{"id":9121,"date":"2018-09-07T11:35:02","date_gmt":"2018-09-07T14:35:02","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9121"},"modified":"2018-09-07T11:34:49","modified_gmt":"2018-09-07T14:34:49","slug":"o-virus-da-imunidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/09\/07\/o-virus-da-imunidade\/","title":{"rendered":"O V\u00cdRUS DA IMUNIDADE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Bruno de Sousa Moraes <\/strong>&#8211;\u00a0A hist\u00f3ria da \u201cmem\u00f3ria imunol\u00f3gica\u201d, respons\u00e1vel pela efetividade das vacinas, envolve o embaralhamento de genes, uma diversidade astron\u00f4mica de mol\u00e9culas e uma infec\u00e7\u00e3o que acabou sendo um golpe de sorte.<\/p>\n<p>Atemporada de vacina\u00e7\u00e3o contra gripe chega ao fim no dia 15 de junho. At\u00e9 l\u00e1, as unidades de sa\u00fade continuam a receber filas e mais filas de pessoas que fazem parte dos grupos de risco. Idosos, crian\u00e7as e gestantes esperam para receber inje\u00e7\u00f5es contendo part\u00edculas inativas do v\u00edrus da gripe, que ser\u00e3o reconhecidas pelo sistema imune, de forma a \u201cpreparar\u201d o organismo para lidar com o v\u00edrus. Dessa maneira, caso a pessoa vacinada seja exposta \u00e0 tosse ou espirro de algu\u00e9m infectado \u2014 que carrega part\u00edculas virais que est\u00e3o muito bem, obrigado \u2014 suas defesas j\u00e1 estar\u00e3o a postos para cuidar da infec\u00e7\u00e3o antes que ela se instale.<\/p>\n<p>Este fen\u00f4meno, denominado \u201cmem\u00f3ria imunol\u00f3gica\u201d \u00e9 mediado por c\u00e9lulas chamadas linf\u00f3citos. Os linf\u00f3citos s\u00e3o as grandes estrelas do que chamamos de \u201csistema imune adaptativo\u201d que, como o nome sugere, tem a capacidade de se adaptar ao contexto e responder de maneira direcionada para cada amea\u00e7a apresentada ao organismo. O sistema imune adaptativo, al\u00e9m de ser o principal aliado do Z\u00e9 Gotinha, \u00e9 o que permite que se enfrente uma diversidade de doen\u00e7as, lembrando-se delas e se mantendo capaz de responder de forma r\u00e1pida caso ele encontre novamente os v\u00edrus, bact\u00e9rias ou fungos. Ele tamb\u00e9m \u00e9 uma esp\u00e9cie de privil\u00e9gio no reino animal, j\u00e1 que n\u00e3o s\u00e3o todos os bichos que, como a esp\u00e9cie humana, s\u00e3o dotados dessa capacidade de \u201caprender\u201d com as doen\u00e7as passadas.<\/p>\n<p>Os mecanismos que permitem aos linf\u00f3citos reconhecer e agir contra mol\u00e9culas espec\u00edficas s\u00e3o impressionantes e complexos. Mais impressionante, por\u00e9m, \u00e9 a hist\u00f3ria a respeito de como nossos antepassados adquiriram esses mecanismos pela primeira vez. Essa \u00e9 uma hist\u00f3ria para se ler com certo tempo e aten\u00e7\u00e3o. Quem sabe uma leitura para te acompanhar enquanto voc\u00ea espera para tomar sua pr\u00f3xima vacina?<\/p>\n<p><strong>Anticorpos, receptores e impress\u00f5es digitais<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 incomum que se ou\u00e7a a express\u00e3o \u201cn\u00e3o faz mal, \u00e9 bom que cria anticorpos!\u201d quando algu\u00e9m pega uma bolacha que acabou de cair no ch\u00e3o e coloca na boca. Vale a pena, ent\u00e3o, falarmos um pouco mais sobre o que s\u00e3o esses tais anticorpos, j\u00e1 que a gera\u00e7\u00e3o dos mesmos \u2014 bem como de outras mol\u00e9culas e processos \u2014 \u00e9 exatamente o objetivo da vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Anticorpos s\u00e3o mol\u00e9culas produzidas por um tipo de linf\u00f3citos que recebe o nome de B. A natureza qu\u00edmica dos anticorpos produzidos pelos linf\u00f3citos B \u00e9 proteica, e prote\u00ednas s\u00e3o famosas na biologia pela sua capacidade de interagir com outras mol\u00e9culas. \u00c9 exatamente isso que os anticorpos fazem: em uma de suas pontas, eles t\u00eam estruturas que reconhecem e se ligam de maneira espec\u00edfica a mol\u00e9culas chamadas de\u00a0<em>ant\u00edgenos<\/em>. Depois de ligados, podem neutralizar ou destruir microrganismos invasores de v\u00e1rias maneiras, auxiliados por outras c\u00e9lulas e mecanismos do sistema imune.