{"id":9618,"date":"2018-11-20T09:06:24","date_gmt":"2018-11-20T11:06:24","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9618"},"modified":"2018-11-19T11:17:14","modified_gmt":"2018-11-19T13:17:14","slug":"sentia-que-nao-fazia-parte-desse-ambiente-os-desafios-de-ser-negro-e-da-periferia-em-uma-universidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/11\/20\/sentia-que-nao-fazia-parte-desse-ambiente-os-desafios-de-ser-negro-e-da-periferia-em-uma-universidade\/","title":{"rendered":"\u201cSentia que n\u00e3o fazia parte desse ambiente\u201d: os desafios de ser negro e da periferia em uma universidade"},"content":{"rendered":"<p><strong>F.B.<\/strong> &#8211;\u00a0Jovens estudantes relatam o racismo e os obst\u00e1culos no cotidiano do campus universit\u00e1rio. Na PUC-Rio, coletivos como o Nuvem Negra e o Bastardos da PUC lutam por mudan\u00e7as institucionais.<\/p>\n<p>Os primeiros meses de aula na faculdade foram os mais dif\u00edceis para Juliana do Nascimento Costa. &#8220;Eu me sentia desconfort\u00e1vel. Chegava em casa chorando porque n\u00e3o queria estar aqui, n\u00e3o me identificava&#8221;, conta ela, que aos 21 anos estuda Cinema na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.puc-rio.br\/index.html\" target=\"_self\">Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)<\/a>, um curso &#8220;muito elitista&#8221; no qual, segundo diz, os alunos geralmente possuem uma viv\u00eancia muito diferente da sua: todos viajam para fora do pa\u00eds, falam ingl\u00eas fluentemente, t\u00eam pais que trabalham em grandes empresas e conversam sobre grandes cineastas, m\u00fasicos e escritores. No in\u00edcio ela nem sabia por que se sentia t\u00e3o incomodada. Assim como n\u00e3o compreendia por que muitas pessoas pediam informa\u00e7\u00f5es sobre como conseguir uma bolsa de estudos na universidade, j\u00e1 que no in\u00edcio pagava a mensalidade normalmente \u2014 s\u00f3 mais recentemente conquistou uma bolsa.<\/p>\n<p>Costa, que \u00e9 negra, diz que com o tempo foi percebendo como a cor de sua pele \u00e9 determinante para que se sinta &#8220;um peixe fora d&#8217;\u00e1gua&#8221; na PUC-Rio, uma das melhores e mais caras universidades do pa\u00eds. &#8220;Foi aqui que eu me entendi como uma mulher negra e comecei a entender a import\u00e2ncia de estar aqui e de persistir&#8221;, explica. Moradora do Recreio, um bairro de classe m\u00e9dia da zona oeste do Rio de Janeiro, ela \u00e9 a primeira mulher de sua fam\u00edlia a completar o ensino m\u00e9dio e a segunda pessoa a ingressar no ensino superior \u2014 a primeira foi seu pai. J\u00e1 a institui\u00e7\u00e3o em que estuda \u00e9 a mesma dos futuros advogados, ju\u00edzes, promotores e defensores p\u00fablicos que, h\u00e1 poucos anos atr\u00e1s, cantaram a seguinte m\u00fasica nos Jogos Jur\u00eddicos:<\/p>\n<p><em>Agora a UFRJ se fudeu, se fudeu<\/em><\/p>\n<p><em>O pobre deles n\u00e3o \u00e9 mais pobre que o seu.<\/em><\/p>\n<p><em>Quer ajuda pro trem? Eu inteiro<\/em><\/p>\n<p><em>Um trocado pro lanche? Eu dou<\/em><\/p>\n<p><em>Aproveita que hoje eu to bonzinho,<\/em><\/p>\n<p><em>To sentindo por voc\u00ea, Congo<\/em><\/p>\n<p><em>No fim do m\u00eas a grana vai faltar, vai faltar<\/em><\/p>\n<p><em>Vai no lix\u00e3o l\u00e1 da central catar lata!