{"id":9552,"date":"2018-11-07T12:02:57","date_gmt":"2018-11-07T14:02:57","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9552"},"modified":"2018-11-06T14:07:11","modified_gmt":"2018-11-06T16:07:11","slug":"militancia-e-luta-no-seculo-xx%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/11\/07\/militancia-e-luta-no-seculo-xx%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Milit\u00e2ncia e luta no s\u00e9culo XX\ufeff"},"content":{"rendered":"<header class=\"post\"><strong>Glenda Mezarobba<\/strong> &#8211; Livro mostra como e por que intelectuais negros deixaram de endossar o ideal de harmonia racial para rejeit\u00e1-lo por completo<\/p>\n<\/header>\n<aside class=\"credits\"><\/aside>\n<div class=\"post-content\">\n<div id=\"attachment_257136\" class=\"wp-caption alignright vertical\"><\/div>\n<p>Nascida na Argentina, a historiadora Paulina Alberto, 42 anos, atua nos departamentos de Hist\u00f3ria e L\u00ednguas da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, desde 2005. Entre seus objetos de pesquisa est\u00e3o as ideologias de ra\u00e7a e na\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. Nesta entrevista, concedida por e-mail no intervalo de sua participa\u00e7\u00e3o em um congresso na Universidade Harvard, para o qual estava prevista a presen\u00e7a de Marielle Franco, vereadora carioca e ativista de direitos humanos assassinada em mar\u00e7o, no Rio de Janeiro, Paulina fala do livro\u00a0<em>Termos de inclus\u00e3o: Intelectuais negros brasileiros no s\u00e9culo XX<\/em>, rec\u00e9m-lan\u00e7ado pela editora da Unicamp. Publicado originalmente em ingl\u00eas e vencedor dos pr\u00eamios Roberto Reis Book Award, concedido pela Brazilian Studies Association, em 2012, e Warren Dean Memorial Prize, em 2013, o livro \u00e9 um desdobramento da pesquisa iniciada em seu doutorado, sobre como as rela\u00e7\u00f5es entre Brasil e \u00c1frica foram repensadas depois da Aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Em seu livro, voc\u00ea busca contar a hist\u00f3ria do pensamento racial brasileiro da perspectiva de intelectuais negros. Quem s\u00e3o eles? E por que o s\u00e9culo XX?<\/strong><br \/>\nQuis focar no s\u00e9culo XX para contar a hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, concretas e pol\u00edticas com a \u00c1frica e seus significados para a defini\u00e7\u00e3o da cidadania e das identidades brasileiras poss\u00edveis depois da Aboli\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria das ideologias raciais no Brasil j\u00e1 tinha sido contada muitas vezes \u201cde cima para baixo\u201d, e eu quis cont\u00e1-la, dentro do poss\u00edvel, da perspectiva de brasileiros que se autodenominavam \u201cnegros\u201d ou que defendiam com orgulho sua heran\u00e7a africana e buscavam se organizar em torno dessas identidades no espa\u00e7o p\u00fablico. Para poder incluir uma variedade de vozes e de modalidades de debate e luta, optei por trabalhar com uma defini\u00e7\u00e3o ampla de intelectuais negros. Acabei me detendo principalmente nas organiza\u00e7\u00f5es sociais e recreativas negras, sobretudo em S\u00e3o Paulo, em jornais da imprensa negra paulista e carioca, em congressos e publica\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas de pensadores negros de meados do s\u00e9culo, em alguns candombl\u00e9s em Salvador e em grupos e publica\u00e7\u00f5es associados ao Movimento Negro Unificado, o MNU.<\/p>\n<p><strong>O que esses intelectuais pensavam, por exemplo, sobre os discursos de harmonia racial?