{"id":9502,"date":"2018-10-27T14:55:46","date_gmt":"2018-10-27T17:55:46","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9502"},"modified":"2018-10-27T14:48:40","modified_gmt":"2018-10-27T17:48:40","slug":"as-mentiras-do-financial-times","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/10\/27\/as-mentiras-do-financial-times\/","title":{"rendered":"As mentiras do Financial Times"},"content":{"rendered":"<p><strong>James Petras<\/strong> &#8211; \u00c9 cada vez mais claro o papel e a participa\u00e7\u00e3o dos grandes media nas ofensivas do imperialismo.<\/p>\n<p>Associam \u00e0 anterior fun\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos e sistematizadores no plano ideol\u00f3gico um novo papel de propaganda e de distor\u00e7\u00e3o informativa. O caso do Financial Times \u00e9 mais complexo: trata-se tamb\u00e9m de ocultar as desastrosas consequ\u00eancias econ\u00f3micas e financeiras de tais ofensivas, aspecto tanto mais significativo quanto elas t\u00eam igualmente repercuss\u00e3o nos pa\u00edses agressores.<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>As publica\u00e7\u00f5es financeiras t\u00eam enganado os seus assinantes pol\u00edticos e investidores acerca das crises emergentes e das derrotas militares que precipitaram catastr\u00f3ficas perdas pol\u00edticas e econ\u00f3micas.<\/p>\n<p>O exemplo mais marcante \u00e9 o Financial Times (FT), uma publica\u00e7\u00e3o que \u00e9 amplamente lida pela elite pol\u00edtica e financeira.<\/p>\n<p>Desenvolveremos este ensaio descrevendo o contexto pol\u00edtico pol\u00edtico mais alargado que define o enquadramento da transforma\u00e7\u00e3o do FT, de um fornecedor relativamente objectivo de not\u00edcias do mundo a um propagandista de guerras e de pol\u00edticas econ\u00f3micas falhadas.<\/p>\n<p>Na segunda parte do ensaio discutiremos numerosos casos de estudo que ilustram as dram\u00e1ticas mudan\u00e7as de orienta\u00e7\u00e3o que transformaram uma prudente publica\u00e7\u00e3o sobre neg\u00f3cios numa raivosa advogada do militarismo, um analista bem informado de pol\u00edticas econ\u00f3micas num ide\u00f3logo dos piores investidores especulativos.<\/p>\n<p>A decad\u00eancia da qualidade da sua reportagem \u00e9 acompanhada por um abastardamento da linguagem. S\u00e3o distorcidos conceitos; os significados s\u00e3o esvaziados do seu sentido cognitivo; crimes e malfeitorias s\u00e3o cobertos com vitr\u00edolo.<\/p>\n<p>Concluiremos discutindo como e porqu\u00ea os media \u201crespeit\u00e1veis\u201d afectaram no mundo real os cidad\u00e3os e os investidores, em resultado das consequ\u00eancias pol\u00edticas e nos mercados das posi\u00e7\u00f5es que defenderam.<\/p>\n<p><strong>Contexto pol\u00edtico e econ\u00f3mico<\/strong><\/p>\n<p>A decad\u00eancia do FT n\u00e3o pode ser separada das transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f3micas globais no interior das quais \u00e9 publicado e circula. O FT celebrou a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a pilhagem da economia russa no decurso dos anos 90 e a proclama\u00e7\u00e3o por parte dos EUA de um mundo unipolar como grandes hist\u00f3rias de sucesso dos \u201cvalores ocidentais.\u201d A anexa\u00e7\u00e3o pelos EUA e a UE da Europa Oriental, dos Balc\u00e3s e os Estados B\u00e1lticos conduziu a uma profunda corrup\u00e7\u00e3o e decad\u00eancia das narrativas jornal\u00edsticas.