{"id":9301,"date":"2018-10-11T17:45:26","date_gmt":"2018-10-11T20:45:26","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9301"},"modified":"2018-10-10T12:35:23","modified_gmt":"2018-10-10T15:35:23","slug":"radicalizacao-nas-redes-sociais-e-sintoma-de-algo-maior-diz-professora-de-columbia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/10\/11\/radicalizacao-nas-redes-sociais-e-sintoma-de-algo-maior-diz-professora-de-columbia\/","title":{"rendered":"Radicaliza\u00e7\u00e3o nas redes sociais \u00e9 sintoma de algo maior, diz professora de Columbia"},"content":{"rendered":"<p><strong class=\"c-signature__author\">Nelson de S\u00e1 &#8211;\u00a0<\/strong>A radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em plataformas como\u00a0<a href=\"https:\/\/m.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/facebook\/?pg=4\">Facebook<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/tec\/2018\/08\/o-negocio-das-vendas-de-visualizacoes-no-youtube.shtml\">YouTube\u00a0<\/a>\u00e9 sintoma de algo muito maior, uma transforma\u00e7\u00e3o social semelhante \u00e0quela causada pela Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<\/p>\n<p>\u00c9 o que afirma Emily Bell, diretora do Centro Tow para o Jornalismo Digital, da Universidade Columbia, em Nova York, refer\u00eancia no estudo dos impactos das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas na m\u00eddia.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma mudan\u00e7a, por exemplo, nos termos do emprego&#8221;, explica. &#8220;Est\u00e1 rompendo todos os tipos de ind\u00fastria. E \u00e9 nessas transforma\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-demogr\u00e1ficas que a radicaliza\u00e7\u00e3o acontece.&#8221;<\/p>\n<p>Sobre as plataformas, propriamente, diz que as revela\u00e7\u00f5es sobre seu papel na elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump e outras v\u00eam sendo ben\u00e9ficas, por for\u00e7ar o Facebook, por exemplo, a se abrir e mudar.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 crise no modelo de neg\u00f3cios do jornalismo, resultante da ascens\u00e3o das plataformas, diz que &#8220;parte da equa\u00e7\u00e3o foi resolvida&#8221; e que hoje &#8220;as pessoas entendem que tem que ser pago&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Folha &#8211; H\u00e1 dois anos, logo ap\u00f3s a vota\u00e7\u00e3o do &#8220;<a href=\"https:\/\/m.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/brexit\/index.shtml\">brexit<\/a>&#8221; [desligamento do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia], voc\u00ea foi a primeira a escrever que n\u00e3o foram [o magnata] Rupert Murdoch e o [tabloide] Daily Mail, os vil\u00f5es tradicionais, que afetaram o resultado, e sim a m\u00eddia social. Aquele foi um primeiro sinal do que estava por vir, nos EUA e noutros lugares?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Emily Bell &#8211;\u00a0<\/strong>Os h\u00e1bitos de consumo das pessoas vinham mudando drasticamente entre 2012 e 2016. O resultado do &#8220;brexit&#8221; foi certamente a primeira vez em que tivemos uma decis\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3xima em que o papel da informa\u00e7\u00e3o foi bastante significativo e diferente de como havia sido at\u00e9 ent\u00e3o, mesmo na elei\u00e7\u00e3o imediatamente anterior. Essa mudan\u00e7a no comportamento do consumidor teve impacto marcante nas publica\u00e7\u00f5es individuais. As pessoas ainda est\u00e3o lendo aqueles ve\u00edculos &#8220;mainstream&#8221; mais que qualquer outra coisa. Mas \u00e9 um tipo muito diferente de experi\u00eancia, quando seu &#8220;feed&#8221; \u00e9 dividido em publica\u00e7\u00f5es individuais, quando voc\u00ea est\u00e1 sendo segmentado de maneiras que desconhece, por anunciantes ou at\u00e9 por for\u00e7as fora do ambiente de m\u00eddia normal.