{"id":9051,"date":"2018-09-02T09:05:14","date_gmt":"2018-09-02T12:05:14","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=9051"},"modified":"2018-08-31T21:08:17","modified_gmt":"2018-09-01T00:08:17","slug":"as-licoes-de-salario-preco-e-lucro-e-a-resistencia-ao-moinho-satanico-neoliberal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/09\/02\/as-licoes-de-salario-preco-e-lucro-e-a-resistencia-ao-moinho-satanico-neoliberal\/","title":{"rendered":"As Li\u00e7\u00f5es de &#8220;Sal\u00e1rio, Pre\u00e7o e Lucro&#8221; e a Resist\u00eancia ao Moinho Sat\u00e2nico Neoliberal"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Raimundo Trindade<\/strong> &#8211; Neste maio de 2018, compete visualizar na realidade concreta brasileira as consequ\u00eancias e movimentos deste capitalismo que em sua fase senil retorna aos processos mais &#8216;sangrentos&#8217; de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>O tempo \u00e9 o campo do desenvolvimento humano. O homem que n\u00e3o disp\u00f5e de nenhum tempo livre, cuja vida, afora as interrup\u00e7\u00f5es puramente f\u00edsicas do sono, das refei\u00e7\u00f5es, etc., est\u00e1 toda ela absorvida pelo seu trabalho para o capitalista, \u00e9 menos que uma besta de carga. \u00c9 uma simples m\u00e1quina, fisicamente destro\u00e7ada e espiritualmente animalizada, para produzir riqueza alheia. (MARX, 1865).<\/p><\/blockquote>\n<p>Era o ano de 1865 e naquela altura parcela da classe trabalhadora inglesa j\u00e1 estava organizada em sindicatos e as lutas sociais e, muito especialmente, as lutas salariais tornavam-se frequentes na medida em que avan\u00e7ava a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, naquele altura um desconhecido intelectual-militante realizava um semin\u00e1rio com dirigentes sindicais e alertava que frente a \u201cuma verdadeira epidemia de greves e um clamor geral por aumentos de sal\u00e1rios\u201d os dirigentes socialistas deveriam adotar \u201c um crit\u00e9rio firme perante este problema fundamental\u201d (MARX 1865).<\/p>\n<p>Mais de 150 anos nos separam do texto citado, fruto de uma exposi\u00e7\u00e3o realizada por Marx ao \u201cConselho Geral da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores\u201d, cuja t\u00f4nica mant\u00e9m-se mais do que sempre atual, principalmente em um momento em que o capitalismo parece dar uma nova guinada c\u00edclica, retornando a um padr\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores bastante semelhantes aquele que vicejava no capitalismo ainda nascente observado pelo Mouro de Trev\u00e9s.<\/p>\n<p>Retornar ao cl\u00e1ssico \u201cSal\u00e1rio, Pre\u00e7o e Lucro\u201d<a href=\"https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/As-Licoes-de-Salario-Preco-e-Lucro-e-a-Resistencia-ao-Moinho-Satanico-Neoliberal\/4\/40088#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, tem duas perspectivas: primeiramente observar que a din\u00e2mica do capitalismo constitui uma elaborada intera\u00e7\u00e3o entre novas formas de explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, com o uso expansivo de novas tecnologias e novos espa\u00e7os territoriais para o capitalismo; ao lado da retomada de velhas f\u00f3rmulas, centradas na expans\u00e3o das jornadas de trabalho, intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o e malversa\u00e7\u00e3o das taxas de sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>Neste maio de 2018, compete n\u00e3o somente um retorno te\u00f3rico, mas sobretudo visualizar na realidade concreta brasileira as consequ\u00eancias e movimentos deste capitalismo que em sua fase senil retorna aos processos mais \u201csangrentos\u201d de explora\u00e7\u00e3o, como marca de um ciclo econ\u00f4mico cuja destrutibilidade social nos encaminha \u00e0 barb\u00e1rie, sendo que a resist\u00eancia social requer a melhor compreens\u00e3o da temporalidade do atual \u201cmoinho sat\u00e2nico\u201d neoliberal.