{"id":8946,"date":"2018-08-20T12:31:52","date_gmt":"2018-08-20T15:31:52","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=8946"},"modified":"2018-08-19T22:33:45","modified_gmt":"2018-08-20T01:33:45","slug":"franco-berardi-o-pensamento-critico-morreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/08\/20\/franco-berardi-o-pensamento-critico-morreu\/","title":{"rendered":"Franco Berardi: \u201cO pensamento cr\u00edtico morreu\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ana Pina<\/strong> &#8211; A possibilidade de futuro passa por estarmos abertos ao imprevis\u00edvel, afirma o fil\u00f3sofo italiano Franco Berardi. Entre alertas e cr\u00edticas, diz-nos que a UE apenas tem contribu\u00eddo para o empobrecimento sistem\u00e1tico dos europeus.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Franco Berardi \u00e9 no m\u00ednimo ecl\u00e9tica. Na d\u00e9cada de 60, ingressa no grupo Poder Oper\u00e1rio, quando estudava na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Bolonha, onde se licenciou em Est\u00e9tica. Em 1975, funda a revista \u201cA\/Traverso\u201d, que se transforma no n\u00facleo do movimento criativo de Bolonha, e centra o seu trabalho intelectual na rela\u00e7\u00e3o entre tecnologia e comunica\u00e7\u00e3o. Em finais da d\u00e9cada de 70 exila-se em Paris e, posteriormente, ruma a Nova Iorque. Quando regressa a It\u00e1lia, em meados dos anos 80, publica o artigo \u201cTecnologia comunicativa\u201d, que preconiza a expans\u00e3o da internet como fen\u00f3meno social e cultural decisivo. Com vasta obra publicada, o fil\u00f3sofo italiano e professor de Hist\u00f3ria Social dos Media na Accademia di Brera, em Mil\u00e3o, continua a refletir sobre o papel dos media e da tecnologia de informa\u00e7\u00e3o no capitalismo p\u00f3s-industrial, a precariedade existencial e a necessidade de repensarmos \u201co nosso futuro econ\u00f3mico\u201d.<\/p>\n<p><strong>O acr\u00f3nimo ingl\u00eas TINA \u2013 There Is No Alternative [n\u00e3o h\u00e1 alternativa] \u2013 \u00e9 usado recorrentemente para justificar a necessidade de trabalhar mais e de aumentar a produtividade. Na sua opini\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 mesmo alternativa?<\/strong><\/p>\n<p>Esse tem sido o discurso dos l\u00edderes pol\u00edticos nos \u00faltimos 40 anos, desde que Margaret Thatcher declarou que \u201ca sociedade n\u00e3o existe\u201d. Existem apenas indiv\u00edduos, empresas e pa\u00edses competindo e lutando pelo lucro. \u00c9 este o objetivo do capitalismo financeiro. E com esta declara\u00e7\u00e3o foi proclamado o fim da sociedade e o in\u00edcio de uma guerra infinita: a competi\u00e7\u00e3o \u00e9 a dimens\u00e3o econ\u00f3mica da guerra. Quando a competi\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o que existe entre as pessoas, a guerra passa a ser o \u2018ponto de chegada\u2019, o culminar do processo. Penso que, em breve, acabaremos por assistir a algo que est\u00e1 para al\u00e9m da nossa imagina\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<div class=\"show-readmore\">\n<p><strong>O que pode p\u00f4r em causa o capitalismo financeiro? Enfrenta alguma amea\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>A solidariedade \u00e9 a maior amea\u00e7a para o capitalismo financeiro. A solidariedade \u00e9 o lado pol\u00edtico da empatia, do prazer de estarmos juntos. E quando as pessoas gostam mais de estar juntas do que de competir entre si, isso significa que o capitalismo financeiro est\u00e1 condenado. Da\u00ed que a dimens\u00e3o da empatia, da amizade, esteja a ser destru\u00edda pelo capitalismo financeiro. Mas aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o acredito numa vontade mal\u00e9fica. O que me parece \u00e9 que os processos tecnol\u00f3gico e econ\u00f3mico geraram, simultaneamente, o capitalismo financeiro e a