{"id":8975,"date":"2018-08-24T09:54:38","date_gmt":"2018-08-24T12:54:38","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=8975"},"modified":"2018-08-23T18:57:37","modified_gmt":"2018-08-23T21:57:37","slug":"slavoj-zizek-a-atualidade-de-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/08\/24\/slavoj-zizek-a-atualidade-de-marx\/","title":{"rendered":"Slavoj Zizek: A atualidade de Marx"},"content":{"rendered":"<p><strong>SLAVOJ \u017dI\u017dEK<\/strong> &#8211;\u00a0 \u00c9 preciso responder de maneira propriamente dial\u00e9tica \u00e0 quest\u00e3o sobre a continuada relev\u00e2ncia da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx no capitalismo global de hoje.<\/p>\n<p>Quando penso no bicenten\u00e1rio de Karl Marx comemorado este ano, logo me ocorre uma deliciosa piada sovi\u00e9tica sobre a r\u00e1dio Yerevan. Um ouvinte pergunta: \u201c\u00c9 verdade que Rabinovitch ganhou um carro novo na loteria?\u201d. E a r\u00e1dio responde: \u201cA princ\u00edpio, \u00e9 verdade, sim. S\u00f3 que n\u00e3o foi um carro novo, foi uma bicicleta velha, e ele n\u00e3o ganhou ela, ela lhe foi roubada.\u201d N\u00e3o seria poss\u00edvel dizer que algo semelhante n\u00e3o vale tamb\u00e9m para o destino do ensinamento de Marx hoje, 200 anos ap\u00f3s seu nascimento?<\/p>\n<p>Perguntemos \u00e0 r\u00e1dio Yerevan: \u201c\u00c9 verdade que Marx ainda \u00e9 atual hoje?\u201d. E j\u00e1 d\u00e1 para adivinhar que tipo de resposta ter\u00edamos: \u201cA princ\u00edpio, sim, ele descreve maravilhosamente a dan\u00e7a louca das din\u00e2micas do capitalismo, que s\u00f3 atingiu seu auge hoje, mais de um s\u00e9culo e meio depois de seus escritos, mas\u2026 Gerald A. Cohen enumerou os quatro atributos fundamentais da no\u00e7\u00e3o marxista cl\u00e1ssica de classe trabalhadora: (1) ela constitui a maioria da sociedade; (2) ela produz a riqueza da sociedade; (3) ela consiste dos membros explorados da sociedade; (4) seus membros s\u00e3o os necessitados da sociedade. Quando combinam-se esses quatro atributos, geram-se mais dois: (5) a classe trabalhadora n\u00e3o tem nada a perder com uma revolu\u00e7\u00e3o; (6) ela pode e ir\u00e1 iniciar uma transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade.\u00b9\u00a0N\u00e3o se pode dizer que os quatro primeiros atributos se aplicam \u00e0 classe trabalhadora atual. \u00c9 por isso que n\u00e3o se pode produzir os enunciados (5) e (6). (Ainda que algumas das caracter\u00edsticas possam ser v\u00e1lidas para certas partes da sociedade atual, elas n\u00e3o est\u00e3o mais unificadas em um \u00fanico agente: os necessitados na sociedade n\u00e3o s\u00e3o mais os trabalhadores, etc.)<\/p>\n<p>O impasse hist\u00f3rico do marxismo n\u00e3o repousa apenas no fato de que ele contava com a perspectiva da crise derradeira do capitalismo e portanto n\u00e3o podia dar conta de explicar como o capitalismo sa\u00eda de cada crise fortalecido. H\u00e1 um equ\u00edvoco ainda mais tr\u00e1gico em opera\u00e7\u00e3o no corpo cl\u00e1ssico do marxismo, descrito de maneira muito precisa por Wolfgang Streeck: o marxismo estava certo a respeito da \u201ccrise final\u201d do capitalismo; \u00e9 evidente que estamos adentrando ela hoje, mas essa crise \u00e9 simplesmente isso, um processo prolongado de corros\u00e3o e desintegra\u00e7\u00e3o, sem que haja uma\u00a0Aufhebung\u00a0hegeliana f\u00e1cil \u00e0 vista, sem que haja nenhum agente para conferir a essa corros\u00e3o uma virada positiva e transform\u00e1-la em passagem para algum n\u00edvel mais elevado de organiza\u00e7\u00e3o social:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um preconceito marxista \u2013 ou melhor,\u00a0modernista\u00a0\u2013 que o capitalismo enquanto \u00e9poca hist\u00f3ria somente ir\u00e1 se encerrar no momento em que uma sociedade nova e melhor estiver \u00e0 vista, e em que houver um sujeito revolucion\u00e1rio disposto para implement\u00e1-la para fazer avan\u00e7ar a humanidade. Isso pressup\u00f5e um grau de controle pol\u00edtico sobre nosso destino comum com o qual n\u00e3o podemos nem sonhar depois da destrui\u00e7\u00e3o da autonomia coletiva (e inclusive da esperan\u00e7a por ela) realizada na revolu\u00e7\u00e3o neoliberal-globalista.\u201d\u00b2<\/p>\n<p>A vis\u00e3o de Marx era a de uma sociedade gradualmente se aproximando de sua crise final, uma situa\u00e7\u00e3o marcada pela simplifica\u00e7\u00e3o da complexidade da vida social a um grande antagonismo entre os capitalistas e a maioria prolet\u00e1ria. No entanto, at\u00e9 mesmo um r\u00e1pido panorama das revolu\u00e7\u00f5es comunistas do s\u00e9culo XX j\u00e1 deixa claro que essa simplifica\u00e7\u00e3o nunca efetivamente chegou a ocorrer: os movimentos comunistas radicais sempre estiveram circunscritos a uma minoria vanguardista que, para obter hegemonia, precisava aguardar pacientemente uma crise (geralmente uma guerra) que fornecia uma estreita janela de oportunidade. Em tais situa\u00e7\u00f5es, uma aut\u00eantica vanguarda tem a chance de pode aproveitar o momento, mobilizar o povo (ainda que n\u00e3o a maioria de fato) e tomar o poder. Aqui, os comunistas sempre se mostraram totalmente \u201cn\u00e3o-dogm\u00e1ticos\u201d, prontos para se colarem a outras pautas: terra e paz na R\u00fassia, liberta\u00e7\u00e3o nacional e unidade contra a corrup\u00e7\u00e3o na China, por exemplo\u2026 Eles sempre tiveram plena consci\u00eancia de que a mobiliza\u00e7\u00e3o acabaria logo e tratavam de preparar cuidadosamente o aparato de poder para garantir sua manuten\u00e7\u00e3o no poder naquele momento. (Em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, que explicitamente tratou os camponeses como aliados secund\u00e1rios, a Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa sequer fingiu ser prolet\u00e1ria: ela abordou diretamente os agricultores como sua base.)<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/operamundi.uol.com.br\/\/images\/fb_Marx.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><em>\u00c9 preciso responder de maneira propriamente dial\u00e9tica \u00e0 quest\u00e3o sobre a continuada relev\u00e2ncia da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx no capitalismo global de hoje<\/em><\/p>\n<p>O\u00a0grande problema\u00a0do marxismo ocidental (e at\u00e9 mesmo do marxismo como tal) era a aus\u00eancia do sujeito revolucion\u00e1rio: como explicar que a classe trabalhadora n\u00e3o conclui a passagem do\u00a0em-siao\u00a0para-si\u00a0de forma a constituir enquanto agente revolucion\u00e1rio? Esse problema fornecia a principal\u00a0raison d\u2019\u00eatre\u00a0do recurso \u00e0 psican\u00e1lise, evocada no interior dessa tradi\u00e7\u00e3o precisamente para dar conta de explicar os mecanismos libidinais inconscientes que bloqueiam o surgimento da consci\u00eancia de classe inscrita no pr\u00f3prio ser (situa\u00e7\u00e3o social) da classe trabalhadora. Dessa forma, salvou-se a verdade da an\u00e1lise socioecon\u00f4mica marxista: n\u00e3o havia motivo para renunciar a teorias \u201crevisionistas\u201d sobre a ascens\u00e3o das classes m\u00e9dias etc.