{"id":8650,"date":"2018-07-26T17:56:40","date_gmt":"2018-07-26T20:56:40","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=8650"},"modified":"2018-07-26T17:56:40","modified_gmt":"2018-07-26T20:56:40","slug":"o-ressurgimento-do-determinismo-biologico-na-era-neoliberal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/07\/26\/o-ressurgimento-do-determinismo-biologico-na-era-neoliberal\/","title":{"rendered":"O ressurgimento do determinismo biol\u00f3gico na era neoliberal"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pankaj Mehta<\/strong> &#8211;\u00a0A hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de exemplos aterrorizantes sobre o abuso da teoria da evolu\u00e7\u00e3o para justificar a domina\u00e7\u00e3o e a desigualdade. Bem-vindos a uma nova era do determinismo biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea quer entender por que os humanos fazem guerra, h\u00e1 um gene para isso. Como podemos entender por que os homens estupram mulheres? Um gene para isso. Como se explicam as diferen\u00e7as de &#8220;car\u00e1ter nacional&#8221; do Extremo Oriente, Ocidente e \u00c1frica? Tamb\u00e9m sabemos que os genes se ocupam do assunto. Na verdade, se acredit\u00e1ssemos no que muitos meios de comunica\u00e7\u00e3o dizem, haveria um gene para quase toda desigualdade e iniquidade da sociedade moderna.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">O determinismo gen\u00e9tico e o seu primo detest\u00e1vel, o darwinismo social, est\u00e3o de volta. Equipados com enormes bancos de dados gen\u00f4micos e um arsenal profuso de t\u00e9cnicas estat\u00edsticas, um grupo pequeno mas ruidoso de cientistas tem a determina\u00e7\u00e3o absoluta de dar a fundamenta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de tudo o que somos e fazemos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">A rela\u00e7\u00e3o entre a gen\u00e9tica e o determinismo biol\u00f3gico \u00e9 quase t\u00e3o antiga quanto o pr\u00f3prio campo de conhecimento. No final das contas, um dos institutos de pesquisa moderna gen\u00e9tica mais proeminentes, o Cold Spring Harbor Laboratory, come\u00e7ou como um instituto de eugenia, cujas atividades inclu\u00edam\u00a0<a href=\"http:\/\/library.cshl.edu\/special-collections\/eugenics\">&#8220;agir como um grupo de press\u00e3o afavor de legisla\u00e7\u00e3o eug\u00eanica para restringir a imigra\u00e7\u00e3o eesterilizar os &#8220;defeituosos&#8221; educar as pessoas sobre sa\u00fadee eugenia e difundir ideias eug\u00eanicas &#8220;<\/a>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">A mais recente onda de determinismo biol\u00f3gico \u00e9 uma continua\u00e7\u00e3o desta longa tradi\u00e7\u00e3o, mas com diferen\u00e7as significativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s abordagens do passado. Estamos no in\u00edcio da era gen\u00f4mica; uma era em que os avan\u00e7os na biologia molecular permitem medir com muita precis\u00e3o as menores diferen\u00e7as gen\u00e9ticas entre seres humanos. Combinado com o fato de que vivemos em uma nova\u00a0Gilded Age, em que uma pequena elite global t\u00eam acesso, e a necessidade de justifica\u00e7\u00e3o, \u00e0 posse de vastas quantidades de riqueza e poder, ent\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es est\u00e3o prop\u00edcias para um perigoso ressurgimento do determinismo biol\u00f3gico.