{"id":9233,"date":"2018-09-28T13:34:05","date_gmt":"2018-09-28T16:34:05","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9233"},"modified":"2018-09-28T10:37:52","modified_gmt":"2018-09-28T13:37:52","slug":"paul-bauduin-ou-por-que-os-economistas-de-mercado-adoram-o-fascismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/09\/28\/paul-bauduin-ou-por-que-os-economistas-de-mercado-adoram-o-fascismo\/","title":{"rendered":"Paul Bauduin, ou por que os economistas de mercado adoram o fascismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Andr\u00e9 Ara\u00fajo<\/strong> &#8211;\u00a0A hist\u00f3ria da Fran\u00e7a de Vichy sempre me fascinou,\u00a0desde os anos 60, coleciono livros sobre o per\u00edodo para entender o abismo politico que a Fran\u00e7a tenta esquecer.<\/p>\n<blockquote><p>Vichy \u00e9 a prova de que pa\u00edses n\u00e3o desaparecem, n\u00e3o quebram, n\u00e3o acabam, apenas decaem.<\/p><\/blockquote>\n<p>Como foi poss\u00edvel a Fran\u00e7a de Luis XIV, o Pa\u00eds que criou o Estado Nacional na Era Moderna, com personagens do porte dos Cardeais de Richelieu e Mazarin, o Pais das gl\u00f3rias do Imperador Napole\u00e3o e do maior diplomata do S\u00e9culo XIX, o Principe de Talleyrand, como foi poss\u00edvel esse Pais poderoso e imperial, s\u00edmbolo do Estado forte se entregar de forma vexat\u00f3ria \u00e0 domina\u00e7\u00e3o alem\u00e3? N\u00e3o foi uma simples derrota militar, foi um rendi\u00e7\u00e3o humilhante para o mundo, depois de uma luta apenas para constar, dois ter\u00e7os das armas francesas n\u00e3o foram usadas na campanha de 1940, quando a Fran\u00e7a se rendeu docemente. Mas o pior veio depois, a colabora\u00e7\u00e3o consentida e alegre com o conquistador. A saga de Vichy \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria, do que pode acontecer a pa\u00edses em situa\u00e7\u00f5es muito especiais.<\/p>\n<p>No quadro maior da rendi\u00e7\u00e3o despontaram personagens sinistros prontos a servir aos alem\u00e3es e que deixaram no registro da Hist\u00f3ria sua triste biografia , entre tantos outros o maior deles, Pierre Laval, depois Camille Chatemps, o Conde Fernand de Brinon, que se disp\u00f4s ser Embaixador da Fran\u00e7a em Paris junto ao Comando Alem\u00e3o, Marcel Deat, o Almirante Darlan, Raphael Alibert,\u00a0\u00a0o General Maxime Weygand, derrotista com pose de vencedor, Phelippe Henriot, o l\u00edder fascistoide disfar\u00e7ado de patriota Charles Maurras e muitos mais. A \u201ccolabora\u00e7\u00e3o\u201d com os alem\u00e3es foi ampla na alta sociedade francesa, temerosa dos movimentos populares. Afinal o grupo politico do Front Populaire tinha conquistado o governo em 1936 com um programa de esquerda, para horror da elite financeira e industrial francesa representada pelo Comit\u00e9 des Forges e pelas famosas \u201c200 fam\u00edlias de Fran\u00e7a\u201d, a nata do capitalismo franc\u00eas, mesclada com a alta moda e a aristocracia de sangue dos sal\u00f5es, at\u00e9 o pretendente Orleans ao trono, o Conde de Paris, flertou com os alem\u00e3es em busca de uma poss\u00edvel restaura\u00e7\u00e3o, j\u00e1 a alta costura viu um novo mercado se abrir com as esposas dos oficiais alem\u00e3es, Coco Chanel inclusive se amarrou em um oficial SS como companheiro.