{"id":9456,"date":"2018-10-22T14:35:45","date_gmt":"2018-10-22T17:35:45","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9456"},"modified":"2018-10-22T14:33:33","modified_gmt":"2018-10-22T17:33:33","slug":"dedo-na-ferida-discurso-da-servidao-voluntaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/10\/22\/dedo-na-ferida-discurso-da-servidao-voluntaria\/","title":{"rendered":"Dedo na Ferida: Discurso da Servid\u00e3o Volunt\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fernando Nogueira da Costa<\/strong> &#8211; No passado, uma s\u00e9rie de lutas de trabalhadores conseguiu a estabiliza\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho em oito horas di\u00e1rias. No s\u00e9culo XIX, chegou a alcan\u00e7ar 16 horas por dia.<\/p>\n<p>Assisti \u201cDedo na Ferida\u201d, document\u00e1rio de S\u00edlvio Tendler, realizado no ano corrente (2018). \u00c9 mais uma den\u00fancia do capitalismo. No caso, a novidade est\u00e1 na constata\u00e7\u00e3o de atualmente se alastrar no sistema uma l\u00f3gica de a\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n<p>Embora mostre uma f\u00e1brica de autom\u00f3veis quase inteiramente rob\u00f3tica, dispensando oper\u00e1rios n\u00e3o especializados nessa automa\u00e7\u00e3o, o document\u00e1rio n\u00e3o vai fundo no contraste com a imagem de um pod\u00f3logo submisso a uma longu\u00edssima viagem di\u00e1ria, desde sua moradia na periferia do Grande Rio at\u00e9 seu trabalho em Copacabana.<\/p>\n<p>Os trabalhadores tendem no futuro a s\u00f3 encontrar ocupa\u00e7\u00f5es em servi\u00e7os urbanos como cuidadores de idosos. Ent\u00e3o, o document\u00e1rio n\u00e3o coloca o dedo na ferida: o capitalismo industrial n\u00e3o oferece mais empregos na periferia da China.<\/p>\n<p>Hoje, por exemplo, o maior produtor de carros do mundo \u00e9 a China, com 29 milh\u00f5es de unidades.<\/p>\n<p>Nos EUA, o total chegou a 11 milh\u00f5es em 2017. O Brasil ocupa a posi\u00e7\u00e3o de nono maior produtor mundial, com 2,7 milh\u00f5es de unidades, superando a Fran\u00e7a. As vendas atingiram 2,2 milh\u00f5es em 2017, mantendo o Brasil como o oitavo maior mercado, superando It\u00e1lia e Canad\u00e1, no ranking dos 10 .<\/p>\n<p>Em termos marxistas, a bandeira-de-luta atual deveria ser: dividir a mais-valia relativa.<\/p>\n<p>Ela aumenta com a automa\u00e7\u00e3o a ocorrer na 4a. Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Sem redu\u00e7\u00e3o da jornada semanal de trabalho, apenas os acionistas se apropriar\u00e3o do aumento da produtividade. Os verdadeiros produtores nada receber\u00e3o.<\/p>\n<p>A bandeira-de-luta contempor\u00e2nea \u00e9 os trabalhadores trocarem o trabalho durante mais anos \u2013 para eleva\u00e7\u00e3o da contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria \u2013, por menor jornada semanal com manuten\u00e7\u00e3o de todos os direitos trabalhistas, inclusive o sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>No passado, uma s\u00e9rie de lutas de trabalhadores conseguiu a estabiliza\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho em oito horas di\u00e1rias. No s\u00e9culo XIX, chegou a alcan\u00e7ar 16 horas por dia.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o transferir parte dos ganhos de produtividade para os trabalhadores? As lutas sociais propiciaram no passado um incentivo para a substitui\u00e7\u00e3o do trabalho bruto por m\u00e1quinas e a redu\u00e7\u00e3o da dura\u00e7\u00e3o desse trabalho.<\/p>\n<p>No entanto, o aprimoramento da produtividade gra\u00e7as \u00e0 inform\u00e1tica n\u00e3o trouxe ainda o mesmo efeito.<\/p>\n<p>Com eleva\u00e7\u00e3o da produtividade poderemos trabalhar mais horas por anos (idade m\u00ednima de 65 anos), mas devemos trabalhar menos horas (36) por semana: quatro dias \u00fateis.<\/p>\n<p>Durante a vida ativa, haveria um terceiro dia de trabalho n\u00e3o alienante por semana. O trabalhador teria tr\u00eas dias de trabalho criativo \u2013 n\u00e3o para \u201cdescansar\u201d, isto \u00e9, comer-beber-dormir e\/ou se abestalhar em frente \u00e0 TV \u2013 e quatro dias de trabalho no qual seu produto, depois de vendido, seria desfrutado apenas pelo \u201cpatr\u00e3o\u201d \u2013 ou acionistas.<\/p>\n<p>Os trabalhadores criativos poderiam, por exemplo, fazer um curso de extens\u00e3o para alavancagem da carreira profissional.