<\/span><\/p>\n<p><b><strong style=\"font-style: inherit;\"><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Os limites da gen\u00e9tica mendeliana e o abuso dos novos estudos de associa\u00e7\u00e3o do genoma completo<\/span><\/strong><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Hoje, custa 5.000 d\u00f3lares para sequenciar um genoma, identificando os seis milh\u00f5es de bases de adenina, citosina, timina e guanina [A, C, T, G] que definem o DNA de um indiv\u00edduo. Logo, vai custar ainda menos, muito menos. Dizem-nos que estamos em um momento completamente revolucion\u00e1rio. Com acesso franco a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica detalhada, os profissionais m\u00e9dicos e especialistas geneticistas logo ser\u00e3o capazes de identificar quais doen\u00e7as somos mais propensos a contrair e ajudar a preveni-las ou a minimizar o seu impacto atrav\u00e9s da &#8220;medicina personalizada&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">O conhecimento cient\u00edfico obtido a partir destes dados \u00e9 inestim\u00e1vel. Estamos come\u00e7ando a compreender como os v\u00edrus evoluem, muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que causam c\u00e2ncer e a base gen\u00e9tica da identidade celular. A revolu\u00e7\u00e3o do sequenciamento nos permitiu estudar a base molecular da regula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e identificar novos e surpreendentes atores, como o RNA n\u00e3o-codificante e as modifica\u00e7\u00f5es da cromatinas. Estamos reformulando todas as ideias recebidas sobre a biologia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Um dos resultados mais surpreendentes dos novos estudos baseados na sequencia\u00e7\u00e3o tem a ver com as semelhan\u00e7as entre os seres humanos, uma vez que cada um dos n\u00f3s \u00e9 diferente do outro em apenas em 0,1% do DNA. No entanto, este 0,1% do genoma conduz a varia\u00e7\u00f5es entre as pessoas que vemos em tra\u00e7os como a cor da pele, a altura e a susceptibilidade \u00e0 doen\u00e7a. Um objetivo importante da gen\u00e9tica moderna \u00e9 tentar vincular uma variante gen\u00f4mica especial com um tra\u00e7o ou doen\u00e7a particular. Para fazer isso, os cientistas est\u00e3o desenvolvendo ferramentas estat\u00edsticas poderosas de novo tipo que permitem analisar uma grande quantidade de dados de sequ\u00eancias de popula\u00e7\u00f5es em todo o mundo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida sobre a exist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o entre genes e caracter\u00edsticas observ\u00e1veis. Pais altos tendem a ter filhos altos. Os pais de pele morena t\u00eam filhos de pele morena. A ideia de que as caracter\u00edsticas s\u00e3o herdadas foi bem estabelecida, desde que Mendel codificou as suas famosas leis da hereditariedade, que inferiu a partir da observa\u00e7\u00e3o estat\u00edstica de mais de 29.000 plantas de ervilha. Na gen\u00e9tica mendeliana cl\u00e1ssica, diferentes genes que codificam para caracter\u00edsticas diferentes passam para os seus descendentes de forma independente um do outro. Portanto, existe uma clara correla\u00e7\u00e3o entre a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica ou gen\u00f3tipo e o fen\u00f3tipo ou caracter\u00edsticas observ\u00e1veis. Um \u00fanico gene (tecnicamente\u00a0locus\u00a0ou localiza\u00e7\u00e3o de um gene particular) codifica uma caracter\u00edstica \u00fanica e n\u00e3o \u00e9 afectado pelas outras caracter\u00edsticas que uma pessoa possui. Al\u00e9m disso, os fatores ambientais t\u00eam pouca influ\u00eancia sobre a maioria dos tra\u00e7os mendelianos. A anemia falciforme e a fibrose c\u00edstica s\u00e3o exemplos bem conhecidos disto, cada uma causada por uma muta\u00e7\u00e3o de um gene particular.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">No entanto, agora sabemos que os pressupostos subjacentes da gen\u00e9tica mendeliana n\u00e3o se aplicam \u00e0 maioria das caracter\u00edsticas e doen\u00e7as. Quase todos os fen\u00f3tipos, desde a altura e a cor dos olhos a doen\u00e7as como a diabetes, emergem de intera\u00e7\u00f5es extremamente complexas entre m\u00faltiplos genes (loci) e o meio ambiente. Ao contr\u00e1rio do que acontece com a gen\u00e9tica mendeliana, onde se pode facilmente identificar o gene que codifica uma caracter\u00edstica em particular, para muitos tra\u00e7os n\u00e3o h\u00e1 correspond\u00eancia simples entre o gen\u00f3tipo e o fen\u00f3tipo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">O