<\/p>\n<p>A colabora\u00e7\u00e3o foi um fen\u00f4meno \u00fanico por sua dimens\u00e3o na Europa nazificada. Houve colaboradores em outros territ\u00f3rios conquistados pelos alem\u00e3es, mas em nenhum Pais na escala do que aconteceu na Fran\u00e7a, onde os restaurantes durante a ocupa\u00e7\u00e3o estavam lotados pela burguesia local se banqueteando lado a lado com generais alem\u00e3es com quem trocavam gentilezas e sorrisos, afinal os alem\u00e3es \u201cnos salvaram do comunismo\u201d.<\/p>\n<p>Nesse grande quadro que a Fran\u00e7a de hoje faz tudo para apagar do implac\u00e1vel arquivo da Historia, foi esquecido por historiadores o papel central do \u201ceconomista a servi\u00e7o dos alem\u00e3es\u201d, um not\u00e1vel personagem cujos contornos psicol\u00f3gicos mostram o extraordin\u00e1rio perigo do \u201c economista eficiente\u201d ou \u201ceconomista de mercado\u201d MAS A SERVI\u00c7O DE QUE CAUSA?\u00a0\u00a0\u00a0Baouduin era eficiente, organizado, racional\u00a0\u00a0MAS a servi\u00e7o do inimigo, do ocupante, do invasor, representava no contexto o economista que sob a capa da racionalidade\u00a0\u00a0presta seus servi\u00e7os ao poder de ocasi\u00e3o, a qualquer poder, sem no\u00e7\u00e3o de povo.\u00a0\u00a0de Estado, no papel de feitor de seus pr\u00f3prios compatriotas,\u00a0\u00a0para extrair riquezas para o conquistador.<\/p>\n<p>Bauduin n\u00e3o \u00e9 um perfil\u00a0\u00a0raro nos paises emergentes, ali\u00e1s \u00e9 muito comum, economistas a servi\u00e7o do mercado MAS DE QUE MERCADO? Ao fim servem ao financismo internacional, representam os interesses estrangeiros acima do interesse nacional\u00a0\u00a0sob a capa do \u201cmercado\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 do mercado de sua popula\u00e7\u00e3o nativa, os patr\u00f5es desse mercado a que servem s\u00e3o outros e pagam bem, \u00e9 tudo o que importa. A consci\u00eancia de servir aos seu compatriotas pobres\u00a0\u00a0se perdeu nas universidades americanas onde estudaram,\u00a0\u00a0os seus compatriotas\u00a0\u00a0que necessitam de sua ci\u00eancia e muitas vezes pagam seus estudos s\u00e3o abandonados e trocados pelo fasc\u00ednio do dominador. A saga dos \u201ceconomistas de mercado\u201d tem tudo a ver com a carreira de Paul Bauduin, um esp\u00e9cie de patrono dos economistas sem p\u00e1tria.<\/p>\n<p>O \u201ceconomista de mercado\u201d representa uma vis\u00e3o de mundo, onde o mercado prevalece sobre o Estado. Este passa ser um mero gestor de servi\u00e7os, como um zelador em um pr\u00e9dio de apartamentos, essa a vis\u00e3o de Bauduin, se os alem\u00e3es s\u00e3o bons administradores do territ\u00f3rio, porque n\u00e3o aceita-los, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Os \u201cmercados\u201d pensam exatamente a mesma coisa.<\/p>\n<p>Qualquer Presidente serve desde que garanta o mercado e seus objetivos,\u00a0\u00a0acima de qualquer interesse nacional ou do interesse de sua popula\u00e7\u00e3o pobre, o Estado zelador do mercado \u00e9\u00a0o que esse grupo de personagens deseja, Bauduin tem herdeiros.<\/p>\n<p><strong>Quem era Paul Bauduin<\/strong><\/p>\n<p>Diretor-Geral de la Banque de L\u00b4Indochine, um dos grandes bancos de investimento da Fran\u00e7a de ent\u00e3o, catedral do capitalismo imperial franc\u00eas, com vastos recursos amealhados na explora\u00e7\u00e3o comercial\u00a0\u00a0da Indochina, hoje Vietnam, Cambodja e Laos, ent\u00e3o col\u00f4nia francesa.