{"id":9811,"date":"2018-12-15T12:32:20","date_gmt":"2018-12-15T14:32:20","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9811"},"modified":"2018-12-14T16:36:27","modified_gmt":"2018-12-14T18:36:27","slug":"dowbor-ha-saida-no-labirinto-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/12\/15\/dowbor-ha-saida-no-labirinto-capitalista\/","title":{"rendered":"Dowbor: h\u00e1 sa\u00edda no labirinto capitalista?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ladislau Dowbor<\/strong> &#8211; Em sua fase delirante, sistema comete todos os desvarios \u2013 e os trata como alta sabedoria. Teremos intelig\u00eancia para escapar da cilada?<\/p>\n<blockquote><p>The most intellectual creature ever to walk the earth,<br \/>\nis destroying its only home.\u201d \u2013<\/p>\n<p><strong>Jane Goodall<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>A burrice no poder tende n\u00e3o s\u00f3 a se perpetuar, como nela se afundar. O ac\u00famulo de bobagens ou de trag\u00e9dias, a partir de um certo ponto, exigiria tamanha confiss\u00e3o de incompet\u00eancia, que os donos de poder continuam at\u00e9 a ruptura total. Reconhecer a burrice torna-se demasiado penoso. Barbara Tuchman nos d\u00e1 uma an\u00e1lise preciosa dos mecanismos, no que ela chama de\u00a0<em>Marcha da Insensatez<\/em>: \u201cUma vez que uma pol\u00edtica foi adotada e implementada, toda atividade subsequente se transforma num esfor\u00e7o para justific\u00e1-la.\u201d Isso levou, por exemplo, cinco presidentes note-americanos sucessivos a se afundarem na guerra do Vietn\u00e3, apesar da convic\u00e7\u00e3o \u00edntima, hoje conhecida, de que era uma causa perdida. A burrice pol\u00edtica obedece a uma impressionante for\u00e7a de in\u00e9rcia. (263)<\/p>\n<p>Qualquer semelhan\u00e7a com o golpismo no Brasil insistir numa pol\u00edtica que empurra o pa\u00eds para tr\u00e1s, mesmo depois de quatro anos de desastre, n\u00e3o \u00e9 evidentemente uma coincid\u00eancia, \u00e9 a regra. No t\u00fanel da burrice, os que a perpetram sempre imaginam que logo adiante surgir\u00e1 a proverbial luzinha. Se a pol\u00edtica sacrifica em vez de ajudar, dir\u00e3o que o sacrif\u00edcio n\u00e3o foi suficiente, \u00e9 s\u00f3 aprofundar um pouco mais. Com gigantesco esfor\u00e7o de m\u00eddia, de\u00a0<em>fake-news\u00a0<\/em>e de dinheiro, elegeu-se um presidente cujo rumo \u00e9 simplesmente acelerar a\u00a0<em>Marcha.\u00a0<\/em>Com Deus e a Fam\u00edlia rumo ao absurdo.<\/p>\n<h4><strong>A burrice da \u201causteridade\u201d<\/strong><\/h4>\n<p>\u201c\u201dA \u201causteridade\u201d, para quem n\u00e3o tenha notado, n\u00e3o funciona. Como diz Stiglitz, nunca funcionou. Por uma raz\u00e3o simples: o capitalismo, para se expandir, precisa de produtores, mas tamb\u00e9m de consumidores. No centro do racioc\u00ednio, est\u00e1 a ilus\u00e3o de que n\u00e3o temos recursos suficientes para incluir os pobres. As pol\u00edticas sociais e um sal\u00e1rio m\u00ednimo decente n\u00e3o caberiam na economia, no or\u00e7amento, ou na Constitui\u00e7\u00e3o, segundo os pol\u00edticos. Fa\u00e7am um c\u00e1lculo simples: o Brasil produz 6,3 trilh\u00f5es de reais de bens e servi\u00e7os, o montante do nosso PIB. Isso dividido por 208 milh\u00f5es de habitantes nos d\u00e1 um\u00a0<em>per capita\u00a0<\/em>de 30 mil reais ao ano, ou seja, 10 mil reais por m\u00eas por fam\u00edlia de 4 pessoas. Isso est\u00e1 longe das ambi\u00e7\u00f5es de consumo da nossa classe m\u00e9dia alta, mas assegura, para o comum dos mortais, o suficiente para uma vida digna e confort\u00e1vel. Nosso problema n\u00e3o \u00e9 falta de recursos, e sim a burrice na sua distribui\u00e7\u00e3o. Na fase do lulismo, a economia cresceu, sendo que a renda dos mais pobres e das regi\u00f5es mais pobres cresceu mais do que a renda dos mais ricos: todos ganharam, os pobres de maneira mais acelerada, reduzindo a desigualdade. A ascens\u00e3o dos pobres gerou nos ricos a rea\u00e7\u00e3o esperada: a mesma que tiveram com Get\u00falio e com Jango, agora repetida com Dilma e com Lula. Reconhecer que funciona o que sempre denunciaram seria penoso demais. A burrice \u00e9 muito teimosa. Portugal tem uma experi\u00eancia simp\u00e1tica: mandou a \u201causteridade\u201d \u00e0s favas, e est\u00e1 indo de vento em popa. Com uma lei absurda de teto de gastos, n\u00f3s institucionalizamos o aprofundamento da desigualdade. J\u00e1 se notou que a austeridade recomendada \u00e9 a dos pobres que t\u00eam pouco, e n\u00e3o a dos ricos que t\u00eam muito e ainda esbanjam?<\/p>\n<h4><strong>A burrice do golpe<\/strong><\/h4>\n<p>O Banco Mundial qualificou os anos 2003 a 2013 de\u00a0<em>The Golden Decade\u00b8<\/em>\u00a0a d\u00e9cada dourada da economia brasileira. \u00c9 preciso ser muito ideologicamente cego para ignorar o imenso avan\u00e7o que representaram a queda do desemprego de 12% em 2002 para 4,8% em 2013, a abertura de 18 milh\u00f5es de empregos formais, a retirada de 38 milh\u00f5es de pessoas da pobreza, a redu\u00e7\u00e3o do desmatamento da Amaz\u00f4nia de 28 para 4 mil quil\u00f4metros quadrados, o acesso \u00e0 luz el\u00e9trica para 15 milh\u00f5es de pessoas e assim por diante. A opacidade mental dificulta naturalmente a aceita\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros por quem quer se convencer do contr\u00e1rio. Ent\u00e3o se gera uma forma sofisticada de bobagem chamada hoje de \u201cnarrativa\u201d: fazer pol\u00edtica para o povo \u00e9 populismo, o populismo quebrou as contas do Estado e o caminho certo \u00e9 o da boa dona de casa que s\u00f3 gasta o que tem. Portanto, a dona de casa Dilma tem de ir para casa. Mas os n\u00fameros s\u00e3o simples: o que gerou o d\u00e9ficit n\u00e3o foram as pol\u00edticas econ\u00f4micas e sociais do governo, e sim os juros escorchantes sobre a d\u00edvida p\u00fablica e a d\u00edvida privada, a chamada financeiriza\u00e7\u00e3o. J\u00e1 pararam para pensar o que significa o Brasil ter, em 2018, 64 milh\u00f5es de adultos endividados at\u00e9 o ponto de n\u00e3o poderem mais pagar suas d\u00edvidas? S\u00e3o adultos, acrescentem as fam\u00edlias, estamos falando da massa da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando a Dilma tenta, entre 2012 e 2013, reduzir