{"id":9468,"date":"2018-10-24T09:35:52","date_gmt":"2018-10-24T12:35:52","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9468"},"modified":"2018-10-23T22:40:15","modified_gmt":"2018-10-24T01:40:15","slug":"a-causa-fundamental-da-crise-financeira-e-a-logica-do-proprio-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/10\/24\/a-causa-fundamental-da-crise-financeira-e-a-logica-do-proprio-capitalismo\/","title":{"rendered":"&#8220;A causa fundamental da crise financeira \u00e9 a l\u00f3gica do pr\u00f3prio capitalismo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fran\u00e7ois Houtart &#8211;\u00a0<\/strong>Em entrevista ao Brasil de Fato, Fran\u00e7ois Houtart fala sobre a crise mundial que vivemos atualmente e que, apesar de n\u00e3o ser nova, \u00e9 mais profunda e bastante diferente da que conhecemos nos anos 1929 e 1930, dado que combina v\u00e1rias crises, entre as quais a alimentar.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato \u2013 O mundo vive hoje uma crise mundial, que tem afetado principalmente os Estados Unidos e a Europa. Como o senhor avalia esse cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fran\u00e7ois Houtart \u2013\u00a0<\/strong>Eu penso que, primeiro, se trata de uma crise do sistema econ\u00f3mico capitalista, que \u00e9 muito similar \u00e0 crise dos anos de 1929-1930 e tamb\u00e9m a muitas outras crises c\u00edclicas do sistema capitalista onde h\u00e1 sub produ\u00e7\u00e3o, sub consumo e eventualmente crises financeiras.<\/p>\n<p>A crise que vivemos hoje parece-me mais profunda e bastante diferente da que conhecemos nos anos 1929 e 1930, porque, primeiro, a sua dimens\u00e3o evidentemente est\u00e1 vinculada ao fen\u00f3meno da globaliza\u00e7\u00e3o. Isso significa que hoje h\u00e1 um efeito muito mais global do que nos anos de 1929-1930 e que evidentemente afeta o conjunto da economia. J\u00e1 est\u00e1 a afetar os pa\u00edses emergentes e de uma maneira ou outra afetar\u00e1 outros pa\u00edses do mundo. Por\u00e9m, o mais importante, e isso \u00e9 diferente dos anos 1929 e 1930, \u00e9 essa combina\u00e7\u00e3o com v\u00e1rios tipos de crises. Por exemplo, a crise alimentar, que foi conjuntural nos anos 2008-2009 e que correspondeu \u00e0 crise do capital financeiro. Porque o capital financeiro tem procurado novos lugares de especula\u00e7\u00e3o e o lugar foi a alimenta\u00e7\u00e3o, com consequ\u00eancias terr\u00edveis. E a crise alimentar \u00e9 tamb\u00e9m estrutural e n\u00e3o somente conjuntural, porque precisamente afeta toda a maneira de fazer a agricultura. E a introdu\u00e7\u00e3o cada vez mais forte do capital dentro da agricultura, com a concentra\u00e7\u00e3o de terras, gera uma contra reforma agr\u00e1ria mundial e o desenvolvimento de monocultivos, com todas as consequ\u00eancias ecol\u00f3gicas de destrui\u00e7\u00e3o de ambiente e tamb\u00e9m de destrui\u00e7\u00e3o humana; por exemplo, a exclus\u00e3o dos camponeses de suas terras.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f3mica com a alimentar \u00e9 algo novo. Por\u00e9m, s\u00e3o vinculadas. Na verdade, a crise financeira \u00e9 devida \u00e0 l\u00f3gica do capital, que tenta procurar mais lucros para acumular capital, que \u00e9, dentro dessa teoria, o motor da economia. Se o capital financeiro \u00e9 mais proveitoso do que o produtivo, ele faz a lei da economia mundial como \u00e9 hoje. Assim, essa \u00e9 evidentemente a l\u00f3gica do capitalismo que provoca a crise financeira, que tem efeitos econ\u00f3micos, porque tem efeitos sobre emprego, cr\u00e9dito e toda a economia. Por\u00e9m, \u00e9 essa mesma l\u00f3gica que est\u00e1 a provocar a crise alimentar, porque, por uma parte, h\u00e1 uma especula\u00e7\u00e3o \u2013 o pre\u00e7o do trigo, por exemplo, tem aumentado 100% num ano, menos de um ano, por raz\u00f5es puramente especulativas.