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3192\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3192\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Human_B_Lymphocyte_-_NIAID.jpg?resize=640%2C480\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" srcset=\"http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Human_B_Lymphocyte_-_NIAID.jpg 800w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Human_B_Lymphocyte_-_NIAID-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Human_B_Lymphocyte_-_NIAID-768x576.jpg 768w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Human_B_Lymphocyte_-_NIAID-24x18.jpg 24w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Human_B_Lymphocyte_-_NIAID-36x27.jpg 36w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Human_B_Lymphocyte_-_NIAID-48x36.jpg 48w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>Microscopia eletr\u00f4nica de um linf\u00f3cito B, uma das grandes estrelas do sistema imune adaptativo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Mas parte do que torna os anticorpos t\u00e3o especiais \u00e9 a capacidade de reconhecer e se grudar a um \u00fanico ant\u00edgeno de forma muito espec\u00edfica. Ou seja, um anticorpo que reconhece uma prote\u00edna do v\u00edrus da gripe n\u00e3o \u00e9 capaz de reconhecer prote\u00ednas do v\u00edrus da Zika, por exemplo. Essa especificidade garante que se consiga diferenciar os \u201cinimigos\u201d, e responder a cada infec\u00e7\u00e3o. E a grande diversidade de anticorpos que cada um de n\u00f3s possui garante que o organismo seja capaz de reconhecer um n\u00famero imenso de ant\u00edgenos.<\/p>\n<p>\u201cOs receptores que se ligam a ant\u00edgenos existem numa enorme diversidade, estimada em cerca de mil milh\u00f5es de milh\u00f5es de receptores diferentes. Acredita-se que formam um sistema completo, capaz de se ligar a todo tipo de mol\u00e9cula, natural ou sint\u00e9tica, de tamanho m\u00ednimo\u201d, diz Alberto N\u00f3brega, professor do Instituto de Microbiologia Paulo de G\u00f3es da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Alberto fez seu doutorado em imunologia, mas essa foi uma mudan\u00e7a de \u00e1rea e tanto: sua gradua\u00e7\u00e3o e mestrado haviam sido na matem\u00e1tica. Segundo ele, a exist\u00eancia de um sistema dotado de tanta diversidade foi uma atra\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel para essa mente acostumada ao mundo dos n\u00fameros. De fato, lidar com \u201cmil milh\u00f5es de milh\u00f5es\u201d (uma ordem de grandeza que envolve QUINZE zeros) parece um trabalho mais adequado para um matem\u00e1tico do que para um bi\u00f3logo.<\/p>\n<p>Segundo o professor, uma analogia para entender a diversidade e a especificidade dos anticorpos seria a de \u201cum sistema de reconhecimento de impress\u00f5es digitais, capaz de distinguir uma gigantesca diversidade de digitais. S\u00f3 que em n\u00edvel molecular, reconhecendo e distinguindo as diferentes mol\u00e9culas entre si\u201d.<\/p>\n<p>Alberto dedica-se a estudar os mecanismos que permitem que sejamos capazes de ler tantas \u201cimpress\u00f5es digitais\u201d. Ou seja, estuda o repert\u00f3rio de mol\u00e9culas receptoras que d\u00e3o origem aos anticorpos. Uma das coisas mais impressionantes encontradas por quem se debru\u00e7a sobre essa tarefa est\u00e1 no fato de que aquele n\u00famero impressionante de anticorpos n\u00e3o faz sentido se olharmos para o genoma. O genoma humano possui apenas um n\u00famero aproximado de vinte e quatro mil genes. Esse n\u00famero \u00e9 quarenta e um bilh\u00f5es de vezes menor do que o n\u00famero de anticorpos, o que significa que mesmo que todos os nossos genes fossem destinados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o dessas mol\u00e9culas, a conta n\u00e3o fecharia. O que explica, ent\u00e3o, a diversidade de anticorpos presentes no organismo?