as taxas de juros, come\u00e7a a guerra pol\u00edtica, com manifesta\u00e7\u00f5es, boicote e den\u00fancias. A partir de meados de 2013 n\u00e3o h\u00e1 mais governo. Dilma ainda ganha a elei\u00e7\u00e3o, mas como foi anunciado pelos advers\u00e1rios, n\u00e3o governaria. A burrice atinge o seu \u00e1pice quando se cortam as pol\u00edticas sociais com a lei do teto de gastos, mas se mant\u00eam as taxas de juros. Os bancos agradeceram, a classe rentista tamb\u00e9m. Jogaram a economia na recess\u00e3o.Em termos pol\u00edticos, tiraram Dilma sem crime, prenderam Lula sem comprova\u00e7\u00e3o de culpa, elegeram um presidente absurdo por meio da pris\u00e3o de quem ia ganhar a elei\u00e7\u00e3o, e quem prendeu Lula ganhou o posto de ministro. Sim, de 2014 para c\u00e1, s\u00e3o muitos anos em que est\u00e3o \u201cconsertando\u201d a economia, que continua parada. O presidente eleito vai reduzir ainda mais os rendimentos da massa da popula\u00e7\u00e3o. S\u00f3 para lembrar, o Bolsa Fam\u00edlia s\u00e3o 30 bilh\u00f5es de reais ao ano, que geram demanda e dinamizam a economia. S\u00f3 os juros sobre a d\u00edvida p\u00fablica, na faixa de 320 bilh\u00f5es de reais, representam dez vezes mais, alimentando rentistas. E como as finan\u00e7as deformadas quebraram a economia, o d\u00e9ficit aumentou. \u00c9 um c\u00edrculo vicioso. E quanto mais travam a economia, mas explicam que o sacrif\u00edcio ainda \u00e9 insuficiente. No entanto, persiste a narrativa simpl\u00f3ria:\u00a0<em>Dilma quebrou a economia.<\/em>\u00a0Para a maioria das pessoas, em particular quando n\u00e3o entendem os processos, pol\u00edtica se resume a eleger o culpado. O sistema financeiro travou a economia, mas vendeu ao povo uma culpada, ali\u00e1s mulher e teimosa, v\u00edtima ideal. O poder dos bancos funciona hoje apenas para os banqueiros e para os rentistas.<\/p>\n<h4><strong>A burrice do rentismo<\/strong><\/h4>\n<p>O lucro sobre investimento \u00e9 leg\u00edtimo: gera empregos, produtos, e paga impostos. O lucro sobre aplica\u00e7\u00f5es financeiras constitui dividendos, assegura grandes retornos para quem n\u00e3o produz nada. Os banqueiros chamam os diversos pap\u00e9is que rendem dividendos de \u201cprodutos\u201d, o que constitui um disfarce simp\u00e1tico. Dinheiro ganho com aplica\u00e7\u00f5es financeiras n\u00e3o coloca um par de sapatos no mercado de bens realmente existentes. Diferenciar investimento produtivo e aplica\u00e7\u00e3o financeira \u00e9 b\u00e1sico.<\/p>\n<p>O manual brit\u00e2nico sobre o funcionamento da moeda explica o efeito bola de neve,\u00a0<em>financial snow-ball effect<\/em>: pap\u00e9is financeiros renderam nas \u00faltimas d\u00e9cadas entre 7% e 9% ao ano. S\u00f3 para lembrar, a produ\u00e7\u00e3o efetiva de bens e servi\u00e7os aumenta no mundo num ritmo incomparavelmente menor, da ordem de 2% a 2,5%. Os afortunados, logicamente, ir\u00e3o optar pelas aplica\u00e7\u00f5es financeiras. Por exemplo, um bilion\u00e1rio que aplica o seu dinheiro a modestos 5% ao ano ganha 137 mil d\u00f3lares ao dia, sem precisar produzir nada. A cada dia a maior parte deste dinheiro \u00e9 reaplicada, gerando um enriquecimento improdutivo que gradualmente multiplica bilion\u00e1rios e trava a economia. \u00c9 o capitalismo dando o tiro no pr\u00f3prio p\u00e9, ao perder a sua principal justificativa, a produtividade. De crise em crise, no cassino financeiro mundial, vimos o 1% dos mais ricos do planeta se apropriar de mais riqueza do que os 99% seguintes. No curto e m\u00e9dio prazo, funciona muito para o 1%. Como institucionaliza\u00e7\u00e3o da remunera\u00e7\u00e3o dos improdutivos muito superior \u00e0 dos que produzem, n\u00e3o funciona para o conjunto. \u00c9 sistemicamente disfuncional.<\/p>\n<p>A economia de mercado supunha trocas entre produtores e consumidores, com gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda. Hoje os \u201cmercados\u201d, grupo limitado de especuladores, apresentam um surto de otimismo a cada redu\u00e7\u00e3o dos direitos da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 a l\u00f3gica da insensatez. N\u00e3o \u00e9 preciso ir muito longe para aprender algo de positivo: a China controla o seu sistema financeiro para que seja utilizado produtivamente, os alem\u00e3es usam a rede de caixas de poupan\u00e7a locais (<em>sparrkassen)<\/em>\u00a0assegurando que o dinheiro seja investido no que a comunidade necessita. Sabemos o que funciona: \u00e9 quando o dinheiro \u00e9 investido produtivamente.<\/p>\n<p>,Um exemplo pr\u00e1tico ajuda: h\u00e1 alguns anos a Cor\u00e9ia do Sul desbloqueou recursos p\u00fablicos pesados para financiar sistemas de transporte p\u00fablico n\u00e3o poluente. O investimento gerou evidentemente um conjunto de atividades de pesquisa e de produ\u00e7\u00e3o, e portanto emprego. Como utilizar transporte coletivo \u00e9 muito mais barato do que cada pessoa pegar o seu carro, foram geradas economias que mais que compensam o investimento. Como investiram em transporte menos poluente, melhoraram as emiss\u00f5es tanto pela tecnologia desenvolvida como pela redu\u00e7\u00e3o do uso de autom\u00f3veis. Menos polui\u00e7\u00e3o nas cidades significa menos doen\u00e7as de diversos tipos, e economias na \u00e1rea da sa\u00fade. A redu\u00e7\u00e3o do tempo perdido nos engarrafamentos permite menor desgaste da popula\u00e7\u00e3o, mais tempo com lazer, melhor produtividade no trabalho. O exemplo tende a ilustrar apenas o \u00f3bvio: os recursos t\u00eam de ser investidos em projetos e programas que geram efeitos multiplicadores em termos de dinamiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, de prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente e de melhoria do bem-estar das fam\u00edlias. Tanta intelig\u00eancia que se gasta para encontrar a aplica\u00e7\u00e3o financeira que mais rende, poderia ser utilizada para elaborar os projetos mais \u00fateis. E enriquecer a sociedade.