aniquila\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica digital da presen\u00e7a do outro. N\u00f3s desaparecemos do campo da comunica\u00e7\u00e3o porque quanto mais comunicamos menos presentes estamos\u00a0 \u2013 f\u00edsica, er\u00f3tica e socialmente falando \u2013 na esfera da comunica\u00e7\u00e3o. No fundo, o capitalismo financeiro assenta no fim da amizade. Ora, a tecnologia digital \u00e9 o substituto da amizade f\u00edsica, er\u00f3tica e social atrav\u00e9s do Facebook, que representa a permanente virtualiza\u00e7\u00e3o da amizade. Agora diz-se que \u00e9 preciso \u201cconsertar o Facebook\u201d. O problema n\u00e3o est\u00e1 em \u201cconsertar\u201d o Facebook, mas sim em \u2018consertarmo-nos\u2019 a n\u00f3s. Precisamos de regressar a algo que o Facebook apagou.<\/p>\n<p><strong>O pensamento cr\u00edtico pode ajudar a \u201cconsertarmo-nos\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 pensamento cr\u00edtico sem amizade. O pensamento cr\u00edtico s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s de uma rela\u00e7\u00e3o lenta com a ci\u00eancia e com as palavras. O antrop\u00f3logo brit\u00e2nico Jack Goody explica na sua obra \u201cDomestica\u00e7\u00e3o do Pensamento Selvagem\u201d que o pensamento cr\u00edtico s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando conseguimos ler um texto duas vezes e repensar o que lemos para podermos distinguir entre o bem e o mal, entre verdade e mentira. Quando o processo de comunica\u00e7\u00e3o se torna vertiginoso, assente em multicamadas e extremamente agressivo, deixamos de ter tempo material para pensarmos de uma forma emocional e racional. Ou seja, o pensamento cr\u00edtico morreu! \u00c9 algo que n\u00e3o existe nos dias de hoje, salvo em algumas \u00e1reas minorit\u00e1rias, onde as pessoas podem dar-se ao luxo de ter tempo e de pensar.<\/p>\n<p><strong>No\u00a0 seu livro \u201cFuturability \u2013 The Age of Impotence and the Horizon of Possibility\u201d (2017) escreve que o paradoxo da automa\u00e7\u00e3o sob o capitalismo reside no facto de \u201cchantagear os trabalhadores a trabalharem mais e mais depressa em troca de cada vez menos dinheiro, numa luta imposs\u00edvel contra os rob\u00f4s\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 pelo menos 20 anos que isso acontece um pouco por todo o lado, Europa inclu\u00edda. Importa dizer que a Uni\u00e3o Europeia (UE) n\u00e3o existe ao n\u00edvel pol\u00edtico, apenas ao n\u00edvel financeiro. Ali\u00e1s, a fun\u00e7\u00e3o da UE tem sido, e continua a ser, a de obrigar as pessoas a trabalhar mais em troca de sal\u00e1rios cada vez mais baixos. Estamos a falar num empobrecimento sistem\u00e1tico. Mas o desenvolvimento tecnol\u00f3gico, em si mesmo, n\u00e3o \u00e9 uma coisa m\u00e1, pelo contr\u00e1rio. O problema est\u00e1 na forma como o capitalismo organiza as possibilidades tecnol\u00f3gicas de maneira a cairmos numa armadilha. O que quero eu dizer com isto? Que somos levados a pensar que a liberdade adv\u00e9m do trabalho e do sal\u00e1rio. Que somos obrigados a pensar que a tecnologia \u00e9 uma ferramenta para a acumula\u00e7\u00e3o, o lucro. Ora, \u00e9 dif\u00edcil sair de \u2018armadilhas mentais\u2019 como esta.<\/p>\n<p><strong>Considera que o futuro pode passar pela cria\u00e7\u00e3o de um Rendimento B\u00e1sico Incondicional (RBI)?