<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel descobrir essa resposta ao olhar para as c\u00e9lulas que produzem os anticorpos, os linf\u00f3citos B. Essas c\u00e9lulas se organizam em linhagens de c\u00e9lulas praticamente iguais entre si, e cada linhagem produz um anticorpo espec\u00edfico. Isso significa mil milh\u00f5es de milh\u00f5es de linhagens. E se voc\u00ea comparar o material gen\u00e9tico dessas linhagens de c\u00e9lulas, ver\u00e1 que os genes de cada linhagem s\u00e3o diferentes dos das outras. E diferentes de todas as outras c\u00e9lulas do organismo. Isso porque, no processo de se tornarem linf\u00f3citos, as c\u00e9lulas perdem uma parte do seu DNA, em uma s\u00e9rie de etapas que envolvem o \u201cembaralhamento\u201d de regi\u00f5es espec\u00edficas do genoma. Essas s\u00e3o exatamente as regi\u00f5es que cont\u00eam os genes respons\u00e1veis pelos anticorpos. E \u00e9 nesse embaralhamento que reside o truque de m\u00e1gica da diversidade.<\/p>\n<p><strong>Recombina\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e os v\u00edrus ancestrais<\/strong><\/p>\n<p>Para entender como o embaralhamento e a perda de material gen\u00e9tico resultam em quantidades astron\u00f4micas de linhagens de linf\u00f3citos espec\u00edficos, vale a pena usar mais uma analogia, dessa vez para falar a respeito de como genes d\u00e3o origem a prote\u00ednas. Pense nas suas c\u00e9lulas como impressoras 3D, que montam mol\u00e9culas com base em instru\u00e7\u00f5es contidas nos genes. Um gene possui as informa\u00e7\u00f5es que a c\u00e9lula precisa para saber quais amino\u00e1cidos colocar na ordem certa para fazer uma prote\u00edna. E a forma final dessa prote\u00edna \u00e9 important\u00edssima para que ela cumpra sua fun\u00e7\u00e3o. Modifica\u00e7\u00f5es nas \u201cinstru\u00e7\u00f5es de impress\u00e3o\u201d dos genes \u2014 que ocorrem, por exemplo, em muta\u00e7\u00f5es \u2014 podem alterar a forma de uma prote\u00edna, interferindo na sua fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o do genoma dos linf\u00f3citos que \u00e9 embaralhada e cortada cont\u00e9m as instru\u00e7\u00f5es para a \u201cimpress\u00e3o\u201d dos receptores, que nos linf\u00f3citos B dar\u00e3o origem aos anticorpos. Essa regi\u00e3o possui v\u00e1rios peda\u00e7os de genes, que funcionam como blocos de montar. No processo, chamado de \u201crecombina\u00e7\u00e3o\u201d, cada linf\u00f3cito acaba com uma mistura diferente desses blocos de montar. Ou seja, instru\u00e7\u00f5es diferentes para a montagem de receptores diferentes. Como esse embaralhamento tem v\u00e1rias etapas e v\u00e1rias combina\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, o n\u00famero final de possibilidades \u00e9 gigantesco. \u00c9 dessa forma que o sistema imune consegue reconhecer at\u00e9 mesmo mol\u00e9culas sint\u00e9ticas. Ou seja, gra\u00e7as a esse processo de recombina\u00e7\u00e3o, temos a capacidade de nos defender at\u00e9 contra aquilo que n\u00e3o existe na natureza. Mas isso \u00e9 apenas metade dessa hist\u00f3ria impressionante. Porque essa recombina\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pela contribui\u00e7\u00e3o de um ser ancestral.<\/p>\n<p>Como dito no in\u00edcio do texto, esse mecanismo de recombina\u00e7\u00e3o \u2014 e, por consequ\u00eancia, o sistema imune adaptativo como um todo \u2014 \u00e9 um privil\u00e9gio de alguns, uma aquisi\u00e7\u00e3o mais recente na hist\u00f3ria do reino animal. Ele ocorre apenas em organismos mais complexos. N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia dos mecanismos da imunidade adaptativa em nenhum invertebrado (como estrelas do mar, insetos e polvos) ou peixe primitivo sem mand\u00edbula, como a lampreia. Apenas os vertebrados que descendem dos peixes com mand\u00edbula (que incluem todos os mam\u00edferos, aves, anf\u00edbios e r\u00e9pteis) possuem as enzimas que promovem a recombina\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o chamadas de prote\u00ednas RAG (do ingl\u00eas\u00a0<em>Recombination Activating Genes<\/em>; ou Genes de Ativa\u00e7\u00e3o da Recombina\u00e7\u00e3o). Como nossos antepassados peixes adquiriram os genes RAG?