<\/p>\n<h4><strong>O fluxo financeiro integrado<\/strong><\/h4>\n<p>Como isso funciona no Brasil? As contas n\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de explicar. A economia funciona quando se coloca o dinheiro onde vai ter efeitos multiplicadores. Se eu compro uma m\u00e1quina, aumento a minha produtividade e consequentemente os meus lucros em n\u00edvel superior \u00e0 taxa de juros que me cobram, posso pegar outro empr\u00e9stimo e ir aumentando a produ\u00e7\u00e3o, gerando emprego e renda. Mas se o custo do cr\u00e9dito, a taxa de juros cobrada, \u00e9 superior aos rendimentos que a m\u00e1quina me permite obter, eu me verei enforcado em d\u00edvidas sobre d\u00edvidas, terminando por trabalhar para pagar o banco. Como escreve Zygmunt Bauman, os banqueiros detestam o bom pagador. Essa deforma\u00e7\u00e3o fundamental, dos principais agentes econ\u00f4micos no Brasil \u2013 as fam\u00edlias, as empresas e o Estado \u2013 se verem enforcados com o sistema financeiro, \u00e9 que est\u00e1 na raiz da nossa recess\u00e3o econ\u00f4mica e do caos pol\u00edtico que vivemos. E ainda nos convencem que a solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 em colocar mais banqueiros na dire\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Fa\u00e7a as contas. No Brasil as fam\u00edlias e as empresas pagam anualmente, s\u00f3 em juros, portanto sem reduzir a d\u00edvida, 1 trilh\u00e3o de reais. Como o nosso PIB \u00e9 de 6,3 trilh\u00f5es, estamos aqui falando em 16% do PIB. Este montante surrealista se deve simplesmente \u00e0s taxas de juros praticadas, que constituem agiotagem. Em fevereiro de 2018, por exemplo, os juros banc\u00e1rios para pessoa f\u00edsica estavam na faixa de 137% ao ano, quando na Fran\u00e7a s\u00e3o inferiores a 5%, tamb\u00e9m, evidentemente, ao ano. Assim o sistema financeiro drenou a capacidade de compra das fam\u00edlias e a capacidade de investimento das empresas.<\/p>\n<p>O dinheiro dos nossos dep\u00f3sitos e o fluxo de juros que os bancos extorquem das fam\u00edlias e das empresas s\u00e3o em grande parte aplicados em t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica. O governo pagou aos bancos e aos ricos que t\u00eam aplica\u00e7\u00f5es deste tipo 341 bilh\u00f5es de reais em 2017, cerca de 6% do PIB. Muitos pa\u00edses t\u00eam d\u00edvidas p\u00fablicas maiores que as nossas, proporcionalmente ao PIB, mas nenhum paga juros t\u00e3o elevados. Para o governo pagar esses 341 bilh\u00f5es (apenas juros, sem reduzir a d\u00edvida) aos aplicadores financeiros, ele precisa cobrar os impostos correspondentes. Assim, os nossos impostos, em vez de financiarem pol\u00edticas sociais e infraestruturas, v\u00e3o parar nos bolsos dos especuladores financeiros, de gente que n\u00e3o produz nada, pelo contr\u00e1rio, desviam os recursos dos seus usos produtivos.<\/p>\n<p>A conta n\u00e3o \u00e9 complicada. Somando os 16% que tiram das fam\u00edlias e das empresas, e os 6% que tiram dos nossos impostos, vamos a 22% do PIB. Mas isso \u00e9 agravado pelo sistema tribut\u00e1rio. Enquanto na Europa se corrige em boa parte a deforma\u00e7\u00e3o taxando o capital financeiro, as grandes fortunas, as heran\u00e7as, e as rendas mais elevadas, no Brasil os ricos pagam proporcionalmente menos que os pobres, e desde 1995 os lucros e dividendos distribu\u00eddos s\u00e3o isentos de impostos. E tem mais. A evas\u00e3o fiscal \u00e9 calculada no Brasil em 570 bilh\u00f5es de reais por ano, o que representa 9% do PIB. Quem evade, naturalmente, \u00e9 o rico, o banco, a corpora\u00e7\u00e3o: o assalariado tem o seu imposto descontado na folha. Boa parte da evas\u00e3o \u00e9 assessorada por bancos, que t\u00eam para isso departamentos que qualificam de \u201cotimiza\u00e7\u00e3o fiscal\u201d. Os nomes utilizados nas finan\u00e7as s\u00e3o muito bons, como justamente chamar aplica\u00e7\u00e3o financeira de investimento.<\/p>\n<p>Tem mais, naturalmente. Boa parte da evas\u00e3o se d\u00e1 por meio de para\u00edsos fiscais, com grandes empresas de gest\u00e3o discreta de fortunas que se situam em pa\u00edses onde n\u00e3o h\u00e1 controle, por exemplo no Panam\u00e1, ou nas Ilhas Cayman, ou ainda no Estado de Delaware nos Estados Unidos, sem falar evidentemente da Su\u00ed\u00e7a que, como escreveu Jean Ziegler, \u201clava mais branco\u201d. N\u00e3o se trata de roupa, evidentemente. O fato \u00e9 que o estoque de recursos financeiros improdutivos nos para\u00edsos fiscais \u00e9 estimado em 20 trilh\u00f5es de d\u00f3lares pelo Economist, equivalente a quase um ter\u00e7o do PIB mundial. O Brasil participa com 520 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (dados de 2012), o que representa cerca de 2 trilh\u00f5es de reais, equivalente a cerca de um ter\u00e7o do nosso PIB. N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o investem, como sequer pagam impostos.<\/p>\n<p>Vimos aqui os imensos drenos que sangram a nossa economia, que vaza por todo lado. E h\u00e1 evidentemente uma s\u00e9rie de drenos menores, como o sistema de pens\u00e3o complementar (ativos da ordem de 1 trilh\u00e3o que poderiam ser investidos e fomentar a economia em vez de alimentarem o sistema financeiro), bem como as seguradoras, com ativos tamb\u00e9m da ordem de 1 trilh\u00e3o, e tamb\u00e9m \u2018aplicados\u2019 e n\u00e3o investidos, al\u00e9m do rentismo mais disfar\u00e7ado dos planos de sa\u00fade, das telef\u00f4nicas e outros drenos.<\/p>\n<p>A nossa Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: \u201cO sistema financeiro nacional [ser\u00e1] estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do Pa\u00eds e a servir aos interesses da coletividade.\u201d Hoje, o SFN (Sistema Financeiro Nacional) serve essencialmente para alimentar improdutivos, sejam eles banqueiros, grupos nacionais ou internacionais, e em particular a classe m\u00e9dia alta que com tanto entusiasmo ocupa a avenida Paulista. A realidade \u00e9 que os bancos criaram um sistema em que os nossos impostos s\u00e3o desviados em grande parte para os seus cofres e para os rentistas que participam da festa, essencialmente os mais afortunados. Os banqueiros manejam o Estado, drenam os seus recursos, e explicam que a culpa \u00e9 do Estado, dos impostos elevados, e dos \u201cgastos\u201d com os mais pobres.