<\/p>\n<p>\u00c9 por essa mesma raz\u00e3o que o marxismo ocidental tamb\u00e9m sempre se mostrou atento a outros atores sociais que poderiam desempenhar o papel de agente revolucion\u00e1rio, como o suplente substituindo a classe trabalhadora indisposta: campesinos do Terceiro Mundo, estudantes e intelectuais, os marginais exclu\u00eddos\u2026 A vers\u00e3o mais recente dessa ideia recorre aos refugiados: somente um influxo de um n\u00famero muito grande de refugiados seria capaz de revitalizar a esquerda radical europeia. Essa linha de pensamento \u00e9 profundamente obscena e c\u00ednica. Para al\u00e9m do fato de que tal desdobramento certamente impulsionaria enormemente a viol\u00eancia contra os imigrantes, o aspecto realmente insano dessa ideia \u00e9 o projeto de se preencher a lacuna dos prolet\u00e1rios ausentes importando-os do exterior, de forma que ter\u00edamos a revolu\u00e7\u00e3o por meio de um agente revolucion\u00e1rio substituto terceirizado.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel identificar o fracasso da classe trabalhadora enquanto sujeito revolucion\u00e1rio j\u00e1 no pr\u00f3prio n\u00facleo da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique. A arte de L\u00eanin foi saber detectar o \u201cpotencial de raiva\u201d (Sloterdijk) dos camponeses insatisfeitos. A Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro foi vitoriosa em larga medida por conta do lema \u201cpaz, terra e p\u00e3o\u201d direcionado para a vasta maioria de camponeses, agarrando o breve momento de radical insatisfa\u00e7\u00e3o desse setor. L\u00eanin j\u00e1 estava pensando nessa linha uma d\u00e9cada antes das\u00a0<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2017\/04\/07\/zizek-as-teses-de-abril-de-lenin\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Teses de Abril<\/a>, e por isso temia o poss\u00edvel \u00eaxito das reformas agr\u00e1rias de [Piotr] Stolypin que visavam criar uma nova e forte classe de camponeses independentes. Ele escreveu que se o projeto de Stolypin fosse bem sucedido, estaria perdida, por d\u00e9cadas, a oportunidade de uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todas as revolu\u00e7\u00f5es socialistas exitosas, da cubana \u00e0 iugoslava, seguiram esse modelo: agarrou-se a oportunidade em uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica extrema, cooptando a liberta\u00e7\u00e3o nacional ou outros \u201ccapitais de raiva\u201d. Aqui, \u00e9 claro, um partid\u00e1rio da l\u00f3gica marxista hegem\u00f4nica prontamente assinalaria que essa \u00e9 justamente a l\u00f3gica \u201cnormal\u201d do processo revolucion\u00e1rio: \u00e9 \u00fanica e precisamente atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de equival\u00eancias entre m\u00faltiplas demandas, sempre radicalmente contingentes e dependentes de um conjunto espec\u00edfico (singular, at\u00e9) de circunst\u00e2ncias, que atinge-se efetivamente a \u201cmassa cr\u00edtica\u201d necess\u00e1ria. Uma revolu\u00e7\u00e3o nunca ocorre quando todos os antagonismos se reduzirem ao\u00a0grande antagonismo, mas quando eles combinam sinergicamente suas for\u00e7as.