<\/p>\n<p><strong>E quais s\u00e3o as consequ\u00eancias sociais dessa crise?<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, as consequ\u00eancias sociais da crise financeira s\u00e3o sentidas al\u00e9m das fronteiras da sua pr\u00f3pria origem e afetam os fundamentos da economia. Desemprego, custo de vida crescente, a exclus\u00e3o dos mais pobres, a vulnerabilidade das classes m\u00e9dias, expandindo a lista de v\u00edtimas no mundo. N\u00e3o \u00e9 apenas um acidente no percurso, ou apenas de abusos cometidos por alguns atores econ\u00f3micos que precisam ser punidos. Somos confrontados com uma l\u00f3gica que corre ao longo da hist\u00f3ria econ\u00f3mica do s\u00e9culo passado. O desenrolar dos acontecimentos sempre responde \u00e0 press\u00e3o das taxas de lucro. A crise que vivemos hoje n\u00e3o \u00e9 nova. N\u00e3o \u00e9 a primeira crise do sistema financeiro e muitos dizem que n\u00e3o ser\u00e1 a \u00faltima.<\/p>\n<p><strong>A seu ver, qual \u00e9 a principal causa dessa crise mundial?<\/strong><\/p>\n<p>A causa fundamental da crise financeira \u00e9 a l\u00f3gica do pr\u00f3prio capitalismo, que torna o capital motor da economia. E o seu desenvolvimento \u2013 essencialmente, a acumula\u00e7\u00e3o \u2013 leva \u00e0 maximiza\u00e7\u00e3o do lucro. Se a financeiriza\u00e7\u00e3o da economia favorece a taxa de lucro e se a especula\u00e7\u00e3o acelerou o fen\u00f3meno, a organiza\u00e7\u00e3o da economia como um todo continua dessa forma. Mas um mercado n\u00e3o regulamentado capitalista conduz inevitavelmente \u00e0 crise. E, como indicado no relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, \u00e9 uma crise macroecon\u00f3mica.<\/p>\n<p><strong>Um dos graves problemas da humanidade hoje \u00e9 a fome. Como fica essa quest\u00e3o frente a esse cen\u00e1rio de crise?<\/strong><\/p>\n<p>A crise alimentar tem dois aspetos, um c\u00edclico e um estrutural. O primeiro manifestou-se com o aumento dos pre\u00e7os dos alimentos em 2007 e 2008. Sim, para explicar o fen\u00f3meno, houve alguma base eficiente, como alguma diminui\u00e7\u00e3o fraca em reservas de alimentos, mas a principal raz\u00e3o foi de natureza especulativa, em que a produ\u00e7\u00e3o de agro combust\u00edveis n\u00e3o ficou imune (etanol de milho nos Estados Unidos). Assim, o pre\u00e7o do trigo na Chicago Board (Bolsa de Chicago) aumentou para 100%, do milho 98% e do etanol, 80%. Durante esses anos, uma parte do capital especulativo passou de outros setores para investir na produ\u00e7\u00e3o de alimentos, na procura por lucros r\u00e1pidos e significativos. Consequentemente, segundo o diretor da FAO, em geral, a cada ano, em 2008 e 2009, mais de 50 milh\u00f5es de pessoas ficaram abaixo da linha da pobreza e o total de pessoas que viviam nessa situa\u00e7\u00e3o em 2008 atingiu um valor nunca antes conhecido \u2013 de mais de um bili\u00e3o de pessoas. Essa situa\u00e7\u00e3o foi claramente o resultado da l\u00f3gica do lucro, a lei capitalista do valor.<\/p>\n<p>O segundo aspeto \u00e9 estrutural. \u00c9 a expans\u00e3o durante os \u00faltimos anos da monocultura, resultando na concentra\u00e7\u00e3o da terra, ou seja, uma verdadeira contra reforma. A agricultura familiar foi destru\u00edda em todo o mundo sob o pretexto da sua baixa produtividade. Na verdade, as monoculturas t\u00eam uma produ\u00e7\u00e3o que \u00e0s vezes pode ir at\u00e9 500% ou mais de 1000%. No entanto, dois fatores devem ser levados em conta. A primeira \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica dessa forma de produzir. Florestas s\u00e3o removidas, solo e \u00e1gua contaminados pelo uso maci\u00e7o de produtos qu\u00edmicos. Agricultores s\u00e3o for\u00e7ados a deixar suas terras e h\u00e1 milh\u00f5es que t\u00eam de migrar para as favelas das cidades, aumentando a crise urbana, e aumentando a press\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o interna, como no Brasil, ou externa, como em muitos outros pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o a fome no mundo n\u00e3o tem nada a ver com a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, com a capacidade de produzir?