<\/em><\/p>\n<p>Can\u00e7\u00f5es do tipo eram at\u00e9 pouco tempo frequentes e consideradas como parte da divers\u00e3o nessa competi\u00e7\u00e3o esportiva, realizada entre v\u00e1rias universidades. Mais precisamente at\u00e9 junho deste ano, quando, segundo relatos, jovens da torcida da PUC-Rio imitaram macacos diante de torcedores negros do time rival e uma menina jogou uma casca de banana em dire\u00e7\u00e3o a Maicon Nascimento, um atleta negro da Universidade Cat\u00f3lica de Petr\u00f3polis (UCP). Ap\u00f3s a faculdade ter sido suspensa dos jogos deste ano, a vice-reitoria comunit\u00e1ria e o Departamento de Direito constitu\u00edram uma comiss\u00e3o disciplinar formada por tr\u00eas professores para apurar o ocorrido. N\u00e3o apontaram culpados, mas reconheceram que falta representatividade na universidade e sugeriram a contrata\u00e7\u00e3o de mais docentes negros.<\/p>\n<p>Nascimento<em>\u00a0<\/em>chegou a denunciar o ocorrido para a Pol\u00edcia Civil, que identificou a garota respons\u00e1vel. Ela e outras 12 pessoas foram ouvidas e a corpora\u00e7\u00e3o concluiu que n\u00e3o houve crime de inj\u00faria racial em seu ato, pedindo assim pelo arquivamento do inqu\u00e9rito. &#8220;Ela contou que tinha comido a fruta e estava com a casca na m\u00e3o porque pretendia assim que acabasse o jogo sair do campo e achar um lixo. Mas durante a discuss\u00e3o contra a torcida da UCP, ela e as amigas se sentiram hostilizadas e em um &#8216;ato reflexo&#8217; ela atirou o que tinha nas m\u00e3os para o alto&#8221;,\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rj\/regiao-serrana\/noticia\/2018\/09\/03\/policia-quer-arquivar-inquerito-ao-concluir-que-nao-houve-ato-racista-de-jovem-que-lancou-casca-de-banana-em-jogos-no-rj.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">argumentou o delegado Claudio Batista Teixeira no in\u00edcio deste m\u00eas ao portal\u00a0<em>G1<\/em>.<\/a>\u00a0Ele tamb\u00e9m disse que a jovem estava na torcida da PUC-Rio porque \u00e9 namorada de um estudante de l\u00e1. &#8220;Todos os depoimentos colhidos mostram que n\u00e3o houve a inten\u00e7\u00e3o da jovem que atirou a casca de banana de atingir o atleta. E h\u00e1 ainda relatos de que a casca teve a rota desviada por outro estudante&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p>A PUC-Rio vem mantendo a discri\u00e7\u00e3o desde que estourou o esc\u00e2ndalo. Al\u00e9m de ter constitu\u00eddo a comiss\u00e3o, lan\u00e7ou notas lembrando de seu pioneirismo na &#8220;implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de inclus\u00e3o educacional, racial e social, atrav\u00e9s de uma pr\u00e1tica efetiva e consolidada de apoio a vestibulares populares, concess\u00e3o de bolsas de estudo e apoio de material did\u00e1tico, al\u00e9m de outras iniciativas que propiciem a perman\u00eancia do benefici\u00e1rio na institui\u00e7\u00e3o&#8221;. Tamb\u00e9m garantiu repudiar &#8220;qualquer discrimina\u00e7\u00e3o baseada em ra\u00e7a, sexo, l\u00edngua, credo e op\u00e7\u00f5es existenciais, temas que s\u00e3o objeto de debates, discuss\u00f5es e pesquisas em in\u00fameros Departamentos&#8221;.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre antes e agora \u00e9 que o debate sobre o racismo \u2014assim como sobre LGBTfobia, machismo, entre outros temas\u2014 vem ganhando uma amplitude sem precedentes na hist\u00f3ria do pa\u00eds.