<\/p>\n<p>\u201cSem d\u00favida \u00e9 um caso de heran\u00e7a gen\u00e9tica por transfer\u00eancia lateral [quando um organismo recebe genes diretamente de outro, de maneira n\u00e3o-heredit\u00e1ria], e n\u00e3o por descend\u00eancia vertical na linhagem do organismo\u201d, explica Alberto. E completa: \u201cas RAGs nos foram doadas por v\u00edrus, num passado remoto, h\u00e1 cerca de 500 milh\u00f5es de anos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Os genes que pulam<\/strong><\/p>\n<p>Os v\u00edrus que nos deram as prote\u00ednas RAG deixaram de ser v\u00edrus h\u00e1 muito tempo. Eles se tornaram uma classe de entidade biol\u00f3gica que os geneticistas chamam de\u00a0<em>transposon<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>elemento de transposi\u00e7\u00e3o<\/em>. O bi\u00f3logo e pesquisador do Instituto Aggeu Magalh\u00e3es, da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, Gabriel da Luz Wallau, come\u00e7ou a estudar os transposons ainda na gradua\u00e7\u00e3o, e conta que eles funcionam de um jeito que parece fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: \u201cOs transposons s\u00e3o, literalmente, um peda\u00e7o de DNA capaz de se mover de um lugar para o outro do genoma. Essa movimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 realizada por uma ou algumas poucas prote\u00ednas que s\u00e3o codificadas pelo pr\u00f3prio transposon e que s\u00e3o transcritas e traduzidas utilizando a maquinaria molecular do genoma hospedeiro. As prote\u00ednas ent\u00e3o vasculham o genoma hospedeiro at\u00e9 encontrar a sequ\u00eancia caracter\u00edstica onde est\u00e1 o transposon. Por exemplo, existem regi\u00f5es repetitivas no limite do transposon que permitem \u00e0 prote\u00edna reconhecer onde ele inicia e termina\u201d.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea estranhou o uso da palavra \u201chospedeiro\u201d, mais utilizado no contexto de doen\u00e7as, a hist\u00f3ria do primeiro contato de Gabriel com os transposons vai esclarecer um pouco as coisas. Ela tamb\u00e9m parece bastante ter sa\u00eddo de uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, especialmente para quem j\u00e1 assistiu o\u00a0<em>remake<\/em>\u00a0de David Cronenberg do filme\u00a0<em>A mosca<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cMeu orientador desenvolveu seu doutorado caracterizando popula\u00e7\u00f5es naturais de dros\u00f3filas [as mosquinhas de frutas] hipermut\u00e1veis. Ou seja, uma linhagem mantida em laborat\u00f3rio na qual um grande n\u00famero de mutantes aparecia a cada gera\u00e7\u00e3o\u201d, diz ele. E as muta\u00e7\u00f5es eram dignas de um filme de terror. \u201cPor exemplo, havia indiv\u00edduos com olhos brancos em vez do caracter\u00edstico vermelho, ou com bolhas nas asas. Alguns indiv\u00edduos sem asas, e at\u00e9 com uma pata no lugar da antena. E na ponta dessa falsa antena se desenvolveram novos olhos. Ele descobriu, no seu doutorado, que essas muta\u00e7\u00f5es estavam diretamente relacionadas \u00e0s atividades dos elementos gen\u00e9ticos m\u00f3veis, os transposons\u201d.<\/p>\n<p>Essas muta\u00e7\u00f5es perturbadoras eram frutos da movimenta\u00e7\u00e3o dos transposons ao longo dos genes das moscas. N\u00e3o \u00e9 incomum que transposons ativos despertem e recomecem a saltar pelo genoma. E quando eles se inserem no meio de algum gene importante, podem alterar o funcionamento dele, ou mesmo silenci\u00e1-lo completamente. Em seres humanos, nos quais os transposons correspondem a aproximadamente 44% do genoma, j\u00e1 existem evid\u00eancias do envolvimento de transposons ativos em doen\u00e7as como a esclerose lateral amiotr\u00f3fica, a doen\u00e7a degenerativa que acometeu o astrof\u00edsico Stephen Hawking. Mas n\u00e3o precisa se preocupar tanto. Ao que parece, os transposons costumam ficar parados, e as nossas c\u00e9lulas t\u00eam suas artimanhas para mant\u00ea-los quietos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3227\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3227\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/0a1339544ead6f5cda611c41da1cf782-1.png?resize=640%2C182\" sizes=\"auto, (max-width: 