grande volume de dados atualmente dispon\u00edveis de sequenciamento de DNA levou muitos cientistas a acreditar que h\u00e1 uma maneira de lidar com este problema. Para fazer isso, eles est\u00e3o desenvolvendo novas ferramentas cient\u00edficas e estat\u00edsticas com o objetivo de analisar e obter a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica dos dados sequenciados. O objetivo desses estudos de associa\u00e7\u00e3o do genoma completo (GWAS, em ingl\u00eas) \u00e9 fornecer um modelo para decifrar a informa\u00e7\u00e3o contida no nosso DNA e identificar a base gen\u00e9tica de doen\u00e7as e caracter\u00edsticas complexas. Os GWAS s\u00e3o um elemento b\u00e1sico da gen\u00e9tica moderna das popula\u00e7\u00f5es. Isso se reflete no aumento astron\u00f4mico do n\u00famero de estudos de associa\u00e7\u00e3o de genoma completo publicados na \u00faltima d\u00e9cada, que passaram de n\u00fameros de um d\u00edgito em 2005 para exceder mil e trezentos hoje. H\u00e1 GWAS sobre altura, peso ao nascer, doen\u00e7a inflamat\u00f3ria intestinal, como as pessoas respondem a medicamentos espec\u00edficos ou vacinas, c\u00e2ncer, diabetes, doen\u00e7a de Parkinson e muitos outros. Na verdade, h\u00e1 tantos GWAS em desenvolvimento que foi preciso criar\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ebi.ac.uk\/gwas\/diagram#filteredtab\">ferramentas visuais espec\u00edficas<\/a>\u00a0para ajudar os cientistas a obter um quadro completo dos resultados de todos estes estudos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Dada a crescente preval\u00eancia dos GWAS, \u00e9 relevante explicar a l\u00f3gica subjacente a eles. Os conceitos de varia\u00e7\u00f5es fenot\u00edpicas e gen\u00e9ticas desempenham um papel central no GWAS. A varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica \u00e9 definida como a varia\u00e7\u00e3o de uma caracter\u00edstica numa popula\u00e7\u00e3o (tais como a distribui\u00e7\u00e3o de altura na popula\u00e7\u00e3o masculina nos Estados Unidos). Note-se que, para definir a varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica, deve ser especificada uma popula\u00e7\u00e3o. Se trata de uma escolha obrigat\u00f3ria a priori para construir um modelo estat\u00edstico. Muitas vezes, a escolha da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma importante fonte de vi\u00e9s, j\u00e1 que nos GWAS h\u00e1 muitas suposi\u00e7\u00f5es impl\u00edcitas natureza social (isto \u00e9 particularmente verdadeiro em estudos que tentam compreender a varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica entre os grupos &#8220;raciais&#8221;).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Os GWAS tentam explicar estatisticamente a varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica observada em termos da varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica na popula\u00e7\u00e3o. Aqui \u00e9 que brilha a gen\u00f4mica moderna. Enquanto na era pregen\u00f4mica era preciso realizar um trabalho \u00e1rduo para medir a varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica em um \u00fanico\u00a0locus, agora voc\u00ea pode conhecer a varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de milhares de pessoas, atrav\u00e9s da consulta de dados acess\u00edveis ao p\u00fablico, de todo o genoma. A maioria dos GWAS se focam em polimorfismos de nucleot\u00eddeo \u00fanico (SNPs, em ingl\u00eas): varia\u00e7\u00f5es na sequ\u00eancia de DNA que ocorrem em uma \u00fanica base no genoma (por exemplo AAGGCT vs. AAGTCT). Os cientistas observaram aproximadamente 12 milh\u00f5es de SNPs em popula\u00e7\u00f5es humanas. Este n\u00famero pode parecer incrivelmente grande mas, no DNA humano, h\u00e1 6 bilh\u00f5es de bases. Assim, de todas as popula\u00e7\u00f5es humanas a partir da qual foram tiradas amostras, apenas 0,2% das bases do DNA exibem diferen\u00e7as, entre todas as popula\u00e7\u00f5es estudadas em amostras. Para uma caracter\u00edstica como a altura, h\u00e1 cerca de 180 SNPs conhecidos que podem contribuir para a varia\u00e7\u00e3o na altura em seres humanos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">O objetivo do GWAS \u00e9 relacionar a varia\u00e7\u00e3o genot\u00edpica com a varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica. Muitas vezes, isso \u00e9 expresso pelo conceito de\u00a0herdabilidade, que visa repartir a varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica em um componente gen\u00e9tico e um componente ambiental.