<\/p>\n<p>O absurdo de tudo isso? \u00c9 que seria incomparavelmente mais produtivo para todos, inclusive para os bancos, fomentarem a economia em vez de dren\u00e1-la. A China tem esse ritmo de desenvolvimento porque canaliza os recursos financeiros \u201cde forma a promover o desenvolvimento\u201d. No nosso caso, trata-se de vis\u00f5es de curto prazo, mesquinhas, satisfazendo quem olha a sua conta banc\u00e1ria ou seu dinheiro no exterior engordar, e esquece que gerar o caos e travar o desenvolvimento n\u00e3o resolve o futuro de ningu\u00e9m.<\/p>\n<h4><strong>O absurdo da desigualdade<\/strong><\/h4>\n<p>Manter a desigualdade \u00e9 particularmente absurdo, mas est\u00e1 no centro das propostas do poder. Afinal, os ricos que nos regem defendem os seus pr\u00f3prios interesses, e \u00e9 rar\u00edssimo ter algu\u00e9m no poder que n\u00e3o seja rico, branco, homem, e centrado em aumentar as suas pr\u00f3prias vantagens. A quest\u00e3o, evidentemente, \u00e9 que a partir de um certo n\u00edvel de desigualdade e de reparti\u00e7\u00e3o do acesso aos bens e servi\u00e7os produzidos pela sociedade divorciada dos aportes, e portanto do merecimento, o sistema se torna disfuncional, inclusive para os donos do poder. Jogaram a economia na recess\u00e3o, no desemprego, e no caos pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Mas funciona pelo menos para os ricos? Criar as suas fam\u00edlias em absurdos condom\u00ednios cercados e eletrificados, ou em mans\u00f5es em que precisam conviver com equipes de seguran\u00e7a, dotando-se de ve\u00edculos blindados, escondendo as suas fortunas em para\u00edsos fiscais, administrando esquemas de evas\u00e3o fiscal, buscando relaxamento em viagens aos pa\u00edses desenvolvidos \u2013 enfim a civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 tudo isso tem pouco a ver com uma sociedade onde se respira livremente. In\u00fameros estudos comparados internacionais sobre a percep\u00e7\u00e3o de qualidade de vida apontam para uma radical melhoria quando um pobre tem acesso a uma renda mais decente, mas quase nenhuma melhoria quando um milion\u00e1rio avan\u00e7a para mais milh\u00f5es. Este sistema nem para eles funciona. Se \u00e9 para aumentar a felicidade geral da na\u00e7\u00e3o, a tal da Felicidade Interna Bruta (FIB), n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que uma pol\u00edtica de inclus\u00e3o funciona melhor para todos. Quanto mais na base chega o dinheiro na pir\u00e2mide social, maior \u00e9 o multiplicador de felicidade, e tamb\u00e9m do dinamismo econ\u00f4mico. A redu\u00e7\u00e3o da desigualdade \u00e9 fundamental em termos \u00e9ticos, pol\u00edticos e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Em termos de \u00e9tica, fica dif\u00edcil encontrar palavras suficientemente fortes. Em nenhuma sociedade civilizada pode uma pessoa ficar sem atendimento m\u00e9dico ou acesso a um medicamento, uma crian\u00e7a ou um adulto ficarem sem poder comer, fam\u00edlias viverem desabrigadas, ou ainda passarem anos em campos de refugiados. Morrem de fome ou de falta de acesso \u00e0 \u00e1gua segura cerca de 6 milh\u00f5es de crian\u00e7as por ano, 850 milh\u00f5es pessoas passam fome no mundo, quando produzimos, s\u00f3 de gr\u00e3os, mais de um quilo por pessoa por dia, quando desperdi\u00e7amos um ter\u00e7o dos alimentos produzidos por mal manejo. Todos esses rica\u00e7os irrespons\u00e1veis que esbanjam os seus recursos com consumo espalhafatoso ou especula\u00e7\u00e3o financeira, em vez de ajudar na implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que funcionam para o conjunto da sociedade, todas essas corpora\u00e7\u00f5es que geram trag\u00e9dias sociais e ambientais, navegam em valores de primatas, na \u00e9tica de que o sucesso consiste em arrancar o peda\u00e7o maior, que se dane o sofrimento, que se dane o planeta. Aqui temos intelig\u00eancia impressionante para gerar novos meios, mas uma burrice impressionante em termos de definir os fins. Vamos construir mais muros, abrir mais condom\u00ednios, mais casulos de riqueza, sistemas de repress\u00e3o mais violentos?<\/p>\n<p>Essa desigualdade \u00e9 evidentemente disfuncional tamb\u00e9m em termos sociais e pol\u00edticos. A partir de um determinado n\u00edvel de desigualdade, n\u00e3o h\u00e1 solidariedade social nem conv\u00edvio democr\u00e1tico que sobrevivam. A viol\u00eancia se torna latente em todas as esferas. Nos Estados Unidos as pessoas compram mais armas, no Brasil o ex\u00e9rcito invade favelas, nas Filipinas se fuzila \u00e0 vontade, a Europa n\u00e3o sabe mais o que fazer para se proteger da mar\u00e9 de miser\u00e1veis que fogem das col\u00f4nias que a Europa tanto explorou e desarticulou. N\u00e3o estamos aqui sugerindo perfeita igualdade, mas sim uma situa\u00e7\u00e3o menos obscena, em que cada pessoa possa valer pelo que vale como pessoa, e ter as suas oportunidades de crescer. A realidade \u00e9 muito simples: pessoas reduzidas ao desespero reagem de maneira desesperada, h\u00e1 limites no bom senso de milh\u00f5es de pessoas que encontram todas as portas fechadas. Temos os recursos, temos as tecnologias, sabemos como fazer, e custa muito pouco. \u00c9 exagero falar de ignor\u00e2ncia?<\/p>\n<p>E a desigualdade constitui em particular uma burrice no plano econ\u00f4mico. Porque funcionaram o New Deal de Roosevelt, o Welfare State dos pa\u00edses hoje desenvolvidos, o milagre da Cor\u00e9ia do Sul, o impressionante ritmo de desenvolvimento da China, a \u201cd\u00e9cada dourada\u201d do Brasil? Todos tiveram em comum a expans\u00e3o da capacidade de compra da base da popula\u00e7\u00e3o, e o acesso a pol\u00edticas sociais p\u00fablicas e universais, que permitiram ampliar a escala de produ\u00e7\u00e3o e o emprego. O que a empresa mais quer \u00e9 ter mercado. Os mecanismos econ\u00f4micos s\u00e3o conhecidos j\u00e1 h\u00e1 quase um s\u00e9culo, a partir de Kalecki e de Keynes. Investir no bem-estar das popula\u00e7\u00f5es gera demanda, o que por sua vez amplia a produ\u00e7\u00e3o, e assegura mais empregos, o que aumenta mais ainda a demanda. O consumo das fam\u00edlias e a produ\u00e7\u00e3o empresarial geram por sua vez impostos que aumentam as receitas do Estado, fechando a conta. Isso permite o financiamento das pol\u00edticas sociais: uma popula\u00e7\u00e3o com mais sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais produtiva. Aqui n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios ideologias e \u00f3dios, e sim um simples olhar para o que funciona. E o que funciona \u00e9 quando a economia \u00e9 orientada segundo as prioridades e o bem-estar das fam\u00edlias. A desigualdade, em termos econ\u00f4micos, apenas mant\u00e9m uma atividade de base estreita e de baixa produtividade.