{"id":870,"date":"2016-06-29T15:56:17","date_gmt":"2016-06-29T18:56:17","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=870"},"modified":"2016-06-29T17:24:27","modified_gmt":"2016-06-29T20:24:27","slug":"para-virar-do-avesso-politicas-de-seguranca-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/06\/29\/para-virar-do-avesso-politicas-de-seguranca-publica\/","title":{"rendered":"Para virar do avesso pol\u00edticas de Seguran\u00e7a P\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p><strong>D\u00e9bora Fogliatto &#8211;\u00a0<\/strong>Luiz Eduardo Soares alerta: pris\u00f5es em massa e viol\u00eancia policial fracassaram no combate ao crime. \u00c9 hora de uma pol\u00edcia cidad\u00e3 e de acabar com a \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo, cientista pol\u00edtico e especialista em seguran\u00e7a p\u00fablica Luiz Eduardo Soares \u00e9 um dos mais not\u00e1veis defensores da necessidade de se desmilitarizar a Pol\u00edcia no Brasil. O coautor dos livros <em>Elite da Tropa 1 e 2<\/em> (Que deram origem aos filmes <em>Tropa de Elite<\/em>) defende uma reforma que em sua avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples, mas necess\u00e1ria, para que a pol\u00edcia brasileira seja menos letal e, ao mesmo tempo, cumpra melhor seu papel. Esta quest\u00e3o est\u00e1 intimamente relacionada \u00e0 superlota\u00e7\u00e3o das pris\u00f5es e \u00e0 sua fal\u00eancia em recuperar os criminosos, segundo ele.<\/p>\n<p>Carioca, Soares veio a Porto Alegre para participar do evento \u201c<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/events\/282952188707499\/\" target=\"_blank\">Porto Alegre sem medo \u2013 Construindo uma cidade mais segura<\/a>\u201c, promovido pela pr\u00e9-candidata \u00e0 prefeitura pelo PSOL, Luciana Genro,\u00a0que aconteceu em 21\/6 na Assembleia Legislativa. Em entrevista exclusiva ao <strong>Sul21<\/strong>, ele fala sobre a quest\u00e3o da desmilitariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia, a necessidade de haver uma carreira \u00fanica para os policiais e o papel que os munic\u00edpios podem ter para melhorar a seguran\u00e7a p\u00fablica. \u201cA ideologia que rege as institui\u00e7\u00f5es militares policiais \u00e9 a da guerra. Cumpre-se um mandado da sociedade para eliminar, liquidar fisicamente os inimigos, o que \u00e9 absolutamente incompat\u00edvel \u00e0 atividade de uma pol\u00edcia\u201d, afirma. Confira a entrevista completa:<\/p>\n<p><strong>O senhor\u00a0defende\u00a0a desmilitariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia como uma poss\u00edvel solu\u00e7\u00e3o para a viol\u00eancia policial. De que forma isso beneficiaria a sociedade e mudaria a forma como as pol\u00edcias agem? \u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o necessariamente mudaria, mas \u00e9 um pr\u00e9-requisito para que mude. \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas n\u00e3o suficiente. Se pensarmos no Brasil, n\u00f3s temos 56 mil homic\u00eddios dolosos por ano, dos quais s\u00f3 8% s\u00e3o investigados. E a partir da\u00ed muita gente deduz que seja o pa\u00eds da impunidade, quando temos a quarta popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo, a que mais cresce desde 2002. Ent\u00e3o isso pode parecer um enigma, mas \u00e9 simples de desvendar.\u00a0H\u00e1 uma pol\u00edcia, que \u00e9 a mais numerosa, que est\u00e1 nas ruas todos os dias, durante as 24 horas. E essa pol\u00edcia \u00e9 proibida de investigar, \u00e9 a Pol\u00edcia Militar. Ent\u00e3o a pol\u00edcia que n\u00e3o pode investigar \u00e9 instada, \u00e9 provocada a produzir. E qual \u00e9 a produtividade da PM, como ela define essa efetividade enquanto institui\u00e7\u00e3o? Prendendo. E apreendendo armas e drogas. Se ela n\u00e3o pode investigar, est\u00e1 proibida constitucionalmente de faz\u00ea-lo, ela \u00e9 pressionada pelos governos, m\u00eddia e popula\u00e7\u00e3o a fazer pris\u00f5es em flagrante. E quais os crimes pass\u00edveis de pris\u00e3o em flagrante? Os que s\u00e3o acess\u00edveis aos cinco sentidos. Isso significa um filtro seletivo que faz com que a ideia de aplica\u00e7\u00e3o da lei seja absolutamente distorcida.