\u00a0Grosso modo, a herdabilidade \u00e9 definida como a fra\u00e7\u00e3o da varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica que pode ser atribu\u00edda \u00e0 varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. A herdabilidade zero significa que toda varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica \u00e9 ambiental, enquanto uma herdabilidade igual a um significa que \u00e9 completamente gen\u00e9tica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Por tr\u00e1s do conceito de herdabilidade existe um mundo de pressupostos simplificadores sobre como a biologia funciona e como os genes e o ambiente interagem, tudo mediado por uma s\u00e9rie de modelos estat\u00edsticos complicados e obtusos. A herdabilidade depende das popula\u00e7\u00f5es escolhidas e dos ambientes analisados nos experimentos. Mesmo a distin\u00e7\u00e3o entre o ambiente e os genes \u00e9, em certa medida, artificial. Como Richard Lewontin observa:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">\u201cA pr\u00f3pria relev\u00e2ncia da natureza f\u00edsica do ambiente \u00e9 determinada pelos pr\u00f3prios organismos (&#8230;). Uma bact\u00e9ria que vive num l\u00edquido n\u00e3o sente a gravidade, porque \u00e9 muito pequena (&#8230;) mas o seu tamanho \u00e9 determinado pelos seus genes, de modo a que a diferen\u00e7a gen\u00e9tica entre n\u00f3s e as bact\u00e9rias \u00e9 o que determina que a for\u00e7a da gravidade seja relevante para n\u00f3s\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Tudo isto serve para dizer que, embora a herdabilidade seja um conceito \u00fatil, n\u00e3o deixa de ser uma abstra\u00e7\u00e3o que depende inteiramente dos modelos estat\u00edsticos que usamos para defini-la (com todas as suas suposi\u00e7\u00f5es e preconceitos subjacentes).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Neste sentido, mesmo para uma caracter\u00edstica altamente herd\u00e1vel como a altura, o ambiente pode alterar dramaticamente as caracter\u00edsticas observadas. Considere o exemplo ocorrido durante a guerra civil guatemalteca, em que esquadr\u00f5es da morte e grupos paramilitares apoiados pelos EUA atacaram com extrema brutalidade a popula\u00e7\u00e3o rural ind\u00edgena da Guatemala, resultando em desnutri\u00e7\u00e3o generalizada. Muitos maias fugiram para os Estados Unidos para escapar da viol\u00eancia. Ao comparar as alturas das crian\u00e7as maias na Guatemala e nos EUA entre seis e doze anos de idade, os pesquisadores descobriram que os estadunidenses eram 10,24 cent\u00edmetros mais altos do que seus colegas da Guatemala, em grande parte devido \u00e0 nutri\u00e7\u00e3o e ao acesso aos cuidados de sa\u00fade. Em s\u00e9rio contraste, o gene que \u00e9 considerado o que mais influencia a altura, o gene do fator de crescimento GDF5, est\u00e1 associado com altera\u00e7\u00f5es de altura de apenas 0,3 a 0,7 cent\u00edmetros, e isto s\u00f3 para indiv\u00edduos ascend\u00eancia europeia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Este impacto ambiental significativo \u00e9 muito comum. Por exemplo, a herdabilidade da diabetes do tipo II, ajustada para a idade e o \u00edndice de massa corporal (IMC), \u00e9 considerada como conduzindo a uma variabilidade de entre 0,5% e 0,75% (um pouco menor do que na de altura, mas, como se diz, estes valores devem ser tomados com muito cuidado). Atualmente, os GWAS explicam apenas 