<\/p>\n<p>Os capitalistas, aqui designados os empres\u00e1rios industriais, rurais, comerciantes e banqueiros, se movem segundo um objetivo principal a obten\u00e7\u00e3o do m\u00e1ximo de lucro, sendo que a origem desta forma brilhante e \u00e1urea do lucro se encontra numa condi\u00e7\u00e3o social: a explora\u00e7\u00e3o do trabalhador seja ele um oper\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o civil, um metal\u00fargico, um banc\u00e1rio ou um vendedor das lojas Riachuelo, nos termos do nosso autor: \u201c[sem] sombra de d\u00favida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos o mais que possa. E o que temos a fazer n\u00e3o \u00e9 divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o car\u00e1ter desses limites\u201d<a href=\"https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/As-Licoes-de-Salario-Preco-e-Lucro-e-a-Resistencia-ao-Moinho-Satanico-Neoliberal\/4\/40088#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Os economistas do mercado, ou seja, os que pensam conforme os interesses do capital, desde muito apregoam a ideia de que os reajustes salariais s\u00e3o os principais provocadores da infla\u00e7\u00e3o e que os trabalhadores deveriam se ajustar permanentemente a um \u201csal\u00e1rio fixo\u201d ou mesmo decrescente e que, assim, poder-se-ia ter o melhor dos mundos: aumento do emprego, n\u00e3o haveria desemprego e a economia cresceria, garantindo-se, de quebra, o justo lucro dos empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>Epis\u00f3dio hist\u00f3rico da maior import\u00e2ncia relatado por Marx no seu breve op\u00fasculo refere-se a legisla\u00e7\u00e3o aprovada em 1848, fruto de ampla press\u00e3o dos movimentos de trabalhadores \u201ccartistas\u201d que reduziu a jornada de trabalho para 10 horas (\u00e0s jornadas at\u00e9 ent\u00e3o excediam 14 horas), os economistas de plant\u00e3o, Dr. Ure, \u00a0Prof. \u00a0S\u00eanior,\u00a0 que em nada deixam a dever aos nossos Drs. Meirelles, Levys e N\u00f3bregas, anunciaram com alarde o inevit\u00e1vel \u201cdecr\u00e9scimo da acumula\u00e7\u00e3o, a alta dos pre\u00e7os, a perda dos mercados, a redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, a consequente rea\u00e7\u00e3o sobre os sal\u00e1rios e, enfim, a ru\u00edna\u201d.<\/p>\n<p>Por\u00e9m a curiosa consequ\u00eancia da referida legisla\u00e7\u00e3o social foi bem o inverso, como retrata Marx o que se observou no per\u00edodo seguinte foi que mesmo com o aumento dos sal\u00e1rios e com a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, observou-se o crescimento da massa de trabalhadores empregados, baixaram os pre\u00e7os dos bens de trabalhadores e \u201cse expandiram progressivamente, em propor\u00e7\u00f5es nunca vistas, os mercados para os seus artigos\u201d, com isso o capitalismo ingl\u00eas \u00a0surfou pela primeira vez em um efeito\u00a0 de eleva\u00e7\u00e3o da demanda agregada de bens de trabalhadores.<\/p>\n<p>Vale notar que a eleva\u00e7\u00e3o da massa de sal\u00e1rios responde a diferentes varia\u00e7\u00f5es salariais, assim a maior parte dos trabalhadores percebe somente reajustes ris\u00edveis e uma parte consegue ter reposi\u00e7\u00f5es salariais que correspondem no m\u00e1ximo \u00e0 reposi\u00e7\u00e3o da corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e somente a menor parcela de trabalhadores tem reajustes salariais acima da m\u00e9dia.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise evolutiva dos par\u00e2metros de v\u00ednculos formais criados na economia brasileira no per\u00edodo de 2002 a 2014, bem como a massa de rendimentos salariais assim decorrentes, demonstra o quanto este ciclo recente da economia brasileira correspondeu a um padr\u00e3o que poder\u00edamos chamar de cl\u00e1ssico, considerando tanto o deslocamento da curva de postos de trabalho quanto da massa salarial. Em termos das li\u00e7\u00f5es tratadas em \u201cSal\u00e1rio, Pre\u00e7o e Lucro\u201d este per\u00edodo \u00e9 ilustrativo das cr\u00edticas aos economistas: enquanto o ciclo de acumula\u00e7\u00e3o permanecer em alta, o que implica crescente rentabilidade empresarial observa-se a perman\u00eancia da curva ascendente da demanda por for\u00e7a de trabalho, que por sua vez gera o efeito de eleva\u00e7\u00e3o circular na massa salarial.