794px) 100vw, 794px\" srcset=\"http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/0a1339544ead6f5cda611c41da1cf782-1.png 794w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/0a1339544ead6f5cda611c41da1cf782-1-300x85.png 300w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/0a1339544ead6f5cda611c41da1cf782-1-768x219.png 768w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/0a1339544ead6f5cda611c41da1cf782-1-24x7.png 24w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/0a1339544ead6f5cda611c41da1cf782-1-36x10.png 36w, http:\/\/www.comciencia.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/0a1339544ead6f5cda611c41da1cf782-1-48x14.png 48w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"182\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>A mosca de olhos vermelhos \u00e9 a selvagem (ou seja, sem muta\u00e7\u00e3o). As demais, com olhos alterados, sofreram muta\u00e7\u00e3o mediada por transposons.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cAt\u00e9 o momento, a maioria das evid\u00eancias mostram que os transposons que invadem um determinado genoma entram em uma fase de replica\u00e7\u00e3o ativa e, ao longo do tempo, v\u00e3o se degenerando at\u00e9 serem perdidos, ou acumulam tantas muta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o conseguimos mais reconhec\u00ea-los como origin\u00e1rios de transposons\u201d, diz Gabriel. \u201cOutras evid\u00eancias tamb\u00e9m apontam que eles podem ser regulados pelo genoma hospedeiro, mas t\u00e3o logo essa regula\u00e7\u00e3o para de funcionar, ou os transposons conseguem escapar desses mecanismos, os mesmos voltam a se mobilizar e gerar novas c\u00f3pias. Eventualmente algumas c\u00f3pias dos transposons podem ser cooptadas e selecionadas para novas fun\u00e7\u00f5es no genoma hospedeiro, perdendo a capacidade de movimenta\u00e7\u00e3o e trazendo benef\u00edcios ao mesmo\u201d.<\/p>\n<p>Aparentemente, foi esse o caso do transposon que deu aos nossos antepassados o sistema imune adaptativo. Ao se inserir num lugar espec\u00edfico do genoma, ele conferiu acidentalmente uma grande vantagem no que diz respeito \u00e0 sobreviv\u00eancia em um mundo cheio de outros parasitas, que \u00e9 a capacidade de reconhec\u00ea-los com alta precis\u00e3o e ir al\u00e9m dos limites da informa\u00e7\u00e3o do c\u00f3digo gen\u00e9tico. Provavelmente muitos dos peixes primitivos que foram v\u00edtimas desse parasita gen\u00e9tico morreram ou desenvolveram doen\u00e7as terr\u00edveis. Como Gabriel conta, os eventos mais catastr\u00f3ficos n\u00e3o deixam registros, porque os indiv\u00edduos s\u00e3o eliminados na corrida da evolu\u00e7\u00e3o. O que sobra s\u00e3o as combina\u00e7\u00f5es mais harm\u00f4nicas, como a das prote\u00ednas RAG. Mas o transposon tamb\u00e9m ganha algo no processo.<\/p>\n<p><strong>Uma combina\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de anos<\/strong><\/p>\n<p>\u201cAs intera\u00e7\u00f5es t\u00eam uma influ\u00eancia enorme na evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. O pr\u00f3prio Darwin, no final de\u00a0<em>A origem das esp\u00e9cies<\/em>, descreve a natureza como uma grande teia de intera\u00e7\u00f5es, e as conex\u00f5es que ligam essa enorme teia s\u00e3o fascinantes para mim\u201d. A dona desse fasc\u00ednio pela grande teia das intera\u00e7\u00f5es \u00e9 a bi\u00f3loga e professora do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paran\u00e1 Karla Magalh\u00e3es Campi\u00e3o. Karla estuda intera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas, nas pr\u00f3prias palavras \u201cbuscando entender como as intera\u00e7\u00f5es entre esp\u00e9cies influenciam e s\u00e3o influenciadas pelo mundo \u00e0 nossa volta.\u201d<\/p>\n<p>Ao favorecer o organismo no qual se inseriu, o v\u00edrus ou transposon do qual os vertebrados herdaram as prote\u00ednas RAG tamb\u00e9m acabou favorecendo a si mesmo. Isso porque ele se reproduz e se mant\u00e9m na grande hist\u00f3ria da vida sempre que esse hospedeiro deixa descendentes. E se pensarmos em toda a diversidade de vertebrados que carregam os genes respons\u00e1veis pela diversidade de receptores de linf\u00f3citos, podemos ver que essa combina\u00e7\u00e3o deu bastante certo para ambas as partes.