{"id":8828,"date":"2018-08-09T09:34:14","date_gmt":"2018-08-09T12:34:14","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=8828"},"modified":"2018-08-08T18:38:06","modified_gmt":"2018-08-08T21:38:06","slug":"as-origens-do-feminismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/08\/09\/as-origens-do-feminismo\/","title":{"rendered":"AS ORIGENS DO FEMINISMO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Elaine Senise Barbosa &#8211;\u00a0<\/strong>\u00c9 quase um segredo, mas foi uma mobiliza\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rias que desencadeou as jornadas de fevereiro da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. \u00c9 Trotsky quem conta:<\/p>\n<p><em>O dia 23 de fevereiro era o Dia Internacional da Mulher. (\u2026) as oper\u00e1rias t\u00eaxteis de diversas f\u00e1bricas abandonaram o trabalho e enviaram delegadas aos metal\u00fargicos, solicitando-lhes que apoiassem a greve. Foi \u201ccontra a vontade\u201d, escreve Kayurov, que os bolcheviques entraram na greve, secundados pelos oper\u00e1rios mencheviques e socialistas revolucion\u00e1rios.\u00a0 (\u2026) \u00c9 evidente que a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro foi iniciada pelos elementos de base, que ultrapassaram a resist\u00eancia de suas pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, e que esta iniciativa foi espontaneamente tomada pela camada prolet\u00e1ria mais explorada e oprimida que as demais \u2013 as oper\u00e1rias da ind\u00fastria t\u00eaxtil, entre as quais, deve-se supor, estavam inclu\u00eddas numerosas mulheres casadas com soldados. O impulso decisivo originou-se das intermin\u00e1veis esperas nas portas das padarias.<\/em><a href=\"http:\/\/declaracao1948.com.br\/2018\/05\/29\/suffragettes-feminismo-primeira-geracao\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><em>\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Cento e vinte e oito anos antes, quando o lema da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa \u2013\u201cLiberdade, igualdade, fraternidade\u201d \u2013 apenas come\u00e7ava a ecoar pelas ruas de Paris, j\u00e1 era poss\u00edvel ver as mulheres reunidas aos homens em seu protesto contra a crise e em favor de reformas. Jules Michelet afirma, em sua\u00a0<em>Hist\u00f3ria<\/em><em>\u00a0da<\/em>\u00a0<em>Revolu\u00e7\u00e3o Francesa<\/em>, que coube \u00e0s mulheres, nos momentos decisivos, como m\u00e3es em desespero por sua prole, empurrar os homens para a a\u00e7\u00e3o. Sem elas e sua marcha \u00e0 Versalhes para \u201cbuscar o padeiro e a padeira\u201d no dia cinco de outubro de 1789, talvez Luis XVI jamais tivesse assinado a Declara\u00e7\u00e3o de Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o e tampouco a corte teria sido transferida para Paris.<\/p>\n<p>As mulheres lutaram pelos interesses do povo, em 1789 e 1917. E, entre uma revolu\u00e7\u00e3o e outra, a Francesa e a Russa, assistiu-se ao nascimento do movimento feminista. Em boa parte do s\u00e9culo XIX, foram as concep\u00e7\u00f5es liberais que orientaram as reivindica\u00e7\u00f5es das mulheres em sua luta para escapar ao p\u00e1trio-poder e se tornarem cidad\u00e3s plenas, sendo a conquista do direito ao voto vista como o \u00e1pice da emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, o s\u00e9culo XIX tamb\u00e9m viu nascer a sociedade industrial e as f\u00e1bricas t\u00eaxteis, onde as mulheres iriam conhecer um novo tipo de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, que s\u00f3 refor\u00e7aria a condi\u00e7\u00e3o historicamente explorada e submissa das mulheres. Como reconheceu o l\u00edder bolchevique, as mulheres pertenciam \u00e0 \u201ccamada prolet\u00e1ria mais explorada e oprimida\u201d. Com o movimento oper\u00e1rio, vieram as ideias socialistas e novas formas de luta e organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, das quais rapidamente as mulheres participaram ativamente. As socialistas tamb\u00e9m desejavam votar, mas suas ambi\u00e7\u00f5es iam al\u00e9m das conquistas de direitos civis baseados no indiv\u00edduo. Elas lutavam pela constru\u00e7\u00e3o de uma nova ordem social e econ\u00f4mica que tamb\u00e9m pudesse mudar o paradigma das rela\u00e7\u00f5es entre mulheres e homens. A diferen\u00e7a de objetivos \u2013 educa\u00e7\u00e3o e voto, de um lado, o fim do capitalismo, de outro \u2013 dividiria a primeira gera\u00e7\u00e3o do movimento feminista.