<\/p>\n<p>Manter e reproduzir a desigualdade, quando desarticula as nossas sociedades acumulando absurdos \u00e9ticos, pol\u00edticos e econ\u00f4micos, francamente, \u00e9 espantoso. Aprofund\u00e1-la \u00e9 patol\u00f3gico. Todos os exemplos positivos que temos, do Canad\u00e1 \u00e0 Coreia do Sul, passando pela Alemanha e os pa\u00edses n\u00f3rdicos, e evidentemente a China, se basearam em expandir o mercado interno e as pol\u00edticas sociais, em de vez de privilegiar minorias.<\/p>\n<h4><strong>Estado, empresa e sociedade civil organizada<\/strong><\/h4>\n<p>No centro dos desafios est\u00e1 a necessidade de termos institui\u00e7\u00f5es que permitam que se implementem pol\u00edticas que fa\u00e7am sentido. O embate sobre a pol\u00edtica tem se resumido basicamente \u00e0 guerra entre os que querem estatizar e os que querem privatizar. A realidade \u00e9 que somos hoje sociedades demasiado complexas para solu\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas simplificadoras deste tipo. Onde funcionam, as pol\u00edticas se apoiam numa articula\u00e7\u00e3o razoavelmente equilibrada de Estado, empresas e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil. As corpora\u00e7\u00f5es sem controle do interesse p\u00fablico viram m\u00e1fia, o Estado sem controle p\u00fablico vira ditadura, o interesse p\u00fablico sem organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil para enfrentar de maneira articulada os desmandos \u00e9 simplesmente desconsiderado.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 complicado. O objetivo \u00e9 o desenvolvimento sustent\u00e1vel, equilibrando os interesses econ\u00f4micos, sociais e ambientais. Hoje os 17 objetivos e 169 metas da Agenda 2030 descrevem de maneira clara os rumos: assegurar uma vida decente para todos, sem prejudicar as gera\u00e7\u00f5es futuras. Sabemos o que funciona: \u00e9 o ciclo econ\u00f4mico completo centrado no bem-estar das fam\u00edlias. O bem-estar das fam\u00edlias, objetivo \u00faltimo do desenvolvimento econ\u00f4mico e social, depende sem d\u00favida da renda auferida, que permite fazer as compras, pagar as contas. Assegurar um razo\u00e1vel fluxo de renda para a massa dos consumidores \u00e9 o que por sua vez vai gerar o mercado para o desenvolvimento das atividades produtivas. Tanto o consumo direto (<em>out-of-pocket\u00a0<\/em>dizem os americanos) como a atividade empresarial geram receitas para o Estado.<\/p>\n<p>Este, por sua vez, poder\u00e1 utilizar os recursos para o chamado sal\u00e1rio indireto, o que assegura o consumo coletivo de servi\u00e7os como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, cultura, seguran\u00e7a, o rio limpo, os parques na cidade, infraestruturas de energia e transporte e semelhantes. O acesso ao consumo coletivo \u00e9 fundamental, pois sai muito mais barato e se torna muito mais eficiente ter um servi\u00e7o p\u00fablico gratuito universal de sa\u00fade como no Canad\u00e1, do que o sistema privatizado norte-americano. Os n\u00fameros s\u00e3o clamorosos: o americano gasta 9.400 d\u00f3lares por ano com doen\u00e7as; o canadense 3.400 d\u00f3lares por ano com sa\u00fade, com resultados incomparavelmente superiores. O sistema p\u00fablico, gratuito e universal de acesso aos bens coletivos \u00e9 simplesmente mais eficiente. \u00c9 rid\u00edculo no Brasil se chamar os investimentos p\u00fablicos de \u201cgastos\u201d, quando se trata da forma mais eficiente de assegurar o acesso a bens de consumo coletivo essenciais. Curiosamente, os bancos chamam os diversos pap\u00e9is que nos empurram de \u201cprodutos\u201d.<\/p>\n<p>A burrice aqui consiste em se desenvolver uma guerra ideol\u00f3gica pro- ou anti-Estado, quando \u00e9 natural que bens de consumo individual estejam no \u00e2mbito empresarial, pol\u00edticas sociais e infraestruturas no \u00e2mbito do Estado, e o ajuste das pol\u00edticas tanto empresariais como p\u00fablicas seja assegurado de forma articulada por organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil. Nada como olhar o que funciona, e de que maneira, pelo planeta afora, e se inspirar. O melhor ant\u00eddoto \u00e0 burrice \u00e9 a aprendizagem, rende muito mais do que bater panelas.<\/p>\n<h4><strong>A sociedade desinformada<\/strong><\/h4>\n<p>Dizia Jung que pensar \u00e9 trabalhoso, ent\u00e3o as pessoas preferem ter opini\u00f5es. Voc\u00ea pode ter direito \u00e0s suas opini\u00f5es, mas n\u00e3o aos seus fatos. O espantoso \u00e9 termos uma sociedade t\u00e3o desinformada numa \u00e9poca em que estamos cercados de meios de comunica\u00e7\u00e3o, na sala, na rua, no consult\u00f3rio m\u00e9dico, no pr\u00f3prio bolso. Em boa parte, essa desinforma\u00e7\u00e3o se deve ao fato de que entre os fatos que chegam \u00e0 cabe\u00e7a e as opini\u00f5es que mobilizam o nosso f\u00edgado, preferimos claramente tranquilizar o f\u00edgado: vamos selecionar os fatos, ou deform\u00e1-los, para justificar o que queremos acreditar. Os demagogos do mundo h\u00e1 tempos aprenderam que mobilizar as pessoas pelo \u00f3dio rende muito mais do que tentar explicar-lhes a realidade. Encontrar um culpado que possamos odiar juntos gera uma catarse popular poderosa, uma imensa excita\u00e7\u00e3o de sermos uma patota solid\u00e1ria na mobiliza\u00e7\u00e3o punitiva: os judeus na Alemanha de Hitler, os palestinos no Israel de hoje, os mexicanos nos Estados Unidos (j\u00e1 que n\u00e3o temos mais os sovi\u00e9ticos nem Saddam Hussein), os imigrantes na Europa. No Brasil at\u00e9 reinventaram o comunismo para poder justificar o \u00f3dio ao Lula e aos pobres em geral.