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. N\u00e3o tem nada a ver com a produ\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o \u00e9 somente especulativa. \u00c9 a Bolsa de Chicago que fixa os pre\u00e7os internacionais dos gr\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>E como o senhor v\u00ea as afirma\u00e7\u00f5es de alguns estudiosos de que o planeta, com uma popula\u00e7\u00e3o na casa dos 7 bili\u00f5es de pessoas, se torna incapaz de produzir alimentos para nutrir tanta gente?<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 totalmente falso. Segundo a FAO, teoricamente a Terra pode facilmente nutrir 10 ou 12 bili\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p><strong>E a quest\u00e3o energ\u00e9tica, tamb\u00e9m faz parte desse cen\u00e1rio de crise?<\/strong><\/p>\n<p>A crise de energia vai al\u00e9m da explos\u00e3o conjuntural dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo e faz parte do esgotamento dos recursos naturais explorados pelo modelo de desenvolvimento capitalista. Uma coisa \u00e9 clara: a humanidade vai ter que mudar a fonte de energia nos pr\u00f3ximos 50 anos. Os picos de petr\u00f3leo, ur\u00e2nio e g\u00e1s podem ser discutidos em termos de anos precisos, mas ainda assim sabemos que esses recursos n\u00e3o s\u00e3o inesgot\u00e1veis e que as datas n\u00e3o est\u00e3o longe. Com o esgotamento, inevitavelmente vem o aumento dos pre\u00e7os das\u00a0<em>commodities<\/em>, com todas as consequ\u00eancias sociais e pol\u00edticas. Al\u00e9m disso, o controlo internacional de fontes de energia f\u00f3sseis e outros materiais estrat\u00e9gicos \u00e9 cada vez mais importante para as pot\u00eancias industriais, que n\u00e3o hesitam em usar a for\u00e7a militar para se apropriar deles. \u00c9 no contexto de escassez de energia no futuro que se insere parte do problema dos agro combust\u00edveis. Diante da expans\u00e3o da demanda e da redu\u00e7\u00e3o esperada em recursos energ\u00e9ticos f\u00f3sseis, h\u00e1 uma certa urg\u00eancia de se encontrar solu\u00e7\u00f5es. Como novas fontes de energia exigem o desenvolvimento de tecnologias ainda n\u00e3o muito avan\u00e7adas (como a solar ou \u00e0 base de hidrog\u00e9nio) e outras solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o interessantes, mas economicamente marginais ou n\u00e3o rent\u00e1veis (mais uma vez, a solar e a e\u00f3lica), a dos agro combust\u00edveis pareceu interessante.<\/p>\n<p><strong>Mas a produ\u00e7\u00e3o dos agro combust\u00edveis traz tamb\u00e9m graves consequ\u00eancias.<\/strong><\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de agro combust\u00edvel \u00e9 feita na forma de monocultura. Em muitos casos, isso envolve a remo\u00e7\u00e3o de grandes florestas. Na Mal\u00e1sia e na Indon\u00e9sia, em menos de 20 anos 80% da floresta original foi destru\u00edda pelas planta\u00e7\u00f5es da palma e eucalipto. A biodiversidade \u00e9 removida, com todas as consequ\u00eancias sobre a reprodu\u00e7\u00e3o da vida. Para produzir \u00e9 usado n\u00e3o s\u00f3 muita \u00e1gua, mas um monte de produtos qu\u00edmicos, como fertilizantes ou pesticidas. O resultado \u00e9 uma polui\u00e7\u00e3o intensiva de \u00e1gua subterr\u00e2nea, dos rios que desembocam no mar, e um perigo real de falta de \u00e1gua pot\u00e1vel para as popula\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, os pequenos agricultores s\u00e3o expulsos e muitas comunidades ind\u00edgenas perdem suas terras ancestrais, causando uma s\u00e9rie de conflitos sociais, at\u00e9 mesmo violentos. O desenvolvimento de agro combust\u00edveis corresponde \u00e0 neglig\u00eancia das externalidades ambientais e sociais, t\u00edpicas da l\u00f3gica do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>E como o senhor v\u00ea a quest\u00e3o clim\u00e1tica nesse cen\u00e1rio atual?