<\/p>\n<p><b>Gr\u00e1fico 1- V\u00ednculos Formais e Massa Salarial \u2013 Brasil (2002\/2016)<\/b><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"larguraBox\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/oi63.tinypic.com\/2cyjivb.jpg?w=640\" alt=\"&quot;grafico&lt;br\/\" \/><\/p>\n<p>Marx, j\u00e1 estabelecia naquele momento a cr\u00edtica necess\u00e1ria aos economistas que achavam e, ainda hoje defendem, que &#8220;os pre\u00e7os das mercadorias s\u00e3o determinados ou regulados pelos sal\u00e1rios&#8221;.\u00a0\u00a0 O sal\u00e1rio \u00e9 uma vari\u00e1vel dependente, cuja determina\u00e7\u00e3o resulta, de um lado do valor da mercadoria for\u00e7a de trabalho, de outro da pun\u00e7\u00e3o que o capital exerce no processo de acumula\u00e7\u00e3o. A li\u00e7\u00e3o de Marx \u00e9 bem clara: os sal\u00e1rios \u201cn\u00e3o podem exceder os valores das mercadorias [&#8230;] mas podem, sim, ser inferiores em todos os graus imagin\u00e1veis\u201d, de tal forma que os sal\u00e1rios dos trabalhadores \u201cachar-se-\u00e3o limitados pelos valores dos produtos, mas os valores de seus produtos n\u00e3o se achar\u00e3o limitados pelos sal\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p>Decorrente da l\u00f3gica exposta, o que temos \u00e9 que a massa de riqueza gerada, produzida por uma determinada quantidade de trabalho social \u00e9 de tal volume que gera ao mesmo tempo a renda que remunera os sal\u00e1rios dos trabalhadores, como gera a enorme renda apropriada pelos diversos empres\u00e1rios capitalistas. Esta li\u00e7\u00e3o, aparentemente simples, at\u00e9 hoje n\u00e3o foi aprendida pelos ditos economistas, sendo que podemos aferir no Gr\u00e1fico 1 acima uma consequ\u00eancia importante do ciclo econ\u00f4mico recente: poder\u00e1 haver ganhos salariais e eleva\u00e7\u00e3o da rentabilidade capitalista mesmo em uma economia perif\u00e9rica como a brasileira, sendo que durante certo per\u00edodo a classe trabalhadora poder\u00e1, inclusive, ter seus ganhos m\u00e9dios acima da infla\u00e7\u00e3o, como o Gr\u00e1fico 2 abaixo mostra.<\/p>\n<p><b>Gr\u00e1fico 2 \u2013 Evolu\u00e7\u00e3o Taxa de Crescimento da Renda M\u00e9dia e da Infla\u00e7\u00e3o \u2013 Brasil (2002\/2016)<\/b><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"larguraBox\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/oi63.tinypic.com\/29lnrf6.jpg?w=640\" alt=\"&quot;grafica&lt;br\/\" \/><\/p>\n<p><b>As lutas salariais e a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores<\/b><\/p>\n<p>Como assinalado anteriormente o sal\u00e1rio corresponde ao valor monet\u00e1rio da for\u00e7a de trabalho, sendo este valor determinado por um m\u00ednimo referentes as condi\u00e7\u00f5es de subsist\u00eancia do trabalhador e de sua fam\u00edlia e por condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e sociais que diferenciam os sal\u00e1rios conforme as diferentes localidades e pa\u00edses. As lutas salariais, seja para o incremento da taxa salarial, seja para resistir a sua redu\u00e7\u00e3o, se estabelecem mediante cinco formatos principais, sendo que cada forma desta relaciona-se as contradi\u00e7\u00f5es estabelecidas no ciclo conjuntural capitalista:<\/p>\n<p>i) Alterando-se a produtividade do trabalho, o valor da for\u00e7a de trabalho reduz-se, o que implica em ganho superior para o capitalista e poss\u00edvel empobrecimento relativo dos trabalhadores. Vale notar que nas diversas sociedades, como a brasileira, os ganhos recentes de produ\u00e7\u00e3o na agricultura, barateando os bens de primeira necessidade representaram eleva\u00e7\u00e3o na produtividade social, por\u00e9m como mostram os dados do DIEESE referentes ao sal\u00e1rio m\u00ednimo necess\u00e1rio o padr\u00e3o brasileiro sempre manteve elevado distanciamento entre a Renda M\u00e9dia e o Sal\u00e1rio M\u00ednimo Necess\u00e1rio, o que denota o poder do capital nas rela\u00e7\u00f5es de disputa social brasileira.