{"id":9252,"date":"2018-10-02T12:13:53","date_gmt":"2018-10-02T15:13:53","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9252"},"modified":"2018-10-01T22:15:35","modified_gmt":"2018-10-02T01:15:35","slug":"a-direita-pop-e-a-memificacao-da-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/10\/02\/a-direita-pop-e-a-memificacao-da-politica\/","title":{"rendered":"A direita pop e a memifica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Patricia Fachin<\/strong> &#8211; O desabafo, o mal-estar e o descontentamento com a pol\u00edtica s\u00e3o alguns dos fatores que explicam a popularidade do candidato \u00e0 presid\u00eancia Jair Bolsonaro, diz a pesquisadora Esther Solano, que tem entrevistado os eleitores do candidato desde 2017. Esses sentimentos caracterizam o que ela denomina de uma \u201crebeldia conservadora\u201d. \u201cDigo que \u00e9 uma rebeldia conservadora porque as pessoas n\u00e3o votar\u00e3o nele para que se construa uma coisa nova, de vanguarda, de futuro, mas, sim, para voltar ao passado mais tradicional, aquele dos valores crist\u00e3os, da ordem e da tradi\u00e7\u00e3o, da hierarquia\u201d, explica. O voto em Bolsonaro tamb\u00e9m \u00e9 fomentado pelo discurso antiesquerda e antipetista e por um \u201cdescontentamento muito claro e uma rejei\u00e7\u00e3o \u00e0s pautas identit\u00e1rias, aos movimentos feminista, negro e LGBT, que t\u00eam crescido muito no mundo inteiro\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A pesquisadora tem entrevistado pessoas de diferentes estratos sociais, sexo e idade e pontua que o discurso do candidato \u201ctem uma penetra\u00e7\u00e3o nos setores populares, mas tem muito mais capilaridade e pot\u00eancia nas classes m\u00e9dias e altas\u201d. De outro lado, menciona, \u201ca pesquisa tamb\u00e9m captou que as denominadas novas classes m\u00e9dias, que foram favorecidas por programas petistas, como FIES, ProUni, Bolsa Fam\u00edlia e Minha Casa Minha Vida, tamb\u00e9m compram o discurso da meritocracia, do individualismo, da rejei\u00e7\u00e3o aos pobres e aos programas sociais, ou seja, as novas classes m\u00e9dias tamb\u00e9m fazem parte desse discurso conservador\u201d.<\/p>\n<p>Segundo ela, uma parte dos eleitores que ir\u00e1 votar em Bolsonaro j\u00e1 votou em Lula ou Dilma em outras elei\u00e7\u00f5es, mas eles \u201cn\u00e3o veem uma incoer\u00eancia nisso porque dizem o seguinte: quando votei em Lula, ele era uma pessoa honesta, era diferente, era algu\u00e9m de fora do sistema pol\u00edtico, um pouco como acham que Bolsonaro \u00e9 agora. Lula tamb\u00e9m era carism\u00e1tico \u2014 como Bolsonaro \u00e9 agora \u2014, era algu\u00e9m que falava para o povo, que sabe se comunicar, enfim, uma pessoa em que se pode confiar por conta da sua \u00e9tica\u201d, relata.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por telefone \u00e0 IHU On-Line, Estherclassifica a direita representada por Bolsonaro como a \u201cdireita pop\u201d, que adota um \u201cdiscurso de \u00f3dio\u201d que \u201cnasce nas redes sociais\u201d. \u201c\u00c9 esse tipo de manifesta\u00e7\u00e3o que tem no Facebook, do meme; \u00e9 a \u2018memifica\u00e7\u00e3o\u2019 da pol\u00edtica\u201d. A consequ\u00eancia da memifica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, adverte, \u00e9 o seu \u201cefeito perverso, porque as pessoas acabam n\u00e3o identificando o discurso de \u00f3dio nos memes, e acabamos lendo essa mensagem como se fosse algo divertido, legal, mas \u00e9 claramente antidemocr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>Esther Solano \u00e9 mestra e doutora em Ci\u00eancias Sociais pela Universidad Complutense de Madrid. Atualmente \u00e9 professora adjunta da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo no curso de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e professora do Mestrado Interuniversit\u00e1rio Internacional de Estudos Contempor\u00e2neos de Am\u00e9rica Latina da Universidad Complutense de Madrid. A pesquisadora acaba de lan\u00e7ar o livro \u201cO \u00f3dio como pol\u00edtica. A reinven\u00e7\u00e3o das direitas no Brasil\u201d (S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2018).