<\/p>\n<p>Qual lei \u00e9 instrumentalmente mais \u00fatil para o trabalho da PM? \u00c9 a lei de drogas, porque \u00e9 poss\u00edvel identificar os avi\u00f5ezinhos, aqueles rapazes em geral que se dedicam \u00e0 comercializa\u00e7\u00e3o das subst\u00e2ncias il\u00edcitas. E portanto, voc\u00ea encontra nos territ\u00f3rios mais pobres, mais vulner\u00e1veis, nas periferias, vilas e favelas, a presen\u00e7a policial que vai \u00e0 ca\u00e7a de seus presos prediletos: os presos poss\u00edveis. Que n\u00e3o por acaso s\u00e3o negros, pobres e jovens, que est\u00e3o entupidos as penitenci\u00e1rias, sendo induzidos a buscar um v\u00ednculo com uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa. Em geral, quando s\u00e3o presos eles n\u00e3o apresentam v\u00ednculos s\u00f3lidos com organiza\u00e7\u00f5es criminosas, n\u00e3o portam armas e n\u00e3o cometeram viol\u00eancias. Ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 prendendo varejistas do com\u00e9rcio de subst\u00e2ncias il\u00edcitas, entupindo as pris\u00f5es e arruinando a vida desses jovens por um pre\u00e7o muito alto. Isso tudo por conta de um casamento perverso entre o modelo policial e a lei de drogas.<\/p>\n<p><strong>A lei de drogas tamb\u00e9m precisaria ser mudada, ent\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, eu estou focalizando num aspecto que \u00e9 importante, mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico. Porque ent\u00e3o pode-se dizer que se deve conceder \u00e0 Pol\u00edcia Militar a possibilidade de investigar tamb\u00e9m. Mas como seria poss\u00edvel para agentes que s\u00e3o organizados hierarquicamente, que seguem o comando superior sem pestanejar \u2013 porque a disciplina militar exige isso \u2013 aplicar a lei civil, se responsabilizar por investiga\u00e7\u00f5es? Parece incompat\u00edvel a natureza militar com esse tipo de pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a melhor forma de organiza\u00e7\u00e3o? \u00c9 uma pergunta que n\u00e3o pode ser respondida, depende da institui\u00e7\u00e3o. A organiza\u00e7\u00e3o adapta uma certa entidade ao cumprimento de suas finalidades. Ent\u00e3o come\u00e7amos identificando o objetivo. O Ex\u00e9rcito, que \u00e9 o modelo copiado pela PM, se organiza para cumprir sua tarefa, que \u00e9 garantir a soberania do territ\u00f3rio, recorrendo inclusive a recursos b\u00e9licos quando necess\u00e1rio. Por isso, se centraliza de forma muito rigorosa, com uma hierarquia vertical muito r\u00edgida, porque o seu m\u00e9todo de a\u00e7\u00e3o para cumprir sua finalidade se define pelo pronto-emprego, que \u00e9 a capacidade de deslocar grandes contingentes humanos de forma eficiente e r\u00e1pida. Portanto, se justifica, ainda que tenha havido muitas mudan\u00e7as, com sofistica\u00e7\u00e3o, meios eletr\u00f4nicos, os ex\u00e9rcitos est\u00e3o mais organizados. Mas de qualquer forma, compreende-se plenamente o formato. Uma pol\u00edcia s\u00f3 deveria imitar essa estrutura do ex\u00e9rcito se a finalidade fosse a mesma. Mas n\u00e3o \u00e9 essa a finalidade. A pol\u00edcia tem como finalidade a garantia de direitos, prover meios para que se pratique a garantia de direitos. E se \u00e9 assim, como vai se organizar como se fosse um ex\u00e9rcito? Claro que h\u00e1 confrontos que s\u00e3o b\u00e9licos, mas esses momentos correspondem a um n\u00famero muito reduzido diante da complexidade e da magnitude das tarefas que se imp\u00f5em \u00e0s pol\u00edcias militares do Brasil. Voc\u00ea n\u00e3o vai organizar uma institui\u00e7\u00e3o inteira para atender 1% da necessidade. Poderia ter unidades formadas especificamente para essa finalidade.<\/p>\n<p><strong>E por isso a pol\u00edcia \u00e9 t\u00e3o letal?