<\/p>\n<p>O ponto n\u00e3o \u00e9 apenas que a revolu\u00e7\u00e3o perdeu o bonde da Hist\u00f3ria e deixou de seguir as suas leis imanentes, pois na verdade n\u00e3o h\u00e1 Hist\u00f3ria, pois a hist\u00f3ria \u00e9 um processo contingente, aberto. O problema \u00e9 outro: \u00e9 como se\u00a0houvesse\u00a0uma Lei da Hist\u00f3ria, uma linha mestra predominante mais ou menos clara de desenvolvimento hist\u00f3rico, e que nesse contexto uma revolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 poderia ocorrer nos interst\u00edcios desse processo enquanto um fen\u00f4meno \u201ccontra a corrente\u201d. Por isso, os revolucion\u00e1rios precisam aguardar pacientemente surgir o momento (geralmente muito breve) em que o sistema abertamente entra em pane ou colapsa, se aproveitar da janela de oportunidade, agarrar o poder que naquele momento se apresenta como que ca\u00eddo no ch\u00e3o, suscet\u00edvel a ser reivindicado, e depois logo cuidar de fortificar seu dom\u00ednio sobre o poder, construindo aparatos repressivos etc. de forma que quando passar o movimento de confus\u00e3o e a maioria retomar a sobriedade e se desapontar com o novo regime, j\u00e1 ser\u00e1 tarde demais para se livrar dele, dado seu firme enraizamento.<\/p>\n<p>Os comunistas tamb\u00e9m sempre calcularam cuidadosamente o momento certo para interromper a mobiliza\u00e7\u00e3o popular. Tomemos o caso da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural Chinesa, que sem d\u00favida continha elementos de uma utopia efetivamente encenada. Logo no seus \u00faltimos momentos, antes da agita\u00e7\u00e3o ser barrada pelo pr\u00f3prio Mao (j\u00e1 que ele j\u00e1 havia atingido seu objetivo de re-estabelecer seu pleno poder e se livrar da mais alta concorr\u00eancia da\u00a0nomenclatura), ocorreu a \u201cComuna de Shanghai\u201d: um milh\u00e3o de trabalhadores que simplesmente levaram a s\u00e9rio os lemas oficiais, exigindo a aboli\u00e7\u00e3o do Estado e at\u00e9 mesmo do pr\u00f3prio partido, e queria uma organiza\u00e7\u00e3o comunal direta da sociedade. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que foi justamente nesse momento que Mao optou por convocar o ex\u00e9rcito para intervir e restaurar a ordem. Trata-se do paradoxo do l\u00edder que suscita um levante incontrol\u00e1vel ao mesmo tempo em que busca exercer pleno poder pessoal: a sobreposi\u00e7\u00e3o entre ditadura extrema e emancipa\u00e7\u00e3o extrema das massas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da continuada relev\u00e2ncia da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx na nossa era atual de capitalismo global precisa portanto ser respondida de maneira propriamente dial\u00e9tica. Afirmemos n\u00e3o apenas que\u00a0ainda hoje\u00a0a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx, seu raio x das din\u00e2micas do capital, permanece totalmente atual, mas mais do que isso, afirmemos que \u00e9\u00a0apenas hoje, com o capitalismo global, que, Marx atingiu sua plena atualidade. Ou, para falar em hegelian\u00eas, apenas hoje a realidade atingiu seu conceito. Dito isso, no entanto, interv\u00e9m aqui uma invers\u00e3o propriamente dial\u00e9tica: pois \u00e9 neste exato momento de plena atualidade que precisa aparecer a limita\u00e7\u00e3o, o momento do triunfo \u00e9 tamb\u00e9m o da derrota. Depois de superar os obst\u00e1culos externos, a nova amea\u00e7a vem de dentro, assinalando a inconsist\u00eancia imanente. Quando a realidade atinge plenamente seu conceito, esse conceito mesmo precisa ser transformado. A\u00ed reside o paradoxo propriamente dial\u00e9tico: n\u00e3o se trata de dizer que Marx estava simplesmente errado, ele muitas vezes se provou acertad\u00edssimo, mas\u00a0mais literalmente do que ele imaginava.