{"id":9395,"date":"2018-10-19T22:25:21","date_gmt":"2018-10-20T01:25:21","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9395"},"modified":"2018-10-19T22:22:22","modified_gmt":"2018-10-20T01:22:22","slug":"moedas-e-metamorfoses-da-globalizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/10\/19\/moedas-e-metamorfoses-da-globalizacao\/","title":{"rendered":"Moedas e metamorfoses da globaliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Reda\u00e7\u00e3o<\/strong> &#8211;\u00a0Imers\u00e3o dolorosa das \u201cemergentes\u201d. N\u00e3o \u00e9 assim que os capitalistas chamam as economias dominadas do sistema imperialista? Agora todas elas sofrem com a terr\u00edvel amea\u00e7a de derretimento das suas in\u00fateis moedas inconvers\u00edveis.<\/p>\n<p>Na semana passada, in\u00fameras grandes economias dominadas ainda se debatiam com turbul\u00eancias cambiais nunca dantes navegadas. Alguma coisa est\u00e1 fora da velha ordem mundial dos \u00faltimos setenta anos.<\/p>\n<p>Partindo de suas formas fenomenais mais sens\u00edveis. No economia brasileira, a segunda maior \u201cemergente\u201d do mundo, atr\u00e1s da China, o\u00a0<em>real<\/em>\u00a0come\u00e7a a se destacar na fila deste sinistro forno cremat\u00f3rio de moedas. Desvaloriza\u00e7\u00e3o de 6,2% em menos de sete dias. Fechou a semana cotado a R$ 4,12 por d\u00f3lar.<\/p>\n<p>No ano, a queda da moeda brasileira j\u00e1 \u00e9 de 20%. \u00a0 O terceiro pior desempenho dentre as principais divisas das imergentes. S\u00f3 n\u00e3o foi pior que o peso argentino e a lira turca \u2013 os dois \u00faltimos colocados na zona da degola destes at\u00f4nitos desqualificados do sistema.<\/p>\n<p>Aviso aos navegantes: com a forte desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial come\u00e7am a aparecer sinais de fuga de capitais at\u00e9 do Brasil, aparentemente t\u00e3o protegido contra ataques especulativos. Neste m\u00eas de agosto, segundo o Banco Central, o fluxo liquido negativo j\u00e1 alcan\u00e7a US$ 5,894 bilh\u00f5es. S\u00f3 na semana passada, sa\u00edram do pa\u00eds US$ 4,313 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Quase ningu\u00e9m mais acredita nos \u201cfundamentos mais robustos\u201d do Brasil para enfrentar novas turbul\u00eancias monet\u00e1rias internacionais. \u00a0 Os pr\u00f3prios economistas do imperialismo sediados no Brasil, como Arm\u00ednio Fraga e outros eunucos do mercado est\u00e3o dizendo nesta semana que as amea\u00e7as sobre a economia brasileira s\u00e3o maiores agora do que em 2001 e 2002, quando a economia argentina derreteu e a brasileira quase foi arrastada junto.<\/p>\n<p>S\u00f3 n\u00e3o dizem por que isso acontece. Antes de falar de fatores econ\u00f4micos e pol\u00edticos dom\u00e9sticos ou de um impreciso \u201ccont\u00e1gio de moedas\u201d, como prioriza o senso econ\u00f4mico vulgar, \u00e9 recomend\u00e1vel, em nome da boa teoria econ\u00f4mica, tratar da natureza de um misterioso risco geral comandando os fluxos de capitais na periferia.<\/p>\n<p>Esse risco geral, embora de maneira absolutamente intuitiva, n\u00e3o passa despercebido para alguns homens de mercado melhor posicionados na hierarquia banc\u00e1ria mundial. Como Jeremy Hale, chefe da equipe de aplica\u00e7\u00e3o global de capitais do Citi Bank. \u201c Por hora, com os mercados emergentes ainda precisando lidar com fatores como as condi\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias na China e risco de mais sa\u00eddas de capital, consideramos prudente mover nossa exposi\u00e7\u00e3o para o degrau \u2018- 1\u2019, uma posi\u00e7\u00e3o \u2018abaixo da neutra\u2019 para esses emergentes\u201d.<\/p>\n<p>Esta \u201cavers\u00e3o ao risco\u201d nos chamados mercados emergentes tem aumentando de maneira mais marcante desde o segundo trimestre deste ano. No centro desse movimento encontra-se a preocupa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m crescente com as consequ\u00eancias dos conflitos comerciais entre EUA e China.