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, isso nos conduz \u00e0 quest\u00e3o do comportamento. A viol\u00eancia policial letal \u00e9 uma trag\u00e9dia nacional, a pol\u00edcia do Brasil \u00e9 uma das que mais matam no mundo, pelo menos entre os pa\u00edses que fornecem essas informa\u00e7\u00f5es. E os dados s\u00e3o subestimados. No Rio de Janeiro, que talvez seja um dos estados com melhor registro desses fatos, tivemos entre 2003 e 2015, 11.343 mortes provocadas por a\u00e7\u00f5es policiais. Policiais muitas vezes morrem tamb\u00e9m, a situa\u00e7\u00e3o de enfrentamento b\u00e9lico \u00e9 negativa tamb\u00e9m para eles. A ideologia que rege as institui\u00e7\u00f5es militares policiais \u00e9 a da guerra. E se cumpre um mandado da sociedade para eliminar, liquidar fisicamente os inimigos, o que \u00e9 absolutamente incompat\u00edvel \u00e0 atividade de uma pol\u00edcia, porque n\u00e3o h\u00e1 inimigos, h\u00e1 cidad\u00e3os que s\u00e3o suspeitos ou que est\u00e3o colocando em risco a vida de terceiros e devem ser contidos a partir da escala das amea\u00e7as. Isso nada tem a ver com a guerra propriamente dita, ainda que a\u00e7\u00f5es sejam similares. Quando toda a pol\u00edcia \u00e9 treinada para eliminar um inimigo, o suspeito passa a ser alvo de um ataque de destrui\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 escandaloso. Claro que seria poss\u00edvel tentar mudar essa cultura corporativa t\u00e3o violenta e t\u00e3o brutal mesmo sem a mudan\u00e7a estrutural, mas seria muito dif\u00edcil. N\u00e3o valeria a pena todo o empenho cujos resultados seriam improv\u00e1veis mantendo um sistema organizacional que de qualquer forma \u00e9 incongruente e incompat\u00edvel \u00e0s necessidades constitucionais.<\/p>\n<p><strong>A atitude das Pol\u00edcias Militares em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s repress\u00f5es de movimentos sociais tamb\u00e9m segue essa l\u00f3gica da guerra?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, tem a ver com a estrutura organizacional, com a militariza\u00e7\u00e3o. At\u00e9 porque os policiais na ponta s\u00e3o m\u00e1quinas de reprodu\u00e7\u00e3o das ordens superiores, n\u00e3o s\u00e3o agentes treinados para refletir e tomar decis\u00f5es com alguma dose de autonomia, o que\u00a0seria o ideal. Eles s\u00e3o instru\u00eddos para obliterar o pensamento e agir como m\u00e1quinas que obedecem e cumprem ordens. Por isso vemos cenas terr\u00edveis, tristes, em que jovens, pobres, frequentemente negros, entram em confronto com outros jovens, pobres, frequentemente negros, oriundos dos mesmos territ\u00f3rios vulner\u00e1veis, alguns uniformizados. Quando n\u00e3o haveria nenhuma raz\u00e3o para que se matassem mutuamente, sobretudo no campo dos movimentos sociais.<\/p>\n<p><strong>Ao mesmo tempo, o senhor mencionou os homic\u00eddios que s\u00e3o poucas vezes desvendados. A Pol\u00edcia Civil tamb\u00e9m precisaria passar por uma reforma?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, e essa pr\u00f3pria distin\u00e7\u00e3o entre civil e militar \u00e9 parte do problema. Toda pol\u00edcia, como em qualquer parte do mundo, deveria cumprir todas as atribui\u00e7\u00f5es. A Pol\u00edcia Civil enfrenta problemas enormes e \u00e9 muito deficiente no cumprimento do seu mandato constitucional. Oito por cento\u00a0de crimes resolvidos significa 92% de impunidade. Qualquer institui\u00e7\u00e3o que se proponha a cumprir um objetivo e n\u00e3o consiga em 92% dos casos diria que \u00e9 preciso parar e come\u00e7ar de novo. Isso n\u00e3o \u00e9 culpa de uma pessoa, \u00e9 um problema estrutural. Assim como a brutalidade da Pol\u00edcia Militar, n\u00e3o \u00e9 necessariamente pass\u00edvel de atribui\u00e7\u00e3o a um ou outro indiv\u00edduo, j\u00e1 tem um padr\u00e3o que vai se reproduzindo independente da vontade do pr\u00f3prio corpo profissional. Portanto, temos, na \u00e1rea da investiga\u00e7\u00e3o, problemas na rela\u00e7\u00e3o