<\/strong><\/p>\n<p>A crise clim\u00e1tica \u00e9 bem conhecida e as informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o a tornar-se mais precisas, gra\u00e7as a v\u00e1rias confer\u00eancias da ONU sobre clima, biodiversidade, etc. Enquanto o atual modelo de desenvolvimento continuar a emitir gases de efeito-estufa (especialmente CO2), destruindo os sumidouros de carbono, ou seja, s\u00edtios naturais de absor\u00e7\u00e3o desses gases, especialmente florestas e os oceanos, a crise continuar\u00e1. A pegada ecol\u00f3gica \u00e9 de tal ordem que, de acordo com estimativas, em 2010, em meados de agosto, o planeta tinha esgotado a sua reprodu\u00e7\u00e3o natural. Al\u00e9m disso, de acordo com o relat\u00f3rio do Dr. Nicholas Stern para o governo brit\u00e2nico, em 2006, se as tend\u00eancias atuais continuarem na metade do s\u00e9culo existir\u00e3o entre 150 e 200 milh\u00f5es de migrantes clim\u00e1ticos, e os mais recentes n\u00fameros s\u00e3o ainda mais elevados.<\/p>\n<p><strong>E como o senhor avalia as medidas adotadas pelas elites e governos para tentar superar essas crises? E quais s\u00e3o as solu\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>A primeira solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a do sistema. Alguns, principalmente preocupados com a crise financeira, propuseram mudar e punir os respons\u00e1veis. Essa \u00e9 a teoria do capitalismo (teoria neocl\u00e1ssica em economia), que v\u00ea elementos positivos na crise, porque eles permitem a libera\u00e7\u00e3o de elementos fracos ou corruptos para retomar o processo de acumula\u00e7\u00e3o em bases saud\u00e1veis. Atores s\u00e3o alterados, e n\u00e3o se muda o sistema. Evidentemente n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o. A segunda vis\u00e3o \u00e9 propor regulamentos. \u00c9 reconhecido que o mercado regula a si mesmo e que os organismos nacionais e internacionais t\u00eam necessidade de executar essa tarefa. Os Estados e organiza\u00e7\u00f5es internacionais devem ser envolvidos. O G8, por exemplo, prop\u00f4s certos regulamentos do sistema econ\u00f3mico global, mas ligeiros e tempor\u00e1rios. Em vez disso, a ONU apresentou uma s\u00e9rie de regulamenta\u00e7\u00f5es muito mais avan\u00e7adas. Prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o de um Conselho de Coordena\u00e7\u00e3o Econ\u00f3mica Global, em p\u00e9 de igualdade com o Conselho de Seguran\u00e7a, e tamb\u00e9m um painel internacional de especialistas para acompanhar permanentemente a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica global. Outras recomenda\u00e7\u00f5es tratadas foram a aboli\u00e7\u00e3o dos para\u00edsos fiscais e do sigilo banc\u00e1rio e, tamb\u00e9m, maiores requisitos de reservas banc\u00e1rias e um controle mais r\u00edgido das ag\u00eancias de nota\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito. A profunda reforma das institui\u00e7\u00f5es de Bretton Woods foi inclu\u00edda, bem como a possibilidade de se criar moedas regionais em vez de ter como refer\u00eancia \u00fanica o d\u00f3lar. Os regulamentos propostos pela Comiss\u00e3o Stiglitz para reconstruir o sistema financeiro e monet\u00e1rio, apesar de algumas refer\u00eancias a outros aspetos da crise, tais como clima, energia, alimentos \u2013 e apesar do uso da palavra sustent\u00e1vel