{"id":9377,"date":"2018-10-19T15:32:15","date_gmt":"2018-10-19T18:32:15","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9377"},"modified":"2018-10-19T15:33:15","modified_gmt":"2018-10-19T18:33:15","slug":"a-economia-politica-do-fascismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/10\/19\/a-economia-politica-do-fascismo\/","title":{"rendered":"A Economia Pol\u00edtica do fascismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz Filgueiras<\/strong> &#8211; O fascismo mais evidente, explicitado politicamente, tende a vir \u00e0 tona em conjunturas econ\u00f4micas dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Nos anos 1930, d\u00e9cada da maior crise econ\u00f4mico-social j\u00e1 ocorrida no capitalismo, o mundo se viu \u00e0s voltas com o surgimento e crescimento do nazismo na Alemanha e de ideias e movimentos fascistas, que acabaram por assumir o poder em diversos pa\u00edses \u2013 principalmente na Europa, mas n\u00e3o exclusivamente.<\/p>\n<p>A sua consequ\u00eancia mais imediata foi a instala\u00e7\u00e3o nesses pa\u00edses de regimes ditatoriais (Estados policiais), que destru\u00edram o Estado de direito t\u00edpico das democracias liberais: fechamento ou controle dos parlamentos, subordina\u00e7\u00e3o do judici\u00e1rio \u00e0s necessidades do regime de exce\u00e7\u00e3o, extin\u00e7\u00e3o da liberdade de imprensa e de opini\u00e3o, suspens\u00e3o das garantias individuais do cidad\u00e3o, proibi\u00e7\u00e3o de reuni\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o sindical e partid\u00e1ria e, no limite, pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, torturas e assassinatos.<\/p>\n<p>O seu desdobramento mais delet\u00e9rio foi a Segunda Guerra Mundial, que envolveu praticamente todos os pa\u00edses e regi\u00f5es do planeta, resultando em 50 milh\u00f5es de mortos, com a chacina e o genoc\u00eddio assombroso de popula\u00e7\u00f5es civis, em especial judeus, ciganos e outras minorias \u00e9tnicas, homossexuais e deficientes f\u00edsicos e mentais. Ao final do conflito (1945), o nazismo e o fascismo foram derrotados em todas as frentes (apesar de sua sobrevida em Portugal e na Espanha); mas logo a seguir instalou-se a chamada Guerra Fria, entre o capitalismo (com o seu Estado de bem-estar social nos pa\u00edses centrais, mas n\u00e3o na periferia) e o socialismo sovi\u00e9tico \u2013 disputa encerrada pelo desmoronamento interno deste \u00faltimo, no in\u00edcio dos anos 1990.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, entrou-se em um per\u00edodo de hegemonia absoluta do imperialismo dos Estados Unidos, apoiado no ide\u00e1rio neoliberal e acompanhado pelos processos de reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva e financeiriza\u00e7\u00e3o do capitalismo em escala mundial; ambos difundidos pela mundializa\u00e7\u00e3o do capital (a chamada globaliza\u00e7\u00e3o). Os resultados da\u00ed decorrentes foram ficando cada vez mais expl\u00edcitos com as sucessivas crises econ\u00f4micas; primeiro nos pa\u00edses perif\u00e9ricos (anos 1990) e em 2008 no centro do capitalismo (os Estados Unidos).<\/p>\n<p>Ao lado dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos at\u00e9 ent\u00e3o inimagin\u00e1veis e do extraordin\u00e1rio crescimento da riqueza material, evidenciou-se o aumento escandaloso da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza e da renda em quase todos os pa\u00edses, crescimento da pobreza, distanciamento cada vez maior entre os pa\u00edses centrais (ditos desenvolvidos) e os pa\u00edses perif\u00e9ricos (subdesenvolvidos), eleva\u00e7\u00e3o do desemprego estrutural e precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, desmoraliza\u00e7\u00e3o da democracia liberal (dos parlamentos e pol\u00edticos profissionais, dos judici\u00e1rios e seus agentes, da m\u00eddia corporativa dominada pela plutocracia). Tudo isso acompanhado pela criminaliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, xenofobia, homofobia, misoginia, racismo e\u2026\u00a0<i>a volta do fascismo<\/i>\u00a0\u2013 no mundo e no Brasil.