<\/strong><\/p>\n<p>Defendo um rendimento b\u00e1sico \u2018incondicional\u2019, sublinho, para permitir a sobreviv\u00eancia social. Todos temos o direito a existir. Mas esse rendimento n\u00e3o est\u00e1 relacionado com a disponibilidade de cada um para trabalhar. \u00c9 precisamente o contr\u00e1rio, pois trata-se de uma ferramenta mental e epistemol\u00f3gica que tem como objetivo emancipar a sociedade da necessidade de um sal\u00e1rio. A verdade \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o precisamos de ter um sal\u00e1rio, porque as m\u00e1quinas fazem o trabalho por n\u00f3s. Ou seja, ficamos libertos \u2013 e n\u00e3o \u00e9 para passar o tempo a dormir ou sem fazer nada \u2013 para fazer aquilo que as m\u00e1quinas n\u00e3o conseguem fazer: ensinar matem\u00e1tica \u00e0s crian\u00e7as, curar a ansiedade, cuidar dos outros, nutrir a amizade. Se quisermos desenvolver as potencialidades inerentes aos v\u00e1rios campos tecnol\u00f3gicos, precisamos de nos libertar da obriga\u00e7\u00e3o do trabalho e da chantagem do sal\u00e1rio. N\u00e3o sou o \u00fanico que o digo e defendo, longe disso. Larry Page, CEO da Google, j\u00e1 disse que a empresa pode cortar 50% dos postos de trabalho j\u00e1 amanh\u00e3. Isso \u00e9 uma boa ou m\u00e1 not\u00edcia? O discurso pol\u00edtico olha para este tipo de declara\u00e7\u00f5es como uma amea\u00e7a, como um grande perigo, mas o facto de o RBI ter entrado no vocabul\u00e1rio dos partidos pol\u00edticos j\u00e1 \u00e9 um pequeno come\u00e7o. Seja como for, temos de ver esta quest\u00e3o de todos os \u00e2ngulos. Em It\u00e1lia, por exemplo, o partido mais votado nas \u00faltimas legislativas \u2013 o Movimento 5 Estrelas, de Luigi di Maio \u2013 incluiu o rendimento b\u00e1sico no seu programa. Mas aquilo que dizem \u00e9: \u201cn\u00f3s vamos dar-vos mil euros por m\u00eas, na condi\u00e7\u00e3o de aceitarem o pr\u00f3ximo trabalho que vos for proposto. Se amanh\u00e3 lhe ligarmos a propor um trabalho, tem de aceitar ou cancelamos o rendimento b\u00e1sico\u201d. Isto \u00e9 chantagem pura e dura! Isto \u00e9 uma ajuda financeira a desempregados e o conceito de desemprego neste contexto \u00e9 totalmente falso. A express\u00e3o \u201cdesemprego\u201d deveria ser substitu\u00edda por outra: \u201ctempo de vida emancipado\u201d. O rendimento b\u00e1sico n\u00e3o \u00e9 um apoio financeiro ao desemprego, mas um substituto da ideia de sal\u00e1rio. O conceito de sal\u00e1rio tem de ser substitu\u00eddo pelo direito universal \u00e0 exist\u00eancia. Isto n\u00e3o \u00e9 uma ideia exc\u00eantrica, \u00e9, muito simplesmente, reconhecer que a intelig\u00eancia artificial e a tecnologia digital podem fazer o nosso trabalho. Ou seja, n\u00f3s somos necess\u00e1rios para desempenhar aquele trabalho que \u00e9 verdadeiramente humano e que nada tem a ver com o conceito econ\u00f3mico de trabalho.<\/p>\n<p><strong>Como v\u00ea o papel dos media e das redes sociais nos tempos que correm?<\/strong><\/p>\n<p>Devo dizer que, nos dias de hoje, a express\u00e3o \u201cmedia\u201d n\u00e3o \u00e9 muito \u00f3bvia. Remete para qu\u00ea exatamente? Remete para o The New York Times (NYT) ou para o Facebook? Digamos que, neste \u00faltimo ano, houve uma disputa cerrada entre o NYT e o Facebook e foi este que acabou por vencer, porque o pensamento cr\u00edtico morreu. E o pensamento imersivo est\u00e1 fora do alcance da cr\u00edtica. A imersividade \u00e9, pois, a \u00fanica possibilidade. Esta \u00e9 outra quest\u00e3o relevante. Acredita que o Facebook pode ser \u2018consertado\u2019? Pessoalmente n\u00e3o acredito. Em tempos, eu e muitas outras pessoas acredit\u00e1vamos que a Internet ia libertar a humanidade. Errado. As ferramentas tecnol\u00f3gicas n\u00e3o v\u00e3o libertar-nos. S\u00f3 a humanidade pode libertar-se a si pr\u00f3pria. Voltando ao Facebook, como podemos defini-lo? O Facebook \u00e9 uma m\u00e1quina de acelera\u00e7\u00e3o infinita. E esta acelera\u00e7\u00e3o, intensifica\u00e7\u00e3o, obriga a distrair-nos daquilo que \u00e9 a genu\u00edna amizade.<\/p>\n<p><strong>Considera que as redes sociais padronizam formas de estar?