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"img-responsive\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/09\/24\/15378382275ba98c9351dea_1537838227_3x2_md.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\" \" \/><\/p>\n<p><strong>Facebook e outras plataformas est\u00e3o removendo perfis de extrema direita em massa, n\u00e3o s\u00f3 nos EUA, mas aqui no Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>Sim.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acredita que \u00e9 um movimento necess\u00e1rio, at\u00e9 urgente, ou que \u00e9 movido pelo p\u00e2nico das empresas de tecnologia, com elei\u00e7\u00f5es t\u00e3o pr\u00f3ximas?<\/strong><br \/>\nBem, elas foram ing\u00eanuas na forma como estavam policiando suas plataformas anteriormente. E muitas vezes isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ideologia. No \u00faltimo ciclo eleitoral nos EUA, os sites partid\u00e1rios mais \u00e0 direita tendiam a ter mais material inventado do que outros tipos de sites. Tenho certeza de que isso tamb\u00e9m \u00e9 verdade para alguns sites da esquerda. Acho que as plataformas realmente acordaram para a ideia de que n\u00e3o se pode simplesmente deixar qualquer coisa circular. Mas voc\u00ea tamb\u00e9m tem ve\u00edculos menores de not\u00edcias tentando influenciar o voto, que n\u00e3o s\u00e3o meios de comunica\u00e7\u00e3o estabelecidos, e suas vozes podem ser incrivelmente valiosas. N\u00e3o devem ser erradicadas.<\/p>\n<p><strong>A extrema direita tem falado em censura.<\/strong>\u00a0As pessoas dizem que \u00e9 uma forma de censura pol\u00edtica, por causa da inerente tend\u00eancia liberal das empresas baseadas no Vale do Sil\u00edcio. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 quest\u00f5es de seguran\u00e7a da marca. O caso mais recente \u00e9 o de Alex Jones, que \u00e9 um te\u00f3rico de conspira\u00e7\u00e3o &#8211;e \u00e9 algu\u00e9m que vende suplementos vitam\u00ednicos e equipamentos de sobreviv\u00eancia, num neg\u00f3cio muito lucrativo. [risos] Sua maneira de levar as pessoas a comprar \u00e9 fazendo afirma\u00e7\u00f5es completamente ultrajantes. O que descobrimos \u00e9 que essas afirma\u00e7\u00f5es t\u00eam consequ\u00eancias muito desagrad\u00e1veis para as pessoas do mundo real, particularmente para os pais de Sandy Hook [escola onde um atirador matou 20 estudantes, em 2012, em epis\u00f3dio que Jones afirmou n\u00e3o ter acontecido].<\/p>\n<p>Se voc\u00ea \u00e9 uma grande plataforma e est\u00e1 atingindo os pais de crian\u00e7as assassinadas, isso vira um grande problema para a sua marca. H\u00e1 press\u00e3o externa de usu\u00e1rios, campanhas, at\u00e9 amea\u00e7as legais. Nesse ponto, isso se torna tanto uma decis\u00e3o empresarial quanto uma posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. \u00c9 por isso que vamos ver cada vez mais esse estreitamento [de publica\u00e7\u00e3o nas plataformas] do que parece aceit\u00e1vel. Talvez seja por vezes conseq\u00fc\u00eancia de consci\u00eancia social, mas acredito que seja mais consequ\u00eancia de raciocinar sobre quais s\u00e3o os riscos para o neg\u00f3cio.