para qualificar o crescimento \u2013 n\u00e3o t\u00eam a profundidade suficiente para fazer a pergunta: para que reparar o sistema econ\u00f3mico? Para desenvolver, como antes, um modelo que destr\u00f3i a natureza e \u00e9 socialmente desequilibrado? \u00c9 prov\u00e1vel que as propostas para reformar o sistema monet\u00e1rio e financeiro ser\u00e3o eficazes para superar a crise financeira, e muito mais do que o que foi feito at\u00e9 agora, mas \u00e9 suficiente para responder a desafios globais contempor\u00e2neos? A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 dentro do capitalismo, um sistema historicamente esgotado, mesmo que tenha ainda muitos meios de adapta\u00e7\u00e3o. A gravidade da crise \u00e9 tal que devemos pensar em alternativas, n\u00e3o somente em regula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>E, quais seriam, por exemplo, essas outras alternativas?<\/strong><\/p>\n<p>Questionar o pr\u00f3prio modelo de desenvolvimento. A multiplicidade de crises que foram exacerbadas nos \u00faltimos tempos \u00e9 resultado da l\u00f3gica de mesmo fundo: uma conce\u00e7\u00e3o de desenvolvimento que ignora as \u201cexternalidades\u201d (danos naturais e sociais); a ideia de um planeta inesgot\u00e1vel; o foco no valor de troca em detrimento do valor de uso; e a identifica\u00e7\u00e3o da economia com a taxa de acumula\u00e7\u00e3o de lucro e do capital que cria, consequentemente, enormes desigualdades econ\u00f3micas e sociais. Esse modelo resultou num crescimento espetacular da riqueza global, mas o seu papel hist\u00f3rico perdeu-se, devido \u00e0 sua natureza destrutiva e da desigualdade social que resultou. A racionalidade econ\u00f3mica do capitalismo, escreve Wim Dierckxsens, n\u00e3o apenas tende a negar a vida da maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial como tamb\u00e9m destr\u00f3i a vida natural.<\/p>\n<p>Temos que discutir alternativas ao modelo econ\u00f3mico capitalista prevalecente hoje e os meios para rever o pr\u00f3prio paradigma (orienta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica) da vida coletiva da humanidade sobre o planeta, conforme definido pela l\u00f3gica do capitalismo, que hoje \u00e9 global. A vida coletiva \u00e9 composta por quatro elementos que chamamos de base, porque as exig\u00eancias s\u00e3o parte da vida de toda sociedade, desde as mais antigas at\u00e9 as mais contempor\u00e2neas: a rela\u00e7\u00e3o com a natureza; a produ\u00e7\u00e3o da base material da vida f\u00edsica, cultural e espiritual; a organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica coletiva; e a leitura do real e auto envolvimento dos atores na sua constru\u00e7\u00e3o da cultura. Ou seja, cada sociedade tem essa tarefa para realizar.<\/p>\n<p><strong>Mas as alternativas necessariamente passam pelo envolvimento do conjunto da sociedade organizada, dos movimentos sociais.<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. As alternativas s\u00e3o t\u00e3o importantes que n\u00e3o v\u00e3o chegar por si s\u00f3. \u00c9 somente pela press\u00e3o dos movimentos sociais, movimentos pol\u00edticos tamb\u00e9m, que podemos esperar chegar a redefinir os objetivos fundamentais da presen\u00e7a humana no planeta e o desenvolvimento humano no planeta. E isso significa transformar a rela\u00e7\u00e3o com a natureza. Passar da explora\u00e7\u00e3o ao respeito. Significa outra defini\u00e7\u00e3o da economia. N\u00e3o somente produzir um valor agregado sen\u00e3o produzir as bases da vida. Da vida f\u00edsica, cultural, espiritual de todos os seres humanos no planeta. Isso \u00e9 a economia. Por\u00e9m, isso n\u00e3o corresponde \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do capitalismo. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso generalizar a democracia a todas as institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o somente pol\u00edticas e econ\u00f3micas mas tamb\u00e9m na rela\u00e7\u00f5es humanas, rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres etc. \u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m n\u00e3o identificar desenvolvimento com civiliza\u00e7\u00e3o ocidental e dar a possibilidade a todas as culturas, religi\u00f5es, filosofias de participar dessa constru\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 o que chamo de construir o bem comum da humanidade, que \u00e9 a vida; assegurar a vida, a vida do planeta e a vida da humanidade. Isso \u00e9 um projeto alternativo, que pode parecer ut\u00f3pico. Por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 ut\u00f3pico porque existem milhares de organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais que j\u00e1 trabalham para transformar esses aspetos da vida comum da humanidade, para melhorar a rela\u00e7\u00e3o com a natureza, para ter outro tipo de economia, para ter uma participa\u00e7\u00e3o, uma democracia que seja participativa e para renovar a cultura. Existem muitas iniciativas. Isso posso chamar de constru\u00e7\u00e3o do socialismo. Porque socialismo n\u00e3o \u00e9 uma palavra. \u00c9 um conte\u00fado. E eu penso que devemos redefinir o conte\u00fado do socialismo.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor analisa a Am\u00e9rica Latina neste contexto da crise e qual \u00e9 o papel dos movimentos sociais?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito interessante porque a Am\u00e9rica Latina \u00e9 o \u00fanico continente do mundo onde temos tido alguns avan\u00e7os. N\u00e3o ainda na op\u00e7\u00e3o de novo paradigma, nova orienta\u00e7\u00e3o fundamental, por\u00e9m, pelo menos avan\u00e7os, que n\u00e3o existem em outros continentes at\u00e9 agora. Mas n\u00e3o \u00e9 algo generalizado na Am\u00e9rica Latina. H\u00e1 alguns pa\u00edses que s\u00f3 reproduzem o sistema, com sua depend\u00eancia ao capital internacional, particularmente do norte do continente americano. S\u00e3o pa\u00edses como M\u00e9xico, Col\u00f4mbia, Chile, Panam\u00e1, Costa Rica, Honduras etc. S\u00e3o pa\u00edses onde a burguesia local est\u00e1 totalmente vinculada com o sistema internacional e, nesse sentido, n\u00e3o tem outro projeto sen\u00e3o um projeto muito repressivo contra as popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Subordina\u00e7\u00e3o total.<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. H\u00e1 uma segunda realidade, que s\u00e3o os pa\u00edses que podemos chamar de \u201cadapta\u00e7\u00f5es ao sistema\u201d. E a\u00ed existem dois tipos de pa\u00edses. H\u00e1 os que dizem: sim, o sistema necessita de mudan\u00e7as fundamentais e devemos nos adaptar \u00e0 l\u00f3gica do capitalismo. E para se ter mais justi\u00e7a social e repartir parte do lucro, como j\u00e1 dizia Marx, com o r\u00e1pido avan\u00e7o das for\u00e7as produtivas, temos um aumento dos lucros e da destrui\u00e7\u00e3o da natureza. Nesse tipo de desenvolvimento inserem-se Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, que possuem programas sociais eficazes. Com resultados indubit\u00e1veis porque milh\u00f5es de pessoas sa\u00edram da pobreza, o que n\u00e3o podemos desprezar, por\u00e9m, esse modelo n\u00e3o transforma profundamente a sociedade; isso representa apenas uma redistribui\u00e7\u00e3o de parte do lucro. N\u00e3o podemos dizer que \u00e9 uma mudan\u00e7a de paradigma. Entretanto, h\u00e1 pa\u00edses como Venezuela, Equador e a Bol\u00edvia, que t\u00eam outro discurso, o do socialismo do s\u00e9culo 21, que pelo menos faz uma alus\u00e3o a uma transforma\u00e7\u00e3o fundamental. Pelo menos no Equador e na Bol\u00edvia, entre o discurso e a pr\u00e1tica eu vejo grande avan\u00e7os, em que as pr\u00e1ticas dos governos seguem uma orienta\u00e7\u00e3o das demandas sociais apresentadas pelos movimentos sociais.