com a per\u00edcia, problemas organizativos, de investimentos, h\u00e1 o problema do inqu\u00e9rito policial, que \u00e9 burocratizado, n\u00e3o flui. Ent\u00e3o temos um desastre, uma fal\u00eancia desse modelo. Prendemos muit\u00edssimo, temos mais de 700 mil presos no Brasil, dos quais s\u00f3 12% cumprem penas por homic\u00eddio, 2\/3 est\u00e3o l\u00e1 por crimes contra o patrim\u00f4nio. N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que, num pa\u00eds racista como o nosso, a maioria \u00e9 negra, al\u00e9m de jovem e do sexo masculino. Prendemos muito e mal, arruinamos vidas de jovens e abdicamos de controlar a viol\u00eancia letal. E pior, o Estado acaba por reproduzi-la com seus bra\u00e7os institucionais. Ent\u00e3o o Estado \u00e9 parte do problema, assim como as pol\u00edcias, independente das vontades individuais.<\/p>\n<p><strong>E ainda por cima, h\u00e1 muitos presos que aguardam julgamento dentre os que lotam as pris\u00f5es, certo?<\/strong><\/p>\n<p>Exato. Eram 40% at\u00e9 dois anos atr\u00e1s e houve um esfor\u00e7o muito grande do CNJ, houve uma queda expressiva, embora ainda seja um grande n\u00famero. Mas a diferen\u00e7a \u00e9 de classe, o que no caso brasileiro acaba sendo tamb\u00e9m de cor. Porque quem tem advogado n\u00e3o fica preso, salvo exce\u00e7\u00f5es. E as defensorias p\u00fablicas n\u00e3o existem em n\u00famero suficiente para atender essa massa de suspeitos, r\u00e9us, inclusive porque h\u00e1 mais de 300 mil mandados de pris\u00e3o esperando cumprimento no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Existem projetos de lei j\u00e1 pensando em mudar essa quest\u00e3o das pol\u00edcias militarizadas?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 dezenas de PECs (propostas de emenda \u00e0 constitucional) circulando ou tramitando no Congresso Nacional sobre a pol\u00edcia. Mas, a respeito da desmilitariza\u00e7\u00e3o, eu acho que s\u00e3o poucas. A mais elaborada, do meu ponto de vista, seria a PEC 51\/2013, de autoria do senador Lindbergh Farias (PT-RJ), de cuja elabora\u00e7\u00e3o eu at\u00e9 participei. Ela resulta de conversas com profissionais, pessoas das corpora\u00e7\u00f5es, di\u00e1logos e experi\u00eancias diversas. N\u00e3o h\u00e1 proposta perfeita, mas essa \u00e9 talvez a que pode ir mais longe, de forma sist\u00eamica, com o m\u00ednimo de resist\u00eancia. \u00c9 um meio-termo\u00a0entre o avan\u00e7o e a capacidade de agrega\u00e7\u00e3o. Os pontos principais s\u00e3o a desmilitariza\u00e7\u00e3o e a realiza\u00e7\u00e3o do ciclo completo com atribui\u00e7\u00e3o de todas as institui\u00e7\u00f5es policiais. Com a desmilitariza\u00e7\u00e3o, a PM deixaria\u00a0de existir e a nova pol\u00edcia iria\u00a0investigar, mas de outro modo. A\u00a0carreira \u00fanica\u00a0\u00e9 outra grande bandeira de agentes e oficiais da Pol\u00edcia Civil, Federal e de boa parte dos trabalhadores da Pol\u00edcia Militar [<em>inclu\u00edda\u00a0na PEC<\/em>]. H\u00e1 alguma resist\u00eancia na c\u00fapula das institui\u00e7\u00f5es, mas, particularmente na Pol\u00edcia Civil, os oficiais s\u00e3o mais abertos em rela\u00e7\u00e3o a isso.<\/p>\n<p>Porque hoje, na pr\u00e1tica, temos quatro pol\u00edcias. A Civil se divide em delegados e agentes. Basicamente os agentes, embora tenham v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es, n\u00e3o podem ascender at\u00e9 se tornarem delegados, que \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o de comando. E, na Pol\u00edcia Militar, h\u00e1 os oficiais e pra\u00e7as, s\u00e3o duas entradas diferentes, o que acaba formando castas que viram problemas internos. Esse tipo de arranjo n\u00e3o estimula a coes\u00e3o interna e barra o acesso \u00e0s posi\u00e7\u00f5es\u00a0superiores\u00a0de muitos profissionais que poderiam ascender com base no m\u00e9rito, no tempo de experi\u00eancia. Quem entra como pra\u00e7a, precisaria fazer um novo concurso para conseguir chegar \u00e0s posi\u00e7\u00f5es mais altas. E n\u00e3o se leva em conta na prova a experi\u00eancia pr\u00e9via.