<\/p>\n<p><strong>Mas voc\u00ea diria que existe risco de censura mais adiante?<\/strong><br \/>\nAh, sim, acho que j\u00e1 existe risco de censura. Bem, vamos ser claros quanto ao termo. Essas plataformas t\u00eam poder enorme, mas n\u00e3o s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es governamentais, ent\u00e3o censura \u00e9 uma palavra pesada. \u00c9 oficial? \u00c9 algo que foi ordenado por governo ou entidade pol\u00edtica? \u00c9 um termo carregado, porque censura \u00e9 um termo pol\u00edtico. Mas existe o perigo de que as plataformas tomem decis\u00f5es que tenham impacto profundo no nosso ambiente de not\u00edcias? Elas j\u00e1 est\u00e3o tomando essas decis\u00f5es. Decidem o que \u00e9 direcionado, individualmente. Elas t\u00eam uma estrutura censora, que \u00e9 financeiramente motivada e dirigida.<\/p>\n<p><strong>E elas t\u00eam os Termos de Servi\u00e7o, os Padr\u00f5es da Comunidade.<\/strong><br \/>\nAs plataformas durante muito tempo estabeleceram padr\u00f5es e removeram material de maneira que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ou prontamente compreens\u00edvel. Se voc\u00ea observar por que os v\u00eddeos s\u00e3o retirados do YouTube, em muitos casos \u00e9 por viola\u00e7\u00e3o de direitos autorais, mas eles tamb\u00e9m podem ser removidos porque algu\u00e9m, como a pol\u00edcia ou algo assim, pediu. N\u00e3o h\u00e1 nenhum processo pelo qual nos digam por que aquilo que estava ali n\u00e3o est\u00e1 mais. Ent\u00e3o, acho que sim, haver\u00e1 mais curadoria ou edi\u00e7\u00e3o ou censura ou como voc\u00ea quiser chamar. \u00c9 absolutamente inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Mas voc\u00ea n\u00e3o tem se mostrado pessimista.<\/strong><br \/>\nO que \u00e9, se voc\u00ea quiser, mais otimista \u00e9 que come\u00e7amos a conversar. H\u00e1 projetos de pesquisa e monitoramento que agora estudam quais tipos de decis\u00f5es s\u00e3o tomadas pelas plataformas. E elas est\u00e3o sendo chamadas a mudar suas estruturas internas e seus mecanismos. N\u00f3s tivemos Jack Dorsey do Twitter e Mark Zuckerberg do Facebook, nos \u00faltimos meses, sendo mais expl\u00edcitos publicamente sobre o que est\u00e3o tentando fazer e como est\u00e3o tomando essas decis\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 nada menos democr\u00e1tico que esse conjunto de mecanismos e remo\u00e7\u00f5es. O exerc\u00edcio do poder estava acontecendo, s\u00f3 que as pessoas n\u00e3o sabiam ou n\u00e3o compreendiam. Foi o que vimos no ciclo eleitoral de 2016. Na verdade, tem sido um conjunto de revela\u00e7\u00f5es incrivelmente ben\u00e9fico, que for\u00e7ou todos a reavaliar.<\/p>\n<p><strong>O foco \u00e9 geralmente no Facebook e, em menor grau, no Twitter. Mas o Google, sobretudo o YouTube, tamb\u00e9m desempenha um papel. Como voc\u00ea avalia as mudan\u00e7as que t\u00eam sido introduzidas no YouTube?