<\/p>\n<p><strong>A era liberal e as precursoras do feminismo\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O resultado final da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, para as mulheres, ficou expresso na ordena\u00e7\u00e3o jur\u00eddica mais importante produzida pelo liberalismo, o C\u00f3digo Civil Napole\u00f4nico, de 1804. Essa lei, que foi modelo para legisla\u00e7\u00f5es de muitos outros pa\u00edses, \u00a0partia do princ\u00edpio da subordina\u00e7\u00e3o da mulher ao homem, obrigando, por exemplo, a esposa a sempre concordar com seu c\u00f4njuge, de cuja autoriza\u00e7\u00e3o dependia para poder trabalhar ou iniciar uma a\u00e7\u00e3o legal. O verdadeiro avan\u00e7o expresso no C\u00f3digo foi a definitiva separa\u00e7\u00e3o entre Igreja e Estado. A partir daquele momento o Estado assumia a prerrogativa de legislar sobre as rela\u00e7\u00f5es familiares, instituindo o casamento civil e o div\u00f3rcio. Se, por um lado, desnudava-se o aspecto econ\u00f4mico do contrato de casamento, negociado minuciosamente pelos pais, por outro deixava-se uma porta aberta para as mulheres alcan\u00e7arem a liberdade, principalmente se provenientes de fam\u00edlias liberais.<\/p>\n<p>Foram essas felizardas as primeiras a questionar, com suas palavras ou exemplos, a validade do p\u00e1trio-poder e a santificada rela\u00e7\u00e3o entre mulheres e maternidade. Seguindo pela via do liberalismo, reivindicavam sua condi\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos capazes de contribuir para o progresso da ordem social devido a capacidade pessoal. Em comum, todas elas tiveram acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e fizeram desse um ponto central em suas reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_716\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-716\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/declaracao1948.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Mary-Wollstonecraft-300x240.jpg?resize=314%2C251\" sizes=\"auto, (max-width: 314px) 100vw, 314px\" srcset=\"http:\/\/declaracao1948.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Mary-Wollstonecraft-300x240.jpg 300w, http:\/\/declaracao1948.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Mary-Wollstonecraft-114x91.jpg 114w, http:\/\/declaracao1948.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Mary-Wollstonecraft.jpg 600w\" alt=\"\" width=\"314\" height=\"251\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>Mary Wollstonecraft, a matriarca do feminsimo<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>A brit\u00e2nica Mary Wollstonecraft, nascida em 1759, tornou-se uma esp\u00e9cie de grande matriarca da hist\u00f3ria do feminismo. Ela abandonou a casa paterna aos dezenove anos para viver com um homem mais velho, de quem se separou dois anos depois. Trabalhou como professora, escreveu sobre educa\u00e7\u00e3o e foi editora de uma revista liter\u00e1ria. Ap\u00f3s um r\u00e1pido casamento, em 1796, passou a viver com William Godwinn, um precursor do anarquismo e da literatura de terror. A obra mais famosa de Mary Wollstonecraft \u00e9\u00a0<em>A reivindica\u00e7\u00e3o dos direitos da mulher<\/em>, publicada em 1792. O foco de suas reflex\u00f5es estava na submiss\u00e3o das mulheres aos homens. Para ela o progresso da sociedade dependia do progresso de homens e mulheres, a educa\u00e7\u00e3o era o principal instrumento para a emancipa\u00e7\u00e3o feminina e o casamento era uma esp\u00e9cie de escravid\u00e3o consentida.