<\/p>\n<p>La Banque de l\u00b4Indochine era uma pot\u00eancia e ainda \u00e9. Depois de sua fus\u00e3o com a Compagnie Universalle du Canal\u00a0\u00a0Maritime de Suez, a companhia do canal de Suez, e com a belga TRACTBEL, a companhia de bondes e trens do Bar\u00e3o Empain,\u00a0\u00a0o Banco da Indochina se transformou hoje em um dos grandes conglomerados do capitalismo europeu, com o nome de ENGIE,\u00a0\u00a0importante investidora no setor de energia em nosso Pais. Comprou a ELETROSUL nos leil\u00f5es da Era FHC e continua a investir pesadamente em gera\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Paul Bauduin nasceu em 1894 e viveu at\u00e9 1964. Em 16 de Junho de 1940 foi nomeado pelo Marechal Petain Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do novo Governo que nasceu dos escombros da Terceira Republica com o fim especifico de se render aos alem\u00e3es.\u00a0\u00a0Sua experi\u00eancia e conex\u00f5es com o mercado financeiro deu a Bauduin um poder especial sobre a gest\u00e3o econ\u00f4mica, j\u00e1 que como Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores cabia\u00a0a\u00a0ele a crucial negocia\u00e7\u00e3o financeira com o ocupante, que se tornou o eixo da nova economia francesa.<\/p>\n<p>O drama das negocia\u00e7\u00f5es e tratativas politicas internas e as intensas discuss\u00f5es com a Inglaterra sobre a necessidade da rendi\u00e7\u00e3o politica da Fran\u00e7a ao Terceiro Reich marcam a primeira metade de 1940. Com o governo em fuga j\u00e1 longe de Paris, primeiro em Bordeus, depois em Clermont Ferrand e finalmente em Vichy, capital da parte n\u00e3o ocupada, escolhida por sugest\u00e3o de Bauduin, um novo Estado sem nome de Republica cujo chefe nominal\u00a0\u00a0era o Marechal Petain, her\u00f3i da Grande Guerra de 1914 e chefe do partido derrotista, tendo com Primeiro Ministro o politico de longa carreira Pierre Laval, Bauduin como Chanceler . O per\u00edodo de fuga e\u00a0\u00a0de enterro da Terceira Republica e cria\u00e7\u00e3o de um novo Governo d\u00e1 por si s\u00f3 uma biblioteca, um per\u00edodo dram\u00e1tico de desfazimento de um regime que vinha do fim do Segundo Imp\u00e9rio de Napole\u00e3o III em 1870 e durou 70 anos at\u00e9 a rendi\u00e7\u00e3o de 1940.<\/p>\n<p>Com Baudoin\u00a0\u00a0como Chanceler o governo Petain requer atrav\u00e9s da Espanha os termos de um armist\u00edcio que os alem\u00e3es apresentam em 22 de Junho no fat\u00eddico vag\u00e3o ferrovi\u00e1rio na Floresta de Compiegne, o mesmo vag\u00e3o onde o Imp\u00e9rio Alem\u00e3o assinou sua rendi\u00e7\u00e3o militar em 1918. Hitler exigiu essa condi\u00e7\u00e3o como vingan\u00e7a pela humilha\u00e7\u00e3o \u00e0 Alemanha na situa\u00e7\u00e3o inversa de 1918. (descri\u00e7\u00e3o da cena de rendi\u00e7\u00e3o em \u201cVICHY POLITICAL DILEMMA\u201d, de Paul Farmer, Columbia Universaity Press, 1955). Mas Hitler tinha um plano especial para a Dran\u00e7a, Hitler admirava Napole\u00e3o e tinha certo carinho pela Fran\u00e7a, preferia um acordo do que uma rendi\u00e7\u00e3o \u201craise campagne\u201d, uma rendi\u00e7\u00e3o puramente militar como em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Baudoin era portanto personagem central nos acontecimentos da submiss\u00e3o do Estado franc\u00eas \u00e0 Alemanha. N\u00e3o era uma rendi\u00e7\u00e3o fruto da derrota militar, era mais que isso.<\/p>\n<p>O armist\u00edcio de Junho de 1940 foi uma abertura de portas para uma DESEJADA colabora\u00e7\u00e3o com a Alemanha nazista, considerada\u00a0\u00a0ent\u00e3o uma barreira a proteger a elite francesa contra a esquerda que tinha conseguido o poder nas elei\u00e7\u00f5es de\u00a0\u00a01936 e que assustava esse elite com leis trabalhistas, como a semana de 40 horas. Os alem\u00e3es seriam nessa condi\u00e7\u00e3o os \u201csalvadores\u201d da Fran\u00e7a contra a esquerda que crescia e assustava a alta classe francesa.