<\/p>\n<p>Tomemos a quest\u00e3o do \u201cfetichismo da mercadoria\u201d, por exemplo. H\u00e1 uma cl\u00e1ssica piada sobre um homem que acredita ser um gr\u00e3o de milho e \u00e9 levado a uma institui\u00e7\u00e3o mental em que os m\u00e9dicos fazem de tudo para finalmente convenc\u00ea-lo de que ele n\u00e3o \u00e9 um gr\u00e3o de milho mas sim um ser humano. Quando ele recebe alta (convencido de n\u00e3o ser um gr\u00e3o de milho mas sim um homem) e permitem que ele saia do hospital, ele imediatamente volta tremendo. H\u00e1 uma galinha na porta e ele teme que ela ir\u00e1 com\u00ea-lo. \u201cMeu caro\u201d, diz o m\u00e9dico, \u201cvoc\u00ea sabe muito bem que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um gr\u00e3o de semente e sim um homem.\u201d \u201c\u00c9 claro que eu sei\u201d, responde o paciente, \u201cmas a galinha sabe disso?\u201d O que isso tem a ver com o conceito de fetichismo da mercadoria? Leiamos o que dizem as palavras iniciais do subcap\u00edtulo sobre o fetiche da mercadoria n\u2019O capital, de Marx: \u201cUma mercadoria aparenta ser, \u00e0 primeira vista, uma coisa \u00f3bvia, trivial. Mas sua an\u00e1lise a revela como uma coisa muito intricada, plena de sutilezas metaf\u00edsicas e caprichos teol\u00f3gicos.\u201d (p. 146) O fetichismo da mercadoria (nossa cren\u00e7a de que as mercadorias s\u00e3o objetos m\u00e1gicos dotados de poder metaf\u00edsico inerente) n\u00e3o est\u00e1 situado em nossa mente, na forma distorcida pela qual percebemos a realidade, mas em nossa pr\u00f3pria realidade social. Podemos at\u00e9 saber a verdade, mas agimos como se n\u00e3o a soub\u00e9ssemos \u2013 na nossa vida real, agimos como o sujeito da piada.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que a ideologia opera na nossa era de cinismo: n\u00e3o \u00e9 preciso \u201ccrer\u201d nela. Ningu\u00e9m leva a democracia ou a justi\u00e7a a s\u00e9rio, todos n\u00f3s estamos cientes de como essas inst\u00e2ncias s\u00e3o corruptas, mas mesmo assim n\u00f3s participamos delas \u2013 em outras palavras, n\u00f3s demonstramos nossa cren\u00e7a neles \u2013 porque assumimos que elas funcionam mesmo que n\u00f3s n\u00e3o acreditemos nelas. O mesmo vale para a religi\u00e3o: n\u00f3s \u201crealmente cremos\u201d nelas, apenas seguimos (alguns dos) rituais e costumes religiosos como parte do respeito pelo \u201cestilo de vida\u201d da comunidade \u00e0 qual pertencemos (judeus n\u00e3o-crentes obedecendo as regras da alimenta\u00e7\u00e3o kosher \u201cem respeito \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o\u201d, por exemplo). \u201cNo fundo, eu n\u00e3o acredito nisso, \u00e9 s\u00f3 parte de minha cultura\u201d parece ser o modo predominante da cren\u00e7a deslocada caracter\u00edstica de nossos tempos.\u00a0\u00c9 por isso que dispensamos os crentes fundamentalistas como \u201cb\u00e1rbaros\u201d ou \u201cprimitivos\u201d, como anticulturais, como uma amea\u00e7a \u00e0 cultura: eles ousam levar a s\u00e9rio suas cren\u00e7as. A era c\u00ednica em que vivemos n\u00e3o surpreenderia em nada Marx. As teorias de Marx portanto n\u00e3o est\u00e3o simplesmente vivas: Marx \u00e9 um fantasma que continua a nos assombrar, e a \u00fanica forma de mant\u00ea-lo vivo \u00e9 concentrarmos nos\u00a0insights\u00a0deles que hoje s\u00e3o mais verdadeiros do que em seu pr\u00f3prio tempo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o como ficamos? Devemos descartar os textos de Marx como documentos interessantes do passado e nada mais? Em um paradoxo dial\u00e9tico, os pr\u00f3prios impasses e fracassos do comunismo do s\u00e9culo XX, impasses que eram claramente ancorados nas limita\u00e7\u00f5es da vis\u00e3o de Marx, ao mesmo tempo comprovam sua atualidade: a solu\u00e7\u00e3o marxista cl\u00e1ssica fracassou, mas o problema permanece. Hoje, o comunismo n\u00e3o \u00e9 o nome de uma solu\u00e7\u00e3o, \u00e9 o nome de um\u00a0problema, o problema dos\u00a0comuns\u00a0em todas as suas dimens\u00f5es: os comuns da natureza enquanto subst\u00e2ncia da nossa vida, o problema de nossos comuns biogen\u00e9ticos, o problema de nossos comuns culturais (\u201cpropriedade intelectual\u201d), e,\u00a0last but not least, os comuns enquanto espa\u00e7o universal da humanidade do qual ningu\u00e9m deve ser exclu\u00eddo. Qualquer que seja a solu\u00e7\u00e3o, ela ter\u00e1 necessariamente de enfrentar\u00a0esses\u00a0problemas.