<\/p>\n<p>Os dois dias de negocia\u00e7\u00f5es entre EUA e China, na semana passada, que observam no boletim anterior, resultaram em um tiro n\u2019\u00e1gua. \u201cConclu\u00edmos dois dias de discuss\u00f5es com as contrapartes da China e trocamos opini\u00f5es sobre como alcan\u00e7ar equil\u00edbrio, justi\u00e7a e reciprocidade nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas\u201d, disse a porta-voz da Casa Branca, Lindsay Walters.<\/p>\n<p>Pouca gente no mercado acredita que o \u201cmaluco\u201d Donald Trump cumpra formalmente suas amea\u00e7as e possa aplicar tarifas protecionista sobre as importa\u00e7\u00f5es chinesas no valor de US$ 500 bilh\u00f5es. O total anual das importa\u00e7\u00f5es estadunidenses da China (US$ 430 bilh\u00f5es) nem \u00e9 suficiente para tanta viol\u00eancia verbal.<\/p>\n<p>O mais importante \u00e9 o seguinte: existe uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica interna muito confort\u00e1vel aos capitalistas nos EUA. E isso lhes permite prorrogar por mais algum tempo press\u00f5es comerciais mais dr\u00e1sticas sobre a China.<\/p>\n<p>O mais prov\u00e1vel \u00e9 que, apesar do barulho destas espetaculares amea\u00e7as, esse conflito comercial pode ser amenizado e novos acordos bilaterais podem ser fechados proximamente. Como j\u00e1 foi feito com a Uni\u00e3o Europeia e agora, nesta segunda-feira (27), com o M\u00e9xico.<\/p>\n<p>NAFTA sem o Canad\u00e1! A arena imperialista torna-se cada vez mais um espa\u00e7o exclusivo de profissionais.<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 muito claro se esse inesperado \u201cNAFTA sem o Canad\u00e1\u201d ainda ter\u00e1 que ser aprovado pelo Congresso. A Casa Branca afirma que o acordo apenas mudou de nome. Sem necessidade de aprova\u00e7\u00e3o do Capit\u00f3lio. Cinismo de Roma, quer dizer, de Washington.<\/p>\n<p>Mas para o mercado isso \u00e9 o de menos. O que importa \u00e9 que o simples an\u00fancio deste novo acordo \u2013 que submete ainda mais o miser\u00e1vel e desarmado M\u00e9xico \u00e0s necessidades dos capitalistas estadunidenses \u2013 fez as a\u00e7\u00f5es das empresas negociadas nas bolsas de valores em todo o mundo, em Wall Street em particular, atingirem n\u00edveis exuberantes de valoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que conta para a consci\u00eancia dos capitalistas de todo o mundo \u00e9 que eles est\u00e3o ganhando oceanos de lucros com a expans\u00e3o econ\u00f4mica nos EUA. Mais do que nas chamadas \u201ceconomias emergentes\u201d e at\u00e9 mesmo que nas demais economias dominantes do G-7 \u2013 Alemanha, Jap\u00e3o, Inglaterra, Fran\u00e7a, It\u00e1lia e Canad\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c9 essa expans\u00e3o fortemente centralizada nos EUA que ainda mantem todas as demais economias do mundo \u00e0 tona. Nestas condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis aos capitalistas estadunidenses uma guerra comercial de terra arrasada com quem quer que seja seria ainda muito prematura. Fica agendada para o encerramento do atual per\u00edodo de expans\u00e3o.<\/p>\n<p>Um profundo conflito de classes sociais e de rivalidades imperialistas comanda este processo de superprodu\u00e7\u00e3o de capital. A atual exuber\u00e2ncia estadunidense n\u00e3o \u00e9 apenas uma neutra bolha especulativa. Ela ocorre em todas as esferas da sua economia. Principalmente na ind\u00fastria produtora de valor e de mais-valia.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que sua taxa oficial de desemprego \u00e9 de menos de 4% da massa de trabalhadores. \u00c9 uma das mais baixas dos \u00faltimos setenta anos. O atual per\u00edodo de expans\u00e3o j\u00e1 alcan\u00e7ou uma situa\u00e7\u00e3o de quase pleno-emprego.