<\/p>\n<p>Kurt Andersen escreve que os Estados Unidos sofreram uma muta\u00e7\u00e3o que os tornou uma ilha da fantasia,\u00a0<em>Fantasyland: \u201c<\/em>No bilh\u00e3o de sites da internet, pessoas que acreditam em tudo e qualquer coisa podem encontrar milhares de companheiros de fantasia que compartilham as suas cren\u00e7as, com colagens de fatos e com \u201cfatos\u201d para confirm\u00e1-las. Antes da internet, os de cabe\u00e7a confusa (<em>crackpots)<\/em>\u00a0ficavam essencialmente isolados e seguramente tinham mais dificuldade para continuar convencidos das suas realidades alternativas. Hoje as suas devotamente seguidas opini\u00f5es est\u00e3o no ar e na Web, da mesma maneira como not\u00edcias efetivas. Agora todas as fantasias parecem verdadeiras.\u201d<\/p>\n<p>Demagogos pol\u00edticos com os seus discursos de \u00f3dio ou de grandiosidade, corpora\u00e7\u00f5es que nos convencem que somos mais importantes ao pagar 1200 reais por uma caneta Montblanc que escreve,\u00a0<em>Think Tanks\u00a0<\/em>que se multiplicaram como cogumelos \u2013 desde os gigantes financiados pela fam\u00edlia Koch at\u00e9 o nosso Milenium t\u00e3o brasileiro \u2013 gigantes do carv\u00e3o e do petr\u00f3leo que financiam campanhas mundiais para dizer que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, tudo isso aponta n\u00e3o s\u00f3 para o fato que somos muito fr\u00e1geis em termos de usar a nossa raz\u00e3o, mas que temos uma gigantesca ind\u00fastria planet\u00e1ria que disso se aproveita. O c\u00e9rebro passa a existir para inventar raz\u00f5es para acreditar no que n\u00e3o tem nenhuma base racional. Ter uma sociedade t\u00e3o desinformada, e ao mesmo tempo sobrecarregada de informa\u00e7\u00e3o, aponta para uma forma particularmente idiota de organizarmos o acesso ao conhecimento. E exemplos positivos n\u00e3o faltam, como a BBC para o mundo que entende ingl\u00eas, a TV5Monde para o mundo franc\u00f3fono, redes de informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como a PBS americana e assim por diante. J\u00e1 pensaram a TV utilizada para informa\u00e7\u00e3o em vez de\u00a0<em>fakereality?<\/em><\/p>\n<h4><strong>O paradoxo das tecnologias<\/strong><\/h4>\n<p>\u00c9 muito impressionante a nossa preocupa\u00e7\u00e3o com as tecnologias. Afinal, fazer mais coisas com menos esfor\u00e7o deveria nos deixar contentes, aumenta a produtividade social. Mas os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos explosivos que vivemos exigem formas inovadoras de organiza\u00e7\u00e3o social. No mundo do vale-tudo que chamamos educadamente de liberalismo, ou de neoliberalismo, as novas tecnologias permitem liquidar a vida nos mares, encher os nossos alimentos de agrot\u00f3xicos e de antibi\u00f3ticos, contaminar a \u00e1gua, o ar e o solo, transformar o clima, liquidar as florestas, destruir a biodiversidade herdada \u2013 tudo em escala sem precedentes, justamente pelo poder das tecnologias. Entre a criatividade que permite esse avan\u00e7o das tecnologias, e a nossa patol\u00f3gica dificuldade de pensar de maneira sist\u00eamica (como se articulam essas diversas transforma\u00e7\u00f5es) e no longo prazo (mudan\u00e7a clim\u00e1tica, acidifica\u00e7\u00e3o dos oceanos etc.), o resultado \u00e9 o que tem se chamado de cat\u00e1strofe em c\u00e2mara lenta.<\/p>\n<p>Como se preocupar tanto com o desemprego tecnol\u00f3gico quando a produtividade maior significa que podemos trabalhar menos, e dedicar uma parte maior das nossas vidas \u00e0 cultura, lazer, conv\u00edvio e semelhantes? Obviamente, \u00e9 s\u00f3 distribuir melhor a jornada de trabalho, deixar a economia se expandir nas \u00e1reas que nos permitam aproveitar melhor a vida, e assegurar a renda b\u00e1sica para permitir que na transi\u00e7\u00e3o ningu\u00e9m fique em situa\u00e7\u00e3o desesperadora. Mas tamb\u00e9m precisamos nos dotar de instrumentos de regula\u00e7\u00e3o que evitem a destrui\u00e7\u00e3o do planeta. Ou seja, quem maneja a tecnologias tem de assumir a responsabilidade de n\u00e3o ser apenas economicamente vi\u00e1vel, mas tamb\u00e9m socialmente justo e ambientalmente sustent\u00e1vel. O vale-tudo organizacional do s\u00e9culo XX mas com as tecnologias do s\u00e9culo XXI n\u00e3o tem como funcionar. Utilizar tanta tecnologia e conhecimento sofisticado para aprofundar a crise ambiental e o desastre social, francamente, constitui burrice sist\u00eamica.<\/p>\n<h4><strong>Competi\u00e7\u00e3o ou colabora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p>Sabemos que os processos colaborativos funcionam. No entanto privilegiamos a guerra de todos contra todos, entre grupos sociais, entre religi\u00f5es, entre pa\u00edses, entre empresas, entre vizinhos. Em grande parte, sem d\u00favida, trata-se da nossa natureza. Mas o essencial \u00e9 que constatamos, em tantos exemplos pelo mundo, que se trata tamb\u00e9m de dimens\u00f5es institucionais. N\u00e3o estava na natureza dos alem\u00e3es matar pessoas em campos de concentra\u00e7\u00e3o, nem est\u00e1 na dos guardas de fronteira americanos arrancar filhos de junto das suas m\u00e3es. E podemos olhar como sociedades muito mais centradas na colabora\u00e7\u00e3o, como o Canad\u00e1 ou os pa\u00edses n\u00f3rdicos, prosperam n\u00e3o s\u00f3 em termos de qualidade de vida como inclusive de produtividade econ\u00f4mica. As pessoas esquecem, ao constatarem a impressionante din\u00e2mica da China, do Vietn\u00e3 e de outros \u201ctigres\u201d, a que ponto est\u00e1 ancorada nas suas tradi\u00e7\u00f5es a din\u00e2mica colaborativa do cultivo de arroz, em que o dique de um \u00e9 tamb\u00e9m o dique de outro, em que a repicagem do arroz se faz de maneira coletiva.<\/p>\n<p>O que vale no curso da nossa curta vida n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os resultados, mas tamb\u00e9m os processos. Transformar a vida num inferno e depois mostrar que aumentou a produ\u00e7\u00e3o nos deve levar a pensar, afinal, o que queremos? A vida \u00e9 o pr\u00f3prio caminhar, e tornar o caminho menos espinhoso pode ser mais importante do que chegar mais r\u00e1pido. As pessoas est\u00e3o redescobrindo os bens comuns, como conhecimento, meio ambiente, infraestruturas que geram mais conforto e articula\u00e7\u00e3o entre as diversas atividades. Com a urbaniza\u00e7\u00e3o mundial, in\u00fameras cidades est\u00e3o assumindo as r\u00e9deas de um desenvolvimento mais equilibrado, organizando a colabora\u00e7\u00e3o dos diversos atores sociais e econ\u00f4micos. Com a evolu\u00e7\u00e3o para a sociedade do conhecimento, redescobrem a evid\u00eancia de que as ideias podem ser generalizadas sem custos adicionais, no quadro da sociedade de custo marginal zero t\u00e3o bem descrita por Jeremy Rifkin. Com a conectividade planet\u00e1ria abrem-se espa\u00e7os imensos de economia colaborativa.