<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Como tem sido feita a sua pesquisa sobre os eleitores de Bolsonaro e quais s\u00e3o os primeiros resultados apresentados?<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 Essa pesquisa iniciou em 2017, antes das elei\u00e7\u00f5es, porque a ideia era captar um momento mais tranquilo para ver quem eram n\u00e3o somente os poss\u00edveis eleitores de Bolsonaro, mas tamb\u00e9m os simpatizantes dele. A ideia era que naquele per\u00edodo eles poderiam se expressar com mais liberdade, porque agora a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais tensa. Em 2017 selecionei 25 pessoas de diferentes perfis econ\u00f4micos em S\u00e3o Paulo, portanto, pessoas ricas, da periferia, homens, mulheres, gays, totalizando um grupo de 25 pessoas, e depois grupos de adolescentes de uma escola de S\u00e3o Paulo. A ideia era tentar identificar qual era o denominador comum que essas pessoas t\u00eam para se colocarem como votantes e simpatizantes do Bolsonaro.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Qual \u00e9 o denominador comum verificado?<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 Fundamentalmente, o movimento que chamo de \u201crebeldia conservadora\u201d: trata-se de um grito de desabafo, de mal-estar, de descontentamento, um pouco dessa ideia do antissist\u00eamico, do anti-establishment. Por outro lado, digo que \u00e9 uma rebeldia conservadora porque as pessoas n\u00e3o votar\u00e3o nele para que se construa uma coisa nova, de vanguarda, de futuro, mas, sim, para voltar ao passado mais tradicional, aquele dos valores crist\u00e3os, da ordem e da tradi\u00e7\u00e3o, da hierarquia. Digo que h\u00e1 uma politiza\u00e7\u00e3o da antipol\u00edtica, por um lado, e um discurso muito antiesquerda, antipetista, anticomunismo, de outro. Isso mostra um descontentamento muito claro e uma rejei\u00e7\u00e3o \u00e0s pautas identit\u00e1rias, aos movimentos feminista, negro e LGBT, que t\u00eam crescido muito no mundo inteiro. Ent\u00e3o h\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o a tudo isso.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Como essa no\u00e7\u00e3o que voc\u00ea denomina de \u201crebeldia conservadora\u201d se manifesta no discurso dos entrevistados? O que eles dizem que o leva a inferir que esse \u00e9 o n\u00facleo comum que os fazem votar no candidato?<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 Basicamente eles dizem que estamos em um momento de desordem social e de desordem pol\u00edtica provocado pelas crises pol\u00edtica e econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m h\u00e1 uma desordem de valores. Eles dizem que esse momento ca\u00f3tico existe porque as feministas e o movimento negro subverteram a ordem natural das coisas, fazendo a parada LGBT. Isso amea\u00e7a a perspectiva deles de fam\u00edlia tradicional, heteronormativa e os valores tradicionais. Logo, sentem-se amea\u00e7ados por esse progresso. \u00c9 como se f\u00f4ssemos uma amea\u00e7a \u00e0 fam\u00edlia tradicional e seus valores. Assim, eles dizem o seguinte: para lutar contra isso n\u00f3s precisamos de um cidad\u00e3o de bem, ou seja, temos que retomar a ideia do cidad\u00e3o de bem, que \u00e9 aquele que sempre anda direito. Para recolocar as coisas no seu devido lugar, precisamos de uma pessoa forte, confi\u00e1vel, religiosa, com valores, que cumpra ordens.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 A motiva\u00e7\u00e3o por esses valores \u00e9 expressa do mesmo modo pelos entrevistados de diferentes estratos sociais?