<\/p>\n<p>Nas tradu\u00e7\u00f5es sovi\u00e9ticas, o famoso coment\u00e1rio de Marx a seu genro Paul Lafargue, \u201cCe qu\u2019il y a de certain, c\u2019est que moi je ne suis pas marxiste\u201d, ficou \u201cSe isso \u00e9 marxismo, ent\u00e3o eu n\u00e3o sou marxista\u201d. Esse erro de tradu\u00e7\u00e3o transmite perfeitamente a transforma\u00e7\u00e3o do marxismo em um discurso universit\u00e1rio: para o marxismo sovi\u00e9tico, at\u00e9 mesmo o pr\u00f3prio Marx seria um marxista que participava do mesmo conhecimento universal que constitui o marxismo. O fato de que ele tenha criado o ensinamento posteriormente conhecido como \u201cmarxismo\u201d n\u00e3o constitui exce\u00e7\u00e3o alguma de forma que a nega\u00e7\u00e3o expressa por ele s\u00f3 se refere a uma vers\u00e3o espec\u00edfica equivocada que falsamente se proclamaria \u201cmarxista\u201d. Na verdade, o que Marx queria dizer era algo mais radical: uma lacuna separa o pr\u00f3prio Marx \u2013 o criador que possui uma rela\u00e7\u00e3o substancial diante de seus ensinamentos \u2013 dos \u201cmarxistas\u201d que seguem seus ensinamentos. H\u00e1 uma conhecida piada dos irm\u00e3os Marx em\u00a0Os Galhofeiros\u00a0(1931) que transmite bem essa lacuna. O capit\u00e3o Spaulding pergunta: \u201cVoc\u00ea se parece muito com o Emanuel Ravelli. Voc\u00ea \u00e9 irm\u00e3o dele?\u201d Ao que o sujeito responde: \u201cMas eu sou Emanuel Ravelli.\u201d E Spaulding simplesmente rebate: \u201cEnt\u00e3o n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que voc\u00ea se parece com ele! Mas insisto, h\u00e1 uma semelhan\u00e7a.\u201d O sujeito que \u00e9 Ravelli n\u00e3o se parece com ele, ele simplesmente \u00e9 Ravelli. E, da mesma forma, o pr\u00f3prio Marx n\u00e3o \u00e9 um marxista (um dentre os marxistas); ele \u00e9 o ponto de refer\u00eancia eximido da s\u00e9rie. \u00c9 a refer\u00eancia a ele que faz dos outros marxistas. E a \u00fanica forma de se permanecer fiel a Marx hoje \u00e9 de n\u00e3o ser mais um \u201cmarxista\u201d, mas sim de repetir o gesto fundador de Marx de uma nova maneira.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/05\/04\/zizek-a-atualidade-de-marx\/#_ftnref1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1<\/a>\u00a0Gerald Allan Cohen,\u00a0If You\u2019re an Egalitarian, How Come You\u2019re So Rich?, Cambridge (MA), Harvard University Press 2001.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/05\/04\/zizek-a-atualidade-de-marx\/#_ftnref2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2<\/a>\u00a0Wolfgang Streeck,\u00a0How Will Capitalism End?, Londres, Verso Books, 2016, p. 57.<\/p>\n<p>https:\/\/operamundi.uol.com.br\/politica-e-economia\/49337\/slavoj-zizek-a-atualidade-de-marx<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SLAVOJ \u017dI\u017dEK &#8211;\u00a0 \u00c9 preciso responder de maneira propriamente dial\u00e9tica \u00e0 quest\u00e3o sobre a continuada relev\u00e2ncia da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica de Marx no capitalismo global de hoje. 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