<\/p>\n<p>Tais id\u00e9ias conquistaram o apoio de Robert Owen, um dos expoentes do cooperativismo, que incluiu as reivindica\u00e7\u00f5es das mulheres no rol das preocupa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. O Movimento Cartista, que varreu a Inglaterra na d\u00e9cada de 1830 exigindo a\u00a0 reforma do sistema eleitoral, queria o voto universal masculino. Contudo, uma de suas correntes, a Uni\u00e3o Nacional da Classe Trabalhadora, j\u00e1 reivindicava o voto universal para ambos os sexos. Mas o tema s\u00f3 ganhou ares de respeitabilidade quando o liberal John Stuart Mill escreveu\u00a0<em>A sujei\u00e7\u00e3o das mulheres<\/em>, em 1869. Numa \u00e9poca em que a inferioridade f\u00edsica e intelectual das mulheres era vista como um fato t\u00e3o natural quanto divino por cientistas e religiosos, Mill defendeu a igualdade de capacidades entre os sexos e taxou de irracionais e atrasadas as afirma\u00e7\u00f5es em contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Enquanto discutia-se, um n\u00famero crescente de mulheres come\u00e7aram a agir de acordo com suas convic\u00e7\u00f5es, rompendo com as conven\u00e7\u00f5es sociais e frequentemente pagando um pre\u00e7o alto por isso. A aristocrata francesa Amandine Aurore Lucile Dupin, vulgo George Sand, abandonou o marido para se tornar a primeira escritora a viver de seu trabalho. Seus folhetins eram narrativas rom\u00e2nticas nas quais o verdadeiro amor finalmente triunfava sobre as conven\u00e7\u00f5es sociais. Ela vestia-se como homem e fumava charuto em p\u00fablico, provocando esc\u00e2ndalo na sociedade parisiense.<\/p>\n<p>A aristocrata franco-espanhola Flora Tristan, av\u00f3 do pintor Paul Gauguin, come\u00e7ou a trabalhar muito cedo, ap\u00f3s a morte de seu pai, um evento que lan\u00e7ou a fam\u00edlia \u00e0 mis\u00e9ria. Casou-se por necessidade e, para escapar ao t\u00e9dio da rela\u00e7\u00e3o sem amor, decidiu estudar. Abandonou o marido violento para lutar por reformas sociais, tendo sido a primeira pessoa a relacionar a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e a propor a cria\u00e7\u00e3o de uma associa\u00e7\u00e3o internacional da classe trabalhadora.<\/p>\n<div id=\"attachment_717\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-717\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/declaracao1948.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Louise-Michel-247x300.jpg?resize=230%2C279\" sizes=\"auto, (max-width: 230px) 100vw, 230px\" srcset=\"http:\/\/declaracao1948.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Louise-Michel-247x300.jpg 247w, http:\/\/declaracao1948.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Louise-Michel-75x91.jpg 75w, http:\/\/declaracao1948.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Louise-Michel.jpg 250w\" alt=\"\" width=\"230\" height=\"279\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>Louise Michel<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Louise Michel \u00e9 um mito na hist\u00f3ria do proletariado franc\u00eas. Nascida de uma t\u00e3o comum rela\u00e7\u00e3o entre o filho do patr\u00e3o e a empregada dom\u00e9stica, criada pelos av\u00f3s paternos, tornou-se professora. Colecionou problemas profissionais por se recusar a fazer o juramento de fidelidade ao imperador. Vestiu o uniforme da Guarda Nacional para lutar na Comuna de Paris, em 1871, em nome dos ideais igualit\u00e1rios e do anarquismo. Presa e deportada, voltou ao pa\u00eds dez anos depois e retomou sua milit\u00e2ncia com igual intensidade, viajando por toda a Fran\u00e7a e proferindo palestras para trabalhadores, entre um deten\u00e7\u00e3o e outra. Sua morte causou forte como\u00e7\u00e3o e seu enterro atraiu multid\u00f5es, paralisando Paris.