<\/p>\n<p>Importante tamb\u00e9m falar que isso n\u00e3o \u00e9 suficiente. Essas mudan\u00e7as todas s\u00e3o, a meu ju\u00edzo e segundo avalia\u00e7\u00e3o da maioria dos envolvidos nessa \u00e1rea, indispens\u00e1veis, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes, porque podemos ter estruturas organizacionais muito melhores, mais suscet\u00edveis a controles externos, mais perme\u00e1veis a pol\u00edticas de transpar\u00eancia, mais indutoras de pol\u00edticas de seguran\u00e7a e mais capazes de respeitarem direitos humanos. Mas as estruturas por si mesmas, ainda que facilitem, n\u00e3o garantem que pol\u00edticas de seguran\u00e7a aplicadas sejam adequadas. Isso depende de autoriza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, da forma\u00e7\u00e3o, do governo do Estado, e depende da autoriza\u00e7\u00e3o popular. A brutalidade policial n\u00e3o existiria sem autoriza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>Sobre essa autoriza\u00e7\u00e3o social, percebe-se que o discurso do \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d se acentua conforme a viol\u00eancia aumenta. A mudan\u00e7a teria que vir a n\u00edvel cultural tamb\u00e9m?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. S\u00f3 que devemos pensar nisso tudo como uma realidade pluridimensional, com muitas camadas diferentes. Se n\u00f3s agirmos em todas as dimens\u00f5es, cujas temporalidades s\u00e3o muito diferentes, vamos contribuir para que esse processo estabele\u00e7a uma qu\u00edmica interna e gere um agregado mais favor\u00e1vel. A mudan\u00e7a da sensibilidade da cultura acontece sem que a gente possa controlar, mas se a gente investir em uma educa\u00e7\u00e3o com sensibilidade para os direitos humanos, vamos estimular esse resultado, embora n\u00e3o possamos garantir. Se a m\u00eddia e as linguagens de comunica\u00e7\u00e3o incorporassem um pouco mais esses valores, isso ajudaria. Se as escolas constitu\u00edssem for\u00e7a de valoriza\u00e7\u00e3o dessas atitudes, avan\u00e7ar\u00edamos numa dire\u00e7\u00e3o mais positiva. S\u00e3o processos que precisam existir paralelamente. Isoladamente, essas medidas n\u00e3o s\u00e3o suficientes, mas s\u00e3o imprescind\u00edveis e devemos investir em cada uma delas de acordo com as possibilidades e com as resist\u00eancias que enfrentamos. Esses s\u00e3o processos muito complexos, n\u00e3o podemos resolver em um s\u00f3 momento todos os problemas.<\/p>\n<p><strong>Nesse sentido, o que se pode fazer no \u00e2mbito municipal para tornar as cidades mais seguras?<\/strong><\/p>\n<p>Pergunta f\u00e1cil essa, n\u00e9? (Rindo). Na nossa Constitui\u00e7\u00e3o, no artigo 144, que organiza a seguran\u00e7a p\u00fablica, os munic\u00edpios n\u00e3o t\u00eam nenhum lugar. H\u00e1 uma men\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de que podem ter uma guarda civil, que podem cuidar dos patrim\u00f4nios municipais, como parques. E isso inclusive \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o com todo o desenho da Constitui\u00e7\u00e3o brasileira, que em 1988 estimulou a participa\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio como ente federado importante, no cumprimento das grandes pol\u00edticas sociais, como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e assist\u00eancia. H\u00e1 uma triparti\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es e de destina\u00e7\u00e3o de recursos, h\u00e1 uma composi\u00e7\u00e3o articulada no SUS, mesmo na educa\u00e7\u00e3o, nunca vi esse modelo sendo criticado, foi at\u00e9 modelo de conquista. Isso n\u00e3o se aplica \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica, o munic\u00edpio n\u00e3o tem fun\u00e7\u00e3o nesse sentido. A Uni\u00e3o tem a Pol\u00edcia Federal, a Rodovi\u00e1ria Federal e ponto final. Isso \u00e9 muito pouco diante das responsabilidades que poderiam ser atribu\u00eddas. Todas as responsabilidades caem nos ombros dos estados. E os munic\u00edpios n\u00e3o t\u00eam responsabilidades do ponto de vista de seguran\u00e7a p\u00fablica. N\u00e3o h\u00e1 politica nacional, orienta\u00e7\u00e3o sobre o que devem ser as guardas municipais. A seguran\u00e7a municipal \u00e9 uma grande possibilidade da reinven\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil, a despeito de todos os limites.