<\/p>\n<p>O discurso de Bolsonaro tem uma penetra\u00e7\u00e3o nos setores populares, mas tem muito mais capilaridade e pot\u00eancia nas classes m\u00e9dias e altas &#8211; Esther Solano<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 O discurso de Bolsonaro tem uma penetra\u00e7\u00e3o nos setores populares, mas tem muito mais capilaridade e pot\u00eancia nas classes m\u00e9dias e altas \u2014 isso \u00e9 muito importante. Isso explica muito, primeiro, o sentimento classista do Brasil, a ideia de que os pobres s\u00e3o uma classe indesejada. \u00c9 por isso que o discurso dele \u00e9 muito forte nas classes m\u00e9dias e altas. Al\u00e9m disso, tem um sentimento antipetista muito forte, que \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o conservadorade rejei\u00e7\u00e3o aos programas sociais de mobilidade criados pelo PT, como Bolsa Fam\u00edlia, e o programa de cotas. As classes m\u00e9dia e m\u00e9dia alta se sentiram amea\u00e7adas porque os pobres ascenderam socialmente e economicamente e, nesse sentido, todo aquele discurso que j\u00e1 existia no Brasil, de que o pa\u00eds \u00e9 muito desigual, racista e machista, fez com que explodisse esse sentimento reacion\u00e1rio das pessoas que se sentiram amea\u00e7adas por essa mobilidade ascendente.<\/p>\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m captou \u2014 e vou analisar isso agora \u2014 que as denominadas novas classes m\u00e9dias, que foram favorecidas por programas petistas, como FIES, ProUni, Bolsa Fam\u00edlia e Minha Casa Minha Vida, tamb\u00e9m compram o discurso da meritocracia, do individualismo, da rejei\u00e7\u00e3o aos pobres e aos programas sociais, ou seja, as novas classes m\u00e9dias tamb\u00e9m fazem parte desse discurso conservador.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Outras pesquisas que tamb\u00e9m est\u00e3o sendo feitas para analisar o perfil do eleitor de Bolsonaro demonstram que as inten\u00e7\u00f5es de voto no candidato s\u00e3o motivadas, basicamente, por duas pautas, a da seguran\u00e7a e a da corrup\u00e7\u00e3o. Essas preocupa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m aparecem entre os entrevistados da sua pesquisa?<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 Sim. Iria falar exatamente sobre isso. A quest\u00e3o da seguran\u00e7a aparece, porque ningu\u00e9m consegue resolver os crimes graves que acontecem, mas isso surge com aquela proposta de que \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d, que \u00e9 muito simpl\u00f3ria, demag\u00f3gica, mas na qual parte da sociedade brasileira acredita. Essa \u00e9 uma proposta constru\u00edda em cima daquela no\u00e7\u00e3o de que o cidad\u00e3o de bem est\u00e1 desprotegido e o bandido \u00e9 aquele jovem negro da periferia. O bandido \u00e9 aquele que tem que ser tratado com a for\u00e7a da lei, a autoridade policial etc. A agenda da corrup\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m aparece porque o Bolsonaro se apresenta como um pol\u00edtico honesto, que n\u00e3o se deixa comprar. Ele representa a retomada da quest\u00e3o da \u00e9tica na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Como, na sua avalia\u00e7\u00e3o, tem se dado a rea\u00e7\u00e3o \u00e0 candidatura de Bolsonaro do ano passado para c\u00e1? Diria que houve mais rejei\u00e7\u00e3o ou ades\u00e3o \u00e0 candidatura dele?<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 Diria que as duas coisas. Ele ficou mais conhecido, especialmente de um ano para c\u00e1, ap\u00f3s o impeachment. Agora, como candidato, ficou mais em evid\u00eancia. A popularidade de Bolsonaro aumentou, de fato, do ano passado para c\u00e1, mas a rejei\u00e7\u00e3o a ele tamb\u00e9m aumentou. Como o discurso dele est\u00e1 radicalizado ao extremo, por um lado, existe um discurso f\u00e1cil, o que faz aumentar a popularidade, mas isso tamb\u00e9m cria rejei\u00e7\u00e3o. Imagino que agora ele est\u00e1 atingindo, provavelmente, os n\u00edveis mais altos de popularidade; ele j\u00e1 chegou ao teto de inten\u00e7\u00e3o de votos.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Como interpreta a rejei\u00e7\u00e3o a ele?