<\/p>\n<p>O FT abra\u00e7ou com entusiasmo todas as viola\u00e7\u00f5es dos acordos Gorbatchev-Reagan e a marcha da NATO at\u00e9 \u00e0s fronteiras da R\u00fassia. A militariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa dos EUA foi acompanhada pela convers\u00e3o do FT num int\u00e9rprete militar daquilo que denominou \u201ctransi\u00e7\u00e3o para a democratiza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A linguagem de reportagem FT combinou ret\u00f3rica democr\u00e1tica com o perfilhar das pr\u00e1ticas militares. Isto tornou-se o cunho de todo o editorialismo e de todo o noticiamento. As pol\u00edticas militares do FT estenderam-se da Europa ao M\u00e9dio Oriente, o C\u00e1ucaso, o Norte de \u00c1frica e os Estados do Golfo.<\/p>\n<p>O FT juntou-se \u00e0 imprensa amarela na descri\u00e7\u00e3o de tomadas do poder, incluindo o derribe de advers\u00e1rios pol\u00edticos, como \u201ctransi\u00e7\u00f5es para a democracia\u201d e cria\u00e7\u00e3o de \u201csociedades abertas.\u201d<\/p>\n<p>A unanimidade das publica\u00e7\u00f5es liberais e de direita no apoio ao imperialismo ocidental, impedindo qualquer compreens\u00e3o dos enormes custos pol\u00edticos e econ\u00f3micos que da\u00ed decorriam.<\/p>\n<p>Para se proteger das suas mais flagrantes debilidades ideol\u00f3gicas, o FT foi incluindo \u201ccl\u00e1usulas de seguran\u00e7a\u201d de modo a encobrir desenvolvimentos autorit\u00e1rios catastr\u00f3ficos. Por exemplo, aconselharam os l\u00edderes pol\u00edticos ocidentais a promoverem interven\u00e7\u00f5es militares e, de caminho, com \u201ctransi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.\u201d<\/p>\n<p>Quando se tornou evidente que as guerras EUA-NATO n\u00e3o conduziam a finais felizes mas, em vez disso, se convertiam em insurg\u00eancias prolongadas, ou quando os clientes ocidentais se tornavam tiranos corruptos, o FT proclamava que n\u00e3o era isso que entendiam como uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d \u2013 e que isso n\u00e3o correspondia \u00e0 sua vers\u00e3o de \u201cmercados livres e eleitores livres.\u201d<\/p>\n<p><strong>O Financial e Military Times (?)<\/strong><\/p>\n<p>A militariza\u00e7\u00e3o do FT conduziu-o \u00e0 adop\u00e7\u00e3o da defini\u00e7\u00e3o militar da realidade pol\u00edtica. Os custos humanos e em particular os custos econ\u00f3micos, os perdidos mercados, investimentos e recursos foram subordinados aos resultados militares das \u201cguerras contra o terrorismo\u201d e do \u201cautoritarismo russo.\u201d<\/p>\n<p>Todas e cada uma das reportagens e editoriais do FT promovendo, ao longo das duas d\u00e9cadas passadas, as interven\u00e7\u00f5es militares ocidentais resultaram em perdas econ\u00f3micas de grande escala e de longo prazo.<\/p>\n<p>O FT apoiou a guerra dos EUA contra o Iraque que conduziu \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o de importantes neg\u00f3cios de milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares (petr\u00f3leo por alimentos) assinados com o Presidente Saddam Hussein. A subsequente ocupa\u00e7\u00e3o pelos EUA anulou um subsequente renascimento da ind\u00fastria petroleira. O regime cliente empossado pelos EUA pilhou os programas de reconstru\u00e7\u00e3o de muitos milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares \u2013 lesando os EUA e os contribuintes norte-americanos e privando os iraquianos da satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>Mil\u00edcias insurgentes, incluindo o Daesh\/ISIS ganharam o controlo de metade do territ\u00f3rio e impediram a entrada de qualquer novo investimento.