<\/strong><br \/>\nOs intelectuais do come\u00e7o e meados do s\u00e9culo, mesmo trabalhando sob muita press\u00e3o para endossar as ideologias de harmonia racial, foram cr\u00edticos l\u00facidos e persistentes da discrimina\u00e7\u00e3o e lutavam constantemente para reivindicar inclus\u00e3o. Quando comecei a pesquisa, a hist\u00f3ria do pensamento e do ativismo negro era contada, sobretudo, a partir da cria\u00e7\u00e3o do MNU, na d\u00e9cada de 1970. Isso tinha a ver com o fato de a maioria dos intelectuais e ativistas negros, e de outros estudiosos da pol\u00edtica negra brasileira, argumentar que a ideologia da \u201cdemocracia racial\u201d tinha n\u00e3o s\u00f3 mascarado a exist\u00eancia de profundas desigualdades raciais, mas tamb\u00e9m inibido os movimentos necess\u00e1rios para combat\u00ea-la. A emerg\u00eancia do MNU foi um momento muito poderoso porque os intelectuais e ativistas a ele relacionados rejeitaram as ideologias de \u201cdemocracia racial\u201d, identificando-as como \u201cmitos\u201d perniciosos. Mas esse momento n\u00e3o deve obscurecer a hist\u00f3ria igualmente importante e din\u00e2mica do pensamento racial anterior.<\/p>\n<p><strong>Embora condenassem a discrimina\u00e7\u00e3o e reivindicassem inclus\u00e3o como cidad\u00e3os brasileiros, muitas vezes esses intelectuais tamb\u00e9m endossavam ideologias nacionais de harmonia racial. Como entender essa contradi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nConhecendo plenamente a cr\u00edtica que ativistas e acad\u00eamicos t\u00eam feito \u00e0 \u201cdemocracia racial\u201d como mito, pode parecer mesmo contradi\u00e7\u00e3o. Mas para os intelectuais negros, principalmente no come\u00e7o do s\u00e9culo, condenar a discrimina\u00e7\u00e3o e reivindicar a inclus\u00e3o n\u00e3o era necessariamente incompat\u00edvel com endossar as ideologias de fraternidade racial. Nos anos 1910 e 1920, quando come\u00e7aram a usar a linguagem da \u201cfraternidade racial\u201d, buscavam alternativas vi\u00e1veis ao racismo cient\u00edfico que decretava a exclus\u00e3o absoluta das pessoas negras. Ao tomarem um s\u00edmbolo e um conceito, o da fraternidade, com ampla repercuss\u00e3o entre as elites, e ao tentarem redefini-lo como ideal compartilhado de inclus\u00e3o, demostraram enorme agilidade pol\u00edtica. Os intelectuais negros usaram os ideais dominantes para manifestar suas demandas. \u00c9 importante ressaltar, no entanto, que a \u201cfraternidade racial\u201d deles n\u00e3o era a mesma de muitas elites brancas. A primeira era uma variante da harmonia racialmente inclusiva, orientada para os direitos, e projetada como ideal ainda a ser atingido. A segunda era, muitas vezes, variante conservadora que decretava que a harmonia racial j\u00e1 existia e as lutas eram desnecess\u00e1rias. Era isso que fazia o ideal da \u201cfraternidade racial\u201d, t\u00e3o \u00fatil, mas tamb\u00e9m t\u00e3o inst\u00e1vel para as pol\u00edticas de igualdade racial.<\/p>\n<p><strong>Como a ideia de \u201cuma na\u00e7\u00e3o orgulhosamente misturada racial e culturalmente\u201d muda ao longo do s\u00e9culo? E quando se abandona o tom esperan\u00e7oso?<\/strong><br \/>\nAs formas e os conte\u00fados das ideias de inclus\u00e3o racial n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1ticos. A trajet\u00f3ria que leva os intelectuais negros a construir ideologias de inclus\u00e3o racial no come\u00e7o do s\u00e9culo, num engajamento esperan\u00e7oso, at\u00e9 denunci\u00e1-las como mito pernicioso, revela as diferentes estrat\u00e9gias adotadas para reivindicar o pertencimento pleno \u00e0 na\u00e7\u00e3o em momentos hist\u00f3ricos diferentes. Leio essa mudan\u00e7a n\u00e3o como contradi\u00e7\u00e3o nem como despertar para um n\u00edvel mais agu\u00e7ado de consci\u00eancia racial, mas como parte de uma mesma luta de longa dura\u00e7\u00e3o, que se desenvolveu em lugares e contextos diferentes. A virada acontece principalmente nos anos 1970 e 1980, com o surgimento das organiza\u00e7\u00f5es que dariam lugar ao MNU.