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/07\/03\/politica\/1530647086_544200.html\">De tal modo que gritos de torcida, piadas ou coment\u00e1rios racistas e classistas s\u00e3o cada vez menos tolerados<\/a>. Mas os obst\u00e1culos enfrentados por estudantes negros e das periferias\u00a0\u2014incluindo tamb\u00e9m os brancos que est\u00e3o no segundo grupo\u2014 s\u00e3o in\u00fameros e v\u00e3o muito al\u00e9m de coment\u00e1rios ou piadas, segundo conta Lucas Clementino. Oriundo de Mesquita, um munic\u00edpio perif\u00e9rico vizinho ao Rio, conseguiu uma bolsa PROUNI, do Governo Federal, para cursar Arquitetura. Primeiro na Est\u00e1cio de S\u00e1 e depois, ap\u00f3s fazer transfer\u00eancia externa, na PUC-Rio. Trabalha desde os 15 anos e, ao ingressar no ensino superior, passou a conciliar o trabalho com a faculdade e os longos deslocamentos em transporte p\u00fablico. &#8220;Fazemos uma mat\u00e9ria que se chama Projeto em que temos uma demanda de produ\u00e7\u00e3o muito grande. Toda hora tem que fazer alguma coisa nova. Quando entrei, ainda morava em Mesquita e n\u00e3o tinha tempo pra produzir porque o meu tempo era gasto no transporte p\u00fablico&#8221;, conta.<\/p>\n<p>A principal quest\u00e3o sempre foi o dinheiro, apesar de estar isento da mensalidade. &#8220;O material \u00e9 absurdamente caro, as canetas s\u00e3o muito caras&#8230; No \u00faltimo per\u00edodo, eu e minha dupla de projeto tivemos que passar o cart\u00e3o e parcelar uns 500 reais em maquete e prancha. E isso \u00e9 o valor para um per\u00edodo e uma s\u00f3 mat\u00e9ria&#8221;, conta Clementino. Ele explica que alguns professores compreendem e tentam ajudar, enquanto outros j\u00e1 dizem no primeiro dia de aula que \u00e9 melhor &#8220;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/07\/politica\/1528397124_238801.html\">os alunos bolsistas desistirem se n\u00e3o se adequarem, porque a mat\u00e9ria \u00e9 de tal jeito e n\u00e3o tem como mudar<\/a>&#8220;. Ele at\u00e9 prop\u00f4s que alguns trabalhos fossem apresentados em slides ao inv\u00e9s das caras impress\u00f5es, mas diz que alguns docentes ainda relutam por causa de &#8220;preciosismos&#8221;. A solu\u00e7\u00e3o passa por fazer menos mat\u00e9rias e atrasar sua formatura. &#8220;Existe uma exclus\u00e3o por classe. Muitas pessoas que n\u00e3o conseguem pagar e n\u00e3o conseguem fazer o curso acabam desistindo, porque ele \u00e9 pensado de tal jeito para determinado tipo de gente&#8221;.<\/p>\n<p>Otavio Leonidio, professor e diretor do departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio, conta que, desde que assumiu o cargo, em mar\u00e7o deste ano, est\u00e1 aplicando mudan\u00e7as para contemplar as demandas dos alunos negros ou bolsistas. Ap\u00f3s fazer uma plen\u00e1ria com os estudantes, a primeira quest\u00e3o que apareceu foi a dos custos mencionados por Clementino. &#8220;Todos os desenhos coloridos podem agora ser projetados no projetor. E isso diminuiu em 80% os custos de plotagem [um tipo de impress\u00e3o]. S\u00f3 vamos pedir plotagem para o desenho t\u00e9cnico, mas estamos comprando uma impressora plotter de uso exclusivo dos alunos. O pre\u00e7o, super subsidiado, vai ser revertido para o centro acad\u00eamico e para a manuten\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina&#8221;, explica. &#8220;Estamos tamb\u00e9m fazendo um banco reserva de material de maquete que antes n\u00e3o era reaproveitado. E vamos tamb\u00e9m come\u00e7ar a subsidiar as viagens de estudo, que n\u00e3o ter\u00e3o os mesmos pre\u00e7os para quem pode e n\u00e3o pode pagar&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se diz pessoalmente sens\u00edvel a quest\u00e3o dos longos deslocamentos feitos em transporte p\u00fablico e que, apesar de n\u00e3o