<\/p>\n<p><b>Gr\u00e1fico 3 \u2013 Evolu\u00e7\u00e3o Renda M\u00e9dia, Sal\u00e1rio M\u00ednimo e Sal\u00e1rio M\u00ednimo Necess\u00e1rio \u2013 Brasil (2002\/2016)<\/b><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"larguraBox\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/oi65.tinypic.com\/2lux3ps.jpg?w=640\" alt=\"&quot;graficao&lt;br\/\" \/><\/p>\n<p>ii) Uma segunda altera\u00e7\u00e3o fundamental refere-se ao impacto inflacion\u00e1rio sobre os sal\u00e1rios, Marx ponderava que os \u201cvalores dos artigos de primeira necessidade e, por conseguinte, o valor do trabalho podem permanecer invari\u00e1veis, mas o pre\u00e7o deles em dinheiro pode sofrer altera\u00e7\u00e3o desde que se opere uma pr\u00e9via modifica\u00e7\u00e3o no valor do dinheiro\u201d. A desvaloriza\u00e7\u00e3o salarial provocada pela infla\u00e7\u00e3o, enquanto perda de valor do dinheiro, tornou-se historicamente uma das principais formas de \u201csuper-explora\u00e7\u00e3o\u201d, algo utilizado recorrentemente no Brasil. Neste sentido, o per\u00edodo em tela analisado \u00e9 um dos raros momentos, como mostra o Gr\u00e1fico 2, que os sal\u00e1rios tiveram capacidade de recomposi\u00e7\u00e3o inflacion\u00e1ria e obteve-se pequeno ganho real que durou at\u00e9 2014.<\/p>\n<p>iii) uma terceira forma de impacto salarial, que os trabalhadores devem se proteger de uma forma muito efetiva, refere-se a altera\u00e7\u00f5es na jornada de trabalho. Marx observa que ao dispor de uma parcela maior do tempo livre do trabalhador, o capital de um lado aumenta sua rentabilidade e, por outro, brutaliza os trabalhadores, dificultando, inclusive, sua capacidade de intera\u00e7\u00e3o pessoal. Vale notar, que as atuais altera\u00e7\u00f5es decorrentes da Lei 13.467\/16 tem como um dos focos a eleva\u00e7\u00e3o da jornada m\u00e9dia de trabalho atrav\u00e9s do artificio da contrata\u00e7\u00e3o de trabalho intermitente, combinado com as jornadas de 12 horas, assim os empres\u00e1rios passam a contratar empregados em regime de revezamento em que cada um deles trabalhe 12 horas consecutivas para folgar 36, sem ultrapassar o n\u00famero m\u00e1ximo de horas mensais, de modo a n\u00e3o interromper jamais a produ\u00e7\u00e3o e n\u00e3o precisar pagar horas extras.<\/p>\n<p>iv) Uma quarta condi\u00e7\u00e3o de press\u00e3o sobre os sal\u00e1rios refere-se ao pr\u00f3prio ciclo do capital, como explica nosso autor \u201ca produ\u00e7\u00e3o capitalista move-se atrav\u00e9s de determinados ciclos peri\u00f3dicos. Passa por fases de calma, de anima\u00e7\u00e3o crescente, de prosperidade, de superprodu\u00e7\u00e3o, de crise e de estagna\u00e7\u00e3o. Os pre\u00e7os das mercadorias no mercado e a taxa de lucro no mercado seguem estas fases; ora descendo abaixo de seu n\u00edvel m\u00e9dio, ora ultrapassando-o\u201d. Durante estes diferentes momentos os trabalhadores estar\u00e3o submetidos a diferentes condi\u00e7\u00f5es, at\u00e9 mesmo a de desemprego.<\/p>\n<p>Vale observar que no ciclo recente a recomposi\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo segundo a regra aprovada em 2004 (corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria adicionada ao crescimento m\u00e9dio do PIB dos \u00faltimos dois anos) possibilitou um crescimento do sal\u00e1rio real m\u00e9dio no per\u00edodo de 2003 a 2014 a uma taxa bem superior as tr\u00eas d\u00e9cadas anteriores, especialmente se descolando da d\u00e9cada de 90, marcadamente de perdas para os diversos segmentos de trabalhadores (formais e informais). Essa altera\u00e7\u00e3o real dos ganhos m\u00e9dios podem ser vistas comparando-se os valores do sal\u00e1rio m\u00ednimo em d\u00f3lares: em 2000, um sal\u00e1rio m\u00ednimo comprava, aproximadamente, oitenta d\u00f3lares; em 2014 comprava, aproximadamente, trezentos e vinte d\u00f3lares. A disputa social no atual momento se coloca pelo menos na condi\u00e7\u00e3o de garantir a manuten\u00e7\u00e3o do que foi acordado em 2004. Usando os termos de Marx, os trabalhadores est\u00e3o sempre na defensiva, reagindo \u201ccontra a a\u00e7\u00e3o anterior do capital\u201d.