6% desta herdabilidade, semloci\u00a0(genes) que permitam concretamente prever se um indiv\u00edduo vai desenvolver diabetes. Ao contr\u00e1rio da pouca fiabilidade dos fatores gen\u00e9ticos, um IMC pouco saud\u00e1vel &#8211; a simples medi\u00e7\u00e3o do sobrepeso de uma pessoa- aumenta as chances de uma pessoa desenvolver diabetes quase oito vezes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">O mesmo se aplica ao quociente de intelig\u00eancia (QI), que \u00e9 um elemento b\u00e1sico para estudos sobre a &#8220;intelig\u00eancia&#8221;. Deixando de lado por um momento a discuss\u00e3o sobre a validade dos testes que medem o QI, os estudos mostram um aumento longo e sustentado nos valores QI durante o s\u00e9culo XX (o chamado Efeito Flynn), revelando assim a enorme import\u00e2ncia da influ\u00eancia do ambiente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gen\u00e9tica na determina\u00e7\u00e3o do QI.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">A esquizofrenia \u00e9 outro exemplo disto. Em seu excelente\u00a0<a href=\"http:\/\/blogs.scientificamerican.com\/cross-check\/\">blog<\/a>\u00a0Cross-Check, John Morgan analisa o gene CMYA5, que a m\u00eddia de massa divulgou como o &#8220;gene da esquizofrenia&#8221;. Morgan diz que, se voc\u00ea \u00e9 um portador deste gene, o risco de desenvolver de esquizofrenia aumenta entre 0,07% e 1,07%. Em vez disso, &#8220;se voc\u00ea tem um parente de primeiro grau com esquizofrenia, como um irm\u00e3o, tem uma probabilidade de 10% de ser esquizofr\u00eanico, que \u00e9 100 vezes maior que o risco se tiver o gene CMYA5&#8221;. Esse tipo de resultado n\u00e3o \u00e9 epis\u00f3dico. Toda a \u00e1rea de conhecimento est\u00e1 atolada em uma s\u00e9ria preocupa\u00e7\u00e3o sobre a pouca capacidade de previs\u00e3o dos GWAS (muitas vezes\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nature.com\/nrg\/journal\/v11\/n6\/abs\/nrg2809.html\">analisada<\/a>\u00a0\u200b\u200bno contexto do problema da &#8220;herdabilidade ausente&#8221;).<\/span><\/p>\n<p><b><strong style=\"font-style: inherit;\"><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">O roteiro do determinista gen\u00e9tico<\/span><\/strong><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Apesar do sucesso limitado dos GWAS, h\u00e1 s\u00e9rias d\u00favidas de que os ventos que excitam a tese do determinismo gen\u00e9tico se enfraque\u00e7am no futuro pr\u00f3ximo. A principal raz\u00e3o est\u00e1 no volume de novos dados gen\u00e9ticos gerados constantemente. Esta avalanche de dados \u00e9 o sonho molhado do determinismo biol\u00f3gico. Se algu\u00e9m acha que estou exagerando, olhe para a seguinte cita\u00e7\u00e3o de um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pnas.org\/content\/early\/2012\/05\/02\/1120666109.abstract\">estudo<\/a>\u00a0recente sobre &#8220;a arquitetura gen\u00e9tica das prefer\u00eancias econ\u00f4micas e pol\u00edticas&#8221;, publicado na PNAS, uma revista cient\u00edfica de primeira linha. De forma nada surpreendente, os SNPs identificados &#8220;explicam apenas uma pequena parte da vari\u00e2ncia total\u201d. Mas, longe de desanimar, os autores concluem o resumo de seu trabalho com um coment\u00e1rio otimista:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">\u201cEstes resultados sugerem uma mensagem de cautela sobre a possibilidade, o modo e o tempo em que os dados da gen\u00e9tica molecular possam contribuir \u2013 e potencialmente transformar &#8211; a investiga\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias sociais. Propomos algumas respostas construtivas para os desafios inferenciais que o poder explicativo limitado dos SNPs individuais nos coloca\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">A arrog\u00e2ncia fala por si. A dificuldade inerente ao uso dos GWAS para explicar a estatura &#8211; uma caracter\u00edstica facilmente quantific\u00e1vel &#8211; deixa muito patente o absurdo de