segunda maior favela de S\u00e3o Paulo<\/em><\/p>\n<p>Para ele, o ideal seria ganhar ao menos dois sal\u00e1rios m\u00ednimos &#8220;para me levantar um pouco&#8221;. Mas ao ser questionado sobre suas expectativas disso acontecer, Reginaldo fica em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia chegou a receber Bolsa Fam\u00edlia, mas n\u00e3o conseguiu renovar o benef\u00edcio porque a certid\u00e3o de nascimento do filho acabou danificada e os pais n\u00e3o conseguiram fazer o cadastro.<\/p>\n<p>O casal que vive na ocupa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m parou os estudos no ensino fundamental, mas tem a esperan\u00e7a de que seu filho de 18 anos trace uma hist\u00f3ria diferente. &#8220;Ele ganhou uma bolsa de estudos muito boa e est\u00e1 tendo uma forma\u00e7\u00e3o mais digna&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Os olhos de Carlos se enchem de l\u00e1grimas ao lembrar de um pedido feito pelo ca\u00e7ula. &#8220;Nunca pude dar um videogame para o meu filho. At\u00e9 hoje ele fala disso. Meu filho, seu pai ainda vai conseguir lhe dar o melhor videogame do mundo. Isso fica na minha cabe\u00e7a, at\u00e9 choro&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>Para a economista do Dieese Patr\u00edcia Costa, a pol\u00edtica atual perpetua a pobreza porque as fam\u00edlias n\u00e3o conseguem ter gastos al\u00e9m de alimenta\u00e7\u00e3o e moradia.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14E70\/production\/_97261658_8e2ee306-b8be-4675-a6da-550f51978554.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1\" alt=\"Filhos de Renata\" width=\"640\" height=\"360\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/p>\n<p><em>Filhos de Renata brincam no corredor de corti\u00e7o onde moram no centro de SP<\/em><\/p>\n<p>&#8220;Essa realidade impede a mudan\u00e7a de classe porque as crian\u00e7as precisam ir trabalhar. Da forma que estamos hoje, a tend\u00eancia \u00e9 piorar a situa\u00e7\u00e3o dessas fam\u00edlias. O que deve haver \u00e9 uma pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, investimento em sa\u00fade e, principalmente, em educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e profissionalizante&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A comerciante que vive na cracol\u00e2ndia conta que se incomoda por seus filhos crescerem em um ambiente de degrada\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia. Embora acorde \u00e0s 6h para dar conta de preparar e vender almo\u00e7o e jantar nas ruas da cracol\u00e2ndia, ela n\u00e3o conseguiu evitar que os filhos mais velhos tivessem que deixar a escola para ajud\u00e1-la no trabalho. A hist\u00f3ria repete sua pr\u00f3pria juventude:<\/p>\n<p>&#8220;Ver que meu filho n\u00e3o pode dar continuidade na escola, da mesma forma que eu, \u00e9 triste. Eu estudei at\u00e9 a terceira s\u00e9rie e hoje convivo com essa falta&#8221;, afirma, antes de completar: &#8220;Futuramente, a gente n\u00e3o sabe o que pode acontecer. Medo qualquer m\u00e3e tem. D\u00e1 medo de amanh\u00e3 ou depois ele querer partir para o lado errado porque a preocupa\u00e7\u00e3o dele ao ver a minha dificuldade para conseguir alguma coisa \u00e9 grande&#8221;.<\/p>\n<p>https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-38257945?SThisFB&#038;fbclid=IwAR0pZvDJ2kfIteJj02L8ImNRJfGfWhmRwgsrRzik7l_ThLBfoO2N8Z_Oz6U<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Felipe Souza &#8211;\u00a0H\u00e1 certos meses em que Carlos e Odilene deixam de comprar sabonete. Moradores de uma ocupa\u00e7\u00e3o, eles trocam o conforto da higiene por um peda\u00e7o de carne a mais no prato. Reginaldo e Rafaela n\u00e3o t\u00eam previs\u00e3o para trocar o telhado quebrado do barraco em que vivem, na favela de Parais\u00f3polis. 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