<\/strong>\u00a0Isso \u00e9 muito mais significativo do que se imagina. Quando se olha para m\u00eddia social, o Twitter \u00e9 muito usado por jornalistas, pol\u00edticos, mas n\u00e3o pela popula\u00e7\u00e3o em geral. O YouTube e o Facebook, certamente nos mercados americano e europeu, dominam. E o YouTube tem sido um problema fundamental, n\u00e3o apenas no pr\u00f3prio YouTube. N\u00e3o se pode olhar para nenhuma dessas plataformas separadamente. Precisa ver o alto n\u00edvel de &#8220;interruptibility&#8221; [capacidade de iniciar uma nova a\u00e7\u00e3o antes que a primeira a\u00e7\u00e3o tenha terminado] entre elas. Muitas pessoas no Facebook incorporam v\u00eddeos do YouTube. E algu\u00e9m que v\u00ea uma teoria conspirat\u00f3ria no YouTube vai pesquis\u00e1-la no Google, e o resultado se tornar\u00e1 parte do contexto da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as que o YouTube vem fazendo chegam muito atrasadas, e alguns dir\u00e3o que s\u00e3o realmente inadequadas. Esse YouTube, de certa forma, \u00e9 um problema ainda n\u00e3o-analisado. N\u00e3o sabemos o suficiente sobre os processos ou como um conte\u00fado \u00e9 retirado.<\/p>\n<p><strong>Ele tamb\u00e9m acabou removendo Alex Jones.<\/strong><br \/>\nNa verdade, outra coisa do YouTube que faz com que ele seja diferente \u00e9 o papel ativo que desempenha na valida\u00e7\u00e3o dos influenciadores ou curadores. Um canal como o de Alex Jones ganha um tipo de placa, dizendo: &#8220;Parab\u00e9ns, Infowars, por seu milh\u00e3o de assinantes&#8221;. [risos] \u00c9 diferente de uma empresa de telefonia. As pessoas argumentam que as plataformas tamb\u00e9m s\u00e3o s\u00f3 dutos, liga\u00e7\u00f5es, mas a sua companhia telef\u00f4nica nunca enviou um diploma dourado, dizendo: &#8220;Parab\u00e9ns, voc\u00ea teve um milh\u00e3o de chamadas&#8221;. [risos] O YouTube tem um relacionamento promocional com seus criadores. \u00c9 uma das frentes em que esperamos ver mudan\u00e7a. Se n\u00e3o for assim, que pelo menos sejam abertos sobre os processos, reconhecendo que desempenham um papel t\u00e3o importante nesse ecossistema.<\/p>\n<p><strong>O que faz as plataformas de m\u00eddia social, como Facebook ou YouTube, terem esse efeito de radicaliza\u00e7\u00e3o em tantas pessoas?<\/strong>\u00a0Eu penso que elas atraem e refor\u00e7am o extremismo como emo\u00e7\u00e3o. Moldam o entretenimento com uma indigna\u00e7\u00e3o que envolve as pessoas. \u00c9 a ideia de que o engajamento \u00e9 a m\u00e9trica mais importante: quanto mais voc\u00ea torna uma pessoa furiosa ou quanto mais deleite ela obt\u00e9m, melhor. Mas eu penso tamb\u00e9m que existe algo a\u00ed que \u00e9 bom. A participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 alavancada pela conectividade. Duvido que ter\u00edamos t\u00e3o rapidamente algo como a igualdade matrimonial, nos EUA, sem a visibilidade que os movimentos sociais obt\u00eam nessas plataformas.<\/p>\n<p>Por outro lado, a ruptura trazida pelas plataformas ao processo pol\u00edtico e ao jornalismo \u00e9 muito maior em outras partes. \u00c9 uma mudan\u00e7a social, por exemplo, nos termos do emprego. Est\u00e1 rompendo todos os tipos de ind\u00fastria, n\u00e3o s\u00f3 a m\u00eddia. E \u00e9 nessas transforma\u00e7\u00f5es mais significativas, s\u00f3cio-demogr\u00e1ficas, que a radicaliza\u00e7\u00e3o acontece. Estamos como que na pr\u00f3xima Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. No s\u00e9culo 19 na Europa, nos EUA e noutros lugares, houve essa enorme mudan\u00e7a socioecon\u00f4mica e, 50 anos depois, voc\u00ea tem a guerra. E tem movimentos sociais buscando endere\u00e7ar alguns dos problemas e das oportunidades criados pela ruptura.<\/p>\n<p><strong>Da\u00ed tamb\u00e9m o extremismo?<\/strong><br \/>\nEstamos passando pelo mesmo, agora. O extremismo que vimos no in\u00edcio do s\u00e9culo 20 reemerge, porque n\u00e3o temos um ambiente econ\u00f4mico, pol\u00edtico est\u00e1vel. A radicaliza\u00e7\u00e3o nas plataformas \u00e9 com certeza um sintoma ou parte de algo que \u00e9 muito maior.