defender a necessidade de identificar as bases gen\u00e9ticas de caracter\u00edsticas mal-definidas, temporalmente vari\u00e1veis e dif\u00edceis de quantificar, como a intelig\u00eancia, a agressividade ou prefer\u00eancias pol\u00edticas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Apesar disso, o roteiro do determinista gen\u00e9tico na era gen\u00f4mica \u00e9 claro: obtenha quantidades maci\u00e7as de dados de sequ\u00eancias gen\u00e9ticas. Escolha uma caracter\u00edstica mal definida (como a prefer\u00eancia pol\u00edtica). Escolha um gene que seja estatisticamente sobrerrepresentado na subpopula\u00e7\u00e3o que &#8220;possui&#8221; a caracter\u00edstica. Declare vit\u00f3ria. Ignore o fato de que os genes n\u00e3o explicam realmente a varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica da caracter\u00edstica. Em vez disso, diga que se houvesse mais dados, as estat\u00edsticas acertariam o alvo. A partir disso, generalize estes resultados ao n\u00edvel da an\u00e1lise agregada das sociedades e mantenha que eles explicam as bases gen\u00e9ticas fundamentais do comportamento humano. Escreva um comunicado \u00e0 imprensa e espere a m\u00eddia publicar not\u00edcias chamativas. Repita o processo com outro conjunto de dados e com outra caracter\u00edstica.<\/span><\/p>\n<p><b><strong style=\"font-style: inherit;\"><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">A import\u00e2ncia de compreender as propriedades emergentes de sistemas complexos<\/span><\/strong><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">O determinismo biol\u00f3gico parece plaus\u00edvel precisamente porque oferece a ilus\u00e3o de que se baseia na observa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Nenhum cientista duvida do fato de que a maioria dos blocos de constru\u00e7\u00e3o b\u00e1sicos de um organismo s\u00e3o codificados em seu material gen\u00e9tico e que a evolu\u00e7\u00e3o moldou esses genes por alguma combina\u00e7\u00e3o de variabilidade e sele\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. Mas tentar atribuir o comportamento humano, seja comer\u00a0<a href=\"http:\/\/www.theonion.com\/articles\/scientists-discover-gene-responsible-for-eating-wh,691\/\">um saco inteiro de batatas fritas<\/a>\u00a0ou declarar guerra, a um conjunto de genes \u00e9 um exerc\u00edcio claramente quixotesco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Nigel Goldenfeld e Leo Kadanoff fazem uma sens\u00edvel exorta\u00e7\u00e3o em um belo\u00a0<a href=\"http:\/\/guava.physics.uiuc.edu\/~nigel\/articles\/complexity.html\">artigo<\/a>\u00a0que analisa os sistemas complexos: &#8220;Temos de usar o n\u00edvel de descri\u00e7\u00e3o mais adequado para capturar os fen\u00f4menos que s\u00e3o do nosso interesses. N\u00e3o faz sentido criar modelos de bulldozers com quarks &#8220;. Embora seja verdade que todas as propriedades de uma escavadora s\u00e3o o produto das part\u00edculas que o constituem, como os quarks e el\u00e9trons, \u00e9 in\u00fatil pensar sobre as propriedades de uma m\u00e1quina escavadora (forma, cor, fun\u00e7\u00e3o) em termos dessas part\u00edculas. A forma e a fun\u00e7\u00e3o de um bulldozer s\u00e3o propriedades emergentes do sistema como um todo. Da mesma forma que as propriedades de uma escavadora n\u00e3o podem ser reduzida \u00e0s dos quarks, n\u00e3o se podem reduzir os complexos comportamentos e caracter\u00edsticas de um organismo aos seus genes. Marx disse a mesma coisa quando disse que &#8220;a partir de um certo ponto, as diferen\u00e7as meramente quantitativas se tornam mudan\u00e7as qualitativas&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Se as bases filos\u00f3ficas e cient\u00edficas das teses deterministas gen\u00e9ticas s\u00e3o t\u00e3o problem\u00e1ticas, porque um tipo de pensamento t\u00e3o desalinhado recebe a recompensa de artigos de primeira p\u00e1gina na se\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia do\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">New York Times?