<\/strong><\/p>\n<p>Semd\u00favida. A nossa energia emocional foi absorvida pelo mundo digital, por isso as pessoas esperam que os outros \u201cgostem\u201d do que dizemos [nas redes sociais] e muita gente sente-se infeliz quando os seus\u00a0<em>posts<\/em>\u00a0n\u00e3o produzem esse efeito. Uma das consequ\u00eancias desse investimento emocional \u00e9 o chamado \u2018efeito da c\u00e2mara de eco\u2019, ou seja, tendemos a comunicar, a trocar informa\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es com pessoas que pensam como n\u00f3s, ou que refor\u00e7am as nossas expetativas, e reagimos mal \u00e0 diferen\u00e7a. Podemos chamar-lhe psicopatologia da comunica\u00e7\u00e3o. O futuro s\u00f3 \u00e9 imagin\u00e1vel quando estamos dispostos a investir emocionalmente nos outros, na amizade, na solidariedade e, claro, no amor. Mas se n\u00e3o formos capazes de sentir empatia, o futuro n\u00e3o existe. S\u00e3o os outros que nos validam, que nos conferem humanidade.<\/p>\n<p><strong>Um estudo da OMS refere o suic\u00eddio como a segunda causa de morte entre cran\u00e7as e jovens com idades entre 10 e 24 anos; e estima que, em 2020, a depress\u00e3o ser\u00e1 a segunda forma de incapacidade mais recorrente em todo o mundo. Que leitura faz deste retrato\u00a0 alarmante?<\/strong><\/p>\n<p>Entre finais da d\u00e9cada de 1970 e 2013, a taxa de suic\u00eddio aumentou 60% em todo o mundo, segundo dados da OMS. Como podemos explicar este aumento brutal?! O que aconteceu h\u00e1 40 anos atr\u00e1s? Como referi antes,\u00a0 Margaret Thatcher declarou que a sociedade n\u00e3o existe; paralelamente, o neoliberalismo eliminou a empatia da esfera social. Depois,\u00a0 a tecnologia digital come\u00e7ou a destruir a possibilidade do real, da rela\u00e7\u00e3o f\u00edsica entre humanos; a emerg\u00eancia de Tony Blair \u00e9 a prova de que a Esquerda morreu \u2013 refiro Blair por ser mais f\u00e1cil de identificar, mas juntamente com ele est\u00e3o muitos outros l\u00edderes. A Esquerda nunca foi capaz de equacionar alternativas como o RBI e outras, e embarcou no discurso neoliberal: pleno emprego, oito horas por dia, cinco dias por semana durante uma vida inteira. Isto \u00e9 cada vez menos vi\u00e1vel. O pleno emprego \u00e9 algo imposs\u00edvel, o que temos \u00e9 mais precariedade para todos, cortes nos sal\u00e1rios para todos, mais trabalho para todos, em suma, uma nova escravatura. A isto somam-se dois aspetos importantes. Primeiro, a obriga\u00e7\u00e3o passou a ser parte integrante da nossa forma\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e a competi\u00e7\u00e3o tornou-se no princ\u00edpio moral universal. Segundo, pass\u00e1mos a julgar-nos em fun\u00e7\u00e3o do crit\u00e9rio da produtividade. Existe apenas um modelo, um padr\u00e3o, que \u00e9 o da competi\u00e7\u00e3o e sentimo-nos culpados de todos os nossos \u201cfracassos\u201d, seja ele o desemprego ou a pobreza. H\u00e1 quem lhe chame auto-explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Refere num artigo que o ser humano tem de abandonar o desejo de controlar\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Hoje em dia, o grau de imprevisibilidade aumentou de tal forma que p\u00f4s fim \u00e0 pot\u00eancia masculina. O ponto de vista feminino, por seu turno, representa a complexidade, a imprevisibilidade da infinita riqueza da natureza e da tecnologia \u2013 n\u00e3o no sentido de algo oposto \u00e0 natureza, mas como uma forma de evolu\u00e7\u00e3o natural. Atualmente, s\u00f3 o ponto de vista feminino \u00e9 que pode salvar a ra\u00e7a humana. O ponto de vista masculino j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 capaz de fazer o tipo de\u00a0 \u2018trabalho\u2019 de que fala Maquiavel: dominar a natureza. Isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, por isso temos de libertar a produtividade da natureza e da mente humana, isto \u00e9, o conhecimento. Hoje em dia, o problema n\u00e3o est\u00e1 no excesso de tecnologia, mas sim na nossa incapacidade de lidar com a tecnologia sem ficarmos ref\u00e9ns do preconceito do poder, do controlo, da domina\u00e7\u00e3o. Temos de abandonar essa pretens\u00e3o: a de controlar.