<\/p>\n<p><strong>O New York Times, com paywall e outras experi\u00eancias, \u00e9 visto como um farol para o jornalismo no mundo. Como voc\u00ea avalia as mudan\u00e7as que o jornal \u00a0tem feito em seu modelo de neg\u00f3cios nesta \u00faltima d\u00e9cada?<\/strong>\u00a0Seu modelo de neg\u00f3cios tem sido uma implementa\u00e7\u00e3o admir\u00e1vel da ideia de que voc\u00ea pode traduzir o que \u00e9 uma base de assinaturas impressas ainda extremamente s\u00f3lida para assinaturas digitais. \u00c9 algo de que eu duvidava profundamente em 2011, quando escrevemos [o relat\u00f3rio] &#8220;Post Industrial Journalism&#8221;, mas, \u00e0 medida que a tecnologia mudou, os aparelhos m\u00f3veis mudaram, os m\u00e9todos de pagamento mudaram, tudo tem feito uma grande diferen\u00e7a. Mas o NYT tamb\u00e9m se beneficiou tremendamente dessa transforma\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica no ambiente pol\u00edtico nos EUA. O &#8220;Trump bump&#8221; [salto nas assinaturas provocado pelo novo presidente] \u00e9 real.<\/p>\n<p>O teste de verdade para o modelo e o jornalismo ser\u00e1 o que acontecer nos pr\u00f3ximos tr\u00eas anos. Em outras palavras, o NYT pode transformar esse interesse e essa preocupa\u00e7\u00e3o s\u00fabita que as pessoas t\u00eam pelas not\u00edcias, com apoio \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas, em receitas sustent\u00e1veis e de longo prazo? O jornal est\u00e1 bem posicionado para isso, por causa de sua estrutura de propriedade, o fato de ter uma fam\u00edlia comprometida com ele a longo prazo, e tamb\u00e9m pelo fato de que j\u00e1 passou pelo momento mais extremo de remodela\u00e7\u00e3o interna.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acredita que essas experi\u00eancias podem ser replicadas?<\/strong><br \/>\nO NYT n\u00e3o pode ser exemplo para tudo. Ele tem um p\u00fablico de elite, de pessoas ricas, em termos globais, que pagam muito para l\u00ea-lo. O mesmo vale para o Wall Street Journal e o Financial Times. E n\u00e3o se esque\u00e7a de que existem outros por a\u00ed, que est\u00e3o se tornando tamb\u00e9m dependentes de receita dos leitores e que s\u00e3o promissores. Voc\u00ea pode olhar para os caminhos diferentes que o Guardian e a NPR est\u00e3o desenvolvendo e que tamb\u00e9m se saem bem, voltados para um p\u00fablico politicamente consciente e motivado. E temos que falar, por outro lado, sobre como manter jornalismo de qualidade para as comunidades onde as informa\u00e7\u00f5es precisam ser gratuitas, porque elas n\u00e3o v\u00e3o necessariamente pagar. Eu acho que \u00e9 um desafio maior. O modelo do NYT n\u00e3o vai funcionar l\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Onde ele funciona?<\/strong><br \/>\nParte da equa\u00e7\u00e3o foi resolvida para o que voc\u00ea poderia chamar de &#8220;Big J&#8221;, as grandes organiza\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas, e para aquelas de nicho, altamente segmentadas. Os efeitos para elas s\u00e3o os mesmos, na economia da informa\u00e7\u00e3o. Mas existe muita coisa entre esses p\u00f3los. \u00c9 o que vemos nos di\u00e1rios de tamanho m\u00e9dio nos EUA, que est\u00e3o sendo dizimados. Fizemos uma pesquisa desses jornais e voc\u00ea encontra hist\u00f3rias de esperan\u00e7a, s\u00f3 que muitas vezes os &#8220;publishers&#8221; s\u00e3o fundadores e t\u00eam motiva\u00e7\u00f5es diferentes. Podem ser sustent\u00e1veis no curto prazo, mas enfrentam problemas quando, por exemplo, tentam obter escala. Mas o quadro \u00e9 mais esperan\u00e7oso do que j\u00e1 foi. As pessoas entendem que existe valor em ter jornalismo em todos os n\u00edveis da sociedade. E entendem que tem que ser pago.