<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 Isso acontece porque embora ele tenha um discurso apelativo, demag\u00f3gico, f\u00e1cil, que captura sentimentos de raiva da popula\u00e7\u00e3o, de frustra\u00e7\u00e3o com o sistema, de desabafo, de outro lado tem um discurso com um conte\u00fado altamente antidemocr\u00e1tico, racista, xenof\u00f3bico e, muitas vezes, fascista. Isso cria uma repulsa e gera a rejei\u00e7\u00e3o. Ele cria, de fato, essa tens\u00e3o social, e ele divide muito porque ele n\u00e3o \u00e9 uma figura conciliadora, \u00e9 uma figura que causa uma fratura interna, pois \u00e9 claramente antidemocr\u00e1tico e divide o mundo entre os que est\u00e3o com ele ou est\u00e3o contra ele.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Como voc\u00ea avalia a popularidade de Bolsonaro depois de quase quatro mandatos do PT \u00e0 frente da presid\u00eancia e tamb\u00e9m depois das manifesta\u00e7\u00f5es de Junho de 2013?<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 Isso acontece porque Bolsonaro canaliza o sentimento de frustra\u00e7\u00e3o: ele tem o voto do descontentamento, do desabafo, do mal-estar, da crise, pois captura muito o descontentamento. Portanto, \u00e9 aquele voto de nega\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica. Ele \u00e9 um pol\u00edtico tradicional, sempre foi pol\u00edtico, mas as pessoas dizem que ele \u00e9 uma pessoa que nunca se vendeu, nunca pertenceu ao cora\u00e7\u00e3o mais sujo da pol\u00edtica, nunca foi corrupto, sempre permaneceu \u00edntegro, honesto.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Uma parte da sua pesquisa busca compreender as motiva\u00e7\u00f5es das mulheres que votam em Bolsonaro. Quais s\u00e3o as raz\u00f5es apresentadas pelas mulheres que t\u00eam a inten\u00e7\u00e3o de votar no candidato e as raz\u00f5es daquelas que n\u00e3o votar\u00e3o nele?<\/p>\n<p>Essa nova direita \u00e9 muito antifeminista &#8211; Esther Solano<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 \u00c9 interessante destacar que o papel da mulher nessa elei\u00e7\u00e3o ser\u00e1 priorit\u00e1rio, porque a maioria das indecisas s\u00e3o mulheres, e a rejei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro \u00e9 muito mais alta entre as mulheres. As mulheres que votam nele, primeiro, culpabilizam os movimentos identit\u00e1rios pela crise que est\u00e1 acontecendo. Essa nova direita \u00e9 muito antifeminista. Basicamente elas dizem que reconhecem a exist\u00eancia de problemas relacionados ao machismo, mas se dizem antifeministas porque o feminismo tamb\u00e9m \u00e9 visto como um causador de problemas \u00e0 medida que as feministas provocam diferen\u00e7as entre homens e mulheres, s\u00e3o muito exageradas, loucas. Os movimentos feministas e LGBT s\u00e3o vistos como um problema, s\u00e3o culpabilizados. Elas tamb\u00e9m dizem que a solu\u00e7\u00e3o para o pa\u00eds deixar de ser machista, ou seja, para que haja igualdade, n\u00e3o passa pela luta coletiva numa elei\u00e7\u00e3o; a solu\u00e7\u00e3o passa pela meritocracia, pelo individualismo, pelo trabalho, pelo esfor\u00e7o, ou seja, se a mulher que ser igual a outro homem tem que trabalhar e vai conseguir. Tamb\u00e9m entrevistei duas pessoas que se denominavam gays de direita, que falavam a mesma coisa: o Brasil \u00e9 um pa\u00eds homof\u00f3bico, mas voc\u00ea tem que trabalhar na vida para ser igual a outro homem.<\/p>\n<p>Por outro lado, o grupo das mulheres contra Bolsonaro \u00e9 muito interessante, pois com ele conseguimos ver que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds muito patriarcal na pol\u00edtica, \u00e9 um dos piores pa\u00edses do mundo para as mulheres na pol\u00edtica, por\u00e9m tem um movimento feminista muito importante, muito organizado. Portanto, vivemos esse paradoxo. As mulheres s\u00e3o bloqueadas no campo institucional, mas est\u00e3o muito ativas no campo da pol\u00edtica das ruas.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Atrav\u00e9s da sua pesquisa \u00e9 poss\u00edvel identificar se os eleitores de Bolsonaro j\u00e1 foram eleitores de Lula ou de Dilma? O que explica o voto anterior em Lula ou Dilma e o voto em Bolsonaro neste momento?