<\/em><\/i><\/span><\/p>\n<p><b><strong style=\"font-style: inherit;\"><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">A instrumentaliza\u00e7\u00e3o neoliberal do determinismo biol\u00f3gico<\/span><\/strong><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Vivemos em uma era em que as grandes empresas conseguem lucros sem precedentes, uma pequena elite acumula grandes quantidades de riqueza e a desigualdade atinge pr\u00f3ximos aos dos n\u00edveis da\u00a0Gilded Age. As contradi\u00e7\u00f5es entre o capitalismo neoliberal e os impulsos democr\u00e1ticos tornam-se evidentes incessantemente. As exig\u00eancias de igualdade de oportunidades que s\u00e3o subjacentes \u00e0 maior parte do pensamento liberal tornam-se uma farsa. A incongru\u00eancia entre o que o capitalismo professa e a dura realidade do mesmo \u00e9 cada vez mais evidente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">O atrativo do determinismo biol\u00f3gico \u00e9 que ele oferece explica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas plaus\u00edveis para explicar as contradi\u00e7\u00f5es civilizacionais engendradas pelo capitalismo. Se a diabetes tipo II \u00e9 reduzida a um problema gen\u00e9tico (o que at\u00e9 certo ponto \u00e9 verdade), ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o temos que pensar sobre o aumento da obesidade e suas causas subjacentes, ou seja, o monop\u00f3lio empresarial privado da ind\u00fastria agroalimentar, a desigualdade de renda e as diferen\u00e7as de classe em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade dos alimentos consumidos. Combine isso com a preval\u00eancia da medicaliza\u00e7\u00e3o que a ind\u00fastria farmac\u00eautica est\u00e1 impulsionando no tratamento de todos os tipos de doen\u00e7as, e ningu\u00e9m deve se surpreender que, no final, fiquemos com a impress\u00e3o de que um fen\u00f4meno social complexo pode ser reduzido a um fato cient\u00edfico simples.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">Parafraseando o grande cr\u00edtico liter\u00e1rio Roberto Schwarz, o determinismo biol\u00f3gico \u00e9 uma ilus\u00e3o socialmente necess\u00e1ria fundada na mera apar\u00eancia. Como a arte e literatura, a ci\u00eancia &#8220;foi formada historicamente e (&#8230;) reflete o processo social a que deve sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.&#8221; Os cientistas herdam os preconceitos das sociedades em que vivem e trabalham. Em nenhum lugar isso \u00e9 mais evidente do que na encarna\u00e7\u00e3o moderna do determinismo biol\u00f3gico com seus pressupostos decididamente neoliberais sobre os humanos e as sociedades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">A hist\u00f3ria est\u00e1 cheia de exemplos assustadores de abuso de gen\u00e9tica (e da teoria da evolu\u00e7\u00e3o) para justificar a domina\u00e7\u00e3o e desigualdade: as justificativas evolutivas para a escravatura e o colonialismo, as explica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas sobre o estupro e o patriarcado e as explica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas sobre a superioridade inerente da elite dominante. Temos de trabalhar incansavelmente para garantir que a hist\u00f3ria n\u00e3o se repetir\u00e1 na era gen\u00f4mica.<\/span><\/p>\n<p>https:\/\/acervocriticobr.blogspot.com\/2018\/07\/o-ressurgimento-do-determinismo.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pankaj Mehta &#8211;\u00a0A hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de exemplos aterrorizantes sobre o abuso da teoria da evolu\u00e7\u00e3o para justificar a domina\u00e7\u00e3o e a desigualdade. Bem-vindos a uma nova era do determinismo biol\u00f3gico. Se voc\u00ea quer entender por que os humanos fazem guerra, h\u00e1 um gene para isso. Como podemos entender por que os homens estupram mulheres? 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