<\/p>\n<p><strong>Com novo dono, o LA Times vem investindo, contratando. Como voc\u00ea avalia as experi\u00eancias com bilion\u00e1rios no Washington Post e outros?<\/strong>\u00a0Veja, eu venho do Reino Unido, onde temos uma tradi\u00e7\u00e3o de imprensa diversificada e muito robusta constru\u00edda em cima da fortuna de bilion\u00e1rios. Nos EUA agora h\u00e1 uma ansiedade compreens\u00edvel de que o livre mercado n\u00e3o funciona para o jornalismo. Na verdade, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o funciona, mas as metas que cobra e as grandes plataformas tecnol\u00f3gicas que projeta encorajam o oposto do jornalismo. Encorajam sensacionalismo, falsifica\u00e7\u00e3o. Nos EUA, essa ascens\u00e3o do bilion\u00e1rio interessado, com mentalidade filantropica ou c\u00edvica, colocando dinheiro no jornalismo, deixa as pessoas desconfort\u00e1veis. Mas \u00e9 aquilo: um bilion\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel, cem bilion\u00e1rios [risos] podem ser uma sa\u00edda desta situa\u00e7\u00e3o. Sem brincar [risos], acredito que o que esta ind\u00fastria realmente precisa \u00e9 do que chamamos de capital paciente, que vem de pessoas ricas, organiza\u00e7\u00f5es ricas. Pessoas que invistam sem esperar retorno no primeiro dia e que, mesmo no longo prazo, n\u00e3o esperem retorno muito alto sobre o investimento. E temos que manter um equil\u00edbrio entre esses bilion\u00e1rios interessados, sejam eles bem-intencionados ou n\u00e3o, as grandes organiza\u00e7\u00f5es de sucesso comercial e tamb\u00e9m aquilo que precisa estar dispon\u00edvel gratuitamente para todos, de forma regulada e transparente.<\/p>\n<p>Emily Bell, 53, \u00e9 desde 2010 a diretora do Centro Tow para o Jornalismo Digital, da Universidade Columbia, em Nova York. Antes, trabalhou por 20 anos nos jornais The Observer e The Guardian. A partir de 2000, comandou as inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas do grupo brit\u00e2nico, nas fun\u00e7\u00f5es de editora-chefe do site e depois diretora de conte\u00fado digital. Mant\u00e9m colunas no Guardian e na Columbia Journalism Review. Nascida em King&#8217;s Lynn, na Inglaterra, ela \u00e9 formada pela Christ Church, da Universidade de Oxford.<\/p>\n<p>https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2018\/09\/radicalizacao-nas-redes-sociais-e-sintoma-ou-parte-de-algo-muito-maior-diz-professora-de-columbia.shtml<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nelson de S\u00e1 &#8211;\u00a0A radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em plataformas como\u00a0Facebook\u00a0e\u00a0YouTube\u00a0\u00e9 sintoma de algo muito maior, uma transforma\u00e7\u00e3o social semelhante \u00e0quela causada pela Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. \u00c9 o que afirma Emily Bell, diretora do Centro Tow para o Jornalismo Digital, da Universidade Columbia, em Nova York, refer\u00eancia no estudo dos impactos das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas na m\u00eddia. &#8220;\u00c9 uma 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