<\/p>\n<p>Outro exemplo: praticar um hobby para demonstrar sua habilidade pessoal, seja como artes\u00e3o, seja como esportista.<\/p>\n<p>Dessa forma, cada trabalhador-artes\u00e3o se identificar\u00e1 com o resultado final \u2013 e ser\u00e1 feliz.<\/p>\n<p>Os cr\u00edticos da \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d, infelizmente, demonizam o complexo sistema financeiro, emergente atrav\u00e9s de m\u00faltiplos componentes, inclusive n\u00f3s.<\/p>\n<p>S\u00f3 enxergam a superf\u00edcie e n\u00e3o a ess\u00eancia mais profunda do problema contempor\u00e2neo. Infelizmente, n\u00e3o pensam em responder \u00e0 quest\u00e3o-chave, similar \u00e0 lan\u00e7ada h\u00e1 mais de quatro s\u00e9culos por \u00c9tienne de La Bo\u00e9tie (1530-1563), no seu livro Discurso da Servid\u00e3o Volunt\u00e1ria. Ele problematizou a enigm\u00e1tica quest\u00e3o da submiss\u00e3o de muitos a um, no caso atual, um demon\u00edaco sistema financeiro.<\/p>\n<p>A pergunta-chave dessa obra cl\u00e1ssica \u00e9:\u00a0 porque tantos homens suportam \u00e0s vezes um tirano s\u00f3? Servid\u00e3o s\u00f3 existe para um pela vontade de outro: o escravo precede o senhor. Por que ele serve a quem s\u00f3 o faz padecer?<\/p>\n<p>Em Discurso da Servid\u00e3o Volunt\u00e1ria, editado pela primeira vez em 1553, seu autor \u2013 Etienne La Bo\u00e9tie \u2013 sugere: \u201cuma vez instalado, o tirano det\u00e9m a vontade e o poder de subjugar\u201d.<\/p>\n<p>Mas ele se torna senhor por ter respondido \u00e0 demanda expressa por quem supostamente domina: o povo.<\/p>\n<p>A cada momento de seu imp\u00e9rio, a tirania se engendra a partir da vontade de servir. A for\u00e7a da servid\u00e3o n\u00e3o \u00e9, fundamentalmente, o medo.<\/p>\n<p>A servid\u00e3o n\u00e3o nasce da covardia, assim como a liberdade n\u00e3o nasce da coragem. O chocante da quest\u00e3o da servid\u00e3o volunt\u00e1ria \u00e9 a estranha vontade ou o estranho desejo de servir. Estranho tamb\u00e9m \u00e9 La Bo\u00e9tie induzir seu leitor a buscar o sentido da amizade de maneira similar ao da servid\u00e3o. \u00c9 o equivocado desejo de ser \u201camigo do rei\u201d.<\/p>\n<p>Mas \u201camizade \u00e9 igualdade\u201d. A separa\u00e7\u00e3o resultante de quando os amigos se esfor\u00e7am para elevar um dos seus acima deles, quebra os la\u00e7os da amizade, o viver junto, a partilha dos pensamentos e a igualdade das vontades. A amizade \u00e9 destru\u00edda quando a semelhan\u00e7a entre pares \u00e9 substitu\u00edda pela hierarquia entre superiores e inferiores.<\/p>\n<p>A subjuga\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria ao sistema financeiro de todos n\u00f3s se d\u00e1 porque \u00e9 onde eventualmente buscamos financiar o consumo, a aquisi\u00e7\u00e3o da casa pr\u00f3pria, e mesmo a rent\u00e1vel alavancagem financeira como empreendedor.<\/p>\n<p>Como investidores, desejamos oportunidades de investimentos financeiros seguros, l\u00edquidos e rent\u00e1veis. Antes de tudo, para nossas interconex\u00f5es econ\u00f4micas no nosso cotidiano, temos uma raz\u00e3o pr\u00e1tica, inclusive ligada \u00e0 seguran\u00e7a, de nos submeter ao sistema de pagamentos eletr\u00f4nicos de varejo, acess\u00edvel a todos os cidad\u00e3os em sociedade civilizada.<\/p>\n<p>Para entender essa \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d volunt\u00e1ria, lembremos da dial\u00e9tica senhor-escravo, formulada por Hegel.<\/p>\n<p>Desejar significa desejar ser reconhecido. Mas se cada consci\u00eancia individual quiser obter esse reconhecimento, o resultado ser\u00e1 o conflito entre as diversas consci\u00eancias, pois haver\u00e1 exclus\u00e3o m\u00fatua.<\/p>\n<p>Entretanto, se essa luta terminasse com a supress\u00e3o das consci\u00eancias de todos aqueles incapazes de aceitar o reconhecimento da vitoriosa, a morte delas privaria essa vit\u00f3ria de sentido, uma vez que o vencedor n\u00e3o teria ningu\u00e9m para reconhec\u00ea-lo. A imposi\u00e7\u00e3o do vencedor deixa com vida o vencido em troca deste reconhec\u00ea-lo e de renunciar a ser reconhecido. Essa rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o e de servid\u00e3o \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre o senhor e o escravo.<\/p>\n<p>No caso atual, o banco s\u00f3 poder crescer junto com seu cliente. O sistema banc\u00e1rio multiplica moeda de maneira interdependente com uma rede de clientes.