<\/p>\n<p>Nasceu desse pano de fundo a saga do \u201ccolaboracionismo\u201d, uma ideologia de governar sob a prote\u00e7\u00e3o da Alemanha e a ela prestando reverencia, uma submiss\u00e3o consentida para atingir um fim maior, a prote\u00e7\u00e3o da elite (hoje seriam \u201cos mercados\u201d) contra o progressismo social.<\/p>\n<p>A logica dos colaboracionistas era evidentemente de que o Terceiro Reich iria ganhar a guerra europeia e a Alemanha seria a dona da Europa, vamos ent\u00e3o escolher um bom lugar a mesa, mesmo que secund\u00e1rio, para participar do banquete dessa nova constela\u00e7\u00e3o de poder.<\/p>\n<p>Como acontece com enorme frequ\u00eancia com gente apenas focada em seus pr\u00f3prios interesses, o calculo deu errado, a Alemanha n\u00e3o ganhou a guerra e os colaboracionistas ca\u00e7ados e\u00a0\u00a0presos, como Paul Bauuin, condenado \u00e0 pris\u00e3o por 5 anos, pena\u00a0\u00a0comutada em 1949, os colaboracionistas em Fran\u00e7a eram tantos que n\u00e3o haveria pris\u00f5es para todos.<\/p>\n<p>O maior deles, Pierre Laval, Primeiro Ministro de Vichy, foi condenado \u00e0 morte e fuzilado,<\/p>\n<p>Petain tamb\u00e9m foi condenado \u00e0 morte mas teve a pena comutada em pris\u00e3o perpetua, morreu na cadeia. Al\u00e9m dos processados em tribunais, milhares de colaboracionistas foram justi\u00e7ados pela Resistencia ou em linchamentos pela popula\u00e7\u00e3o logo ap\u00f3s a retirada dos alem\u00e3es de Paris em Julho de 44 com a rendi\u00e7\u00e3o do General von Choltitz na Gare du Nord e a entrada em Paris da Divis\u00e3o Leclerc, do exercito gaullista, como libetador.<\/p>\n<p>Foi Bauduin quem deu a Petain a ideia de transferir a sede do Governo em fuga, de Bordeus para Vichy, que passou a ser a capital do territ\u00f3rio franc\u00eas n\u00e3o ocupado pelos alem\u00e3es, a parte sul da Fran\u00e7a, enquanto a parte norte foi submetida \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o direta e governada pelo Comando Militar Alem\u00e3o com sede em Paris. Vichy ent\u00e3o criou a fic\u00e7\u00e3o de um Estado franc\u00eas soberano, que mantinha Embaixadores por todo o mundo, inclusive no Brasil e os EUA de Roosevelt. Com uma estrat\u00e9gia anti-gaullista, mantinham um Embaixador em Vichy at\u00e9 a invas\u00e3o da Normandia, era o Almirante Lehay, amigo pessoal de Roosevelt.<\/p>\n<p>Na verdade a fic\u00e7\u00e3o de Vichy acabou com a invas\u00e3o americana da \u00c1frica do Norte em 1942, quando os alem\u00e3es romperam os acordos de soberania sobre a parte sul da Fran\u00e7a e ocuparam todo o territ\u00f3rio mas o agora mais artificial Governo de Vichy se manteve em opera\u00e7\u00e3o, com soldados alem\u00e3es \u00e0 parta do Hotel du Parc, sede do Governo em Vichy.<\/p>\n<p>Na verdade o Governo de Vichy sobreviveu \u00e0 pr\u00f3pria invas\u00e3o da Fran\u00e7a pelos anglo-americanos em junho de 1944, Petain e Laval fugiram para a Alemanha e mantiveram a sede ficcional\u00a0\u00a0do Estado franc\u00eas no Castelo de Sigmaringen, na Bavieira, com toda sua corte.<\/p>\n<p><strong>A economia da Fran\u00e7a sob ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Nos termos do Armist\u00edcio de junho de 1940 a Fran\u00e7a se obrigou a pagar ao Terceiro Reich uma taxa de ocupa\u00e7\u00e3o de 300 milh\u00f5es de Francos por dia, valor que seria creditado ao Governo alem\u00e3o em uma conta especial no Banco de Fran\u00e7a.