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo e escritor italiano, Umberto Eco, constatou, acertadamente, que o nazismo foi uma experi\u00eancia \u00fanica, localizada na Alemanha na primeira metade do s\u00e9culo XX; diferentemente do fascismo, que existiu, e pode existir e se reproduzir, de v\u00e1rias maneiras e formas em distintos lugares e \u00e9pocas. Mas, ao falarmos de fascismos, no plural, estamos afirmando tamb\u00e9m que existe um \u201cn\u00facleo duro\u201d comum a todos eles que os igualam. Ent\u00e3o, quais seriam as caracter\u00edsticas ou atributos que definem qualquer tipo de fascismo? A resposta a essa quest\u00e3o \u00e9 decisiva, condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria embora n\u00e3o suficiente, para compreendermos fen\u00f4menos como, entre outros, Trump nos Estados Unidos, a Frente Nacional na Fran\u00e7a, a Liga Lombarda na It\u00e1lia e Jair Bolsonaro no Brasil; bem como termos a exata no\u00e7\u00e3o e dimens\u00e3o do perigo e do fantasma que amea\u00e7am atualmente a conviv\u00eancia civilizada nas sociedades contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>O fascismo mais evidente, explicitado politicamente, tende a vir \u00e0 tona em conjunturas econ\u00f4micas dif\u00edceis (como a brasileira atualmente e o centro do capitalismo desde meados dos anos 2000) de crise (desemprego, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, queda da renda e aumento da pobreza) que penaliza a maioria da sociedade, especialmente os grupos e camadas que caem na escala social: que descem econ\u00f4mica e socialmente, que mudam para pior o seu\u00a0<i>status<\/i>\u00a0social. \u00c9 principalmente nessa parte da popula\u00e7\u00e3o, atingida pela crise de modo particular, e tamb\u00e9m entre aqueles que, potencialmente, podem vir a cair, que o fascismo pode proliferar e recrutar seus apoiadores.<\/p>\n<p>Essa hecatombe social, que atinge duramente o modo de vida desses indiv\u00edduos, \u00e9 sentida como uma derrota pessoal e uma enorme injusti\u00e7a (o que de fato \u00e9); sentimento que pode (n\u00e3o necessariamente, portanto) ser transformado em rancor, ressentimento e \u00f3dio contra o\u00a0<i>status quo\u00a0<\/i>(o sistema vigente) \u2013 qualquer que seja este \u00faltimo. O fascismo apelar\u00e1 a esse grupo de \u201cperdedores\u201d frustrados com um conjunto de ideias e sentimentos difusos e confusos, como explica\u00e7\u00e3o para a situa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel em que se encontram \u2013 ignorando e obscurecendo as raz\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es mais profundas do desenvolvimento capitalista, que levaram \u00e0 crise.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o fascismo traz um apelo fortemente emocional contra o \u201coutro\u201d: imigrantes, minorias \u00e9tnicas (como ciganos), judeus, comunistas, homossexuais, negros, nordestinos no caso do Brasil, mulheres independentes e\/ou feministas (misoginia), vagabundos e marginais de todo tipo, moradores de rua, sem teto, sem terra etc. Tudo misturado, o \u201coutro\u201d \u00e9 o respons\u00e1vel (culpado) direto, ou indireto, pela situa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel vivida pelo indiv\u00edduo, o perigo a ser combatido \u2013 devendo ser negado liminarmente e, se poss\u00edvel, ser eliminado simb\u00f3lica e\/ou fisicamente.