<\/p>\n<p>E o mais importante: pleno-emprego da for\u00e7a de trabalho com a perman\u00eancia de um renitente congelamento salarial. Que j\u00e1 dura quase trinta anos. Arrocho salarial e muito alongamento da jornada de trabalho, trabalho parcial, intermitente, etc..<\/p>\n<p>Isso muda a cara da globaliza\u00e7\u00e3o ocorrida no p\u00f3s-guerra. O mais not\u00e1vel do atual per\u00edodo de expans\u00e3o c\u00edclica \u00e9 que essa cria\u00e7\u00e3o de novos espa\u00e7os de valoriza\u00e7\u00e3o do capital com extors\u00e3o de mais-valia absoluta, dentro do territ\u00f3rio das economias do G7, j\u00e1 rivalizam com sua tradicional predomin\u00e2ncia de extors\u00e3o na forma de mais-valia relativa.<\/p>\n<p>A unidade da mais-valia absoluta e relativa se realiza com mais for\u00e7a no interior das economias imperialistas. Isso foi poss\u00edvel porque o ex\u00e9rcito industrial de reserva se globalizou efetivamente, realmente, n\u00e3o mais apenas como um ideal capitalista (Smith, Ricardo\u2026).<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia realmente capitalista da classe oper\u00e1ria se homogene\u00edza muito mais velozmente no mercado mundial. Isso destr\u00f3i qualquer veleidade pol\u00edtica dos reformistas sociais, muito ativos nos \u00faltimos setenta anos de paz dos cemit\u00e9rios do ultra-imperialismo.<\/p>\n<p>O ideal das improdutivas classes m\u00e9dias assalariadas do Estado social de administra\u00e7\u00e3o da luta de classes do p\u00f3s-guerra se desmancha na marcha for\u00e7ada de supera\u00e7\u00e3o dos ciclos peri\u00f3dicos de superprodu\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>A pauperiza\u00e7\u00e3o chinesa, brasileira, indiana, etc. invade as casas mais requintadas do centro imperialista. As tens\u00f5es sociais aumentam. E as guerras comerciais sobem junto.<\/p>\n<p>Estranho resultado deste gigantesco aprofundamento da globaliza\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos quarenta anos: ao inv\u00e9s da economia chinesa ficar mais parecida com as economias centrais, ocorreu exatamente o contr\u00e1rio \u2013 as economias centrais \u00e9 que ficaram mais parecidas com a chinesa.<\/p>\n<p>A internacional do capital revela-se para a opini\u00e3o p\u00fablica particularmente sens\u00edvel \u00e0s \u201cdesigualdades\u201d o que ela sempre foi: um processo de nivelamento social por baixo. Um processo de pauperiza\u00e7\u00e3o absoluta e planet\u00e1ria. Ningu\u00e9m escapa. Isto pode ser comprovado com mais clareza desde a \u00faltima recupera\u00e7\u00e3o c\u00edclica, ocorrida exatamente no segundo trimestre de 2009.<\/p>\n<p>Como resultado, pode-se afirmar sem muito risco de erro que neste curso dos \u00faltimos nove anos de expans\u00e3o global o custo unit\u00e1rio da for\u00e7a de trabalho na economia estadunidense (n\u00e3o confundir com sal\u00e1rio real, por favor) caiu abaixo do chin\u00eas. E da maioria das economias emergentes.<\/p>\n<p>J\u00e1 tratamos h\u00e1 mais de quatro anos, em nossos boletins, os dados concretos desta evolu\u00e7\u00e3o das diferentes produtividades e custos internacionais entre dominantes e dominadas.<\/p>\n<p>Produtividade e pre\u00e7os. Essa \u00e9 a chave da quest\u00e3o. No novo acordo EUA\/M\u00e9xico, por exemplo, uma cl\u00e1usula muito ilustrativa (e altamente engenhosa) do que estamos falando. Os EUA imp\u00f5em a obriga\u00e7\u00e3o por parte das montadoras de fabricar ao menos 75% de um autom\u00f3vel na Am\u00e9rica do Norte para ficarem isentas de tarifas. A porcentagem anterior era de 62,5%.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m precisar\u00e3o ter de 40 a 45% de um autom\u00f3vel feito por trabalhadores que ganhem ao menos US$ 16 por hora (cerca de R$ 65). No M\u00e9xico, os trabalhadores das montadoras n\u00e3o ganham mais que US$ 3 por hora.