poder interferir diretamente em cada aula, tenta que todos os demais professores tamb\u00e9m sejam compreens\u00edveis. Garante, por fim, que a PUC-Rio como institui\u00e7\u00e3o est\u00e1 aberta e empenhada em fazer mudan\u00e7as, sob a batuta do vice-reitor comunit\u00e1rio Augusto Luiz Duarte Lopes Sampaio. &#8220;Temos que dar boas vindas a essas mudan\u00e7as, temos uma d\u00edvida tremenda que est\u00e1 na hora de saldarmos. E essa ideia de que vamos fazer uma concilia\u00e7\u00e3o muito apaziguada \u00e9 ainda uma expectativa do mundo branco. \u00c9 ainda a ideia de domina\u00e7\u00e3o. Claro que vai haver mal-estar, uma rea\u00e7\u00e3o forte de quem perde privil\u00e9gios&#8221;, diz ele, que tamb\u00e9m defende incorporar nas bibliografias dos cursos autores e conhecimentos negros.<\/p>\n<p><strong>Os coletivos se fortalecem<\/strong><\/p>\n<p>Em momento crucial para um ensino superior brasileiro em crise, cujo financiamento e viabilidade entrou na rota dos candidatos a presidente\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/elecciones_brasil\/a\">neste ano de elei\u00e7\u00f5es<\/a>, soma-se um desafio que vai al\u00e9m da democratiza\u00e7\u00e3o de seu acesso: como mudar mais rapidamente uma estrutura ainda considerada opressora de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas, que absorveram nos \u00faltimos anos um imenso contingente de pessoas a partir de pol\u00edticas afirmativas, como os sistemas de cotas raciais e para alunos de escolas p\u00fablicas, o programa de financiamento estudantil FIES e o sistema de bolsas de estudo PROUNI. Ap\u00f3s esse choque de mistura racial e de classe, os campus tornaram-se palco de disputas por espa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8220;As universidades n\u00e3o eram vistas como um lugar em que negros pudessem normalmente estar. Quando voc\u00ea come\u00e7a a mudar isso, muito por conta da luta do movimento negro e de democratiza\u00e7\u00e3o do acesso a educa\u00e7\u00e3o, voc\u00ea tem um aumento dessa disputa. Ela fica mais evidente&#8221;, explica Silvio Almeida, professor de filosofia do Direito da FGV e Mackenzie. Estudioso das quest\u00f5es raciais, Almeida argumenta que os coletivos negros universit\u00e1rios, mais vis\u00edveis tamb\u00e9m por conta das redes sociais, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o apenas movimentos de resist\u00eancia, mas que tamb\u00e9m demandam transforma\u00e7\u00f5es na din\u00e2mica universit\u00e1ria. &#8220;O fato de que a sociedade seja racista faz com que as institui\u00e7\u00f5es reproduzam essa din\u00e2mica, mas n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o possam se colocar numa postura contraria a isso. Sen\u00e3o, a gente n\u00e3o responsabiliza tanto as institui\u00e7\u00f5es como os indiv\u00edduos&#8221;.<\/p>\n<p>Lucas Clementino, por exemplo, cofundou em 2016 o coletivo Bastardos da PUC, uma refer\u00eancia a &#8220;Filhos da PUC&#8221;, express\u00e3o normalmente usada por aqueles que estudam na institui\u00e7\u00e3o. O grupo, que re\u00fane alunos bolsistas, negros ou n\u00e3o, come\u00e7ou como um grupo de WhatsApp em que os estudantes trocavam informa\u00e7\u00f5es sobre lugares mais baratos para comer ou tirar xerox e se tornou uma grande rede de apoio entre eles.