<br \/>\nOs regimes clientelares que os EUA e o FT apoiaram organizaram elei\u00e7\u00f5es fraudulentas e saquearam o tesouro dos rendimentos do petr\u00f3leo, suscitando a ira da popula\u00e7\u00e3o, privada de electricidade, \u00e1gua pot\u00e1vel e outras necessidades b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>A guerra, ocupa\u00e7\u00e3o e controlo do Iraque que o FT apoiou foi um desastre incomensur\u00e1vel. Resultados semelhantes tiveram as invas\u00f5es do Afeganist\u00e3o, L\u00edbia, S\u00edria e I\u00e9men que o FT apoiou.<\/p>\n<p>O FT, por exemplo, difundiu a hist\u00f3ria de que os Taliban proporcionavam ref\u00fagio a Bin Laden, que planeava o ataque terrorista nos EUA (9\/11).<\/p>\n<p>Na realidade, os l\u00edderes afeg\u00e3os propuseram entregar o suspeito, caso os EUA apresentassem provas contra ele. Washington rejeitou a oferta, invadiu Kabul e o FT juntou-se ao coro dos apoiantes da \u201cguerra contra o terrorismo\u201d que conduziu a uma guerra infind\u00e1vel ao custo de um milh\u00e3o de milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A L\u00edbia subscreveu um acordo de desarmamento e de fornecimento de petr\u00f3leo no valor de muitos milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares em 2003. Em 2011 os EUA e os seus aliados ocidentais bombardearam a L\u00edbia, assassinaram Kadhafi, destru\u00edram totalmente a sociedade civil e provocaram o colapso dos acordos EUA\/UE sobre petr\u00f3leo. O FT apoiou a guerra mas lastimou o seu resultado. Seguiu um gui\u00e3o j\u00e1 conhecido: promover invas\u00f5es militares e, p\u00f3s facto, criticar os desastres econ\u00f3micos resultantes.<\/p>\n<p>O FT encabe\u00e7ou a ofensiva medi\u00e1tica em favor da guerra por interpostos agentes contra a S\u00edria: encarni\u00e7ando-se contra o governo leg\u00edtimo e elogiando os terroristas mercen\u00e1rios, que designou como \u201crebeldes\u201d e \u201cmilitantes\u201d \u2013 equ\u00edvoca designa\u00e7\u00e3o para operacionais financiados pelos EUA e pela UE.<\/p>\n<p>Em resultado das guerras ocidentais na L\u00edbia, S\u00edria, Afeganist\u00e3o e Iraque milh\u00f5es de refugiados fugiram para a Europa em busca de ref\u00fagio. O FT descreveu o holocausto imperial como os \u201cdilemas da Europa.\u201d O FT lastimou o ascenso dos partidos anti-imigrantes mas nunca assumiu responsabilidade pelas guerras que for\u00e7aram a fuga de milh\u00f5es em direc\u00e7\u00e3o ao Ocidente.<\/p>\n<p>Os colunistas do FT divagam sobre \u201cvalores ocidentais\u201d e criticam a \u201cextrema-direita\u201d mas renunciaram a denunciar o massacre quotidiano de palestinianos por parte de Israel. Em vez disso, os leitores s\u00e3o semanalmente brindados com artigos a\u00e7ucarados sobre as pol\u00edticas de Israel onde o ascendente do poder sionista sobre a pol\u00edtica externa dos EUA nunca \u00e9 mencionado.<\/p>\n<p><strong>FT: San\u00e7\u00f5es, Conspira\u00e7\u00f5es e Crises: R\u00fassia, China e Ir\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O FT, tal como todas as outras folhas propagand\u00edsticas de prest\u00edgio, assumiu um papel de vanguarda nos conflitos dos EUA com R\u00fassia, China e Ir\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 anos que os escribas que o FT acolhe v\u00eam descobrindo (ou inventando) \u201ccrises\u201d na economia chinesa \u2013 sempre \u00e0 beira de um apocalipse econ\u00f3mico. Ao contr\u00e1rio do que FT vem dizendo, a China cresce a um ritmo quatro vezes superior ao dos EUA; ignorando as cr\u00edticas, a China construiu &#8211; em vez das m\u00faltiplas guerras apoiadas pelos belicistas jornal\u00edsticos \u2013 um sistema global de infra-estruturas.