<\/p>\n<p><strong>Subscreve as palavras de Keynes: \u201co inevit\u00e1vel geralmente n\u00e3o acontece, porque o imprevis\u00edvel prevalece\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. E embora n\u00e3o seja meu h\u00e1bito fazer sugest\u00f5es, deixo esta: as pessoas devem estar abertas ao inesperado, ao imprevis\u00edvel. Se olharmos para o presente, constatamos que a guerra, a viol\u00eancia, o fascismo s\u00e3o inevit\u00e1veis. Mas o inevit\u00e1vel nunca acontece porque existe o imprevis\u00edvel. Ora, n\u00f3s n\u00e3o sabemos o qu\u00e3o imprevis\u00edvel as coisas podem ser, mas podemos estar recetivos ao imprevis\u00edvel. Devemos estar atentos e procurar continuamente uma \u2018linha de fuga\u2019 para o inevit\u00e1vel, sendo que isso requer muito empenho, uma enorme energia e atividade.<\/p>\n<p><strong>Como v\u00ea a Europa de hoje?<\/strong><\/p>\n<p>De momento, exceto Portugal e Espanha, o racismo \u00e9 o \u00fanico ponto de entendimento entre os europeus. Nem mais nem menos: racismo. E n\u00e3o tem a ver com o medo do outro, da diferen\u00e7a. Tem a ver com a incapacidade de lidar com o passado colonial. A ideia que prevalece na Europa \u00e9 que se ganha quando se \u00e9 mais racista do que o outro. A Europa est\u00e1 fraturada e o discurso mant\u00e9m-se: o Norte contra o Sul, [o grupo de] Visegrado contra Paris e Berlim\u2026 Enfim, apenas confluem num aspeto: rejeitar a imigra\u00e7\u00e3o. Mesmo que isso signifique a morte de milhares de pessoas e o encarceramento de milh\u00f5es de pessoas na L\u00edbia, no N\u00edger, nos Camar\u00f5es, na Nig\u00e9ria e por a\u00ed diante. Al\u00e9m disso, estamos perante uma situa\u00e7\u00e3o altamente paradoxal, que \u00e9 o facto de Trump e Putin se entenderem, serem amigos. Isto traz novos desafios e maior imprevisibilidade.<\/p>\n<p><strong>Considera que a diplomacia ainda pode ter um papel relevante na gest\u00e3o dessa imprevisibilidade?<\/strong><\/p>\n<p>A diplomacia \u00e9 algo quase imposs\u00edvel nos tempos que correm, porque os EUA e a R\u00fassia deixaram de ser inimigos. Trump tem raz\u00e3o quando diz que Putin \u201c\u00e9 um tipo porreiro\u201d, porque esteve com ele pessoalmente e percebeu no seu olhar que \u00e9 boa pessoa. Ele v\u00ea as coisas assim: Putin \u00e9 branco como n\u00f3s [americanos] e \u00e9 crist\u00e3o. O mundo mudou. Hoje j\u00e1 n\u00e3o existe uma l\u00f3gica bipolar, dois blocos que se op\u00f5em. O que temos \u00e9 brancos contra pessoas de cor. Na minha opini\u00e3o, o supremacismo \u00e9 a verdadeira divis\u00e3o nos dias de hoje. E o nacionalismo \u00e9 uma forma de supremacismo. Da\u00ed a pergunta: como podemos explicar o estado de guerra atual? \u00c9 o resultado de 500 anos de colonialismo. O homem branco \u00e9 incapaz de enfrentar essa heran\u00e7a e responsabilidade, porque implica a redefini\u00e7\u00e3o das nossas expetativas econ\u00f3micas e de consumo. E n\u00e3o me refiro a um racismo do passado; o racismo atual \u00e9 algo absolutamente novo. Os brancos europeus, tal como os brancos americanos, t\u00eam a perce\u00e7\u00e3o de que est\u00e3o a ser invadidos e isso vai levar a uma guerra, mais tarde ou mais cedo. Ou seja, temos for\u00e7osamente de repensar o nosso futuro econ\u00f3mico. O crescimento acabou, pelo que s\u00f3 a redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza pode dar in\u00edcio a uma nova era, a um novo processo de solidariedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Pina &#8211; A possibilidade de futuro passa por estarmos abertos ao imprevis\u00edvel, afirma o fil\u00f3sofo italiano Franco Berardi. Entre alertas e cr\u00edticas, diz-nos que a UE apenas tem contribu\u00eddo para o empobrecimento sistem\u00e1tico dos europeus. A trajet\u00f3ria de Franco Berardi \u00e9 no m\u00ednimo ecl\u00e9tica. 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