<\/p>\n<p><strong>A partir de investimentos em assist\u00eancia social, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>Falar em assist\u00eancia \u00e9 muito gen\u00e9rico. Para que haja resultados, \u00e9 preciso que haja diagn\u00f3stico. A gente tem que observar cada situa\u00e7\u00e3o em cada bairro, territ\u00f3rio, entender que processos est\u00e3o em curso. Isso exige pesquisa, escuta e di\u00e1logo com a comunidade. Por exemplo, por que em determinado lugar as pessoas se armam para vender substancias il\u00edcitas, por que acontece esse crescimento? Temos que descobrir que tipos de trajet\u00f3ria est\u00e3o tendo esses jovens, quais as caracter\u00edsticas desse processo. Se entender em cada regi\u00e3o o porqu\u00ea de acontecer um crescimento desse tipo de forma\u00e7\u00e3o armada, pode-se atuar sobre os dispositivos geradores desses processos. O\u00a0que se obt\u00e9m no tr\u00e1fico \u00e9 reconhecimento, valoriza\u00e7\u00e3o, acesso a recursos simb\u00f3licos e financeiros. Isso s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es para que a autoestima se fortale\u00e7a, mesmo que essas generaliza\u00e7\u00f5es sejam complicadas. Jovens que s\u00e3o invis\u00edveis, que n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos, vivem um esmagamento da autoestima, enfrentam problemas em casa, familiares, comunit\u00e1rios e vagando pelas ruas se sentem desprezados ou desprez\u00edveis. Quando lhes \u00e9 oferecida\u00a0uma arma para que ingressem em um grupo poderoso, percebem que isso \u00e9 uma esp\u00e9cie de passaporte para a visibilidade e o pertencimento. E a experi\u00eancia do pertencimento \u00e9 muito gratificante. Isso tudo explica em parte porque se est\u00e1 disposto inclusive a arriscar a pr\u00f3pria vida ingressando ali muitas vezes por pagamentos diminutos. Em geral, o recurso material n\u00e3o \u00e9 a principal raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Se esse diagn\u00f3stico foi razoavelmente preciso, podemos extrair que, ao inv\u00e9s de montar uma m\u00e1quina de guerra e invadir esse territ\u00f3rio para liquidar essas pessoas, com as implica\u00e7\u00f5es desastrosas que estamos cansados de ver, voc\u00ea pode montar um processo paralelo que seja capaz de oferecer a esses jovens o mesmo que o tr\u00e1fico oferece, com o sinal invertido: reconhecimento, valoriza\u00e7\u00e3o, pertencimento e possibilidade de redefini\u00e7\u00e3o dos seus horizontes de vida. Se voc\u00ea monta um dispositivo capaz de competir com essas outras fontes de recrutamento, voc\u00ea pode recrutar aqueles que est\u00e3o vulner\u00e1veis a irem para o tr\u00e1fico.<\/p>\n<p>http:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/destaque-outras-midias\/para-virar-do-avesso-as-politicas-de-seguranca-publica\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D\u00e9bora Fogliatto &#8211;\u00a0Luiz Eduardo Soares alerta: pris\u00f5es em massa e viol\u00eancia policial fracassaram no combate ao crime. \u00c9 hora de uma pol\u00edcia cidad\u00e3 e de acabar com a \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d O antrop\u00f3logo, cientista pol\u00edtico e especialista em seguran\u00e7a p\u00fablica Luiz Eduardo Soares \u00e9 um dos mais not\u00e1veis defensores da necessidade de se desmilitarizar a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":871,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-870","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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