\u00a0\u00a0A soma era t\u00e3o gigantesca que com a retirada alem\u00e3 de 1944 ainda metade dos valores creditados permaneciam em saldo, n\u00e3o conseguiram ser gastos pelos alem\u00e3es durante todos os anos de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1941 esse valor pago \u00e0 Alemanha foi de 144,3 bilh\u00f5es de Francos, correspondente a 36,8% do PIB, em 1942 foi de 156,7 bilh\u00f5es de Francos, correspondente a 36,9% do PIB, em 1943 foi de 273,6 bilh\u00f5es de Francos, correspondentes a 55,5% do PIB. (Estudo da Universidade de Rutgers, 2005, Eugene N.White)<\/p>\n<p>Com esses cr\u00e9ditos o Governo alem\u00e3o comprava na Fran\u00e7a uma infinidade de mercadorias industriais, alimentos e artigos de luxo. Dentro do espirito de amizade proposto por Hitler, que n\u00e3o considerava a Fran\u00e7a um inimigo, mas sim um governo colaborador, os alem\u00e3es n\u00e3o requisitavam \u201cmanu militari\u201d essas mercadorias, eles comprovam em transa\u00e7\u00e3o comercial ao pre\u00e7o de mercado e pagavam com a moeda extra\u00edda da Fran\u00e7a como taxa de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para tanto foram criados 14 Escrit\u00f3rios \u201cinformais\u201d\u00a0\u00a0de Compra, conhecidos como \u201cEscritorios Otto que compravam artigos de luxo, tecidos, roupas,\u00a0\u00a0iguarias finas, vinhos, champagne, perfumes,\u00a0\u00a0sapatos, caf\u00e9, chocolates, ch\u00e1s, tudo que pudesse ser comprado no mercado.<\/p>\n<p>Hitler para manter alto o moral das fam\u00edlias de soldados que ficavam na Alemanha queria que as esposas dos militares tivessem bens de luxo como compensa\u00e7\u00e3o pelos sofrimentos da guerra. A Fran\u00e7a era tamb\u00e9m grande produtora de alimentos e os alem\u00e3es compravam tudo que podiam para remeter \u00e0 Alemanha, manteigas, queijos, legumes, pescados, etc.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m havia o turismo em larga escala. A Fran\u00e7a foi destinada por Hitler a ser um \u201cresort\u201d para os soldados alem\u00e3es ap\u00f3s per\u00edodos de a\u00e7\u00e3o na terr\u00edvel Frente Leste. As \u201cf\u00e9rias\u201d dos soldados podiam ser passadas na Fran\u00e7a com dinheiro franc\u00eas para hot\u00e9is e restaurantes.<\/p>\n<p>Mas a \u201ctaxa de ocupa\u00e7\u00e3o\u201d era tanta que sobrava dinheiro e ai os \u201cdonos\u201d dos \u201cEscrit\u00f3rios Otto\u201d come\u00e7aram a comprar im\u00f3veis na Riviera e apartamentos em Paris, a corrup\u00e7\u00e3o nos \u201cescrit\u00f3rios\u201d, todos comandados por oficiais SS, era gigantesca. Jacques Delarue narra em um livro inteiro essas transa\u00e7\u00f5es ( TRAFICOS E CRIMES, Jacques Delarue).<\/p>\n<p>Obra fundamental para o per\u00edodo \u00e9 LA FRANCIA DE VICHY(em italiano) de Robert Aron, Rizzoli Editore, 1972, 668 paginas, onde se mostra como a economia francesa foi inteiramente submetida ao esfor\u00e7o de guerra nazista, as industrias francesas produzindo pe\u00e7as para tanques e avi\u00f5es alem\u00e3es, as Usinas Renault fabricando para a Alemanha, o que custou no p\u00f3s guerra a pris\u00e3o do industrial\u00a0\u00a0Louis Renault e o confisco de sua empresa pelo Estado franc\u00eas, a Renault era e continuou a ser um dos maiores fabricantes de autom\u00f3veis da Europa.