<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 S\u00e3o muitos, at\u00e9 porque a maioria dos brasileiros em algum momento da vida j\u00e1 votou no Lula. Acerca disso, precisamos considerar alguns aspectos importantes. Um deles \u00e9 que existe uma ret\u00f3rica muito forte de que o PT se transformou em um partido corrupto.<\/p>\n<p>Outra coisa que capto na pesquisa \u00e9 que as pessoas que votaram em Lula e que agora votam em Bolsonaro n\u00e3o veem uma incoer\u00eancia nisso porque dizem o seguinte: quando votei em Lula, ele era uma pessoa honesta, era diferente, era algu\u00e9m de fora do sistema pol\u00edtico, um pouco como acham que Bolsonaro \u00e9 agora. Lula tamb\u00e9m era carism\u00e1tico \u2014 como Bolsonaro \u00e9 agora \u2014, era algu\u00e9m que falava para o povo, que sabe se comunicar, enfim, uma pessoa em que se pode confiar por conta da sua \u00e9tica. Quando vejo essa narrativa da pessoa que votou em Lula e agora vota em Bolsonaro, percebo que uma das raz\u00f5es \u00e9 o antipetismo, mas tamb\u00e9m est\u00e1 muito presente a ideia do l\u00edder forte, confi\u00e1vel, que \u00e9 diferente, que fala com o povo, que \u00e9 carism\u00e1tico.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 \u00c9 comum ouvir que os eleitores de Bolsonaro s\u00e3o fascistas. Alguns pesquisadores, entretanto, advertem para o equ\u00edvoco dessa associa\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea v\u00ea esse tipo de classifica\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos eleitores?<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 Sim, h\u00e1 uma diferencia\u00e7\u00e3o: Bolsonaro \u00e9 claramente fascista, porque no fascismo voc\u00ea silencia o outro. Ele \u00e9 uma pessoa absolutamente intolerante, acredita que \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d, tem um discurso xenof\u00f3bico; ele \u00e9 uma figura fascista. Mas acredito que uma minoria vota nele porque tamb\u00e9m \u00e9 fascista. Essas s\u00e3o pessoas com um discurso altamente violento, racista; \u00e9 um eleitorado muito violento e intolerante. Mas tem uma massa mais silenciosa que vota nele por uma raz\u00e3o antissistema, de desabafo, que de fato n\u00e3o pode ser considerada fascista. Uma parte do voto em Bolsonaro se justifica por causa da crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica: a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 abandonada, perdida, sem norte, n\u00e3o confia no sistema. Acredito que tem que diferenciar Bolsonaro, que tem uma personalidade fascista, gente que tamb\u00e9m \u00e9 fascista e vota nele, e essa grande massa silenciosa que est\u00e1 um pouco perdida, que migra seu voto porque n\u00e3o confia em ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Os eleitores de Bolsonaro entrevistados para a sua pesquisa comentam sobre a pol\u00edtica econ\u00f4mica proposta por ele?<\/p>\n<p>As mulheres s\u00e3o bloqueadas no campo institucional, mas est\u00e3o muito ativas no campo da pol\u00edtica das ruas &#8211; Esther Solano<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 Quando se pergunta sobre a pol\u00edtica econ\u00f4mica, por exemplo, praticamente ningu\u00e9m a conhece. Pouqu\u00edssimos sabem quem \u00e9 Paulo Guedes, por exemplo, e muitas pessoas est\u00e3o enganadas ao acreditar que ele vai levar a cabo uma pol\u00edtica nacionalista que vai conduzir o pa\u00eds. Poucas pessoas sabem que ele vai praticar uma pol\u00edtica ultraliberal, que ser\u00e1 privatista, que votar\u00e1 pela reforma da Previd\u00eancia. Ele n\u00e3o mostra isso, at\u00e9 porque se apresenta muito como algu\u00e9m que ir\u00e1 proteger o pa\u00eds, no entanto essa agenda ultraliberal do Paulo Guedes \u00e9 contr\u00e1ria a isso. Essa \u00e9 uma agenda que n\u00e3o mobiliza, que n\u00e3o aprova, que se mant\u00e9m secund\u00e1ria, por isso as pessoas n\u00e3o t\u00eam conhecimento. Se houvesse mais conhecimento sobre a agenda econ\u00f4mica dele, haveria mais rejei\u00e7\u00e3o a ele.