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 tempo de come\u00e7armos a nos civilizar. Um versinho de repentistas pernambucanos \u00e9 cheio de sabedoria: \u201cPara que tanta gan\u00e2ncia e correria, se ningu\u00e9m veio aqui para ficar?\u201d Francamente, os super-homens de plant\u00e3o, sejam pol\u00edticos, empresariais ou eclesi\u00e1sticos, me enchem o saco, eu quero a tranquilidade do cotidiano, a riqueza das trocas, as alegrias do conv\u00edvio. E temos toda a ci\u00eancia e riqueza necess\u00e1rias para assegurar o bem-estar de todos sem tanta ideologia do sucesso individual. Realiza\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida, mas n\u00e3o sobre as costas dos outros, e muito menos sobre os seus cad\u00e1veres, absurdo que por desgra\u00e7a continua em tantas regi\u00f5es do mundo. Quando as regras se tornam fluidas e as leis ajust\u00e1veis, impera o arb\u00edtrio dos mais fortes. At\u00e9 quando aceitaremos a estupidez de armar mais pessoas para gerar mais seguran\u00e7a? De mandar tropas para as favelas em vez de enfrentar o absurdo da sua exist\u00eancia? Ser\u00e1 demais exigir da intelig\u00eancia que entenda que \u00e9 mais produtivo agir sobre as causas do que sobre as consequ\u00eancias?<\/p>\n<h4><strong>A lei como vetor de injusti\u00e7a<\/strong><\/h4>\n<p>A lei \u00e9 fundamental. O conjunto das leis define as regras do jogo na sociedade. E a igualdade perante a lei \u00e9 essencial, permitindo previsibilidade e seguran\u00e7a. Um problema central, naturalmente, \u00e9 definir quem faz as leis. No mundo realmente existente, as leis s\u00e3o feitas por homens, n\u00e3o por acaso brancos e ricos. E s\u00e3o feitas, como se poderia esperar, no sentido de privilegiar homens, brancos e ricos. Houve um tempo em que era legal uma pessoa comprar ou vender pessoas como escravos. Lincoln, como presidente, conseguiu revogar esta lei recorrendo a uma s\u00e9rie de ilegalidades, inclusive \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o: j\u00e1 se comentou que o maior avan\u00e7o humanit\u00e1rio dos Estados Unidos foi conseguido por um homem profundamente \u00e9tico que o conseguiu recorrendo aos procedimentos mais desonestos. No Brasil, a generaliza\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito de legislar em causa pr\u00f3pria nos leva ao caos, ao se deslegitimar a pr\u00f3pria lei e o pr\u00f3prio judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>As nossas heran\u00e7as recentes s\u00e3o significativas. Podemos dizer que a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, pelo modo como foi elaborada, era leg\u00edtima. Mas mesmo dentro desse marco jur\u00eddico, foi se desenhando um Frankenstein. Sigam o processo. Em 1988, n\u00f3s aprovamos a Constitui\u00e7\u00e3o, resgatando um m\u00ednimo de governabilidade. Em 1995, o governo aprova uma lei que define as modalidades do endividamento p\u00fablico: a partir de julho de 1996, os bancos podiam aplicar o nosso dinheiro em t\u00edtulos p\u00fablicos que rendiam 25%, j\u00e1 com infla\u00e7\u00e3o baixa. O normal no mundo \u00e9 um rendimento entre 0,5% e 2% ao ano. A taxa Selic foi e continua sendo um imenso presente para os banqueiros. Apropria\u00e7\u00e3o privada legalizada de recursos p\u00fablicos. Bem, a lei \u00e9 igual para todos, os pobres, se t\u00eam dinheiro sobrando, tamb\u00e9m podem aplicar. As fortunas que o endividamento p\u00fablico representou para a nata da sociedade n\u00e3o seriam oneradas pelo imposto: no presente de natal aprovado em 26 de dezembro de 1995, os lucros e dividendos distribu\u00eddos passaram a ser isentos de imposto. Os funcion\u00e1rios do banco s\u00e3o descontados na folha, mas os milh\u00f5es que entram nos bolsos dos banqueiros s\u00e3o isentos. Isso no Brasil, mais uma particularidade nossa.<\/p>\n<p>Tem mais, em 1997, o governo aprovou uma lei autorizando as pessoas jur\u00eddicas a financiarem as campanhas eleitorais. A pol\u00edtica passou a representar os ruralistas, os bancos, a grande m\u00eddia, cada grupo de grandes corpora\u00e7\u00f5es passou a ter a sua bancada. Levou 18 anos para o STF, guardi\u00e3o da nossa Constitui\u00e7\u00e3o, se dar conta de que o artigo 1\u00ba, que reza que todo poder emana do povo, n\u00e3o das corpora\u00e7\u00f5es e pessoas jur\u00eddicas, mas de pessoas de verdade, tinha sido violado. O Congresso eleito desta maneira aceitou em 1999 a PEC que liquidava o artigo 192\u00ba da nossa Constitui\u00e7\u00e3o, transformada em Emenda Constitucional em 2003. A limita\u00e7\u00e3o de juros (era de 12% ao ano mais infla\u00e7\u00e3o) desaparece. Liquidaram a regula\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n<p>Lula estava plenamente consciente das rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a do pa\u00eds e leu, em junho 2002, a Carta aos Brasileiros, que mais poderia se chamar de carta aos banqueiros: n\u00e3o mexeria com os seus interesses. Ali\u00e1s, com a liquida\u00e7\u00e3o do artigo 192\u00ba, teria inclusive pouca base legal para faz\u00ea-lo. Apesar da sangria dos juros, foi poss\u00edvel, como vimos, realizar milagres. Mas em 2012, com mais de 50 milh\u00f5es de adultos enforcados na d\u00edvida, e o governo esterilizado pelo dreno da d\u00edvida p\u00fablica, Dilma resolve baixar os juros. N\u00e3o teve for\u00e7a pol\u00edtica correspondente ao desafio. O resto sabemos: \u00e9 o golpe, e a lei do teto de gastos que garante os juros para os banqueiros e os rentistas, mas onera a massa da popula\u00e7\u00e3o, iniciativas do aparato jur\u00eddico que t\u00eam como denominador comum o aumento dos privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria: falar em legalidade tornou-se um faz-de-conta. Em pequeno livro de 2015,\u00a0<em>Os estranhos caminhos do nosso dinheiro,\u00a0<\/em>descrevo como a grande corrup\u00e7\u00e3o gera a sua pr\u00f3pria legalidade. Uma empresa dar dinheiro a um pol\u00edtico para que se aprove uma lei que lhe favorece constitui corrup\u00e7\u00e3o. Mas entre 2007 e 2015, financiar a elei\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico que se deseja e, portanto, ter os seus votos assegurados durante quatro anos, era legal. Comprar pol\u00edticos s\u00f3 seria ilegal no varejo.