<\/p>\n<p>De certo modo, as pioneiras do feminismo \u2013 de que as personagens descritas acima s\u00e3o s\u00f3 um exemplo \u2013 s\u00e3o tribut\u00e1rias do romantismo e do nacionalismo. O ideal do amor rom\u00e2ntico ao qual as mo\u00e7as aspiravam ajudou a colocar em xeque o casamento por conveni\u00eancia. O projeto nacionalista da uniformidade traduziu-se na expans\u00e3o do ensino p\u00fablico, obrigat\u00f3rio e gratuito, para ambos os sexos. A educa\u00e7\u00e3o conferiu \u00e0s mulheres, especialmente da classe m\u00e9dia em expans\u00e3o, a oportunidade de trabalhar como vendedoras, atendentes e secret\u00e1rias, reduzindo o alcance do p\u00e1trio poder e assegurando a independ\u00eancia econ\u00f4mica que permitia adiar o casamento ou mesmo recus\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>O Dia Internacional da Mulher \u2013 um \u201clugar de mem\u00f3ria\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A luta pelo voto foi o foco das diversas entidades, comit\u00eas e jornais criados a partir da segunda metade do s\u00e9culo XIX por mulheres das classes m\u00e9dia e alta. Segundo consta, em 1906 o jornal\u00a0<em>Daily Mail<\/em>\u00a0chamou as defensoras do voto feminino de\u00a0<em>suffragettes,<\/em>\u00a0com uma conota\u00e7\u00e3o claramente pejorativa. A express\u00e3o caiu no gosto das militantes e passou a identificar as mais radicais, ou seja, as que saiam \u00e0s ruas para se manifestar, em a\u00e7\u00f5es cada vez mais combativas, at\u00e9 atingir o \u00e1pice em 1913, quando Emily Davison p\u00f4s fim \u00e0 pr\u00f3pria vida atirando-se sob as patas do cavalo do rei ingl\u00eas George V a fim de chamar a aten\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o do voto feminino.<\/p>\n<p>Paralelamente, outra tem\u00e1tica mobilizava um n\u00famero ainda maior de mulheres, embora com um n\u00edtido recorte de classe: a luta pelos direitos trabalhistas e contra a superexplora\u00e7\u00e3o do operariado t\u00eaxtil. A id\u00e9ia de \u201cpagamento igual para trabalho igual\u201d, uma ousadia sugerida apenas pelas mais radicais, s\u00f3 bem mais tarde converteu-se em reivindica\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>Institu\u00edram-se datas de mobiliza\u00e7\u00e3o geral das mulheres trabalhadoras, embora elas variassem de lugar para lugar. Oficialmente, foi no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, em Copenhagem, em 1910, que surgiu a id\u00e9ia de se criar um Dia Internacional das Mulheres, nos moldes do Primeiro de Maio, para concentrar atos pol\u00edticos em favor dos direitos das mulheres. A autora da proposta foi a alem\u00e3 Clara Zetkin, dirigente do Partido Social-Democrata e amiga de Rosa de Luxemburgo, com quem participaria da cria\u00e7\u00e3o da Liga Spartacus e, depois, do Partido Comunista da Alemanha, pelo qual elegeu-se deputada.<\/p>\n<p>Datas de comemora\u00e7\u00e3o, lembran\u00e7a e luta s\u00e3o s\u00edmbolos poderosos. Zetkin n\u00e3o sugeriu uma data para o Dia das Mulheres e, nos primeiros anos, a comemora\u00e7\u00e3o realizava-se em datas diversas nos diferentes pa\u00edses. N\u00e3o se sabe ao certo como a celebra\u00e7\u00e3o acabou se fixando internacionalmente no 8 de mar\u00e7o. Mas a diverg\u00eancia entre a mais prov\u00e1vel origem hist\u00f3rica da data e a narrativa predominante sobre ela evidencia um combate subterr\u00e2neo pela apropria\u00e7\u00e3o de um \u201clugar de mem\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Na R\u00fassia, em 1917, celebrou-se o Dia das Mulheres no 8 de mar\u00e7o (23 de fevereiro pelo calend\u00e1rio juliano adotado no imp\u00e9rio dos czares). Naquele dia, as oper\u00e1rias t\u00eaxteis deflagraram a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro \u2013 e esse fato tem tudo para ser a origem da generaliza\u00e7\u00e3o da data. Curiosamente, por\u00e9m, no imagin\u00e1rio do movimento feminista, a data acabou associada a um evento diferente, que ocorreu nos Estados Unidos, em 1911, mas no dia 25 de mar\u00e7o: o inc\u00eandio na f\u00e1brica t\u00eaxtil Triangle Shirtwaist Co. que matou mais de uma centena de oper\u00e1rias, rotineiramente trancadas para cumprirem a jornada completa de trabalho.