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o radicalmente neoliberal ou n\u00e3o-legisla\u00e7\u00e3o do trabalho, a partir da referida Lei 13.467, imp\u00f5e-se um poder \u201cdesp\u00f3tico\u201d do capital sobre o mercado de trabalho. Assim, a destrui\u00e7\u00e3o da regula\u00e7\u00e3o trabalhista estabelece condi\u00e7\u00f5es ainda mais extorsivas de explora\u00e7\u00e3o do trabalhador, inclusive estimulando a desmobiliza\u00e7\u00e3o e desorganiza\u00e7\u00e3o dos sindicatos. Entre os pontos mais marcantes da altera\u00e7\u00e3o na legisla\u00e7\u00e3o do trabalho est\u00e3o: i) a flexibiliza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o empregado e patr\u00e3o, onde as tomadas de decis\u00e3o em acordos coletivos supera as disposi\u00e7\u00f5es definidas na constitui\u00e7\u00e3o no que diz respeito a tempo de f\u00e9rias (dividida em tr\u00eas vezes) e de descanso durante a jornada de trabalho (de duas horas, passa a ser no m\u00ednimo 30 minutos); ii) a extens\u00e3o da jornada de trabalho de 8h para 12h semanais; e iii) a aprova\u00e7\u00e3o do trabalho intermitente, onde o trabalhador recebe pela jornada ou di\u00e1ria de trabalho.<\/p>\n<p>Fica evidente que o objetivo final desta pol\u00edtica concentra-se na expans\u00e3o da subcontrata\u00e7\u00e3o, pressionando a margem geral de sal\u00e1rios para baixo, desmobilizando a classe trabalhadora e ampliando toda sorte de ilegalidades que passam a existir nos interst\u00edcios dessas \u201cnovas rela\u00e7\u00f5es de trabalho\u201d, entre elas a abusiva eleva\u00e7\u00e3o das jornadas, a \u201cpejotiza\u00e7\u00e3o\u201d e a nega\u00e7\u00e3o de direitos previdenci\u00e1rios b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>Todavia, em um contexto de crise sist\u00eamica aguda e de competitividade crescente, no qual os capitais encontram dificuldade progressiva para manter os ritmos de crescimento das suas taxas de lucro, o incremento da taxa de explora\u00e7\u00e3o do trabalho representado aqui pelas n\u00e3o-regras trabalhistas, parece ser uma solu\u00e7\u00e3o que, no entanto, s\u00f3 pode ser paliativa para a crise imanente de reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital ao n\u00edvel global, por\u00e9m de atroz barbariza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores brasileiros. A \u00fanica sa\u00edda \u00e9 a radical disputa social, capaz de no primeiro momento anular esta legisla\u00e7\u00e3o e impor um novo quadro regulacional e no momento seguinte propor a \u201caboli\u00e7\u00e3o definitiva do sistema de trabalho assalariado\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/As-Licoes-de-Salario-Preco-e-Lucro-e-a-Resistencia-ao-Moinho-Satanico-Neoliberal\/4\/40088#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/edisciplinas.usp.br\/pluginfile.php\/3951643\/mod_resource\/content\/1\/1978_Marx_Salario%2C%20preco%20e%20lucro.pdf\">https:\/\/edisciplinas.usp.br\/pluginfile.php\/3951643\/mod_resource\/content\/1\/1978_Marx_Salario%2C%20preco%20e%20lucro.pdf<\/a>.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/As-Licoes-de-Salario-Preco-e-Lucro-e-a-Resistencia-ao-Moinho-Satanico-Neoliberal\/4\/40088#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0Marx esclarece que toda riqueza social prov\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o do trabalho e que esta mais-valia produzida ou trabalho n\u00e3o remunerado \u00e9 apropriado pelas diferentes fra\u00e7\u00f5es da burguesia, assim a \u201crenda territorial, o juro e o lucro industrial nada mais s\u00e3o que nomes diferentes para exprimir as diferentes partes da mais-valia de uma mercadoria ou do trabalho n\u00e3o remunerado, que nela se materializa, e todos prov\u00e9m por igual desta fonte e s\u00f3 desta fonte\u201d.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/As-Licoes-de-Salario-Preco-e-Lucro-e-a-Resistencia-ao-Moinho-Satanico-Neoliberal\/4\/40088<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Raimundo Trindade &#8211; Neste maio de 2018, compete visualizar na realidade concreta brasileira as consequ\u00eancias e movimentos deste capitalismo que em sua fase senil retorna aos processos mais &#8216;sangrentos&#8217; de explora\u00e7\u00e3o. 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