<\/p>\n<p>Temos uma refer\u00eancia b\u00e1sica, a Constitui\u00e7\u00e3o. E um guardi\u00e3o do seu cumprimento que \u00e9 o Supremo Tribunal Federal. Ao se bandear com armas e bagagens para os golpistas e para os grupos mais corruptos da pol\u00edtica, ao acobertar o golpe, o judici\u00e1rio conseguiu sem d\u00favida favorecer uma guinada radical para a direita, e reduzir radicalmente os espa\u00e7os democr\u00e1ticos no pa\u00eds. Algu\u00e9m acredita hoje neste judici\u00e1rio? O que conseguiram, foi uma desmoraliza\u00e7\u00e3o profunda, e a perda de confian\u00e7a na justi\u00e7a representa um imenso recuo para o pa\u00eds. Em pleno final de 2018, depois de tanto justificar a perda de direitos da massa da popula\u00e7\u00e3o com o pretexto do desequil\u00edbrio das contas p\u00fablicas, o STF obteve do Congresso agradecido um aumento dos j\u00e1 impressionantes sal\u00e1rios. \u00c9 o absurdo do judici\u00e1rio desmoralizando a justi\u00e7a. Os custos para o pa\u00eds ser\u00e3o imensos, e muito mais do que financeiros.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Voltamos aqui ao problema b\u00e1sico, a nossa imensa dificuldade de nos governarmos com um m\u00ednimo de bom senso. As op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas seguem sendo definidas muito mais pelo f\u00edgado do que pela cabe\u00e7a, pelo \u00f3dio do que pela solidariedade e compaix\u00e3o. Em particular, a trucul\u00eancia de grupos ou classes sociais que por alguma raz\u00e3o se tornaram mais fortes, constitui uma perman\u00eancia na hist\u00f3ria, com o exerc\u00edcio sistem\u00e1tico e recorrente de formas extremas de discrimina\u00e7\u00e3o e de viol\u00eancia. Qualquer pretexto \u00e9 suficiente, seja a cor da pele, o g\u00eanero, a op\u00e7\u00e3o sexual, a religi\u00e3o, a diferen\u00e7a de renda, e frequentemente at\u00e9 a idade. Por vezes o tamanho do cabelo, o porte de barba, ou um v\u00e9u na cabe\u00e7a bastam para alimentar a besta latente dentro de n\u00f3s. E quando a bestialidade encontra a sua dimens\u00e3o coletiva, sai de baixo.<\/p>\n<p>Hoje os meios de comunica\u00e7\u00e3o permitem que o nosso consciente seja invadido pelas narrativas mais absurdas, mas sempre favor\u00e1veis aos grupos dominantes. A penetra\u00e7\u00e3o na nossa intimidade \u00e9 hoje individualizada atrav\u00e9s dos sistemas eletr\u00f4nicos, e o controle do que vemos e entendemos permite a gest\u00e3o por algoritmos de uma opini\u00e3o p\u00fablica que passa a ser uma constru\u00e7\u00e3o em escala industrial. Os sistemas financeiros complexos permitem que sejamos expropriados do controle das atividades econ\u00f4micas, gerando uma desigualdade aberrante em favor de rentistas improdutivos. Gigantes corporativos exercem um poder distribu\u00eddo pelo planeta, por parte de grupos que ningu\u00e9m elegeu, e que nenhum governo mundial limita. E estamos avan\u00e7ando rapidamente, em termos hist\u00f3ricos de maneira extremamente acelerada, para o comprometimento da vida no planeta.<\/p>\n<p>Vis\u00f5es estrat\u00e9gicas existem, e s\u00e3o razoavelmente \u00f3bvias: o resgate da dimens\u00e3o p\u00fablica do Estado, a taxa\u00e7\u00e3o dos capitais improdutivos que nos governam, a reforma do nosso sistema tribut\u00e1rio aberrante, a obriga\u00e7\u00e3o de transpar\u00eancia dos fluxos financeiros, uma renda b\u00e1sica de cidadania, a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho \u00e0 medida que avan\u00e7a a produtividade, o resgate do papel das cidades como unidades b\u00e1sicas de governan\u00e7a, a constitui\u00e7\u00e3o de um m\u00ednimo de governan\u00e7a nos caos internacional que se constata. \u00c9 vi\u00e1vel? A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ser ou n\u00e3o vi\u00e1vel, mas sim, em primeiro lugar, entender a dimens\u00e3o essencialmente pol\u00edtica dos desafios, a centralidade da quest\u00e3o do poder. Em segundo lugar, entender que \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo, pois com a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, a destrui\u00e7\u00e3o da biodiversidade, o aprofundamento do fosso entre ricos e pobres, a contamina\u00e7\u00e3o mundial da \u00e1gua e outros desafios que se avolumam, estamos apenas adiando as medidas, provavelmente at\u00e9 que uma cat\u00e1strofe planet\u00e1ria gere a for\u00e7a pol\u00edtica necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>A eros\u00e3o do pouco de democracia que o Brasil tinha se d\u00e1 como numa trag\u00e9dia burlesca. Derrubamos as pol\u00edticas que estavam dando certo, desfiguramos a Constitui\u00e7\u00e3o que nos protegia dos absurdos, elegemos um charlat\u00e3o cujo \u00fanico compromisso \u00e9 deixar a oligarquia livre para aprofundar os seus desmandos. Haver\u00e1 um Brasil profundo, um bom senso latente na cabe\u00e7a de milh\u00f5es, permitindo retomar os avan\u00e7os para uma sociedade decente? Paulo Freire declarou um dia que queria \u201cuma sociedade menos malvada\u201d. Os nossos desafios s\u00e3o imensos, e a n\u00f3s que somos professores, ou comunicadores, ou organizadores sociais, ou simples cidad\u00e3os, cabe a tarefa de explicar o \u00f3bvio: uma sociedade que funcione tem de ser uma sociedade para todos. A burrice se enfrenta, de prefer\u00eancia, com intelig\u00eancia.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"zCwG7SD6FS\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/dowbor-ha-saida-para-o-labirinto-capitiaista\/\">Dowbor: h\u00e1 sa\u00edda no labirinto capitalista?<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Dowbor: h\u00e1 sa\u00edda no labirinto capitalista?&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/dowbor-ha-saida-para-o-labirinto-capitiaista\/embed\/#?secret=0h4jiWtDkc#?secret=zCwG7SD6FS\" data-secret=\"zCwG7SD6FS\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ladislau Dowbor &#8211; Em sua fase delirante, sistema comete todos os desvarios \u2013 e os trata como alta sabedoria. 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