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, neste contexto de crise, os pa\u00edses que est\u00e3o mais vulner\u00e1veis sofrem mais as consequ\u00eancias?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o estou seguro. Teoricamente pode-se dizer que sim, esses pa\u00edses ser\u00e3o mais afetados em m\u00e9dio prazo. Por\u00e9m, no momento \u00e9 igual em todas as partes. Mas, evidentemente, os pa\u00edses mais vinculados ao sistema ser\u00e3o mais afetados em m\u00e9dio prazo. Entretanto, desgra\u00e7adamente, pa\u00edses como Venezuela e Bol\u00edvia tamb\u00e9m s\u00e3o indiretamente dependentes do sistema global e sofrer\u00e3o as consequ\u00eancias. O que eu acho que \u00e9 cedo demais para se dizer, como diz Samir Amin, que eles conseguiram fazer uma desconex\u00e3o. N\u00e3o, n\u00e3o conseguiram. Mas \u00e9 \u00f3bvio que as economias mais vinculadas \u00e0 economia do Norte sofrer\u00e3o as consequ\u00eancias a curto prazo.<\/p>\n<p><strong>No caso da Am\u00e9rica Latina, uma maior integra\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses seria uma alternativa frente a esse cen\u00e1rio mundial? O papel do Estado \u00e9 fundamental neste contexto?<\/strong><\/p>\n<p>Absolutamente. Mas, para encerrar a tipologia, eu penso que a Venezuela \u00e9 um pa\u00eds que avan\u00e7a para um novo modelo, onde as mudan\u00e7as s\u00e3o mais aprofundadas. O papel do Estado n\u00e3o pode ser concebido sem levar em conta a situa\u00e7\u00e3o dos grupos mais marginalizados socialmente, os sem-terra, as castas mais baixas ignoradas por mil\u00e9nios, os povos ind\u00edgenas da Am\u00e9rica e os exclu\u00eddos de ascend\u00eancia africana; e, nesses grupos, as mulheres s\u00e3o muitas vezes duplamente marginalizadas. A expans\u00e3o da democracia tamb\u00e9m se aplica para o di\u00e1logo entre os movimentos pol\u00edticos e sociais. A organiza\u00e7\u00e3o de inst\u00e2ncias de consulta e di\u00e1logo pertence ao mesmo conceito, respeitando a autonomia m\u00fatua. O projeto de um conselho de movimentos sociais na arquitetura geral da Alba \u00e9 uma tentativa original nessa dire\u00e7\u00e3o. O conceito de sociedade civil muitas vezes utilizado para esse fim ainda \u00e9 amb\u00edguo, porque ela \u00e9 tamb\u00e9m o lugar da luta de classes: h\u00e1 realmente uma sociedade civil de baixo e de cima e o uso do termo de forma n\u00e3o qualificada permite muitas vezes a cria\u00e7\u00e3o de uma confus\u00e3o e a apresenta\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es que ignoram as diferen\u00e7as sociais. Por outro lado, as formas de democracia participativa, como os encontrados em v\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos, tamb\u00e9m entram na mesma l\u00f3gica da democracia em geral. Todas as novas institui\u00e7\u00f5es regionais latino-americanas, como o Banco do Sul, a moeda regional (o sucre) e a Alba, ser\u00e3o objeto de aten\u00e7\u00e3o especial na dire\u00e7\u00e3o de propaga\u00e7\u00e3o da democracia. E o mesmo vale para os outros continentes.<\/p>\n<p>https:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/causa-fundamental-da-crise-financeira-\u00e9-l\u00f3gica-do-pr\u00f3prio-capitalismo<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fran\u00e7ois Houtart &#8211;\u00a0Em entrevista ao Brasil de Fato, Fran\u00e7ois Houtart fala sobre a crise mundial que vivemos atualmente e que, apesar de n\u00e3o ser nova, \u00e9 mais profunda e bastante diferente da que conhecemos nos anos 1929 e 1930, dado que combina v\u00e1rias crises, entre as quais a alimentar. 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