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Como tem se dado o contraponto a Bolsonaro entre os demais candidatos nessa elei\u00e7\u00e3o? Suas manifesta\u00e7\u00f5es t\u00eam refor\u00e7ado ou repelido o voto em Bolsonaro?<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 Quando s\u00e3o feitas manifesta\u00e7\u00f5es contra Bolsonaro de forma direta, a milit\u00e2ncia dele se mobiliza. Mas acredito que a cr\u00edtica program\u00e1tica a ele, ao seu programa econ\u00f4mico, se intensificar\u00e1 mais a partir de agora. O que acho interessante n\u00e3o \u00e9 tanto a cr\u00edtica dos candidatos, mas o movimento dos mercados, da imprensa, um certo movimento contra a candidatura dele, pois vemos, por um lado, como os poderes est\u00e3o se movimentando \u2014 imprensa, empresariado, bancos \u2014 e, por outro lado, o voto do eleitorado; parece haver certa diverg\u00eancia entre esses atores.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Qual \u00e9 o futuro da milit\u00e2ncia dele ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es? A milit\u00e2ncia que existe em torno do candidato poder\u00e1 ter continuidade como outras milit\u00e2ncias se constitu\u00edram ou ela tende a se dissipar?<\/p>\n<p>Acredito que \u00e9 complicado a milit\u00e2ncia dele conseguir se articular politicamente, porque Bolsonaro \u00e9 uma figura muito isolada politicamente &#8211; Esther Solano<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 \u00c9 dif\u00edcil pensar nisso, mas acredito que \u00e9 complicado a milit\u00e2ncia dele conseguir se articular politicamente, porque Bolsonaro \u00e9 uma figura muito isolada politicamente; ele praticamente n\u00e3o tem partido, o partido dele \u00e9 pequeno, ele n\u00e3o tem alian\u00e7as. Portanto, \u00e9 uma pessoa que n\u00e3o est\u00e1 articulada politicamente, como MDB, como o PT.<\/p>\n<p>O que vai acontecer, caso ele n\u00e3o ven\u00e7a as elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 o que chamo de \u201cmobiliza\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica\u201d. Ou seja, um certo discurso de \u00f3dio, de intoler\u00e2ncia ir\u00e1 permanecer, porque isso est\u00e1 capilarizado. Ir\u00e1 persistir a ideia do politicamente correto, de poder se manifestar com coment\u00e1rios racistas com a justificativa de que h\u00e1 liberdade de express\u00e3o. O antiesquerdismotamb\u00e9m ir\u00e1 se popularizar muito na esfera p\u00fablica. Talvez seja dif\u00edcil organizar isso tudo no campo pol\u00edtico pela falta de estrutura que o Bolsonaro tem, mas na esfera p\u00fablica isso capilarizou muito.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Deseja acrescentar algo?<\/p>\n<p>Esther Solano \u2014 Um ponto que gostaria de destacar \u00e9 que o discurso de \u00f3dio que Bolsonaro apresenta \u00e9 o que chamo de \u201cdireita pop\u201d. Trata-se da ideia de que o discurso de \u00f3dio n\u00e3o \u00e9 apresentado de forma dura ou cl\u00e1ssica, mas \u00e9 um discurso que nasce nas redes sociais. \u00c9 algo visto de forma folcl\u00f3rica, l\u00fadica, juvenil. \u00c9 esse tipo de manifesta\u00e7\u00e3o que tem no Facebook, do meme; \u00e9 a \u201cmemifica\u00e7\u00e3o\u201d da pol\u00edtica. Isto acaba tendo um efeito perverso, porque as pessoas acabam n\u00e3o identificando o discurso de \u00f3dio nos memes, e acabamos lendo essa mensagem como se fosse algo divertido, legal, mas \u00e9 claramente antidemocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/A-direita-pop-e-a-memificacao-da-politica\/4\/41903<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patricia Fachin &#8211; O desabafo, o mal-estar e o descontentamento com a pol\u00edtica s\u00e3o alguns dos fatores que explicam a popularidade do candidato \u00e0 presid\u00eancia Jair Bolsonaro, diz a pesquisadora Esther Solano, que tem entrevistado os eleitores do candidato desde 2017. 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