<\/p>\n<p>A greve na R\u00fassia remete \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o e ao socialismo. O tr\u00e1gico inc\u00eandio nos Estados Unidos remete aos direitos gerais dos trabalhadores e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o sem travas da for\u00e7a de trabalho feminina, mas n\u00e3o necessariamente \u00e0 luta anticapitalista. A mem\u00f3ria fabricada tem sentido e significado, sobretudo por aquilo que deixa na sombra.<\/p>\n<p>A eclos\u00e3o da Primeira Guerra Mundial e a entrada maci\u00e7a das mulheres em setores de trabalho at\u00e9 ent\u00e3o exclusivamente masculinos foi um divisor de \u00e1guas. Se os homens sofriam nas trincheiras e morriam lutando, as mulheres, especialmente as da classe m\u00e9dia, sofriam pela perda da seguran\u00e7a que durante s\u00e9culos haviam sido ensinadas a buscar no matrim\u00f4nio e na submiss\u00e3o aos pais e maridos. A partir daquele momento, a sobreviv\u00eancia da fam\u00edlia estava em suas m\u00e3os. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, elas conquistavam uma liberdade in\u00e9dita e podiam finalmente decidir suas pr\u00f3prias vidas.<\/p>\n<p>Encerrado o conflito, os governos encontraram dificuldades para justificar a falta de direitos pol\u00edticos a quem agora tinha autonomia econ\u00f4mica. As leis eleitorais come\u00e7aram a se adaptar \u00e0 nova realidade, a princ\u00edpio, concedendo o direito de voto apenas \u00e0s casadas ou alfabetizadas, para depois atingir a universalidade. Dinamarca e Isl\u00e2ndia aceitaram o voto feminino em 1915. Na R\u00fassia, o voto chegou com a Revolu\u00e7\u00e3o. Na Gr\u00e3-Bretanha, \u00c1ustria, Alemanha e Canad\u00e1, em 1918. Estados Unidos e Holanda, em 1919. No Brasil, em 1932, ampliado em 1934 pela constitui\u00e7\u00e3o varguista. Na Fran\u00e7a, contudo, as mulheres tiveram que esperar at\u00e9 o fim da Segunda Guerra Mundial e, em alguns cant\u00f5es su\u00ed\u00e7os, at\u00e9 1971.<\/p>\n<p><strong>Suffragettes\u00a0<em>versus s<\/em>ocialistas<\/strong><\/p>\n<p>Rosa Luxemburgo sempre recusou qualquer fun\u00e7\u00e3o estritamente ligada \u00e0s mulheres no Partido Social-Democrata alem\u00e3o. Ela reconhecia a import\u00e2ncia da luta das mulheres para a emancipa\u00e7\u00e3o geral do proletariado, mas n\u00e3o via com bons olhos as reivindica\u00e7\u00f5es parciais das senhoras burguesas. Em 1912, em um discurso sobre o Dia Internacional das Mulheres, disse:<\/p>\n<p><em>A maioria dessas mulheres burguesas que atuam como leoas na luta contra as \u201cprerrogativas masculinas\u201d agiriam como d\u00f3ceis carneiros, alinhando-se \u00e0 rea\u00e7\u00e3o conservadora e clerical se tivessem o direito de votar. De fato, elas seriam certamente bem mais reacion\u00e1rias que a parcela masculina de sua pr\u00f3pria classe. Postas de lado as poucas que t\u00eam empregos ou profiss\u00f5es, as mulheres da burguesia n\u00e3o tomam parte na produ\u00e7\u00e3o social. Elas nada s\u00e3o sen\u00e3o co-consumidoras da mais-valia que seus maridos extraem do proletariado. Elas s\u00e3o parasitas dos parasitas do corpo social.