<\/p>\n<p>A elevad\u00edssima produtividade dos trabalhadores em territ\u00f3rio estadunidense compensa mais que proporcionalmente a diferen\u00e7a dos sal\u00e1rios reais com os trabalhadores que fazem a mesma tarefa no territ\u00f3rio mexicano. E assim o custo unit\u00e1rio do trabalho nos EUA pode ficar abaixo do seu correspondente mexicano.<\/p>\n<p>O governo estadunidense garante mais empregos para os trabalhadores que vendem sua for\u00e7a de trabalho nos EUA e mais lucro para os seus capitalistas que seguirem as regras do acordo. O mesmo c\u00e1lculo n\u00e3o pode ser feito na rela\u00e7\u00e3o de custos e pre\u00e7os de EUA e Canad\u00e1, que \u00e9 muito equivalente.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, Donald Trump pode ser maluco, mas tamb\u00e9m (ou talvez por isso) \u00e9 muito esperto. Essa cl\u00e1usula dos US$ 16 por hora est\u00e1 sendo elogiada pelos sindicatos estadunidenses como uma grande conquista na sua luta por empregos. A popularidade do nacionalista e patriota Donald Trump aumenta.<\/p>\n<p>O governo chin\u00eas deve se preparar para quando Washington cham\u00e1-lo para acertar o seu acordo bilateral. Deve achar sem mais demora um jeito de evitar que Trump imponha \u00e0 China essa mesma cl\u00e1usula de sal\u00e1rio de US$ 16 por hora imposta ao M\u00e9xico. Caso contr\u00e1rio, esses burocratas de Pequim estar\u00e3o aceitando seu pr\u00f3prio fim, pois essa singela cl\u00e1usula simplesmente explodiria as bases materiais do seu horroroso \u201csocialismo de mercado\u201d.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0s metamorfoses da globaliza\u00e7\u00e3o. A grande inova\u00e7\u00e3o imperialista de produzir nos EUA, Europa e Jap\u00e3o massas gigantescas de mais-valia absoluta, at\u00e9 agora marca registrada das economias dominadas da periferia, torna-se tamb\u00e9m eficiente ant\u00eddoto \u00e0 tend\u00eancia \u00e0 queda da taxa geral de lucro e contribui, em grande medida, para a excepcional longevidade do atual per\u00edodo de expans\u00e3o c\u00edclica.<\/p>\n<p>Mas essas metamorfoses criam tamb\u00e9m, como vimos no exemplo acima de produtividade e pre\u00e7os no acordo EUA\/M\u00e9xico, uma situa\u00e7\u00e3o incontorn\u00e1vel de inferioridade competitiva das economias dominadas frente \u00e0s economias dominantes. Esse \u00e9 um fator importante para explicar por que \u00e9 nestas \u00faltimas que o risco cambial geral do atual per\u00edodo de superprodu\u00e7\u00e3o e crise aparece primeiro.<\/p>\n<p>Ocorre ent\u00e3o um resultado inevit\u00e1vel nestas economias dominadas. Simultaneamente a uma exuberante expans\u00e3o c\u00edclica na economia de ponta do sistema, observa-se uma cr\u00f4nica desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico, fuga de capitais e, como resultado mais vis\u00edvel para o grande p\u00fablico, a atual amea\u00e7a de derretimento das moedas nacionais nas maiores economias emergentes da periferia.<\/p>\n<p>Essa s\u00edndrome da economia do imperialismo acontece de forma particular na China. Veremos a seguir, para ilustrar esta enfermidade, como uma grave desacelera\u00e7\u00e3o conjuntural j\u00e1 se desenrola neste \u201cch\u00e3o de f\u00e1brica do mundo\u201d de validade vencida e em vias de fal\u00eancia m\u00faltipla dos \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>http:\/\/criticadaeconomia.com.br\/moedas-e-metamorfoses-da-globalizacao\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reda\u00e7\u00e3o &#8211;\u00a0Imers\u00e3o dolorosa das \u201cemergentes\u201d. N\u00e3o \u00e9 assim que os capitalistas chamam as economias dominadas do sistema imperialista? Agora todas elas sofrem com a terr\u00edvel amea\u00e7a de derretimento das suas in\u00fateis moedas inconvers\u00edveis. Na semana passada, in\u00fameras grandes economias dominadas ainda se debatiam com turbul\u00eancias cambiais nunca dantes navegadas. 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