<\/p>\n<p>Quando a China inova o FT, o FT rosna que \u00e9 roubo tecnol\u00f3gico, ignorando o decl\u00ednio econ\u00f3micos dos EUA.<\/p>\n<p>O FT gaba-se de escrever \u201csem medo e sem favores,\u201d o que se traduz em servir voluntariamente os poderes imperiais.<\/p>\n<p>Quando os EUA promovem san\u00e7\u00f5es contra a China, o FT diz-nos que Washington est\u00e1 a corrigir as abusivas pol\u00edticas estatistas da China. Como a China n\u00e3o imp\u00f5e instala\u00e7\u00f5es militares no exterior para contrapor \u00e0s oitocentas bases militares EUA em cinco continentes, o FT inventa aquilo a que chama \u201ccolonialismo da d\u00edvida,\u201d aparentemente para descrever o financiamento por Pequim de projectos produtivos de infra-estrutura de grande escala.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica perversa do FT estende-se \u00e0 R\u00fassia. Para dar cobertura ao golpe na Ucr\u00e2nia financiado pelos EUA converteu um movimento separatista no Donbass a uma anexa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio por parte da R\u00fassia. Da mesma forma, uma elei\u00e7\u00e3o livre na Crimeia \u00e9 descrita como uma anexa\u00e7\u00e3o pelo Kremlin.<\/p>\n<p>O FT proporciona a linguagem aos decadentes imp\u00e9rios ocidentais. Uma R\u00fassia independente, democr\u00e1tica, liberta da pilhagem e da inger\u00eancia eleitoral ocidental \u00e9 rotulada de \u201cautorit\u00e1ria;\u201d pol\u00edticas de bem-estar social que favorecem um decr\u00e9scimo da desigualdade s\u00e3o denegridas como \u201cpopulismo\u201d \u2013 associado \u00e0 extrema-direita. Sem quaisquer provas ou investiga\u00e7\u00e3o independente, o FT fabrica planos de Putin para envenenamentos em Inglaterra e conspira\u00e7\u00f5es de Bashar Assad sobre o uso de gases venenosos na S\u00edria.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O FT escolheu adoptar uma linha militarista que conduziu a uma longa s\u00e9rie de guerras financeiramente desastrosas. O apoio do FT a san\u00e7\u00f5es tem custado \u00e0s empresas milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares, euros e libras. As san\u00e7\u00f5es que tem apoiado romperam redes globais.<\/p>\n<p>O FT tem adoptado posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas que amea\u00e7am cadeias de fornecimentos entre o Ocidente, a China, Ir\u00e3o e R\u00fassia. O FT \u00e9 redigido em muitas l\u00ednguas mas omitiu aos seus leitores financeiros a informa\u00e7\u00e3o de que carrega alguma responsabilidade relativamente a mercados que est\u00e3o sob ass\u00e9dio.<\/p>\n<p>\u00c9 inquestion\u00e1vel que existe a necessidade de recompor o nome e o objectivo do FT. Um jornalista que era pr\u00f3ximo dos editores sugere que ele deveria chamar-se \u201cMilitary Times\u201d \u2013 a voz de um imp\u00e9rio em decl\u00ednio.<\/p>\n<p>https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/opiniom\/item\/252721-as-mentiras-do-financial-times.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>James Petras &#8211; \u00c9 cada vez mais claro o papel e a participa\u00e7\u00e3o dos grandes media nas ofensivas do imperialismo. 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