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, exatamente pelo fato do \u201coutro\u201d ser t\u00e3o heterog\u00eaneo, os argumentos pol\u00edticos contra ele, que procuram desqualific\u00e1-lo e criminaliz\u00e1-lo, s\u00e3o sempre toscos, confusos e contradit\u00f3rios, prim\u00e1rios, quase infantis. Por isso, a racionalidade e a coer\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o o forte do fascismo; o que o leva a mobilizar seus potenciais adeptos (o fascismo \u00e9 fortemente mobilizador!) apelando para o senso comum e sentimentos\/emo\u00e7\u00f5es irracionais \u2013 que n\u00e3o s\u00e3o pass\u00edveis de serem entendidos nem explicados minimamente de forma l\u00f3gica. Essa caracter\u00edstica se expressa, de forma inequ\u00edvoca, no l\u00edder fascista \u2013 que encarna toda a irracionalidade dessa ideologia regressiva.<\/p>\n<p>Por fim, o fascismo, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 autorit\u00e1rio e antidemocr\u00e1tico pela pr\u00f3pria natureza: n\u00e3o admite a presen\u00e7a e a participa\u00e7\u00e3o do \u201coutro\u201d, podendo, no limite, fazer uso de viol\u00eancia paramilitar. Tem como um dos seus principais aliados os sentimentos de \u201craiva\u201d, \u201cmedo\u201d e \u201cinseguran\u00e7a\u201d: raiva dos que deca\u00edram socialmente e medo e inseguran\u00e7a dos que ainda n\u00e3o desceram na escala social, mas se sentem amea\u00e7ados (de fato ou subjetivamente). E, para coroar, apresenta solu\u00e7\u00f5es simpl\u00f3rias (e perigosas) para problemas complexos, solu\u00e7\u00f5es compat\u00edveis com o senso comum e a diminuta capacidade intelectual de seus militantes e potenciais apoiadores, movidos fundamentalmente por emo\u00e7\u00f5es negativas (rancor, \u00f3dio e inveja). Exemplo: propor que a popula\u00e7\u00e3o adquira armas, como resposta \u00e0 inseguran\u00e7a e criminalidade.<\/p>\n<p>No Brasil, na atual conjuntura, o fascismo, al\u00e9m de apresentar as caracter\u00edsticas listadas acima, se constitui tamb\u00e9m de uma mistura bizarra de moralismo (no \u00e2mbito do comportamento, dos costumes e da cultura), fundamentalismo m\u00e1gico-religioso reacion\u00e1rio (difundido principalmente, mas n\u00e3o apenas, por variadas denomina\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas), ideologia da meritocracia e do empreendedorismo (avessa \u00e0s pol\u00edticas sociais, aos impostos e a tudo que \u00e9 p\u00fablico), nega\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e apelo \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0s formas mais extremadas de repress\u00e3o policial (justificadas pela necessidade de seguran\u00e7a), e exalta\u00e7\u00e3o do individualismo, da competi\u00e7\u00e3o e do mercado como valores maiores da vida social. \u00c9 o fascismo brasileiro da era neoliberal, com fortes v\u00ednculos religiosos, abertamente pr\u00f3-capital e que tem apoio e express\u00e3o importante no \u00e2mbito das institui\u00e7\u00f5es do Poder Judici\u00e1rio e do Minist\u00e9rio P\u00fablico \u2013 que vem contribuindo, juntamente com a \u201cdireita moderna neoliberal\u201d, para legitimar a constru\u00e7\u00e3o de um Estado de exce\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, cuja ponta de lan\u00e7a, operacional e simb\u00f3lica, \u00e9 a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato.<\/p>\n<p>Essa estranha mistura ideol\u00f3gica amplia, para al\u00e9m dos \u201cperdedores\u201d, os segmentos sociais potencialmente sens\u00edveis ao fascismo; em especial atinge parte daqueles que conseguiram ascender socialmente (tiveram sucesso) na Era Lula (regredindo ou n\u00e3o posteriormente), mas que acreditam que isso ocorreu exclusivamente por esfor\u00e7o individual e m\u00e9rito pr\u00f3prio, sem qualquer v\u00ednculo com pol\u00edticas p\u00fablicas, e cuja sociabilidade se d\u00e1 fundamentalmente atrav\u00e9s da religi\u00e3o \u2013 e n\u00e3o, ou muito secundariamente, atrav\u00e9s do trabalho.