<\/p>\n<p>\u201cMutualismo \u00e9 o termo que usamos para classificar a associa\u00e7\u00e3o que aumenta o valor adaptativo de ambos os organismos que est\u00e3o interagindo. Quando essa ou outra intera\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica \u00e9 muito pr\u00f3xima, chamamos de simbiose. O termo foi definido pelo micologista (estudioso de fungos) Anton de Bary, em 1879, e significa literalmente o \u2018morar junto\u2019 de \u2018organismos dissimilares\u2019\u201d, diz Karla.<\/p>\n<p>A ideia de v\u00edrus ou transposons como simbiontes \u00e9 um pouco estranha mesmo para estudiosos das intera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas. Isso porque, mesmo sendo entidades biol\u00f3gicas, esses pequenos elementos gen\u00e9ticos n\u00e3o s\u00e3o encarados pela biologia como formas de vida propriamente ditas. Al\u00e9m disso, \u00e9 mais comum pensarmos nesses peda\u00e7os de DNA apenas como parasitas. Mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que intera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas mudem de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cParasitismo e mutualismo podem ser vistos como extremos em um\u00a0<em>continuum<\/em>, e as esp\u00e9cies interagem de forma din\u00e2mica no gradiente entre os extremos. Considerando a din\u00e2mica da evolu\u00e7\u00e3o pelo processo de sele\u00e7\u00e3o natural, o que vemos \u00e9 apenas um recorte da realidade, e mudan\u00e7as em ambas as dire\u00e7\u00f5es devem ser muito mais comuns na natureza do que imaginamos. Acredita-se que a associa\u00e7\u00e3o mutual\u00edstica entre a vespa que poliniza a flor do figo j\u00e1 foi um parasitismo no passado. Por outro lado, muitos parasitos de pele de vertebrados devem ter sido mutualistas, que prestavam um servi\u00e7o de limpeza aos seus hospedeiros\u201d, diz Karla. Ela explica que essas mudan\u00e7as de dire\u00e7\u00e3o podem ocorrer at\u00e9 mesmo no chamado \u201ctempo ecol\u00f3gico\u201d, ou seja, durante o tempo de vida de um indiv\u00edduo, sem depender da passagem de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cPor exemplo, os mutualistas de limpeza que mencionei, que se alimentam de microrganismos que habitam a pele dos hospedeiros, podem passar a se alimentar da pr\u00f3pria pele onde vivem em um contexto de escassez de recurso ou mudan\u00e7a no ambiente. Ou seja, uma mesma esp\u00e9cie pode ser classificada como mutualista ou parasita, dependendo do contexto. A literatura cient\u00edfica \u00e9 cheia de exemplos assim, e mostra que a natureza de fato desafia a nossa l\u00f3gica e conceitos\u201d.<\/p>\n<p>Dos exemplos que desafiam a l\u00f3gica humana, talvez a hist\u00f3ria dos v\u00edrus, transposons e linf\u00f3citos seja um dos mais fascinantes. No m\u00ednimo, ele \u00e9 respons\u00e1vel por salvar milh\u00f5es de vidas no mundo inteiro, em campanhas de vacina\u00e7\u00e3o como a da gripe. Afinal de contas, v\u00edrus que mudam de parasitas para simbiontes s\u00e3o extremamente raros. Na d\u00favida, \u00e9 melhor se proteger.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"jXo6f1cUrr\"><p><a href=\"https:\/\/www.comciencia.br\/o-virus-da-imunidade\/\">O v\u00edrus da imunidade<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;O v\u00edrus da imunidade&#8221; &#8212; \" src=\"https:\/\/www.comciencia.br\/o-virus-da-imunidade\/embed\/#?secret=nkG5SHiPFQ#?secret=jXo6f1cUrr\" data-secret=\"jXo6f1cUrr\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno de Sousa Moraes &#8211;\u00a0A hist\u00f3ria da \u201cmem\u00f3ria imunol\u00f3gica\u201d, respons\u00e1vel pela efetividade das vacinas, envolve o embaralhamento de genes, uma diversidade astron\u00f4mica de mol\u00e9culas e uma infec\u00e7\u00e3o que acabou sendo um golpe de sorte. 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