<\/p>\n<p>Bauduin, na qualidade de grande banqueiro, era uma esp\u00e9cie de controlador da economia francesa a servi\u00e7o do Terceiro Reich. Sua amizade com Otto Abetz, o ultra eficiente Embaixador alem\u00e3o em Paris antes da guerra (Abetz falava franc\u00eas melhor que franceses e era aficionado pela cultura francesa), foi elemento chave para a liga\u00e7\u00e3o entre o interesse alem\u00e3o e a elite empresarial francesa. Abetz comprou com estip\u00eandios quinzenais os jornais de Paris que passaram a colaborar com os nazistas. Aliciou tamb\u00e9m o Judici\u00e1rio, que passou a perseguir os advers\u00e1rios do Terceiro Reich com um rigor tal que os pr\u00f3prios alem\u00e3es achavam exagerado (ver o filme SE\u00c7\u00c3O ESPECIAL DE JUSTI\u00c7A, de Costa Gravas, sobre esse contexto).<\/p>\n<p><strong>Vichy e os economistas<\/strong><\/p>\n<p>O exemplo de Vichy nos mostra como economistas de mercado\u00a0\u00a0n\u00e3o tem nenhuma voca\u00e7\u00e3o de Estado, um ente que para eles nem deveria existir. Henry Rousso em LE SYNDROME DE VICHY (Editiosn du Seuil, 1980) mostra esse desdobramento onde um grupo de pessoas em uma esp\u00e9cie de autismo politico, faz por desconhecer a fun\u00e7\u00e3o de um Estado como nau que abriga\u00a0\u00a0toda a sociedade. Para esse grupo de pessoas a economia \u00e9 aut\u00f4noma do Estado, n\u00e3o precisa dele, portanto a sorte dos que n\u00e3o est\u00e3o contemplados \u00e9 indiferente. Que um Estado possa ser o conjunto de toda uma popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o plataforma de mercado \u00e9 algo incompreens\u00edvel para esses elementos, como Paul Bauduin.<\/p>\n<p>\u00c9 espantoso como a S\u00edndrome de Vichy atravessou o S\u00e9culo XX e chegou a nossos dias. A globaliza\u00e7\u00e3o financeira e comercial \u00e9 a resultante desse ciclo de desconstru\u00e7\u00e3o social iniciada no Governo Thatcher no Reino Unido, um desastre na tentativa de\u00a0\u00a0desmonte do ESTADO NACIONAL para\u00a0\u00a0em seu lugar a sociedade ser operada por bancos e corpora\u00e7\u00f5es, sem Estado ou com um Estado m\u00ednimo, se n\u00e3o h\u00e1 emprego, prote\u00e7\u00e3o e\u00a0\u00a0renda para os mais pobres esse n\u00e3o \u00e9 um problema do Estado, essa \u00e9 a regra dos<\/p>\n<p>economistas de mercado, felizmente um ciclo que est\u00e1 terminando\u00a0\u00a0porque n\u00e3o existe estrutura social e politica\u00a0\u00a0que subsista por muito tempo com alt\u00edssimo desemprego e desequil\u00edbrio social, o fascismo e o nazismo nasceram nesses contextos como mecanismo de controle social e n\u00e3o de solu\u00e7\u00e3o de problemas econ\u00f4micos a longo prazo.<\/p>\n<p>Se a efici\u00eancia da economia depende da inefici\u00eancia do tecido social, o pre\u00e7o a ser pago ser\u00e1 cobrado do pr\u00f3prio mercado por agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, crime e vida social imposs\u00edvel, a conta do desequil\u00edbrio social \u00e9 infinitamente mais alta do que\u00a0\u00a0o ganho dos mercados por uma suposta efici\u00eancia artificial gerada pela concentra\u00e7\u00e3o de renda, fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es, abertura da economia,\u00a0\u00a0fechamento de fabricas e grande parte da elite vivendo de renda financeira.<\/p>\n<p><strong>O fascismo renovado<\/strong><\/p>\n<p>O fascismo \u00e9 uma ideologia forte, nascida dos\u00a0\u00a0escombros da Grande Guerra de 1914, por causa da CRISE SOCIAL provocada pela guerra, desemprego em massa e falta de comida.<\/p>\n<p>Do fascismo nasceu o nazismo como descend\u00eancia adaptada ao car\u00e1ter alem\u00e3o, Mussolini foi o modelo adotado por Hitler, que foi sempre um admirador ideologico de Mussolini.