<\/p>\n<p>Nesse segmento de \u201cclasse m\u00e9dia baixa\u201d, o sucesso econ\u00f4mico-social, sempre individual, \u00e9 justificado pelo merecimento (a teologia da prosperidade), um pr\u00eamio (uma ben\u00e7\u00e3o) de Deus \u00e0queles que trabalham disciplinadamente e que seguem os seus ensinamentos (os da igreja). Os que n\u00e3o conseguem obter sucesso (a maioria) \u00e9 porque n\u00e3o se esfor\u00e7aram o suficiente e, por isso, n\u00e3o t\u00eam o merecimento e a chancela de Deus. A experi\u00eancia individual \u00e9 extrapolada, indevidamente, para o conjunto da sociedade atrav\u00e9s da ideologia da meritocracia, associada tamb\u00e9m a uma esp\u00e9cie de teologia mercantil: uma troca interessada entre o Deus e o fiel (\u00e9 dando que se recebe).<\/p>\n<p>Adicionalmente, o \u201cfascismo brasileiro\u201d, na atual conjuntura pol\u00edtico-econ\u00f4mica, tamb\u00e9m tem forte apelo entre segmentos importantes da massa pobre marginalizada, totalmente precarizada e sem qualquer tipo de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (trabalhista, partid\u00e1ria etc.). E por fim, o seu atual candidato a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Jair Bolsonaro, sensibiliza parte da popula\u00e7\u00e3o jovem desinformada e despolitizada, mas que tem presen\u00e7a nas redes sociais e que enxerga nele um \u201ccomportamento supostamente transgressor\u201d, distinto dos demais pol\u00edticos profissionais \u2013 em geral desmoralizados.<\/p>\n<p>Aqui vale uma observa\u00e7\u00e3o importante: a maioria das pessoas que faz parte desses grupos, potencialmente sens\u00edveis na atual conjuntura, por diferentes raz\u00f5es, \u00e0 mensagem fascista, n\u00e3o s\u00e3o politico-ideologicamente fascistas. Na verdade, elas expressam uma decep\u00e7\u00e3o enorme com a sua condi\u00e7\u00e3o de trabalho e de vida, associada \u00e0 total descren\u00e7a com a pol\u00edtica institucional, os partidos e, no limite, a pr\u00f3pria democracia. Os sentimentos de inseguran\u00e7a (em todos os n\u00edveis) e impot\u00eancia conspiram contra a possibilidade de conceber planos e imaginar o futuro de suas trajet\u00f3rias de vida. Uma aus\u00eancia completa de perspectiva, restando apenas o aqui e o agora.<\/p>\n<p>Em suma, o fascismo, mais do que um credo pol\u00edtico, \u00e9 uma vis\u00e3o (pr\u00e1tica) social do mundo reacion\u00e1ria (anti-iluminista) e um modo de sociabilidade, que procura influenciar e dirigir a vida cotidiana das pessoas \u2013 separando-as em grupos dotados, segundo ele, de especificidades irredut\u00edveis. Na atual conjuntura brasileira ele vem acompanhado pelo racismo biol\u00f3gico e\/ou cultural (discriminando principalmente negros e nordestinos), machismo, misoginia e homofobia.<\/p>\n<p>Em qualquer lugar, o fascismo situa-se na extrema direita do espectro pol\u00edtico-ideol\u00f3gico e se caracteriza pela defesa da propriedade privada de forma absoluta e do capitalismo \u2013 sendo visceralmente anticomunista ou mesmo antisocialdemocrata. Por isso, a depender das circunst\u00e2ncias (como na It\u00e1lia fascista de Mussolini), pode ser utilizado e apoiado pelo grande capital (hoje, a grande burguesia financeirizada) \u2013 quando este se sente fortemente amea\u00e7ado em seus interesses de classe. Reuni\u00f5es recentes de Bolsonaro com agentes do capital financeiro e grandes empres\u00e1rios aplaudindo, rindo e se divertindo s\u00e3o sintom\u00e1ticas: Mussolini e Hitler, histri\u00f4nicos como Bolsonaro, no in\u00edcio tamb\u00e9m eram considerados irrelevantes, \u201cfolcl\u00f3ricos\u201d e engra\u00e7ados, quase que palha\u00e7os (com o perd\u00e3o destes). Na sequ\u00eancia, a hist\u00f3ria se mostrou tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Antifascismo\/A-Economia-Politica-do-fascismo\/47\/42047<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Filgueiras &#8211; O fascismo mais evidente, explicitado politicamente, tende a vir \u00e0 tona em conjunturas econ\u00f4micas dif\u00edceis. 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