<\/p>\n<p>Hegel n\u00e3o apresenta essa luta mortal entre o senhor (sistema financeiro) e o escravo (cliente), entre opressores e oprimidos, como um fato real verificado ao longo da hist\u00f3ria, com origem em contradi\u00e7\u00f5es reais, concretas.<\/p>\n<p>Sua filosofia idealista se repousa sob a forma intertemporal e abstrata correspondente ao movimento do esp\u00edrito para alcan\u00e7ar seu pleno reconhecimento. Desse modo, justifica, ideologicamente, a servid\u00e3o.<\/p>\n<p>O senhor, segundo Hegel, \u00e9 o homem (ou sistema) capaz de, arriscando sua vida, chegar at\u00e9 o fim da luta pelo reconhecimento. O escravo \u00e9 quem, por medo da morte, recua na luta e renuncia a ser reconhecido.<\/p>\n<p>O trabalho \u00e9 servid\u00e3o, depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a esse senhor.<\/p>\n<p>Mas essa depend\u00eancia acarreta \u2013 como atividade pr\u00e1tica, real \u2013 a transforma\u00e7\u00e3o da natureza e a cria\u00e7\u00e3o de algum produto. O subjetivo se torna objetivo no produto e, desse modo, cria um mundo pr\u00f3prio. \u00c9 poss\u00edvel reconhecer-se nos produtos criados por si. Transformando a natureza, o escravo reconhece a sua pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n<p>Esse reconhecimento de si em seus produtos \u00e9 consci\u00eancia de si como ser humano.<\/p>\n<p>Enquanto o senhor, por subjugar e n\u00e3o criar, por n\u00e3o transformar coisas, n\u00e3o se transforma a si mesmo e n\u00e3o se eleva, portanto, como ser humano. O escravo se eleva como tal e adquire consci\u00eancia de sua liberdade no processo de trabalho.<\/p>\n<p>Mas apenas se liberta idealmente, isto \u00e9, a realiza\u00e7\u00e3o da liberdade s\u00f3 ocorre no plano do Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Portanto, o trabalho \u00e9 a melhor e a pior das coisas: a melhor, se \u00e9 livre (n\u00e3o alienado); a pior, se \u00e9 escravo (alienante).<\/p>\n<p>O trabalho criativo \u00e9, em si mesmo, prazer, independentemente das vantagens imediatas dele extra\u00eddo por exploradores.<\/p>\n<p>A maioria dos homens, para viver, consome a maior parte do tempo no trabalho.<\/p>\n<p>O pouco de liberdade de sobra angustia-os de modo tal a procurar por todos os meios de se livrar dela, atrav\u00e9s do t\u00e9dio ou do v\u00edcio. Lembra: \u201c\u00e9 melhor morrer de vodka em vez de t\u00e9dio\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 homem completo \u00e0 margem do trabalho criador, seja no \u00f3cio, seja em trabalho alienado. Nesse ele n\u00e3o tem interesse pelo produto criado.<\/p>\n<p>Essa consci\u00eancia \u00e9 adquirida pelo sujeito trabalhador atrav\u00e9s de longo processo te\u00f3rico e pr\u00e1tico de luta contra sua aliena\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. A concep\u00e7\u00e3o hegeliana do trabalho, embora tenha seu m\u00e9rito obscurecido por ser uma concep\u00e7\u00e3o espiritualista, significa uma descoberta profunda: a do papel da pr\u00e1xis produtiva na forma\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>Dedu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica: os trabalhadores ganham a vida atrav\u00e9s do trabalho criativo e n\u00e3o alienante.<\/p>\n<p>Buscam prazer e encanto nele como fossem um artes\u00e3o a empregar todo seu conhecimento e sua habilidade em seu of\u00edcio. Tendo o reconhecimento profissional, no mercado de trabalho, s\u00e3o capazes de defender o poder aquisitivo da sobra de suas rendas no mercado financeiro sem a ilus\u00e3o de terem um dote (\u201ca sorte do iniciante\u201d) para se enriquecerem no mercado de capitais. O uso consciente do acesso \u00e0 cidadania financeira \u00e9 a acumula\u00e7\u00e3o de juros recebidos, capitalizando o poder de ganho pessoal com seu capital humano, e n\u00e3o o pagamento de juros ao capital financeiro. S\u00f3.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/Dedo-na-Ferida-Discurso-da-Servidao-Voluntaria\/4\/42117<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Nogueira da Costa &#8211; No passado, uma s\u00e9rie de lutas de trabalhadores conseguiu a estabiliza\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho em oito horas di\u00e1rias. No s\u00e9culo XIX, chegou a alcan\u00e7ar 16 horas por dia. 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