<\/em><a href=\"http:\/\/declaracao1948.com.br\/2018\/05\/29\/suffragettes-feminismo-primeira-geracao\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Efetivamente, as associa\u00e7\u00f5es de\u00a0<em>suffragettes<\/em>\u00a0tenderam a se desvincular de qualquer proposta revolucion\u00e1ria reafirmando sua ades\u00e3o ao\u00a0<em>status quo<\/em>\u00a0e condenando a\u00a0 Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Para elas, a emancipa\u00e7\u00e3o feminina n\u00e3o dependia de nenhuma ruptura violenta com a ordem existente. De fato, a conquista do direito de voto acabou levando \u00e0 desarticula\u00e7\u00e3o das\u00a0<em>suffragettes<\/em>, o setor liberal do movimento feminista, e aquelas que seguiram na vida pol\u00edtica o fizeram inscrevendo-se em partidos pol\u00edticos existentes.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Russa, por outro lado, incorporou a problem\u00e1tica feminina desde os primeiros instantes. Deve-se \u00e0 figura de Alexandra Kollontai, a \u00fanica mulher eleita para o Comit\u00ea Central bolchevique em 1917, o encaminhamento de reformas referentes \u00e0s mulheres e \u00e0s rela\u00e7\u00f5es familiares. Kollontai tornou-se conhecida pela defesa do amor livre, que separava a sexualidade da institui\u00e7\u00e3o do casamento, considerado uma institui\u00e7\u00e3o essencialmente burguesa. Quanto aos filhos, eles deveriam ser criados de forma mais coletiva, e n\u00e3o como propriedade dos pais. Na condi\u00e7\u00e3o de Comiss\u00e1ria para Assuntos de Bem-Estar Social, Kollontai fundou o Departamento Feminino do Partido Comunista (conhecido pela sigla Zhenotdel).<\/p>\n<p>As novas leis criadas pelo Estado Sovi\u00e9tico estabeleceram a igualdade plena entre mulheres e homens, acabaram com a distin\u00e7\u00e3o de direitos entre filhos leg\u00edtimos e ileg\u00edtimos, deram a ambos os c\u00f4njuges a possibilidade de requerer o div\u00f3rcio. Entretanto, o processo de reformas sociais foi atropelado pela instala\u00e7\u00e3o da ditadura stalinista e a quest\u00e3o feminina acabou suprimida. No fim, as militantes comunistas (mas n\u00e3o as anarquistas) renderam-se ao realismo pol\u00edtico e, em defesa da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, calaram-se sobre a luta das mulheres.<\/p>\n<div id=\"attachment_718\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-718\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/declaracao1948.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/suffragettes-march-1911-300x180.jpg?resize=623%2C374\" sizes=\"auto, (max-width: 623px) 100vw, 623px\" srcset=\"http:\/\/declaracao1948.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/suffragettes-march-1911-300x180.jpg 300w, http:\/\/declaracao1948.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/suffragettes-march-1911-152x91.jpg 152w, http:\/\/declaracao1948.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/suffragettes-march-1911.jpg 620w\" alt=\"\" width=\"623\" height=\"374\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>O voto era apenas o come\u00e7o\u2026<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><em>Este texto \u00e9 uma vers\u00e3o resumida e parcialmente modificada do cap\u00edtulo \u201cAs mulheres e o feminismo\u201d, publicado originalmente no livro\u00a0O mundo em desordem [1914-1945] (Liberdade\u00a0versus\u00a0Igualdade v.1), Rio de Janeiro; Record; 2011.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/declaracao1948.com.br\/2018\/05\/29\/suffragettes-feminismo-primeira-geracao\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0TROTSKY, Leon.\u00a0<em>A Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa \u2013 A queda do tzarismo.<\/em>\u00a0Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977, p. 102-103.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/declaracao1948.com.br\/2018\/05\/29\/suffragettes-feminismo-primeira-geracao\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0LUXEMBURGO, Rosa.\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.marxists.org\/archive\/luxemburg\/1912\/05\/12.htm\">Women\u2019s Suffrage and Class Struggle<\/a><\/em>. 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