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/bastardosdapuc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Em uma p\u00e1gina no Facebook com 14.000 curtidas<\/a>\u00a0est\u00e3o os v\u00e1rios relatos de situa\u00e7\u00f5es e dificuldades cotidianas pelas quais acabam passando. &#8220;Existe uma discuss\u00e3o entre os alunos bolsistas sobre esse espa\u00e7o da universidade, n\u00e3o s\u00f3 sobre o acesso a ele, mas tamb\u00e9m sobre perman\u00eancia. Percebemos claramente que esse espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 pensado para n\u00f3s e, apesar de existirem professores e funcion\u00e1rios sens\u00edveis as nossas discuss\u00f5es, h\u00e1 uma estrutura muito grande que se organiza para se manter e perpetuar essa exclus\u00e3o dentro do ambiente universit\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>O rapaz, assim como Juliana Costa e outros alunos e ex-alunos da gradua\u00e7\u00e3o e da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m participa de atividades do Nuvem Negra. &#8220;\u00c9 um espa\u00e7o de acolhimento e fortalecimento dos negros na universidade, constru\u00eddo por pessoas negras para pessoas negras&#8221;, explica Ana Carolina Mattoso, 28 anos e doutoranda em Direito. &#8220;\u00c9 uma quest\u00e3o de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no ambiente universit\u00e1rio, no sentido de pautar e reivindicar uma luta antirracista na universidade&#8221;, acrescenta Mattoso. Seu colega, Lucas Obalera de Deus, ex-aluno de Ci\u00eancias Sociais de 27 anos, argumenta que o racismo est\u00e1 institucionalizado &#8220;na aus\u00eancia de disciplinas e de professores negros&#8221;, assim como na &#8220;naturaliza\u00e7\u00e3o de voc\u00ea chegar na sala de aula e ser o \u00fanico aluno negro&#8221;. O resultado disso, ele diz, \u00e9 o ac\u00famulo de &#8220;uma s\u00e9rie de viol\u00eancias, de microagress\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>O coletivo faz reuni\u00f5es semanais, publica um jornal semestral, desenvolve v\u00e1rias atividades abertas e, principalmente, centra sua luta em conseguir mudan\u00e7as efetivas na estrutura da universidade. &#8220;Queremos mexer no curr\u00edculo, no plano pedag\u00f3gico, acrescentando disciplinas que tratam das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/05\/21\/cultura\/1526921273_678732.html\">que apresentem uma epistemologia negra, um conhecimento negro<\/a>. Estamos propondo aos departamentos disciplinas e emendas de disciplinas, para que haja uma transversalidade do tema racial&#8221;, explica Mattoso. N\u00e3o h\u00e1 dados sobre a propor\u00e7\u00e3o de alunos autodeclarados negros na universidade. No caso dos professores, s\u00e3o apenas 86 entre um total de 1.985, 4,3%. &#8220;\u00c9 preciso que a universidade passe a ser uma\u00a0<em>pluriversidade<\/em>. Isso impacta diretamente na forma\u00e7\u00e3o de profissionais que v\u00e3o atuar no mercado de trabalho. A aus\u00eancia de uma reflex\u00e3o de um estudante de Direito faz com que um juiz haja para\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/05\/politica\/1528201240_021277.html\">manter a popula\u00e7\u00e3o negra encarcerada, que fa\u00e7a com que\u00a0<em>Rafa\u00e9is<\/em>\u00a0Braga se proliferem<\/a>&#8220;, exemplifica Obalera de Deus.