<\/p>\n<p>Com o mesmo DNA tamb\u00e9m surgiu o franquismo espanhol, o justicialismo argentino, o salazarismo portugu\u00eas, o estadonovismo brasileiro e os neofascismos de hoje.<\/p>\n<p>Daniel Guerin, no cl\u00e1ssico FASCISMO E GRAN CAPITAlE (Guerin era franc\u00eas mas a melhor edi\u00e7\u00e3o \u00e9 a italiana) mostrou a estreita liga\u00e7\u00e3o entre o grande capital e o fascismo. Pode-se substituir a express\u00e3o belle-epoque \u201cgran capitale\u201d por \u201cmercados\u201d. A capa do livro de Guerin (na edi\u00e7\u00e3o que tenho, h\u00e1 outras) \u00e9 emblem\u00e1tica, Mussolini de casaca e cartola ao lado de dois grandes capitalistas, logo Mussolini que come\u00e7ou na vida politica como socialista.<\/p>\n<p>Na expans\u00e3o desenfreada do capital em busca de concentra\u00e7\u00e3o cria-se um perigoso quadro social com alto desemprego e car\u00eancias. Nesse quadro come\u00e7am AGITA\u00c7\u00d5ES\u00a0\u00a0\u00a0causadas exatamente pela falta de emprego. A Democracia n\u00e3o mais d\u00e1 conta de administrar a crise.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o ent\u00e3o \u00e9 o FASCISMO com viol\u00eancia e trucul\u00eancia para conter a sociedade pela for\u00e7a e blindar o capital. Mas h\u00e1 uma armadilha. O fascismo n\u00e3o \u00e9 est\u00e1vel, ele precisa se agitar continuamente at\u00e9 implodir, o prazo de validade do fascismo \u00e9 curto no tempo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Os economistas, por perfil\u00a0\u00a0psicol\u00f3gico, tem\u00a0\u00a0fasc\u00ednio pela ordem e\u00a0\u00a0horror ao caos, dai a ades\u00e3o ao \u201c partido da ordem\u201d \u00e9 um passo. Salazar era professor de economia, Sergio de Castro, formado na Universidade de Chicago, foi o primeiro Ministro da Fazenda do regime Pinochet. \u00c9 muito mais f\u00e1cil fazer as \u201creformas\u201d em uma ditadura do que na democracia.<\/p>\n<p>Dai nasce uma esp\u00e9cie de ades\u00e3o dos \u201ceconomistas de mercado\u201d a quem pode assegurar ajustes e reformas, muito mais dif\u00edcil em uma democracia em funcionamento.<\/p>\n<p>Na verdade, os \u201cmercados\u201d podem operar perfeitamente em regimes autorit\u00e1rios, democracia \u00e9 bom para pobres, para os \u201cmercados\u201d (ou \u201cgrande capital\u201d como diria Guerin) \u00e9 indiferente no m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Quem ver alguma semelhan\u00e7a com o Brasil de hoje \u00e9 mera coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA<\/p>\n<p>Alem dos livros citados mais\u00a0\u00a0dois livros b\u00e1sicos para entender a Fran\u00e7a de Vichy: THE IDES OF MAY, John Williams,\u00a0\u00a0Constable, Londres, 1968 e THE VICHY REGIME 1940-1944, Beacon Press, Boston 1958).<\/p>\n<p>A literatura sobre Vichy \u00e9 curiosamente muito maior editada fora da Fran\u00e7a, os franceses n\u00e3o curtem esse tema como material de Historia, \u00e9 uma pagina que preferem esquecer.<\/p>\n<p>https:\/\/jornalggn.com.br\/noticia\/paul-bauduin-ou-por-que-os-economistas-de-mercado-adoram-o-fascismo-por-andre-araujo<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andr\u00e9 Ara\u00fajo &#8211;\u00a0A hist\u00f3ria da Fran\u00e7a de Vichy sempre me fascinou,\u00a0desde os anos 60, coleciono livros sobre o per\u00edodo para entender o abismo politico que a Fran\u00e7a tenta esquecer. 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