<\/p>\n<p><strong>Como explicar essa mudan\u00e7a?\u00a0\u00a0<\/strong><br \/>\nMuitos historiadores argumentam que a causa dessa radicaliza\u00e7\u00e3o tem a ver com fatores externos, principalmente o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. No Brasil, era comum destacar a influ\u00eancia das pesquisas da Unesco, que nos anos 1950 come\u00e7aram a questionar o pa\u00eds como \u201claborat\u00f3rio\u201d de harmonia racial, ou dos trabalhos de Florestan Fernandes e da Escola Paulista de Sociologia. Al\u00e9m desses fatores, destaco o protagonismo dos intelectuais e ativistas negros e das interpreta\u00e7\u00f5es que fizeram das mudan\u00e7as no panorama nacional e internacional, considerando influ\u00eancias externas como, por exemplo, as lutas anticolonialistas na \u00c1frica, mas tamb\u00e9m seguindo as l\u00f3gicas internas dos intelectuais e suas lutas. Foi depois do golpe militar, que tornou a ideia de democracia racial uma constru\u00e7\u00e3o absolutamente c\u00ednica, que os pensadores negros abandonaram definitivamente o tom esperan\u00e7oso em favor de ataques abertos contra a democracia racial, classificada como \u201cmito\u201d e ferramenta de domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Democracia racial, no Brasil: mito ou realidade?<\/strong><br \/>\nExiste uma resposta simples e outra mais complexa. A simples \u00e9 que a democracia racial n\u00e3o \u00e9 nem nunca foi realidade no Brasil. O passado e o presente de discrimina\u00e7\u00e3o, desigualdade e viol\u00eancia contra os negros tornam imposs\u00edvel afirmar que o pa\u00eds \u00e9 uma democracia racial. A resposta mais complexa \u00e9 que, mesmo n\u00e3o sendo realidade no Brasil, n\u00e3o me sinto confort\u00e1vel em cham\u00e1-la de \u201cmito\u201d, no sentido de \u201cmentira\u201d ou o oposto da realidade. Fa\u00e7o parte de uma gera\u00e7\u00e3o de pesquisadores que procura ir al\u00e9m da d\u00edade \u201cmito\u201d ou \u201crealidade\u201d para entender mito n\u00e3o como mentira, mas como uma linguagem de negocia\u00e7\u00e3o, uma s\u00e9rie de conceitos, valores e ideais que guiam e estruturam os debates sobre ra\u00e7a e cidadania. O \u201cmito\u201d nesse sentido \u00e9 parte da \u201crealidade\u201d social, tem uma dimens\u00e3o de aspira\u00e7\u00e3o, permite colocar no centro da vida p\u00fablica um ideal de como os brasileiros deveriam se relacionar. A hist\u00f3ria dos intelectuais negros no s\u00e9culo XX mostra que, mesmo nos momentos mais sombrios da luta contra o racismo, a no\u00e7\u00e3o de que o pa\u00eds chegaria algum dia a ser uma \u201cverdadeira democracia racial\u201d foi uma narrativa muito poderosa. Mesmo que a express\u00e3o \u201cdemocracia racial\u201d esteja desacreditada, o ideal de inclus\u00e3o racial, articulado por interm\u00e9dio de novos termos, continuar\u00e1 orientando a luta antirracista.<\/p>\n<p>http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2018\/05\/23\/paulina-alberto-militancia-e-luta-no-seculo-xx\/<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Glenda Mezarobba &#8211; Livro mostra como e por que intelectuais negros deixaram de endossar o ideal de harmonia racial para rejeit\u00e1-lo por completo Nascida na Argentina, a historiadora Paulina Alberto, 42 anos, atua nos departamentos de Hist\u00f3ria e L\u00ednguas da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, desde 2005. 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