<\/p>\n<p>Mattoso fez sua gradua\u00e7\u00e3o na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um ambiente menos elitizado por ser uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Mas ainda assim hostil, em sua percep\u00e7\u00e3o. &#8220;Sempre fui confiante como estudante, mas nas rela\u00e7\u00f5es voc\u00ea percebe por que n\u00e3o faz amizade com determinados grupos, ou n\u00e3o \u00e9 inclu\u00eddo perto de determinadas pessoas. As turmas na UFRJ s\u00e3o enormes e divididas em guetos. Eu sempre ficava nos guetos dos pobres&#8221;, diz ela. \u00c9 o que conta tamb\u00e9m Aline Ara\u00fajo Sampaio Concei\u00e7\u00e3o, ex-aluna de Direito da UNIRIO at\u00e9 2012 \u2014 \u00e9poca em que ainda n\u00e3o possu\u00eda cotas raciais. &#8220;\u00c9ramos apenas quatro negros na turma, totalmente invis\u00edveis. Ali\u00e1s, uma turma que foi apelidada de senzala, o que soube por acaso&#8221;, conta ela, hoje com 34 anos e mestranda na Fran\u00e7a. Al\u00e9m disso, ela diz que coment\u00e1rios racistas sempre aparecia nas conversas. &#8220;Coisas do tipo &#8216;voc\u00ea \u00e9 negra, mas&#8230;&#8217;. Depois desse &#8216;mas&#8217; vem &#8216;\u00e9 inteligente, \u00e9 esfor\u00e7ada, n\u00e3o \u00e9 pregui\u00e7osa&#8217;. Mas no Jogos Jur\u00eddicos as coisas ficavam bem as claras&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Entre as situa\u00e7\u00f5es mais constrangedoras que vivenciou est\u00e1 o dia em que uma professora ofereceu uma vaga de est\u00e1gio na Defensoria P\u00fablica para seus alunos e colocou v\u00e1rias exig\u00eancias. &#8220;O aluno tinha que ser oriundo de escola de ponta, como o Col\u00e9gio Cruzeiro, Escola Brit\u00e2nica, S\u00e3o Bento e Santo In\u00e1cio. Segundo ela, alunos que vem desses col\u00e9gios s\u00e3o aptos a escrever em l\u00edngua portuguesa, outros n\u00e3o&#8221;, conta Concei\u00e7\u00e3o. &#8220;Ou seja, eu me formei com nota 9,3, mas n\u00e3o estaria apta para ser estagi\u00e1ria dela. Esse \u00e9 o tipo de coisa que remarca bem o lugar de cada um na sociedade da meritocracia&#8221;.<\/p>\n<p>O professor Almeida d\u00e1 outro exemplo: &#8220;Ainda hoje, em sala de aula, os professores de Direito d\u00e3o exemplos racistas para explicar casos, associando pessoas que cometem crimes com pessoas negras, como se isso fosse algo normal&#8221;. Ele tamb\u00e9m explica que professores negros, como ele, possuem pouco espa\u00e7o para discutir problemas do Brasil e do mundo. &#8220;Uma coisa que muito me incomoda \u00e9 que o fato de que ser professor negro n\u00e3o significa que voc\u00ea apenas possa falar de racismo. Isso \u00e9 um ponto central pra mim. Quando se \u00e9 um professor negro, voc\u00ea acaba pautado pela quest\u00e3o racial. E tenho dito que eu pauto a quest\u00e3o racial, mas ela n\u00e3o me pauta&#8221;. Assim, um ponto fundamental \u00e9 que as universidades formem &#8220;intelectuais negros e negras que possam pensar em grandes quest\u00f5es nacionais e internacionais, independentemente de tratar diretamente da quest\u00e3o racial ou n\u00e3o&#8221;. &#8220;O que eu entendo&#8221;, ele prossegue, &#8220;\u00e9 que n\u00e3o se pode tratar nenhuma dessas quest\u00f5es sem tratar da quest\u00e3o racial, que \u00e9 um elemento anal\u00edtico, um objeto cient\u00edfico&#8221;.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/07\/03\/politica\/1530632060_600428.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F.B. &#8211;\u00a0Jovens estudantes relatam o racismo e os obst\u00e1culos no cotidiano do campus universit\u00e1rio. Na PUC-Rio, coletivos como o Nuvem Negra e o Bastardos da PUC lutam por mudan\u00e7as institucionais. Os primeiros meses de aula na faculdade foram os mais dif\u00edceis para Juliana do Nascimento Costa. &#8220;Eu me sentia desconfort\u00e1vel. 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